Arquivo da Categoria: Singer-Songwriter

Aimee Man – “I’m With Stupid”

pop rock >> quarta-feira >> 17.01.1996


Aimee Man
I’m With Stupid
GEFFEN, DISTRI. BMG



“Whatever”, o álbum anterior de Aimee, passou estupidamente despercebido. Um dos discos que tornou mais brilhante o meu Verão de há dois anos. “I’m With Stupid” chega em plena época das chuvas, mas o milagre repete-se. Aimee abre a boca e o sol aparece. A antiga ninfeta dos Til’ Tuesday, admiradora de Liz Phair e admirada por Elvis Costello, está de volta com um som mais agressivo que o de “Whatever” e com ela estão de volta melodias viciantes. Quantas doses de “Long shot”, “Amateur”, “Par for the course” ou “That’s what just you are” serão precisas, antes da cura de desintoxicação? O tema do estúpido deve saborear-se com a memória gustativa nos Devine & Statton. Ou nos genuínos mestres do “cocktail”, Slapp Happy. Glenn Tilbrook e Chris Difford, dos Squeeze, produzem. Julianna Hatfield e Bernard Butler, ex-Suede, colaboram.
Da capa interior de infantário à voz de brinquedo, de entoações a fazer lembrar, por vezes Chrissie Hynde, e às canções com espessura de “chantilly”, tudo aponta no mesmo sentido: gozo. Chamem-lhe fútil ou superficial. Mas agradeçam-lhe. São discos como este, estupidamente saudáveis, que tornam a vida menos cinzenta e nos fazem acreditar que a pop é um remédio santo. Vai um rebuçado? (7)

Nico – “Um Xarope Que Enlouquece” (artigo de opinião)

cultura >> quinta-feira, 23.11.1995


Um Xarope Que Enlouquece

A TRAGÉDIA e Nico foram sempre íntimas desde o início. A ex-modelo, ex-actriz e ex-cantora dos Velvet Underground tinha essa sina perturbante de atrair a fatalidade, a capacidade de enegrecer até o próprio sol. Chamavam-lhe “deusa da lua”. Nico era a “femme fatale”, num sentido perverso do termo, mulher de negro que ousou descer tão ou mais baixo que Lou Reed nessa decadência dourada que os Velvet Underground exploraram na contra-corrente do psicadelismo. Hoje como ontem torna-se difícil encontrar uma imagem convincente que bata certo com aqueles olhos enormes e espantados, borrados de “rimel” e por muitas noites de vigília. Mesmo a sua morte está rodeada de mistério e de incongruências. Ninguém morre durante um passeio de bicicleta. A sua vida, e a sua morte (neste caso as duas confundiam-se numa entidade singular), poderiam ser um conto de Edgar Allan Poe.
Não se pode dizer que Nico fosse uma grande actriz. Mas os filmes onde participa, nomeadamente os do seu amigo Philippe Garrel, não sobreviveriam sem o gelo da sua presença e do seu silêncio. Também não era uma grande cantora. Porém, os seus discos insinuam-se como um crepúsculo.
“Do or die”, uma colectânea com data de edição de 1993 que reúne actuações ao vivo da cantora efectuadas em várias cidades da Europa, foi agora reeditada e distribuída no nosso país pela Fábrica de Sons. Correspondente a uma fase da sua carreira em que foi objecto de recuperação por parte das gerações de músicos mais novos, que nela encontraram uma espécie de diva. “Do or die” inclui no alinhamento canções espectaris dos álbuns “The Marble Index” (1969), “Desertshore” (1971), “The End” (1974) e “Drama of Exile” (1981), bem como do mítico álbum da banana, dos Velvet Underground, deixando de fora o primeiro, “Chelsea Girl” (1968) e o último, “Camera Obscura”, com os The Faction (1985). A voz de além-túmulo e o seu inseparável órgão de pedais ganham neste disco a companhia instrumental dos Blue Orchids, uma das novas bandas que não se envergonhou de apoiar a cantora maldita.
Não é muito aconselhável a entrega emocional, por um período de tempo superior ao que o bom-senso e a cautela aconselham, a esta música que aos poucos corrompe a alma e mina a lucidez. Nico, as suas litanias góticas, têm o mesmo efeito que um veneno. Na contracapa de “Do or die” o produtor Giorgio Gomelsky narra um episódio, “on the road”, em que Nico conseguiu, com a simples distribuição de um “xarope para a tosse” a um grupo de músicos, transtornar e desbaratar por completo toda a comitiva, deixando-a num estado de estupor. Esses músicos tinham fama de duros, admiradores de Nietzsche e de Wagner. Assim se gorou a hipótese de uma digressão conjunta de Nico com os Magma…

Roger Eno, Virginia Astley, Kate St. John – “Roger Eno, Em Entrevista Ao PÚBLICO E Esta Noite Em Lisboa, Às 22h – ‘O Silêncio Total Aterroriza-me'”

cultura >> sábado, 18.11.1995


Roger Eno, Em Entrevista Ao PÚBLICO E Esta Noite Em Lisboa, Às 22h
“O Silêncio Total Aterroriza-me”


Roger Eno actua esta noite no São Luiz, em Lisboa, ao lado de Virginia Astley e Kate St. John, duas vozes de anjo que ligam bem com a veia melancólica do pianista, irmão de Brian Eno. O seu álbum mais recente baseia-se em textos de hereges da Idade Média. Satie inspira-o. A fronteira com o silêncio, o terrível silêncio, faz com que seja necessário aproximar a atenção e o ouvido. Sons ideais para colorir uma noite de Outono.



“Lost in Translation” é o título do mais recente trabalho discográfico de Roger Eno. Ao contrário do mano mais velho, Brian, Roger preocupa-se mais com o passado do que com o futuro. O que confere à sua música subtilezas que não cabem no corredor congestionado dos “tops”. É preciso sintonizar numa onda mais grave, para captar as suas subtilezas e as suas sombras. E abeirar-se do silêncio, essa fonte assustadora de onde brotam todos os sons.
PÚBLICO – Como é que descobriu “The Heretical Christian Thinkers” (os pensadores cristãos heréticos), de Waltius Van Vlaanderen? Não se trata propriamente de um “best seller”…
ROGER ENO – “Heretical Christian Thinkers, An Anthology”, é um livro compilado pelo reverendo doutor William Groves, um inglês da época vitoriana. Contém tratados de Waltius, d’Albenlo, Cuthbert de Tetley e John “The Unwashed”, um irlandês do século XII. A maioria dos trabalhos de Waltius foram queimados em 1340, daí não ser conhecido nenhum livro da sua autoria. Existem, contudo, peças isoladas espalhadas por algumas bibliotecas da Europa, nomeadamente na Flandres Heritage, em Gent, Bélgica. Há muito que me interesso por trabalhos (literários, pictóricos ou musicais) que transpirem uma certa atmosfera. Nos escritos de Waltius descobri um lampejo de uma época simultaneamente de fé e de confusão, a chamada “idade das trevas”, de onde nasceria a Renascença.
P. – Seguiu algum método particular na composição musical?
R. – Ao escrever a música para os textos de Waltius, procurei reter, pelo menos em parte, a “fragrância” da sua época. Usei referências ao cantochão e à ronda (canção em forma de cânone). Por outro lado, as formas melódicas foram, nalguns casos, determinadas por métricas pré-existentes e, obviamente, pela atmosfera global da sua escrita.
P. – O que quis dizer com o título do disco, “Lost in Translation” (à letra: “perdido na tradução”)?
R. – “Lost in Translation” pode significar, de facto, “detalhes ou significados alterados através do processo de tradução”, mas há uma relação mais curiosa: em especial na época medieval, quando um homem santo morria, os seus objectos pessoais, os seus ossos, as suas roupas, etc. eram levados do local da sua morte para uma abadia ou para uma catedral. Este processo era conhecido por “translating” (transladação), o que confere ao título do disco um significado bastante diferente.
P. – Como acontece em todos os seus discos, “Lost in Translation” é triste e melancólico. Existe alguma razão para esta melancolia?
R. – Interesso-me por música que tenha um ambiente [“mood”] forte. Muita da música que ouço é, ou pode ser considerada, sombria. Não encontro uma razão para isto. Em parte, talvez se deva à importância que dou à introspecção.

A Avenida Satie

P. – A influência de Erik Satie também pode estar relacionada…
R. – Erik Satie ensinou-me que é possível compor música maravilhosa com um mínimo de componentes e ser capaz de a tocar sem a necessidade de ser um virtuoso. A sua música exige um tipo diferente de aproximação. Decidi avançar por essa avenida.
P. – Ao contrário da música que o seu irmão (Brian Eno) faz actualmente, abstracta na forma, a sua é descritiva e romântica, quase feminina, o acompanhamento ideal para as vozes de Virginia Astley e Kate St. John. Sente-se à vontade no papel de acompanhante?
R. – Numa canção, a voz é o ponto fulcral. Além disso, interesso-me pelo que se passa num segundo plano, pelas atmosferas, pelas relações entre a melodia e a harmonia. Ou seja, pelos elementos evidentes de uma “performance” musical, as suas subtilezas ou a sua cor.
P. – Por que motivo não toca mais vezes com o seu irmão? Será que os vossos universos musicais são assim tão inconciliáveis?
R. – Brian interessa-se pelo presente e pelo futuro e eu pelo passado. Ocasionalmente estes dois mundos sobrepõem-se…
P. – A julgar pelos seus discos, fica-se com a impressão de que é um músico tradicionalista e, acima de tudo, um pianista, no sentido erudito do termo. Nem sequer usa sintetizadores…
R. – Sou talvez demasiado cauteloso no que se refere à “novidade” e ao temporário. Tenho a tendência para me apoiar nos elementos tradicionais, como suportes para a minha própria criação e não para a investigação de novas áreas. Talvez seja um defeito. A verdade é que me preocupo com a música, considerada como uma arte em si e não como uma parte da Arte, tomada num sentido mais vasto. Acho sobretudo importantes a evocação dos aspectos emocionais e as possibilidades, harmónicas e pictóricas, inerentes às doze notas da escala.
P. – Abstractizando: o silêncio ouve-se?
R. – Sou capaz de ouvir o silêncio, no contexto mais lato do ruído. Pode ser um silêncio expectante, ameaçador ou entediante. Não costuma existir numa festa… Escrevo música que incorpora o silêncio quase total ou mesmo o silêncio verdadeiro, como ingredientes que podem ser coloridos por sonoridades que lhes estão adjacentes. Mas o silêncio total, absoluto, aterroriza-me. Talvez seja a razão por que faço música.

Nota: A discografia oficial de Roger Eno é constituída pelos álbuns “Voices”, “Between Tides”, “The Familiar” (com Kate St. John), “In a Room” (com o grupo de música de câmara italiano Harmonia Ensemble), “Classicall Music for Those with Memory” (min-álbum, também com os Harmonia Ensemble) e “Lost in Translation”.