Arquivo da Categoria: Críticas 1996

The Beatles – “Anthology, vol. 1”

pop rock >> quarta-feira >> 06.12.1995
reedições


The Beatles
Anthology, vol. 1
2XCD APPLE, DISTRI. EMI-VC



O que dirão os miúdos de doze, treze anos, que apenas ouviram os pais falar com devoção do grupo, não conhecem os discos antigos mas lá condescenderam, instigados pelo “bruá” mediático, em deitar um ouvido a esta antologia? O mais certo é exclamarem: “Ganda banhada!” E t~em razão. “Anthology, vol. 1” banaliza a imagem que deveria ter permanecido intocável dos “fabulous four”. Teria sido talvez aconselhável fazer uma edição limitada para colecionadores, a um preço exorbitante, como quem diz: “Objecto raro, só para fanáticos.” Mas não, quis-se facturar, ainda por cima à custa de um morto, John Lennon, que assim voltou a cantar com os seus antigos companheiros, no célebre tema inédito, “Free as a bird”, único motivo relevante num apanhado monstruoso do que, basicamente, não passa de lixo, por mais reciclado que seja. Mas “Free as a bird” é fraco. Pior, é banal. Lá se ouve Lennon a cantar com os outros três, ao empurrão sobre uma harmonia imediatamente identificável como “beatliana”, e uma banda tão, tão primária, de Ringo que até faz corar de vergonha. E pronto, as restantes 59 faixas ouvem-se com esforço e o respeito devido à memória do grupo, entre discursos de várias das personalidades em questão e faixas “raras” recolhidas de diversos contentores. São “takes” alternativos, gravações da sessão com Tony Sheridan, pedaços inacabados de canções célebres e algumas desafinações que têm o condão de transformar os deuses em músicos de carne e osso, sujeitos às armadilhas do ouvido. Enfim, não é que nada disto seja capaz de travar a romaria às discotecas, das turbas enfurecidas que se excitam à simples menção do nome mágico, ainda para mais espicaçadas por uma operação de “marketing” que soube mexer bem os cordelinhos. Os admiradores, que guardam com fervor religioso discos como “Rubber Soul”, “Revolver”, “Sgt. Peppers…” e o “álbum branco”, encolhem os ombros e passam ao lado. Os putos gozam à brava e fazem pouco dos pais. Os tais colecionadores ferrenhos espumam de raiva e acotovelam os broncos que os estirvam na fila de espera. Os Beatles vivos estão-se nas tintas e embolsam mais algum. John Lennon só pede que dêem descanso à sua alma. (4)

UHF – “69 Stereo”

Pop Rock

11 de Dezembro de 1996
portugueses

UHF
69 Stereo
ED. BMG


uhf

Deixou de fazer sentido falar dos UHF como sobreviventes do rock português. Não será fácil encontrar razões que expliquem a longevidade do grupo de Almada. Mais do que o “alter ego” de António Manuel Ribeiro, os UHF cerram fileiras em torno, já não de uma causa, mas de um estado de espírito. “69 Stereo” é um álbum de afirmação e de crença. “O Povo do Mundo”, tema de abertura, enceta uma das melhores coleções de canções de sempre dos UHF. Está ao nível dos clássicos com a gaita de foles de Paulo Marinho a reforçar o tom de otimismo e universalismo do tema – um “hit”. A seguir, “Amor perdi”, uma balada em duo com Né Ladeiras, dá a conhecer uma surpreendente depuração e contenção vocal de António Manuel Ribeiro, apostando no registo do tipo Peter Gabriel mais Kate Bush, em “Don´t give up”. O papel de “rocker” do mundo é desempenhado por AMR com razoável convicção, em inglês, numa versão de “The passenger”, de Iggy Pop. Excelente, o trabalho de baixo de Fernando Delaere e da guitarra acústica de Rui Padinha, em “Sangue”. “O Primeiro Concerto” é UHF na sua posição mais clássica, de “Rua do Carmo” e “Cavalos de Corrida”, numa das habituais incursões retrospetivas nos anos dourados da juventude pós-25 de Abril. O tom autobiográfico, com passagem das folhas de um diário, prossegue em “Velhos amigos”. Surpreendente é, passados todos estes anos, AMR continuar com a mesma sinceridade e proximidade em relação à vida dos outros, com os seus pequenos e grandes dramas. Quem se recorda de “Jorge Morreu” sentirá com mais força as palavras de AMR quando canta “Velhos amigos onde estais, oiço os gritos que soltais”. “Foge Comigo Maria” é Lou Reed “light” e “Na Luiz da Noite” um bom desempenho das guitarras elétricas em mais um tema “average” UHF é um desabafo de AMR num dos seus santuários preferidos: o quarto, na solidão da noite. Esqueça-se a declamação de “Pálidos olhos azuis”, repescado do álbum a solo do vocalista saído há tempos, e passe-se diretamente para a lenta lamentação de “Dão-me prendas”, antes da guitarra elétrica voltar a lançar labaredas em “Ela (como ninguém)” e no tema final, “Pede ao pai”. Rock’n’roll de barba rija a fazer cara de mau e a piscar o olho aos anos 70, desta estereofonia na posição 69, uma das produções com assinatura de AMR mais sofisticadas de sempre dos UHF. Um regresso à boa forma de um grupo que não desiste de encarar o rock como um modo de vida. (8)



Rão Kyao – “Viva o Fado”

Pop Rock

11 de Dezembro de 1996
portugueses

Rão Kyao
Viva o Fado
ED. POLYGRAM


rk

Consumada a iniciação da flauta de bambu no fado, em “Fado Bailado”, Rão Kyao mergulha agora mais fundo as suas raízes musicais da infância, neste género de música. A escolha de fados tradicionais, de estrutura o mais aberta possível, permite ao flautista a improvisação e a depuração da essência do fado. Rão toca flauta como se cantasse interiormente e é essa interiorização do fluir interior da alma fadista que torna cada tema numa outra forma de ouvir o fado. Gravado ao vivo, em dois dias de espetáculo realizados no Amália-Clube de Fado, com acompanhamento de Carlos Gonçalves e José Luis Nobre Costa, à guitarra portuguesa, e Francisco Gonçalves, à viola, “Viva o Fado” é também a justaposição do fado com as músicas indiana e árabe, em modalidades e temas clássicas como o “Fado menor”, o “Fado Mouraria” e o “Fado Vitória”, “Lágrima”, “Biografia do Fado” e “Fado dos Sonhos”. Fadistas como Manuel de Almeida, a quem o disco é dedicado, Amália, Marceneiro, Carlos Ramos ou António dos Santos, e autores como Alberto Janes, Joaquim Campos, Alberto Costa e Frederico de Brito têm aqui a melhor homenagem que lhes poderia ser feita – erguer o fado a uma voz universal. (7)