Arquivo da Categoria: Críticas 1996

Mathilde Santing – “Choosy Live!”

pop rock >> quarta-feira >> 21.02.1996


Mathilde Santing
Choosy Live!
EPIC, DISTRI. SONY MUSIC



A holandesa está mais gorda e com corte de cabelo à rapaz. Mas que isso não constitua obstáculo para apreciar uma das mais elegantes cantoras da actualidade. Tapem-se as fotografias da capa, para não desviar a atenção, e fique-se (quase) a sós com a voz, cada vez mais quente e solta, da menina que se lançou amparada em muletas de pop electrónica, no mini-álbum de estreia, “Behind a Painted Smile”, assinou a sua obra-prima de canções sobrenaturais em “Water under the Bridge” e, a partir daí, se dedicou a cantar as canções de outros autores, assumindo por inteiro a condição de intérprete. Esta gravação ao vivo, efectuada num teatro ao ar livre de Valkenburg, dá-lhe inteira razão. Afastada de vez uma certa rigidez formal perceptível em trabalhos anteriores, manifesta-se em seu lugar o balanço orgânico e os ditados da emoção do momento. É uma Mathilde , “waltzing Mathilde”, por fim livre que faz flutuar, dançar e arder a escrita de alguns dos seus compositores preferidos, como Tim Finn, Joni Mitchell, Todd Rundgren e Randy Newman. Uma voz que transfigura. (7)

Ivan Kral – “Nostalgia”

pop rock >> quarta-feira >> 21.02.1996


Ivan Kral
Nostalgia
BMG ARIOLA, DISTRI. BM



Na carteira de referências deste checo de nascimento constam nomes como Blondie, Patti Smith, Iggy Pop ou John Cale, com os quais Kral colaborou de forma mais ou menos activa. Todos são unânimes, além de bom guitarrista e baixista, Kral sabe como compor uma boa canção. Que o digam David Bowie, que o requisitou para escrever a meias o tema “Bang bang”, de “Never Let Me Down”, ou os U2, The Mission e Concrete Blonde, que repescaram o seu “Dancing barefoot”. Mas é sobretudo Patti Smith que lhe pode agradecer ter composto a maior parte do material dos quatro primeiros álbuns do seu grupo. “Nostalgia” faz jus ao título, com um rock que desliza em descontracção, embalado no baloiço dos Dire Straits ou de um J. J. Cale. Ideal apara se ouvir no auto-rádio, numa boa auto-estrada, “Nostalgia conta, entre os convidados, com a presença de dois antigos companheiros, Patti Smith e John Cale, que compõem e intervêm no tema de abertura, “Perfect Moon”. Escorre bem. (6)

Maddy Prior And The Carnival Band – “Hang Up Sorrow & Care”

pop rock >> quarta-feira >> 14.02.1996
world


Para Curar De Vez A Melancolia

MADDY PRIOR AND THE CARNIVAL BAND
Hang Up Sorrow & Care (10)
Park, distri. Megamúsica



é Carnaval. Tempo de folia. Dois dias de festa, vinho e serpentinas. A Carnival Band declara aberta a quadra, escancara o bar, lança as serpentinas e disponibiliza as máscaras – um carnaval tradicional, onde a sumptuosidade das vestes se alia ao mistério do jogo das aparências. Num tom bastante menos ortodoxo que o da religiosidade natalícia de “A Tapestry of Carols” ou “Carols & Capers”, o grupo “privativo” de Maddy Prior mascara, neste seu novo trabalho, a música do Renascimento com uma jovialidade e um artificionalismo, nunca contranatura, que aumentam ainda mais o fascínio de um imaginário onde o requinte do gesto se confundia com o teatro dos sentimentos. Como nos Incredible String Band (um tema como “The Jovial begger (yes spelt er)”, pisca o olho à antiga banda de Robin Williamson e Mike Heron, ou mais recentemente, nos Cock & Bull, esse imaginário é transvestido num hibrido “folk” que, se recupera algumas das sonoridades características da época (gaita de foles, guitarra barroca, “curtals”, bombarda) prefere destilar a sua essência lúdica a imitar-lhe, letra a letra, as formas. Em “Playford tunes”, a Renascença não renega o diálogo “in high spirits” da gaita de foles com uma guitarra eléctrica saturada do doce néctar das uvas. Nem o canto delicado de Maddy choca com a sonolência de um órgão Hammond num bar a horas mortas.
“Hang Up Sorrow & Care” – subintitulado “A Cure for all Melancholy”, baseado na história de “old Simon the king”, discípulo de Baco – segue então aquela filosofia etílica sem outra transcendência a não ser a da euforia, do cérebro e dos sentidos. Depois, a cantora dos Steeleye Span está a cantar melhor do que nunca. Ouçam-na, mas ouçam-na mesmo, na polifonia que mantém consigo mesma sobre o tal órgão Hammond em “The leathem bottel”, antes da entrada triunfal da fanfarra dos foles e das bombardas. E que tal espantarem-se com um tango do séc. XVII dançado na corte com Paolo Conte, em “Oh! That I had but a fine man”? Não nos era concedida jóia deste quilate desde a gravação de duas das mais brilhantes pérolas dos Steeleye Span, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues”, ou do ciclo a solo, sobre as estações, de Maddy Prior, “Year”.
“Now o now I needs must part”, com uma vocalização tão clara como uma manhã de Primavera, possui um ligeiro travo americano. Outra polifonia, neste caso mista, “A northern catch/Little barley come”, permite em definitivo situar “Hang up Sorrow & Care” na linha directa de descendência dos Steeleye Span dos anos 70. Mas num registo pessoalíssimo, onde a música da Renascença e a “folk” inglesa são irmãs e simultaneamente a graça mais antiga e moderna deste (outro) mundo. John Dowdand, Henry Purcell, o “Orpheus Caledonius”, a “Beggar’s Opera” de John Gay, o compêndio “The Dancing Master” (dá licença, senhor Ashley Hutchings?…) ou a lista de licores de “Wit and Mirth, na Antidote against Melancholy” são as raízes, o pretexto e a parra de um banquete bem regado na companhia dos deuses. O primeiro grande disco de 1996.