Arquivo da Categoria: Singer-Songwriter

Virginia Astley e Kate St. John – “Bebé-Comfort”

pop rock >> quarta-feira, 15.11.1995


“BEBÉ-COMFORT”




Virginia Astley e Kate St. John estão bem uma para a outra. Têm as duas nomes renascentistas, vozes de passarinho e, na pior das hipóteses, a faculdade de fazerem adormecer até a cafeína. Não sejamos maus. Sejamos tolerantes. Virginia Astley é a mais consistente das duas. Gravou mesmo um álbum que fez alguma história, “From Gardens where we Feel Secure”, um dia no campo em forma de música, ao som de sinos de igreja, riachos, pios de passarada e balidos de ovelha. Música “new age” numa altura em que ainda não se tinham extinguido os últimos ecos da “new wave”, era uma paisagem sonora onde apetecia estar.
Antes já deixara a pairar no limbo uma colecção de canções sem peso, empacotadas com o título “Promise Nothing”. O terceiro álbum, “Hope in a Darkened Heart”, é mais cheio de carnes, por obra e graça do produtor, um senhor chamado Ryuichi Sakamoto. Mesmo assim, ainda estava mais próximo do ruído de um moinho de vento do que dos Einstürzende Neubauten. O quarto, e até à data mais recente, chama-se “All Shall be Well” e soa um pouco a música de Natal, tão picante como Julie Andrews em roupão. Mas há quem não resista aos encantos da sua voz e se deixe cair no frasco e mel.
Kate St. John tmabém não é o que se possa chamar uma “punk”. Dá mais para o sonhador. Ou não fosse ela a antiga vocalista dos Dream Academy, um grupo pop peso-mosca. Ou mosquinha-morta, para sermos mais exactos. A colaboração com Roger Eno, em “The Familiar”, fez ouvir a sua voz com um pouco mais de força, embora já tivesse cantado em discos de Van Morrison e Julian Cope.
“Indescribable Night”, o seu primeiro álbum a solo, com a colaboração de Roger e Virginia, pode mesmo considerar-se um disco atraente. Se há trinta anos Joan Baez e Judy Collins atravessavam os sonhos de muita gente sem que as enxotassem, por que não voltar a chupar o seio da tranquilidade destas duas senhoras e aninharmo-nos de olhos fechados na posição fetal? Estamos ou não no período pré-natal?

Loudon Wainwright III – “Grown Man”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995


Loudon Wainwright III
Grown Man
VIRGIN, DISTRI. EMI-VC



Quem o conhece em Portugal? Poucos, muito poucos, decerto. Pois Loudon Wainwright “the third” é um “singer songwriter” cuja carreira discográfica remonta aos anos 60 e à cena musical de São Francisco. Nessa época houve quem lhe chamasse o “novo Bob Dylan”. Por cá apareceu há alguns anos um álbum de 1985, “More Love Songs”, com produção de Richard Thompson.
“Grown Man” é uma obra madura, contida e carregada com a pólvora de palavras que mantêm viva a tradição dos cantores e cantoras de intervenção norte-americanos dos “sixties”, como Joan Baez, Buffy St. Marie, Arlo Guthrie, Country Joe McDonald, Jim Croce, Tom Paxton ou o próprio Bob Dylan, sob a égide de Woody Guthrie (citado no disco, em “Just a John”), Pete Seeger e Ewan MacColl, sem esquecer a fraternidade britânica personificada por um homem como Christy Moore. Todos eles uniram num elo de ferro a música tradicional com a mensagem ideológica, mais ou menos comprometida em termos partidários. Chão forte de suporte para o que é preciso dizer.
Loudon Wainwright conta – ou será melhor dizer, dispara? – histórias que mergulham as raízes no blues e na country, nas work songs e nas baladas folk, sem dispensar uma nota de humor, por vezes feroz, como no tema introdutório, “The birthday presente”, ou em “IWIWAL” (“I Wish I Was A Lesbian”), passando por “Dreaming” (acompanhado por uma ilustração sensacional e o mais simples possível no folheto do disco) e “1994”, onde aborda a temática da manipulação genética e a criação do super-homem “smart, straight, thin & sane”. Música sem idade, armada contra a tecnologia, as ilusões e as promessas de um futuro que nos querem fazer passar por dourado. Um prego de realidade, crua e dura, cravado no cérebro virtual. (8)

Jane Siberry – “Maria”

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995


Jane Siberry
Maria
REPRISE, DISTRI. WARNER MUSIC



Uma faixa na banda Sonora de “Until the End of the World”, outra em “The Crow”, de Alex Proyan, outra ainda em “Far away, so close”, também de Wenders, participações em “Chansons ders Mers Froides”, de Hector Zazou, e “Arcane”, obra colectiva dirigida por Simon Jeffes, dos Penguin Café Orchestra, com o selo Real World de Peter Gabriel – que convidou Jane Siberry para os espectáculos da “Real World Recording Week” realizados no ano passado em Bath, Inglaterra. Nada mau para uma cantora com a tendência para ser discreta e gravar álbuns fora de moda como “No Borders here”, “The Speckless Sky”, “The Walking”, “Bound by Beauty” e “When Was a Boy”.
“Maria” (porque será que nos lembramos logo de Julie Andrews a cantar pelas montanhas, perseguida pela putalhada, em “Música no Coração”?…), diz Jane, aborda tópicos como “crianças”, “pessoas perdidas e encontradas”, “carneiros” (em “mary had a little lamb”, claro, famosa canção de embalar as criancinhas que percebem inglês), “sacrifícios” e, em especial, “sexo”. Descontando o item “carneiros” e sem querer valorizar em demasia o último, é uma base interessante de trabalho. Um trabalho que Siberry dividiu em duas partes.
A primeira é constituída por nove canções pausadamente jazzy, nada que alguém como Mathilde Santing não tenha já ensaiado antes. Segue-se uma faixa de intervalo com dois minutos de silêncio e depois, na segunda parte, tempos de seca e uma enorme surpresa: vinte minutos de aborrecimento (leia-se experimentalismo formal) sobre “sitars” psicadélicas e trompetes encerados, com o título “Oh my my”, onde ela se entretém a contar a sua vida e a chamar de cinco em cinco minutos pela mãe. Há formas curiosas de se falar com o umbigo. (5)