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The Rolling Stones – “Reeditada Discografia Americana Dos Stones Dos Anos 60 – Arco-Íris Desbotado”

cultura >> segunda-feira, 24.07.1995


Reeditada Discografia Americana Dos Stones Dos Anos 60
Arco-Íris Desbotado


HOJE à noite, os Stones regressam ao Estádio de Alvalade para mais um grandioso espectáculo geriátrico, perdão, mediático. A acompanhar esta nova prova de vitalidade dos avozinhos do rock, acabam de ser reeditados, pela Polygram, as versões “digitally remastered from original master recordings” de toda a discografia dos anos 60 do grupo. Bom, a chatice é que não se trata exactamente dos discos originais – edições inglesas com o selo Decca -, mas de reproduções das edições americanas que até 1967 se publicaram em paralelo do outro lado do Atlântico. E daí, não é a mesma coisa? Não é bem. Os álbuns americanos não respeitavam os alinhamentos originais e tinham o mau costume, muito americano, de acrescentarem aos discos, como quem não quer a coisa, alguns “hits” do grupo, sacrificando outros temas que foram e simplesmente deitados para o lixo.
Significa isto que os discos agora relançados com o chamariz de um som mais consentâneo com os pergaminhos daquela que foi considerada “a maior banda de rock ‘n’ roll do planeta”, constituem o que se pode chamar publicidade enganosa. Em local algum dos mesmos vem mencionado que se trata das edições americanas. Estão incluídos neste caso o disco de estreia dos Stones, de 1964, no original inglês sem qualquer título, conhecido simplesmente por “The Rolling Stones”, que na versão americana da London passou a chamar-se “England’s Newest Hitmakers” – The Roling Stones”, 2Out of Our Heads”, de 1965, “Aftermath”, de 1966, e “Between the Buttons”, de Janeiro de 1967. A partir de “Their Satanic Majesties Request”, também de 1967, as versões inglesa e americana passaram a ter alinhamentos coincidentes.
Temos então o disco de 1964 que aparece aumentado com “Not Fade Away”, enquanto “Out of our Heads”, de 1965, se viu “enriquecido” com “The last time” e o megahit “8I can’t get no) satisfaction”. “Aftermath” ganhou uma nova abertura, “Paint it black”, que não existe no original inglês, tendo desaparecido “Mother’s little helper”, “Out of time” e “Take it or leave it”. Quanto a “Between the Buttons”, arranjou-se “Let’s spend the night together” para abrir e deitou-se fora “Back street girl” e “Please go home”. Os alinhamentos diferem igualmente dos ingleses. Se não se compreende muto bem esta opção pelas edições “adulteradas” menos se compreende ainda que tenha sido deixado de fora o segundo álbum do grupo, de 1965, igualmente sem título na versão original inglesa e conhecido por “The Rolling Stones no. 2”.
Em resumo, o lote de reedições inclui, além da já citada reconversão do primeiro disco, “Out of our Heads” e “Between the Buttons”, ainda “Their Satanic Majesties Request”, “Beggar’s Banquet” (1968) e “Let it Bleed”, o último dos Stones dos anos 60, lançado em Novembro de 1969, tudo gravações de estúdio. Depois há as colectâneas destinadas mais a quem não gosta propriamente dos Rolling Stones mas sim das canções que andaram nos ouvidos ou nos “tops”: “12×5” (64, espécie de contrapartida do segundo álbum inglês de originais), “The Rolling Stones now!” (65), “December’s Children (and everybody’s)” (65), “Big Hits (High tide and Green Grass)” (66), “Flowers” (67, nunca editado em Inglaterra) e “Through the Past Darkly (Big hits, Vol.2)”.
Ainda mais recicladas são as colectâneas de colectâneas, caso dos compactos duplos “Hot Rocks 1964-1971” e “More Hot Rocks (Big Hits & Fazed Cookies2)” que misturam os temas das colectâneas “Big Hits” e “Through the Past Darkly”. Confusos? Considerem que é preciso rentabilizar o produto, baralhar de novo, impingir o mito às gotas, custe o que custar! Já nos estávamos a esquecer: também voltou a sair o disco ao vivo “Got Live if you Want” que não é mais do que o correspondente americano de “Have you Seen your Mother Live1”, de 1966. Por fim aí está o ajuntamento de “singles”, “The Singles Collection, The London Years”. Fica um sabor a frustração e a oportunidade perdida.
Os Stones não têm culpa. A música, façam o que lhe fizerem, há-de perdurar em desafio. A erguer a espada dos “rhythm ‘n’ blues” negros na voz de brancos contra a imagem “clean” projectada na mesma época pelos Beatles. A obrigar a pensar no “rock ‘n’ rol” como um acto de revolta e transgressão. Dizem que o Jagger assinou um contrato com o diabo. É bem possível que tal tenha acontecido. O que este lhe deu em troca estamos nós agora a levar com isso em cima. Cada pulo e correria pelo palco do vocalista da banda de cinquentenários é uma facada no coração, um dó de alma, uma traição à música e ao próprio passado do grupo.
Consta que os Stones estão a vender saúde e que no seu novo espectáculo ainda são capazes de não deixar cair as guitarras no chão. Folgamos em sabê-lo. Até os respeitamos. Mas se quiser mesmo saber o que o diabo lhes ofereceu na altura, realmente valioso, talvez seja preferível escutar esse manifesto do psicadelismo voltado do avesso que é “Their Satanical Majesties Request”, resposta maldita a “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (Porque será que existem tantas respostas a este disco?…) dos “fabulous four” de Liverpool, o compêndio de Pop malsã chamado “Between the Buttons” ou a obra-prima “Beggar’s Banquet”, onde os “blues” voltam com um brilho estranho, como se ainda não tivessem secado da inundação de LSD. Mas quem é que acredita que o demo se escondia entre os “hippies”, tinha rosto de mulher e as cores do arco-íris’”?

Peter Belgvad, John Greaves – “Unearthed” + Sahan Arzruni – “Visionary Landscapes” + David Darling – “Eight String Religion” + Pascal Gaigne – “El Sol del Membrillo y Ozkak” + Secret Garden – “Songs From A Secret Garden” + Ensemble Harmonia – “Harmonia Meets Zappa” + Social Interiors – “The World Behind You” + Roberto Neulichedl – “3-Estação”

pop rock >> quarta-feira >> 05.07.1995
curtas


PETER BLEGVAD, JOHN GREAVES
Unearthed
Sub Rosa, distri. ????



Textos de Peter Blegvad, excêntricos à boa maneira britanica, declamados pelo próprio, com a ajuda do seu antigo companheiro nos Slapp Happy e Henry Cow, John Greaves. Quem estiver a pensar na anterior colaboração da dupla, o magnéfico 2Kew. Rhone”, pode tirar os cavalinhos da chuva. É tudo falado, sobre um fundo sonoro que acompanha a estranhez das apalvras. Pelo meio, uma canção, “The only song”, pois claro, a meio caminho entre os Beatles e os Faust. (6)

SAHAN ARZRUNI
Visionary Landscapes
Hearts of Space, distri. Strauss



Sahan Arzuni, pianista armeno, interpreta em solo absoluto a música de Alan Hovhaness, um compositor norte-americano de 84 anos, de inspiração mística, que parte das culturas não ocidentais para a descoberta da ligação entre o mundo físico e o “cosmos metafísico”. Música introspectiva, de carácter iniciático, que convida à meditação e À viagem, numa linha programática idêntica à transposição dos hinos de Gurdjieff, por Keith Jarrett. (7)

DAVID DARLING
Eight String Religion
Hearts of Space, distri. Strauss



Grava com regularidade para a ECM mas, para o violoncelista David Darling, isso não chega. Longe do jaz e da complexidade estilística das suas obras nesta editora, em “Eight String Religion” o momento é de contemplação e de calma, em solilóquios de extrema simplicidade do violoncelo sobre gravações de ruídos ambientais naturalistas como pássaros, água, insectos, vento, etc. Repousante. (6)

PASCAL GAIGNE
El Sol del Membrillo y Ozkak
NO-CD, import. Ananana



A primeira parte reúne temas compostos para um filme de Victor Erice, premiado em Cannes. A segunda é música de uma peça de bailado pela Companhia Ekarie. Sons de piano impressionista, um “bandoneon” vagabundo, sopros violeta e um violoncelo a chorar no sonho de um pintor. Melodias romântico-minimais que vão caindo como folhas de Outono. Um disco melancólico, fora de estação. (6)

SECRET GARDEN
Songs From A Secret Garden
Mercury, distri. Polygram



Depois da vitória inesperada no recente Festival da Eurovisão, os seminoruegueses semi-irlandes Secret Garden tentam aqui dar a imagem de grupo sério, escolhendo para tal um figurino “new age” vagamente céltica, vagamente nórdica, que se procura arrumar na mesma estante de Enya e quejandos. Mas é piroso na mesma. Quanto a Davy Spillane, convidado especial no “tin whistle” e nas “uillean pipes”, perdeu o último pingo de vergonha, baixando irremediavelmente à categoria de “pato bravo”. (2)

ENSEMBLE HARMONIA
Harmonia Meets Zappa
Materiali Sonori, distri. Megamúsica



O génio da transgressão nas mãos civilizadas de um grupo italiano de moderna música de câmara que, nos últimos tempos, tem colaborado com Roger Eno. Não se pode dizer que o essencial de Zappa esteja na pauta, mas é, apesar de tudo, um projecto interessante, que alterna composições de Zappa com originais do grupo. Um trabalho de jardinagem competente, que corta pela raiz o lado mais daninho do compositor. (6)

SOCIAL INTERIORS
The World Behind You
Extreme, import. Ananana



“Uma paisagem sombria para navegação aural”, lê-se na capa do disco. É mais escuro do que isso, no confronto terrífico com sons do quotidiano e da Natureza que, de súbito, se animam como monstros saídos do inconsciente. Os Social Interiors são uma câmara de reverberação idêntica à dos Biota, que obriga a perceber o mundo e a música com novos órgãos dos sentidos. Cuidado, o cântico dos insectos e da chuva numa noite de trovoada esconde o ruído de passos de alguém que caminha atrás de nós. (7)

ROBERTO NEULICHEDL
3-Estação
XXX, import. Áudeo



Música composta para o espectáculo do mesmo nome levado à cena pelo Teatro de Marionetas do Porto e pelo Ballet Teatro Companhia. Silêncios, um piano desolado, as vozes dos actores sequenciadas por meios electrónicos. Faltou coragem para transformar esta viagem pela memória de uma mulher que recorda os seus amores num objecto musical autónomo e inovador. (5)

David Byrne – “A Câmara Sacralizadora” (integral no Cinema Monumental)

pop rock >> quarta-feira >> 14.06.1995


A Câmara Sacralizadora



David Byrne
Noite David Byrne – Exibição de “True Stories”, “Stop Making Sense”, “Between The Teeth”, “Ile Aye” e uma selecção de dez telediscos dos Talking Heads. Com a presença do autor.
Sexta, 16, 22h
Between The Teeth, vídeo de um concerto com uma orquestra de mambo de nove elementos – sábado, 17, 15h
Stop Making Sense – domingo, 18, 15h
True Stories – segunda, 19, 15h
Ile Aye e telediscos – terça, 20, 15h
Todos os espectáculos no cinema Monumental
Exposição de fotografias, “Sacred Objects”. Inauguração no sábado, 17, 22h, em local a anunciar.
Com a presença do autor.

A presença de David Byrne em Portugal, integrada na programação dos Mistérios de Lisboa, depois de duas anteriores visitas em que actuou ao vivo, reveste-se de um interesse especial, uma vez que desta feita será posta em destaque a sua faceta de realizador e fotógrafo, enquanto por outro lado, voltará a ser equacionada a sua relação com as músicas latinas.
Se “Stop Making Sense”, uma das longas-metragens a apresentar no Monumental, com imagens de um concerto dos Talking Heads, tem a assinatura de Jonathan Demme, já “True Stories”, que representa a estreia de Byrne como cineasta, revela uma visão singular da sociedade norte-americana actual, através de uma série de retratos em que as várias figuras se movem sob a luz de um surrealismo bem-humorado, ao longo de uma “Road to Nowhere”, imagem-ícone nos limites do filme e da humanidade.
“Ile Aye” é uma média-metragem realizada por Byrne sobre a música brasileira, que o autor tem vindo a registar na sua editora Lwaka Bop. Para os menos disponíveis para ensaios de maior profundidade, serão exibidos telediscos dos Talking Heads”, com os temas “Once in a lifetime”, “Wild wild life”, “Stay at late”, “Crossed-eyed and painless”, “Burnin’ down the house”, “The she was”, “This must be the place”, “The lady don’t mind”, “Road to nowhere” e “Love for sale”.
Numa espécie de complement à primeira actuação de David Byrne no nosso país, no Coliseu, em plena fase latina de “Rei Momo”, o vídeo programado para o dia 20 terá a participação de uma orquestra de mambo – presente, aliás, no teledisco “Make believe mambo” -, constituída por Boby Allende, Jonathan Best, Angel Fernandez, Ite Jerez, Lewis Khan, George Porter Jr., Hector Rosado, Steve Facks e Oscar Sallas.
Finalmente, poderá ser vista a colecção de fotografias de genérico “Sacred Objects, Sleepless Nights”, na qual David Byrne recolheu imagens de objectos variados, sacralizados, segundo as suas palavras pela objectiva da cãmara fotográfica: “Como actividade”, diz Byrne, “esta sacralização é algo que aprecio. É uma relação de amor. Uma relação com objectos inanimados. O amor mais elevado é o amor mais estúpido. O sublime está no ridículo. Quando alguma coisa nos faz sentir estranhos, faz-nos igualmente muitas vezes sentir bem. Estas duas sensações estão de algum modo ligadas. Estranho igual a bom. É uma sensação física que se sente no estômago e estabelece contacto com os centros de prazer no cérebro.”
Em termos mais concretos: A câmara ajuda isto a acontecer e torna-se também um prazer. Um instrumento para erguer as coisas até níveis mais elevados. O acto de enquadramento é essencial para isolar os objectos ou os lugares. A câmara torna-se uma máquina que investe de poder as coisas e os lugares. Uma ferramenta de elevação. Um artefacto para remover as coisas do seu contexto mundano, de maneira a transformá-las em algo de diferente do que eram anteriormente, mais especial, mais valioso, mais poderoso. As coisas passam a valer por algo que as transcende.”
Uma boa definição do sagrado, aplicável à totalidade da obra de David Byrne.