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Peter Hammill – Ritos De Passagem – concerto

Pop Rock

14 de Dezembro de 1994

RITOS DE PASSAGEM


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Afinal Peter Hammill vem sozinho. À semelhança do que aconteceu no ano passado na mesma sala lisboeta onde o cantor irá de novo actuar no próximo fim-de-semana. Desilusão. Não que isso implique que vá ser um mau concerto. Há dois anos, em solo absoluto, o ex-Van Der Graaf rubricou duas actuações notáveis no S. Luiz. Só que tinha sido anunciada a vinda com ele de um grupo de músicos, e já se antecipava o prazer de escutar o saxofone de David Jackson, o baixo de Nic Potter o violino de Stuart Gordon, três músicos que, em formações diferentes, fizeram parte dos Van Der Graaf Generator.
Não sendo talvez esta a melhor altura para dissecar tais estratégias, embora salte aos olhos que sai mais barato pagar a um único músico do que a uma banda inteira, fica qualquer coisa atravessada, como se nos tivessem oferecido um doce e no último momento nos tivessem tirado da boca.
Vamos ter pois que nos contentar uma vez mais com a voz, que não é pouca, a guitarra e o piano de Peter Hammill. E saborear ao máximo as canções e interpretações ultra-expressivas do cantor. Será uma nova passagem em revista de temas antigos, como sempre relidos por Hammill segundo a inspiração e o estado de espírito do momento, e a apresentação ao vivo, em moldes obviamente diferentes do disco, dos cinco temas que compõem o novo álbum “Roaring Forties”.
Foi sobre cada um destes temas que pedimos a Peter Hammill um pequeno comentário. Aqui vão as “respostas instantâneas”, ou “impressões em forma de ‘flash’”, como o próprio as classificou. Quanto a “Roaring Forties”, na sua totalidade, Hammill define-o como “um trabalho sobre os ritos de passagem, do tempo, das falhas entre o conhecimento, a inocência e o ego”, cujas canções tanto podem ser apreciadas a um “nível superficial” como a um nível “mais profundo”.

“SHARPLY UNCLEAR”
“Esta fonte de conhecimento e de autoconfiança provoca um estado de auto-maravilhamento excessivo. Sob o esqueleto externo do desmame e da crença em nós próprios (e, como consequência, a falta de crença em todos os outros que têm perspectivas alternativas). Está alguém em casa?…”

“THE GIFT OF FIRE”
“Entretanto, esta rapariga não sabe o suficiente. O facto de os seus dons serem em grande parte sustentados pela sua inocência não é suficiente para a proteger, ou para os proteger, de serem manchadas pelas apreciações dos outros. A verdade nunca é absoluta…”

“YOU CAN´T WAIT”
“Portanto o melhor é vivermos o momento. Ansiar por um futuro ou por um passado ideais nega-nos a possibilidade de viver o presente. É lógico, então, dizer que o futuro e os presentes passados são de igual forma renegados. É tão óbvio… mas tão difícil de viver. De facto, se alguém o conseguisse, seria viver um momento universal de transcendência.”

“A HEADLONG STRETCH”
“Os ritos de passagem sucedem-se sem parar. As personalidades que nós somos foram e vão ser criadas. Esta peça liga entre si muitas das minhas preocupações, das quais o tempo e o ego não são das menos importantes. Conseguir obter uma linha essencial de significado a partir desta tapeçaria de impressões momentâneas é algo de impossível. Se o conseguisse fazer, não estaria nesta profissão de escrever canções, que são, pela sua própria natureza, abertas.”

“YOUR TALL SHIP”
“Uma recapitulação de algumas linhas de pensamento atrás enunciadas, e de outras diferentes. A viagem que vale a pena fazer não é através de um reservatório. Enfrentar a tempestade é um dever que temos para connosco próprios. E isso não pára.”

PETER HAMMILL

16 de Dezembro, Cinema do Terço, Porto

17 de Dezembro, Teatro S. Luiz, Lisboa



Concertos – “Mestres em Despique” – John McLaughlin, Paco de Lucia, Vicente Amigo e Al Di Meola

Pop Rock

23 JUNHO 1993

MESTRES EM DESPIQUE

John McLaughlin, Paco de Lucia, Vicente Amigo e Al Di Meola reatam em Portugal o projecto “lendas da guitarra”, primeiro em separado, depois numa “jam session” conjunta, num duelo onde não se prevê que haja vencidos.


Al Di Meola, John Mclaughlin and Paco de Lucia

John McLaughlin em Trio

Mestre místico. De incondicional da guitarra eléctrica, ao lado de Miles Davis, rendeu-se às maiores delicadezas da sua irmã acústica, sob a influência dos ensinamentos do guru Sri Chimnoy. Na Mahavishnu Orchestra, juntou as orações e a electricidade no monumento ao jazz rock que é “Birds of Fire”. Depois desligou a ficha, juntou-se a músicos indianos, cruzou as pernas e sentou-se no chão a tecer encantamentos com os Shakti, como “Handful of Beauty” e “Natural Elements”. Não têm conta as lições de guitarra que leccionou em disco. Decorem-se as seguintes: “Bitches Brew” (de Miles Davis), “Extrapolations”, “The Inner Mountain Flame”, “Birds of Fire”, “Electric Guitarists”. Em todas elas, John McLaughlin provou que a guitarra pode ser uma religião.

Paco de Lucia em sexteto

Mestre do flamenco. Duende do flamenco. Conseguiu juntar com êxito – e como se fosse a coisa mais natural deste mundo – a música cigana e o jazz. E talvez seja, de facto, o casamento mais natural deste mundo. Tocou já em Portugal, onde deixou atrás de si um rasto de fogo. Alia a fidelidade às técnicas de interpretação ciganas com um notável espírito de improvisador. Talentos que podem ser apreciados em registos discográficos abrangendo um leque de estilos diversificado, que vai do flamenco puro e da interpretação de Andres Segovia à recriação do célebre “Concerto de Aranjuez” e às improvisações jazzísticas partilhadas com McLaughlin e Di Meola, em “Friday Night in San Francisco” e “Passion, Grace & Fire”.

Vicente Amigo em quinteto

Mestre do flamenco mas mais novo. Como Paco de Lucia, não encara o flamenco como uma natureza morta, antes como um campo musical fértil de possibilidades de cruzamento com outras músicas. Vicente Amigo brilhou no ano passado em Sevilha, no célebre festival “lendas da guitarra”. A música cigana pode contar com ele para a transportar ao futuro. No nosso país, a televisão tem-lhe feito a desfeita de pôr os seus espectáculos em confronto directo com outros mais popularuchos. Inevitavelmente, ganham os popularuchos. A partir do dia 25, contudo, espera-se que Amigo passe a ser um vencedor.

Al Di Meola em trio

Mestre das fusões latinas. Começou por ser influenciado pelos Beatles, depois ouviu Miles Davis e não voltou a ser o mesmo, após o que ouviu Chick Corea e voltou de novo a não ser o mesmo. Optou pelo pianista (Corea, Miles é mais a trompete), que o deixou fazer parte dos Return to Forever. Além de ter participado no tal trio com John McLaughlin e Paco de Lucia, gravou uma série de álbuns onde nunca conseguiu mostrar ser tão bom compositor como os seus companheiros. “Casino”, “Splendid Hotel”, “Electric Rendez-vous” ou o acústico “Cielo e Terra” não passam de obras de fusão, competentes é certo, mas sem a centelha de génio que frequentemente atinge os seus amigos. O novo álbum “Heart of the Immigrants”, com a banda recente, World Sinfonia, não traz nada de novo, tendo pelo menos a virtude (para alguns…) de pretender dar um rosto moderno às sonoridades sud-americanas. Aquilo para que, de facto, tem mais jeito.

Dia 25,
CAMPO PEQUENO, 22H



Mike Oldfield – “Elements,The Best of…”

Pop Rock

22 SETEMBRO 1993

Mike Oldfield
Elements,The Best of…

Virgin, distri. EMI – VC


Oldfield_elements

“O melhor” seja de quem for é sempre contingente. No caso do menino-prodígio dos sinos tubulares, considerou-se desta vez que o supra-sumo são as canções curtas que foram editadas em single, da fase posterior à dos grandes épicos do início de carreira. Outra compilação, em caixa dupla, do músico, lançada já há alguns anos, dizia exactamente o contrário e privilegiava as sequências longas… Enfim, aqui reuniram-se canções agradáveis como “Moonight shadow”, “Five miles out” e “Shadow on the wall”, com outras menos interessantes, como “Family man”, e alguns paraísos de anjinhos assexuados, como “In Dulce jubilo” e “Islands”. Para compor o ramalhete incluíram-se excertos à pressão e bastante abreviados das “opus magnum” “Tubular bells”, “Ommadawnn” e a mais recente “Amarok”. Inofensivo. (5)

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