Arquivo da Categoria: Progressivo

Kraftwerk – “Ralf And Florian”

Pop Rock

16 de Novembro de 1994
REEDIÇÕES

Kraftwerk
Ralf and Florian

Ed. Pirata, import. Carbono


RF-D-front

Com a importação de “Ralf and Florian”, que se junta à reedição recente dos dois primeiros álbuns, fica completa a discografia dos Kraftwerk em compacto. À semelhança daqueles, “Ralf and Florian” é uma prensagem pirata em que o som apresenta os mesmos ruídos do vinilo de origem e que, em termos gráficos, apenas reproduz na contracapa a for de Ralf Hütter e Florian Schneider do original, editado em 1970 pela Vertigo. Curiosamente, esta edição inclui uma edição ao vivo do tema “Autobahn”, diferindo de uma outra, também pirata, onde não existe qualquer tema extra. Igualmente disponível está “Tonefloat”, primeiro trabalho, editado em 1969, desta formação germânica, então designada Organization, uma tentativa incipiente, e ainda amarrada à ideologia “hippie”, de exploração das possibilidades “concretistas” de instrumentos tradicionais como o violino ou as percussões, na linha de “Electronic Meditation”, dos Tangerine Dream, embora com menos recursos e imaginação. “Ralf and Florian” é outra coisa. Álbum de transição entre a maquinaria pesada dos dois primeiros e as melodias cibernéticas dos que se lhe seguiriam, alterna a cadência cabaret-tecno de “Tanzmusik” com o industrialismo iluminado a néon de “Elektrisches roulette” (na mesma área ocupada na época pelos Cluster) e o amientalismo havaiano de uma “Ananas symphonie” com a consistência de um cristal. A evitar cuidadosamente a referida versão – pretensamente “bónus” – ao vivo de “Autobahn”, em que o som e uma interpretação pavorosos traem por completo a “electricity in motion” que caracteriza a versão original de estúdio. Ignorando-a, fica um álbum luminoso a testemunhar os últimos vestígios de uma nostalgia naturalista que se perdeu. (8)

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Genesis – “Trespass” + “Nursery Crime” + Foxtrot” + Genesis Live” + Selling England By The Pound” + The Lamb Lies Down On Broadway”

Pop Rock

21 de Setembro de 1994
REEDIÇÕES

REVELAÇÃO DEFINITIVA

GENESIS
Trespass (7)
Nursery Cryme (9)
Foxtrot (8)
Genesis Live (6)
Selling England by the Pound (9)
The Lamb Lies Down on Brodway (10)

Virgin, distri. EMI – VC


trespass

nurseryCrime

foxtrot

live

selling

lamb

Após um primeiro esboço onde se traçavam já as futuras directrizes musicais do grupo, num álbum gravado para a Decca, “From Genesis to Revelation”, os Genesis arrancaram em força com “Trespass”. Anthony Phillips desempenhava, nessa altura, as funções de guitarrista que, no álbum seguinte, seriam atribuídas a Steve Hackett. Ainda preso a determinados “clichés” típicos da música da época, “Trespass” já apresenta, porém, a marca inconfundível do som Genesis: “suites” instrumentais em que pontificavam os teclados de Banks, textos em que o “nonsense” se cruzava com imagens medievais, apontamentos do quotidiano citadino e uma violência que, nos álbuns seguintes, se atenuaria e aqui explode no tema final “The Knife”.
“Nursery Cryme”, já com Hackett no lugar de Phillips (após o abandono, tem seguido uma carreira a solo interessante e prolixa, imbuída do espírito que caracterizou toda a primeira fase da banda, anterior a “The Lamb Lies down on Brodway”), é o primeiro grande momento dos Genesis. Cada canção conta uma história, colorida com as cores de uma imaginação que mergulhava no mundo das fábulas e da simbologia de uma Inglaterra surreal e vitoriana. “The musical box” é um tratado de humor negro onde o crime e o sonho brotam de uma caixinha de música assombrada. “For absent friends” aflora com pudor o encontro de duas solidões numa igreja deserta. “The return of the giant Hogweed” surpreende os terrores de mescalina perante a ameaça de um gigante vegetal. “Seven stones” é uma narrativa trágico-marítima e “Harlequim” uma alucinação em tons de ópio, fechando o álbum com uma incursão no mundo das fadas, andróginos e outros seres do “outro lado”, em “The Fountain os Salmacis”. Sobre os teclados de Banks, de onde se destacava a solenidade orquestral do “mellotron”, as guitarras de Hackett rivalizavam então com as de Steve Howe e Robert Fripp, dos Yes e dos King Crimson, intrometendo-se, de acordo com as exigências do ambiente, a flauta e o oboé manuseados por Gabriel com a simplicidade ingénua de uma criança.
Álbum de excessos, “Foxtrot” foi o primeiro a conseguir bons resultados em termos de vendas no Reino Unido. Nele, os Genesis perderam – apenas no primeiro lado, atenção! – um pouco o controlo dos acontecimentos, na tentativa algo frustrada de conciliarem opostos cada vez mais irredutíveis, que iam do medievalismo de “Timetable” à crítica social de “Get ‘em out by Friday”. Mas o segundo lado, ocupado na íntegra pela “suite” “Supper’s ready”, é uma obra-prima. Viagem entre um jardim de uma moradia nos subúrbios e o apocalipse, “Supper’s ready” – dividida em diversas partes cujos títulos só por si excitavam a imaginação – é, para quem souber aqui descortinar os sinais e a lógica, uma “trip” de ácido. A voz de Gabriel desmultiplica-se numa infinidade de registos que apenas encontraria paralelo no álbum seguinte, no tema “The battle of Epping forest”, onde a diversidade de timbres e inflexões vocais atinge o absurdo.
Em “Selling England”, os Genesis recuperam a calma, embora o caleidoscópio de imagens e emoções abrangesse temáticas cada vez mais diversificadas. Em termos de virtuosismo instrumental, a banda estava no auge, explorando ao máximo as possibilidades de todos os instrumentos, com destaque, de novo, para Tony Banks, que em “Aisle of plenty” mostra as suas capacidades de pianista, sendo este o álbum em que o teclista utiliza pela primeira vez e explora em pleno as possibilidades do sintetizador Moog. “More fool me” é cantada por Phil Collins, até então apenas um baterista competente em quem ninguém suspeitaria existir qualquer sede de poder, e “The Cinema show”, marcado por um romantismo hollywoodesco, abre às portas à viragem de 180 graus que os Genesis empreenderiam no álbum seguinte, o duplo “The Lamb lies down on Brodway”, ponto culminante da visão poética de Peter Gabriel.
Marcado por contrastes violentos e sonoridades estranhas, aproveitando ao máximo os efeitos de estúdio, “The Lamb Lies down on Brodway” narra, por vias sinuosas, o percurso de autoconhecimento de Rael, um porto-riquenho que era então o “alter ego” de Peter Gabriel. De forma ainda mais explícita que no tema “Supper’s ready”, desta feita é todo o duplo álbum que corresponde a uma viagem de ácido – neste caso, uma “trip” mais vasta e armadilhada, onde o caminhante interior se arrisca a ficar pelo caminho se acompanhar demasiado perto as peripécias da personagem principal. A chave desta interpretação lisérgica pode ser encontrada, ainda e sempre, na condição por quantos romperam o véu, já perto do final, num tema ao mesmo tempo enigmático e evidente: “It”. Claro que, neste “it”, é lícito ver tudo, mas é precisamente nesse “tudo” que se abrem e fecham as múltiplas portas de entrada e saída de “The Lamb lies down on Brodway”, um dos álbuns mais importantes da década de 70. Depois, foi o que se viu: o grupo tornou-se progressivamente numa caricatura de si próprio e mesmo Gabriel, perdida a embalagem dos primeiros quatro álbuns a solo, está também a ficar gagá e a preferir outro tipo de viagens – num iate, com Claudia Schiffer.
As presentes reedições, incluindo ainda o álbum ao vivo “Genesis live” – que nada acrescenta (antes subtrai) à magia do grupo –, são “remisturas definitivas” efectuadas a partir das “masters” originais, com qualidade técnica bastante superior às versões anteriormente disponíveis no mercado e, ao contrário destas, reproduzem as capas de origem na íntegra. Apenas apetece perguntar: não teria sido possível fazer isto antes, em vez de se “obrigar” o consumidor a nova reciclagem?

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Nico – “Chelsea Girl” + “The End”

Pop Rock

25 de Maio de 1994
REEDIÇÕES

CANÇÕES PARA UMA RAPARIGA MÁ

NICO
Chelsea Girl (6)

Polydor, distri. Polygram
The End (8)
Island, import. Contraverso


nico1

nico2

“Top model”, actriz secundária no filme de Fellini “La Dolce Vita”, figura-fetiche de Andy Warhol na bacanal “Exploding Plastic Inevitable”, presença insubstituível no clássico da banana dos Velvet Underground, referência mítica na cena dos malditos na passagem dos anos 60 para os 70 (Doors, Hendrix…), Nico personificou, na sua vida e na sua música, a própria imagem da tragédia. A “deusa da lua” – como um dia (ou uma noite) chamaram a esta diva teutónica de voz tão fria e cortante como o gelo – deixou para a posteridade uma obra inclassificável, que alguns consideram medíocre e interessante apenas na medida em que reflecte a aura de mistério que sempre rodeou este personagem cuja morte tornou ainda mais enigmática, e outros sublime. Nico incarnou a própria solidão. “Não canto para a audiência”, disse, “procuro manter-me tão solitária quanto possível… sem fazer o mínimo contacto”. Para esta intérprete (mais do que cantora, já que a sua voz, em termos técnicos, era bastante má) que todos citam, alguns hoje elegem como heroína mas cujos discos apenas uma fracção mínima de público conhecia e adquiria, o mais importante numa canção era a improvisação, o sentimento de ocasião provocado por uma nota ou uma melodia. Nico apreciava acima de tudo “canções tristes e trágicas”. Costumava cantá-las ao mesmo tempo que tocava um velho órgão de pedais. John Cale apadrinhou-a mas raramente soube compreender a fundo os abismos desta alma atormentada. Se “The Marble Index” é hoje considerado um dos álbuns mais impenetráveis na carreira da artista (sem esquecer o indispensável “Desertshore”, inspirado numa das várias colaborações, neste caso no filme “La cicatrice intérieure”, da cantora com o cineasta francês “underground” Philippe Garrel, com quem trabalhou também como actriz em “Le Berceau de Cristal”, sobre música de Manuel Gӧttsching) e os últimos “Drama of Exile” e “Camera Obscura” são aqueles que levaram pela primeira vez a um público mais alargado a música de Nico, é, contudo, em “Chelsea Girl” – reprodução no singular do filme documental de Andy Warhol, “Chelsea Girls” – que Nico surge verdadeiramente como intérprete de canções. Jackson Browne, John Cale, Lou Reed, Bob Dylan e Tim Hardin escreveram especialmente para ela. Nunca a voz desta alemã precursora do niilismo “punk” soou tão calorosa (nem tão desafinada…) e humana como nestas baladas em tons Greenwich Village nas quais Nico vestia, qual Judy Collins do inferno, as roupas “hippies” do avesso. As excepções são as duas longas elucubrações “It was a pleasure then” (composição sua que prenunciava os icebergues futuros) e “Chelsea girls”, com a mesma cadência que Nico imprimira aos temas mais lentos de “The Velvet Underground & Nico”. “The End”, pelo contrário é, em primeiro lugar, um disco de produtor, em que John Cale se entrega com entusiasmo à tarefa de colorir o registo vocal metálico e monocórdico de Nico com toda a espécie de embelezamentos instrumentais (baixo, xilofone, órgão, marimba, cabasa, carrilhão, piano…), para tal contando, ainda, com a ajuda de Phil Manzanera, na guitarra, e Brian Eno, nos sintetizadores. No mesmo ano em que os mesmos Cale, Eno e Nico se juntaram a Kevin Ayers para gravar o célebre disco ao vivo “June 1, 1974”. Nico ergue-se no meio desta panóplia sonora como uma rainha das trevas, culminando o seu reinado de dor e pesadelo numa versão petrificada de “The end”, dos Doors, e na releitura gótica da canção de exaltação patriótica dos nazis durante a Segunda Grande Guerra, “Das lied der deutschen” – derradeira provocação antes do oblívio.

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