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Vicente Amigo – “Vicente Amigo Voa No CCB – Nas Asas Do Desejo”

cultura >> sábado, 13.05.1995


Vicente Amigo Voa No CCB
Nas Asas Do Desejo


ERA INEVITÁVEL, tão inevitável como uma fogueira que arde ou a água de um rio que corre para o mar. Vicente Amigo é um visitante assíduo do nosso país e de todas as vezes o flamenco na sua guitarra se fez um pouco mais novo. Na primeira das suas duas apresentações no Centro Cultural de Belém (CCB) – a terceira e última terá lugar hoje, no Europarque, em Vila da Feira, pelas 22h -, na noite de quinta-feira, perante uma plateia numerosa, o guitarrista andaluz deu uma vez mais razão a outro visitante ilustre da guitarra que se encontra entre nós, Pat Metheny, quando diz que Amigo é o maior guitarrista do mundo. Não será bem assim, mas é quase.
No CCB voltaram a ficar patentes as qualidades que distinguem um bom executante de um executante de excepção. Vicente Amigo é um “virtuose” mas isso é condição necessária para qualquer músico de flamenco que se preze. Os dois temas iniciais, em solo absoluto, puseram em relevo esta evidência. Mas o músico, mais do que um simples prestidigitador, domina a guitarra como um domador a fera. Arrisca movimentos, notas e cadências no limite do possível, pondo arte e coração nesse jogo contra o tempo e o silêncio. Uma “soleá” arrebatadora deixou ver os contornos do “duende”, esse demónio santo que dita as leis da alma da Andaluzia profunda. Mas – pois há um “mas – Vicente Amigo não tem por enquanto a consciência dos abismos nem a visão da noite que enobrecem e escurecem a música do seu compatriota Paco de Lucia.
Em Vicente Amigo o flamenco voa. A música desce do céu para as cordas da guitarra. Em Paco de Lucia, ou num telúrico mais radical como Paco el Gastor, o “duende” rompe das profundezas da terra, abalando montanhas, rasgando a alma com suspiros de dor e de paixão. Alma-lama, barro primordial do Sul abrasivo da Península. Vicente, como ele próprio afirmou em entrevista ao PÚBLICO, publicada ontem, gosta de rir, de se entregar a um riso forte, solar.
Não peçam a quem ri que suporte uma cruz nem que se enterre ou desterre no abissal.
Com ele voaram no CCB um segundo guitarrista, Javier Munoz, dois percussionistas, Patricio Camara e Tino de Geraldo, uma cantora, Eva Duran, e um jovem bailarino de quinze anos, Eduardo Lozano. Certeiros estiveram os dois homens do ritmo, nas típicas palmas que se completam nos contratempos e no batucar nas caixas. Tino de Geraldo tocou várias vezes umas “tablas” indianas, não sabemos se mal ou bem, porque praticamente não se ouviram. Não que o som não estivesse excelente – só que alguém se esqueceu de levantar o volume às percussões e à voz, enquanto a guitarra de Amigo, se fez ouvir com uma limpidez e equilíbrio tonal absolutos.
Deu, todavia, para perceber que Eva Duran, embora animada e enquadrada na música, tem certa falta de peito, metaforicamente falando. Faltou pujança ao canto, faltou loucura, faltou sangue, faltou lua. Bonita foi, e voou.
Como voou pelo estrado e pelo palco fora o jovem Eduardo Lozano, prodígio de pés. Eduardo acelerou na dança, fez a sua faena imaginária, bateu compassos a primor, troçou da gravidade. Mas de novo sentimos a vontade e o desejo de mais chão, de raça mais sofrida de sentir. Quinze anos dão para voar, não para cravar farpas. Sempre o voo, sempre um som muito alto, sem queimar, a darem a cor e o tom predominantes de um espectáculo que se elevou a grande altitude.
O flamenco é elevação, certo, mas é também paixão insatisfeita, fúria, solidão. Sentiu-se, entendeu-se isto, do alto. A música de Vicente Amigo tem asas.

Vicente Amigo – “Vicente Amigo Em Mini-Digressão Portuguesa – ‘Quando O ‘Duende’ Me Toca, Sinto-me Um Rei!'” (entrevista)

cultura >> sexta-feira, 12.05.1995


Vicente Amigo Em Mini-Digressão Portuguesa
“Quando O ‘Duende’ Me Toca, Sinto-me Um Rei!”


É o artista estrangeiro que mais vezes tocou em Portugal. Se não estamos em erro, esta é a décima visita de Vicente Amigo ao nosso país. Existem elos de amizade fortes entre nós e este guitarrista de 28 anos que está a revolucionar o flamenco e a dar novas respostas ao sopro do “duende”.



Depois de uma primeira actuação ontem no CCB, o espanhol Vicente Amigo, acompanhado pela sua banda e um bailarino, volta a actuar hoje, pelas 22h, no mesmo local, terminando mais esta mini-digressão portuguesa, amanhã, à mesma hora, no Europarque, em Vila da Feira.
PÚBLICO – O seu primeiro mestre de guitarra foi Juan Munoz. Que tipo de ensinamentos recebeu? Diz-se que no flamenco há segredos que se transmitem de geração em geração…
VICENTE AMIGO – Não sei… não creio… Acredito simplesmente que, quando se chega a um determinado nível, cada um descobre o seu próprio segredo. Ele ensinou-me apenas a técnica básica do flamenco e os seus ritmos.
P. – Quando sentiu pela primeira vez o “duende”?
R. – Senti-o mesmo antes de tocar guitarra, a escutar Paco de Lucia, quando era pequeno.
P. – Consegue definir essa experiência?
R. – O que senti, senti-o porque era algo que me estava a ser enviado, a iniciativa não foi minha. Quando o “duende” me toca, esqueço-me de tudo, das pessoas, sinto-me como um rei. Nesses momentos torna-se muito claro para mim que o que estou a tocar é muito especial.
P. – O “duende” toca-o sempre que actua ao vivo?
R. – Muitas vezes…
P. – E das vezes que não?
R. – Arranjo as coisas de maneira a que ele chegue… Concentro-me até que o contacto se produza.
P. – O seu nome anda geralmente associado ao de Paco de Lucia, devido a alegadas ligações de ambos com o jazz…
R. – Não faço fusões com o jazz. O Paco, sim, a sua música enriqueceu-se com o contacto com os músicos de jazz, assim como eles se enriqueceram ao tocarem com ele. Gostaria um dia de poder fazer o mesmo. Toquei uma vez em França com o Al di Meola e o John McLaughlin, mas não a sua música, apenas uma rumba sobre a qual improvisámos os três. Não se pode considerar uma fusão de músicas, mas apenas de músicos.
P. – Dentro do flamenco, há algum género pelo qual sinta alguma predilecção? A “buleria”, talvez?…
R. – Gosto muito da “buleria”, como gosto dos temas mais livres, em termos de ritmo. Penso que todas as coisas têm o seu ritmo. Até a própria liberdade…
P. – Em Espanha, é mais conhecido nos meios do flamenco ou nas camadas de público mais generalistas?
R. – Os mais novos, que ouvem rock ‘n’ rol ouvem-me também. Não só a mim, mas ao flamenco em geral. Isso agrada-me. É uma prova de que o flamenco está a atrair muita gente, não só os velhos apreciadores. Estão a abrir-se novas portas.
P. – Gostava de ser uma estrela de rock?
R. – Não. Gosto é de viver bem, com aquilo que tenho. Não sei se o estatuto de estrela liga comigo. Ou se liga, é a um nível subconsciente. Tenho muito medo. Como estou agora já tenho imensa responsabilidade. Se fosse uma estrela teria muito mais.
P. – Que opinião têm de si os puristas do flamenco?
R. – Há alguns que me criticam, mas de um modo geral respeitam-me e ajudam-me com as suas críticas. Não se atiram a mim a matar, o que é lógico, porque no fim de contas trata-se de flamenco, digam eles o que disserem. Sei de flamenco tanto como eles.
P. – O que pensa de grupos ligeiros como os Gypsy Kings ou os Jaleo?
R. – Acho bem que existam porque há muita gente que está longe do flamenco e deste modo pode ficar mais perto. A música que esses grupos fazem recorda o flamenco mas não é flamenco puro. Serve igualmente para abrir portas.
P. – E de um “revolucionário”, embora veterano, da guitarra, como Paco el Gastor, acompanhante habitual do cantor El Cabrero?
R. – Paco é um acompanhante do canto… é raro tocar a solo. Tem um estilo muito próprio.
P. – No seu caso, gosta de desempenhar a função de acompanhante?
R. – Já acompanhei Camerón de la Isla que, para mim, era o flamenco em pessoa. Também já toquei com Enrique Morente, Carmen Linares e El Pele, que marcou uma forma de cantar flamenco diferente de tudo o que se fazia até então.
P. – Porque é que aceitou tocar nos discos de artistas portugueses como Paulo de Carvalho e GNR?
R. – Porque não? Paulo de Carvalho, sou amigo dele. Com os GNR limitei-me a tocar um pouco de flamenco. Em Espanha também já trabalhei com gente que não tem a ver com o flamenco, como Miguel Bosé.
P. – Essa disponibilidade não é muito comum nos músicos de flamenco…
R. – Seja qual for, nunca toco rock ou qualquer outro tipo de música. É sempre flamenco. Há quem ache que para soar flamenco basta tocar duas notas numa guitarra espanhola. Por isso tenho algumas dúvidas em relação a estes convites. É sempre uma aventura e por vezes os resultados são frustrantes. Apenas toco flamenco, mais nada. Se alguma vez alguém me ensinar a tocar outra coisa qualquer… Tocar agora rock, por exemplo, seria romper de forma muito brusca. Mas gostava de aprender música brasileira. Ou fado, se me ensinarem… É preciso tempo para nos sentirmos confortáveis a fazer qualquer tipo de música. Há guitarristas de flamenco que dizem que sabem tocar jazz apenas porque um amigo que é músico de jazz lhes ensinou três acordes e umas harmonias de jazz…
P. – O que representa para si o flamenco?
R. – O flamenco é algo que existe em mim, uma forma de expressar os meus sentimentos, a minha maneira de ser. É como um fogo. É uma música profunda, potente, espiritual. Tem tristeza, tem raiva, tem doçura, tem alegria. Gosto de rir. Rir é uma das melhores coisas do mundo. Rir muito, e de uma maneira forte. Não sei se o flamenco representa a forma de ser mais profunda de Espanha, ou a sua dor mais profunda. Quando se tem uma dor de dentes, sente-se igualmente uma dor profunda…

Al Di Meola, Paco De Lucia, John McLaughlin, Vicente Amigo – “Corrida De Guitarras No Campo Pequeno, Em Lisboa Meola, O Triunfador”

cultura >> domingo, 27.06.1993


Corrida De Guitarras No Campo Pequeno, Em Lisboa
Meola, O Triunfador


Mais de cinco horas foi quanto durou a maratona de guitarras realizada na noite de sexta-feira, em Lisboa. Vicente Amigo e Paco de Lucia acenderam os ânimos com o fogo do flamenco. John McLaughlin deu uma triste imagem do guitarrista inflamado que no passado também foi. Melhor faena deu Al Di Meola, que acabou por ser o grande triunfador na monumental do Campo Pequeno.



Vinham aureolados de mestres da guitarra: Vicente Amigo, Paco de Lucia, Al Di Meola e John McLaughlin. Dos quatro, só McLaughlin traiu as expectativas, frecebendo vaias e gritos de “vai-te embora”, enquanto os outros arrancaram aplausos e, no caso de Al Di Meola, o entusiasmo delirante.
Vicente Amigo, acompanhado de um quarteto (diga-se desde já que a organização não forneceu, nem antes nem durante o espectáculo, qualquer informação sobre o nome dos músicos), foi o primeiro a actuar numa praça do Campo Pequeno a abarrotar de gente, com outra tanta a protestar do lado de fora, no desespero de quem não conseguiu comprar bilhete. Mesmo assim bvoltaram a acontecer cenas que se estão a tornar habituais nos espectáculos ao vivo em Portugal, devido ao número de bilhetes impressos exceder largamente a lotação do recinto (ver caixa).
Sem que a organização tivesse feito alguma apresentação e quase sem se dar por isso, Amigo deu início à sua actuação, por entre o ruído e as movimentações da assistência, preocupada em arranjar um lugar, à custa de muita persistência e algumas cotoveladas.
Tocou sozinho o primeiro par de temas. De forma virtuosística, compensando com garra e toneladas de técnica o que ainda lhe falta em interiorização e ouvido para o silêncio. Aos poucos juntaram-se-lhe um segundo guitarrista/flautista, um percussionista, um dançarino e uma cantora. Bons os dois primeiros, espalhafatoso em demasia o bailarino – pesadão, martelador do estrado, mais em jeito de carro de assalto que de toureiro citando a fera imaginária. Quanto à cantora, sofreu os efeitos de uma amplificação que lhe tornou demasiado estridente a voz, tyransformando os típicos “ayayayayays” ciganos em sirene de alarme. Mas foi agradável sentir a emoção levada a tal extremo, os cabelos da nuca a eriçarem-se, os tímpanos recolhyendo-se em súbita introspecção.
Paco de Lucia foi tudo isto e muito mais: mais músicos em palco – seis, fora ele – mais sentimento, mais profundidade, mais música, em suma. O flamaneco serviu-lhe de base para infindáveis (por vezes demasiado infindáveis) divagações pelos terrenos do jazz, com chegadas e partidas constantes. Destoou a intromissão de um saxofone soprano, morno e sem grandes explicações a dar. O dançarino de serviço fez o que o outro, antes dele, não conseguira: voou, entrou em choque com o solo e com o ar, dançou com o corpo inteiro. Do que Paco de Lucia conseguiu fazer da guitarra, estamos conversados: simplesmente tudo.
E mesmo assim, Al Di Meola, em trio com um segundo guitarrista e um percussionista, conseguiu fazer melhor. Sentado, sem ostentar a mínima pose de malabarista, o autor do recente “Heart of the Immigrants” deixou-se habitar pelo génio que, anos antes, John McLaughlin encarnara. Músico de fusão, sem dúvida, mas sempre em fuga aos lugares comuns, que teve em Di Meola intérprete inspirado. Ora em velocidade, ora na revelação do segredo mais íntimo, o guitarrista passou do telurismo à levitação, percorrendo o calor latino, as escalas indianas, mostrando um domínio completo do tempo e das possibilidades do contraponto. Teve nos seus dois companheiros parceiros à altura, com destaque para o percussionista, próximo da escola de Airto Moreira e Naná Vasconcelos.

Toque De Finados

Já passava das duas horas da madrugada quando John McLaughlin deu início a uma prestação que viria a ser desastrosa. Envelhecido, encenando poses de “guitar hero” despropositadas, o que mais chcou neste homem que no passado em parceirou com Miles Davis e ajudou a criar o “jazz rock” foi uma imensa tristeza, a ausência de chama, a imagem de um corpo e de gestos reduzidos a cinzas. Como se o fogo que ateara os Mahavishnou Orchestra e, mais tarde, nos Shakti, o tivesse consumido.
Depois, a sua banda também não ajudou. Um organista (e numa ocasião que se pretendeu de “grande jazz intimista”, na trompete) “louco”, no velho Hammond, sem controle nos dedos, e um baterista quadrado deram a ideia de uma “jam session”, quase de um ensaio, à boa maneira do que nos anos 60 se realizavam no clube de Ronnie Scott, em Londres. Chegou a ser confrangedor assistir ao modo penoso como o guitarrista tentava alinhar um solo, ao ponto de, numa das vezes, desistir, intimidado com os apupos e os gritos de “vai-te embora!” do público, refugiando-se na retaguarda do palco. A tentaiva desesperada de cativar o público agravou ainda mais a situação, através do recurso a truques que já não enganam ninguém: o órgão à procura do “rhythm ‘n’ blues”, a bateria em descontrole total num solo dos longos (àquela hora, caiu mal), dos que dão direito a ir tomar uma bica e a passar pelas brasas antes que algo de interessante aconteça. Foi tanta a fúria de agradar que o baterista derrubou um dos pratos, perante a hilariedade geral. McLaughlin ainda agradeceu, titubeante, abandonando o palco sem glória nem proveiro.
Ainda haveria tempo para um último equívoco. Quando o público pediu a reunião final dos quatro guitarristas, possibilidade que a organização deixara em aberto e que acabou por não se concretizar, e McLaughlin percebeu mal, julgando, na sua alucinação, que o pedido lhe era dirigido. Claro que mal regressou ao palco foi recebido com mais uma monumental assobiadela. Coitado. Um fim triste para uma corrida diferente que teve duas confirmações, a “morte” de um mito e um grande triunfador. Afinal sempre houve vencedores e vencidos.