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Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #29 – “Moulin Rouge (Outsider)”

#29 – “Moulin Rouge (Outsider)”

Fernando Magalhães
22.10.2001 140201

Tem piada, fui ver esse filme no sábado, sem sequer me lembrar do que já tinha lido sobre ele na Imprensa.

Resultado: Choque inicial, a seguir a uma primeira sequência (a câmara que invade Paris) que achei fenomenal.

Depois, o espanto e o cansaço visual (estava na 2ª fila no cinema do Colombo, ecrã monstruoso. LOOL). “O que é que se passa?”. Aquela mistura de ritmo (e ruídos..) de desenhos animados alucinante, kitsch e canções pop inglesas dos anos 70 parecia não fazer grande sentido.

Mas já a verificação: Tecnicamente o filme é um portento!

Mas depois, à medida que o lado melodramático se vai impondo tudo parece lentamente ir fazendo sentido. The show must go on. O humor, a tragédia, o ridículo e a música (até o “Heroes” do Bowie lá aparece e, já agora, de quem é a canção épica – não cheguei a ver a ficha técnica final – em que se canta, precisamente, “the show must go on”? O estilo é muito Peter Hammill, no seu registo mais operático) enredam-se numa fantasia de ilusão e lantejoulas. É o teatro, o entertainment plenamente assumido como cenário do vazio e da morte mas também do amor.

Toda a sequência final, da estreia da peça, com a sobreposição entre o drama teatral e o drama real, é brilhante.

Gostei.

FM

Lestat
22.10.2001 121249

Que bosta!
Bem, eu só tenho a dizer que achei esse filme dos piores que já vi na vida.
Pela primeira vez saí da sala a meio do filme. Nunca tinha feito isto, nem com o “Fantasma”, filme Português que deve vir em segundo na lista dos piores. Logo depois do (*yack!*) Moulin Rouge (*yack!*) …

Mas pronto, vejo que causa amores e ódios… 😉

Lestat.

Fernando Magalhães
22.10.2001 140201

Re: Que bosta!

Cerca dos 15, 20 minutos do filme também pus seriamente a hipótese de sair. Mas resisti estoicamente e a verdade é que o filme vai adquirindo aos poucos uma dimensão de tragédia e de desmesura dramática que acaba por prender a atenção.
De resto, parece que este tipo de reacção foi comum a várias pessoas que viram o filme, inclusive alguns dos críticos do PÚBLICO…

FM

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #5 – “Olá e…novo P.Hammill, fantástico!”

Fernando Magalhães
10.09.2001 160412
Olá a todos. Finalmente de regresso ao…grunf…trabalho!

Mas as saudades, sobretudo do pessoal do forum, já eram muitas…Por isso é bom voltar.

Depois desta introdução lamechas – chuif – vamos ao que interessa: a paleontologia. E os dinossáurios. Sabiam que se está a chegar à conclusão que muitos deles tinham o corpo coberto de penas? É verdade… Só falta dizer agora que tinham mas era o corpo coberto de jardéis e que…

Bom, mas chega de palhaçada.

Vamos à música:

O PETER HAMMILL tem um álbum novo, magnífico, para não variar. Chama-se “What, now?” e revela-o num pico de forma notável. O homem está prestes a explodir (de novo…) e pressente-se que está próximo de fazer algo parecido e com a mesma carga apocalíptica de “In Camera”.

O tema central é o tempo, o fim, o confronto final com o ego. Também um retorno aos ataques ferozes à igreja (olá Herbsman!). E o amor, tratado de forma sublime, claro! Vale a pena seguir atentamente os poemas.

A música e as vocalizações são poderosas. A electrónica ocupa um lugar de destaque, como nos tempos de “The Future now” e “PH7”. Mas a marca instrumental pessoalíssima de PH, o seu piano e guitarras saídas do fundo da alma, gritam e oram e gemem e exploram os confins do mundo e do espírito. Como sempre, sem concessões de qualquer espécie. PH é o último romântico, o génio absoluto da música deste século. Este álbum confirma-o!

Uma chamada de atenção para as reedições remasterizadas dos álbuns do CARAVAN, expoentes do som de Canterbury dos anos 70. Quem aprecia os 1ºs SOFT MACHINE não deverá perder. Para a semana farei um “especial Canterbury” no “Y”, a propósito destas reedições.
Para que conste os álbuns são “If I Could do it all over again, I’d do it all over you” (9/10), “In the land of Grey and Pink” (10/10), “Waterloo Lily” (8/10), “For Girls who Grow Plump in the Night” (7,5/10), “Caravan & The New Symphonia” (ao vivo, 6/10) e “Cunning Stunts” (6,5/10).

Os três primeiros são fundamentais.

Para o Rat-tat-tat: Escrevi há uns meses no “Y” sobre os EMBRYO. Um texto grande sobre cinco álbuns deste grupo alemão pioneiro da fusão do free-rock com música étnica e jazz. Imagina um cruzamento de Soft Machine afreakalhados, batuques africanos, raga indiano, improvisação sobre ácido “a la GURU GURU” e jazz rock…
Vou procurar o texto e depois faço um “copy & paste”.

saudações de regresso “ao vício”

Fernando Magalhães

Peter Hammill – “Palavras E Sons” (livro)

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 3 JULHO 1990 >> Leituras >> Livros

MÚSICA


PALAVRAS E SONS

Título: Camaleão na Sombra da Noite

Introdução e Tradução de Alexandre Vargas
Editora: Assírio & Alvim, 1990
117 pp.
1200$00


O título refere-se ao segundo disco a solo do antigo líder de uma das bandas mais importantes da década de Setenta – os Van Der Graaf Generator. O livro em questão apresenta uma recolha de poemas/letras de canções de músico e poeta inglês, compilados e traduzidos, em edição bilíngue, por Alexandre Vargas. Uma introdução à obra do autor, uma entrevista efetuada no nosso país aquando da visita daquele em 29 de setembro de 85, no hotel Tivoli, uma biblio-discografia e fotografias de arquivo, completam o livrinho. Alexandre Vargas devia ter vergonha. As suas “traduções” dos textos Hammillianos ofendem o autor do imortal “A Plague of Lighthouse Keepers”. Ofendem as línguas inglesa e portuguesa por igual. Envergonham o leitor, pelo atropelo constante, não dizemos já às mais elementares regras da gramática, como aquelas bem mais elementares respeitantes ao simples bom-senso. Mesmo desculpando erros do estilo “I shine, but shining, dying”, para Vargas, “brilho, mas a brilhar a morrer”, como é possível traduzir “delight” por “luz” ou “silver” por “silva”? Está certo que, como nos diz Borges, “o inglês é uma língua em que frequentemente há duas palavras para designar a mesma coisa”. Mas tanto? Nalguns casos o Vargas assume a sua ignorância, referindo-se por exemplo a um disco com “dupla sleeve”. Mas logo a seguir é a própria língua inglesa que é posta em cheque, pecando por paupérrima. “Ice”, gelo? Nunca! “Olhos de gelo” é que está correto. Com Alexandre Vargas a tradução livre ganha dimensões inusitadas. Logo na nota do tradutor somos avisados: “Se por um lado qualquer tradução de um texto perde alguma coisa em relação à língua em que este foi originalmente escrito, por outro alguma coisa poderá também ganhar”. Ganha e de que maneira. Não se estranhe pois que “Doubt casts its shadow/ on every perfect plan that is made” signifique “a dúvida poisa a sua sombra/ em cada plano perfeito louco que fazemos está a morte”. Com Vargas podemos ter a certeza que “nada se perde, tudo se transforma”. Restam finalmente o prazer e o consolo proporcionados pela leitura direta dos originais. Testemunho pungente das obsessões, solidão e alucinações cósmicas de Hammill, poeta perdido nos labirintos da condição humana. De “The Least We Can Do Is Wave To Each Other” a “And Close As This”, um percurso solidário de palavras e de sons.