Arquivo da Categoria: Post-Punk

Jeff Greinke – “Timbral Planes” + “In Another Place” + “Big Weather”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


Útero De Pedra

JEFF GREINKE
Timbral Planes (8)
In Another Place (8)
Big Weather (7)
Linden, distri. Ananana



“On Land”, de Brian Eno, estabeleceu, ainda nos anos 70, os paradigmas de uma nova música electrónica, nos antípodas da “planante”. É verdade que, antes dele, já o francês Pierre Henry ligara os circuitos do cérebro à terra, numa obra avassaladora, “Cortical Art”, registo sonoro, em bruto e em directo, das ondas encefálicas. Mas foi Eno que adubou a terra em transe e a transformou numa estética com contornos e num conceito uniforme. É neste campo, onde os sintetizadores, em vez de se elevar, se roçam na água e nas pedras, agitando as entranhas do planeta, que fazem sentido as movimentações electroacústicas de Jeff Greinke. “Timbral Planes”, de 1987, é uma avalanche de sons em estado de choque. Disco pesado, em colisão com o silêncio, amplifica no inconsciente imagens de trovoada, fendas tectónicas, abismos aquáticos, nuvens que incham e glaciares que despertam. Uma música em permanente desequilíbrio telúrico que, em nenhuma circunstância, deverá ser escutado num local como a Califórnia, não por acaso, pátria das novas correntes “new age” electrocósmicas. “In Another Place”, de 1992, tem uma leitura menos linear. Uma faixa como “The stalker” define com rigor ambiências que alternam a viscosidade e a luz, bem ao modo do filme de Tarkovsky com aquele nome (2The Stalker”), na cena em que o labirinto desemboca numa sala meio submersa em água, o chão pejado de objectos domésticos que forças obscuras transformaram num tesouro de ameaças. “In Another Place” é, ele próprio, um labirinto de geometrias sobrepostas, onde as notas de um piano manchado de humidade se desagregam no meio de névoas e vapores. No seu trabalho mais recente, de 1994, Jeff Greinke volta a respirar ares menos tóxicos, aderindo a esquemas próximos da “world music” e do quarto mundo de Jon Hassell, o que significa bater com intensidade redobrada nos tambores e na tecla do exotismo, inflexão a que não será estranha a presença, a seu lado, de Rob Angus (os dois têm uma colaboração mais estreita, no registo ao vivo, “Crossing Ngoli”), autor de uma recente “Ethnoloopography”. No total, três discos que vêm complementar o compacto do mesmo autor, já editado e criticado em devido tempo neste suplemento, “Changing Skies”.

pop rock >> quarta-feira >> 17.01.1996


Squeeze
Ridiculous
A & M, DISTRI. POLYGRAM



Há algo de nostálgico na música dos Squeeze e na persistência com que a banda de Glen Tilbrook e Chris Difford insiste em trazer o espírito da “power pop” dos idos de 80 para os dias de hoje. “Ridiculous” não é melhor nem pior que os outros discos, nomeadamente o anterior, “Some Fantastic Place”. É com prazer que reencontramos as mesmas melodias, cuja estrutura não poderia ser mais simples, embelezadas embora por uma iconografia adolescente, já algo desbotada e deslocada, inspirada nos Beatles. Precisamente, o que faz o encanto da música dos Squeeze é essa discrepância temporal entre o apego à memória e a recusa em evoluir para modelos mais actuais. Os Squeeze nunca vão mudar, nem ninguém há-de querer isso. “Walk away” é o exemplo máximo de anacronismo enquanto “This Summer” recua até aos quatro de Liverpool e à ingenuidade mágica de uma qualquer “Michèle”… Deixemos passar “Ridiculous” sem lhe fazer mal. Seria ridículo destruir uma estufa. Ou desprezar um oásis. (6)

Roger Eno, Virginia Astley, Kate St. John – “Roger Eno, Em Entrevista Ao PÚBLICO E Esta Noite Em Lisboa, Às 22h – ‘O Silêncio Total Aterroriza-me'”

cultura >> sábado, 18.11.1995


Roger Eno, Em Entrevista Ao PÚBLICO E Esta Noite Em Lisboa, Às 22h
“O Silêncio Total Aterroriza-me”


Roger Eno actua esta noite no São Luiz, em Lisboa, ao lado de Virginia Astley e Kate St. John, duas vozes de anjo que ligam bem com a veia melancólica do pianista, irmão de Brian Eno. O seu álbum mais recente baseia-se em textos de hereges da Idade Média. Satie inspira-o. A fronteira com o silêncio, o terrível silêncio, faz com que seja necessário aproximar a atenção e o ouvido. Sons ideais para colorir uma noite de Outono.



“Lost in Translation” é o título do mais recente trabalho discográfico de Roger Eno. Ao contrário do mano mais velho, Brian, Roger preocupa-se mais com o passado do que com o futuro. O que confere à sua música subtilezas que não cabem no corredor congestionado dos “tops”. É preciso sintonizar numa onda mais grave, para captar as suas subtilezas e as suas sombras. E abeirar-se do silêncio, essa fonte assustadora de onde brotam todos os sons.
PÚBLICO – Como é que descobriu “The Heretical Christian Thinkers” (os pensadores cristãos heréticos), de Waltius Van Vlaanderen? Não se trata propriamente de um “best seller”…
ROGER ENO – “Heretical Christian Thinkers, An Anthology”, é um livro compilado pelo reverendo doutor William Groves, um inglês da época vitoriana. Contém tratados de Waltius, d’Albenlo, Cuthbert de Tetley e John “The Unwashed”, um irlandês do século XII. A maioria dos trabalhos de Waltius foram queimados em 1340, daí não ser conhecido nenhum livro da sua autoria. Existem, contudo, peças isoladas espalhadas por algumas bibliotecas da Europa, nomeadamente na Flandres Heritage, em Gent, Bélgica. Há muito que me interesso por trabalhos (literários, pictóricos ou musicais) que transpirem uma certa atmosfera. Nos escritos de Waltius descobri um lampejo de uma época simultaneamente de fé e de confusão, a chamada “idade das trevas”, de onde nasceria a Renascença.
P. – Seguiu algum método particular na composição musical?
R. – Ao escrever a música para os textos de Waltius, procurei reter, pelo menos em parte, a “fragrância” da sua época. Usei referências ao cantochão e à ronda (canção em forma de cânone). Por outro lado, as formas melódicas foram, nalguns casos, determinadas por métricas pré-existentes e, obviamente, pela atmosfera global da sua escrita.
P. – O que quis dizer com o título do disco, “Lost in Translation” (à letra: “perdido na tradução”)?
R. – “Lost in Translation” pode significar, de facto, “detalhes ou significados alterados através do processo de tradução”, mas há uma relação mais curiosa: em especial na época medieval, quando um homem santo morria, os seus objectos pessoais, os seus ossos, as suas roupas, etc. eram levados do local da sua morte para uma abadia ou para uma catedral. Este processo era conhecido por “translating” (transladação), o que confere ao título do disco um significado bastante diferente.
P. – Como acontece em todos os seus discos, “Lost in Translation” é triste e melancólico. Existe alguma razão para esta melancolia?
R. – Interesso-me por música que tenha um ambiente [“mood”] forte. Muita da música que ouço é, ou pode ser considerada, sombria. Não encontro uma razão para isto. Em parte, talvez se deva à importância que dou à introspecção.

A Avenida Satie

P. – A influência de Erik Satie também pode estar relacionada…
R. – Erik Satie ensinou-me que é possível compor música maravilhosa com um mínimo de componentes e ser capaz de a tocar sem a necessidade de ser um virtuoso. A sua música exige um tipo diferente de aproximação. Decidi avançar por essa avenida.
P. – Ao contrário da música que o seu irmão (Brian Eno) faz actualmente, abstracta na forma, a sua é descritiva e romântica, quase feminina, o acompanhamento ideal para as vozes de Virginia Astley e Kate St. John. Sente-se à vontade no papel de acompanhante?
R. – Numa canção, a voz é o ponto fulcral. Além disso, interesso-me pelo que se passa num segundo plano, pelas atmosferas, pelas relações entre a melodia e a harmonia. Ou seja, pelos elementos evidentes de uma “performance” musical, as suas subtilezas ou a sua cor.
P. – Por que motivo não toca mais vezes com o seu irmão? Será que os vossos universos musicais são assim tão inconciliáveis?
R. – Brian interessa-se pelo presente e pelo futuro e eu pelo passado. Ocasionalmente estes dois mundos sobrepõem-se…
P. – A julgar pelos seus discos, fica-se com a impressão de que é um músico tradicionalista e, acima de tudo, um pianista, no sentido erudito do termo. Nem sequer usa sintetizadores…
R. – Sou talvez demasiado cauteloso no que se refere à “novidade” e ao temporário. Tenho a tendência para me apoiar nos elementos tradicionais, como suportes para a minha própria criação e não para a investigação de novas áreas. Talvez seja um defeito. A verdade é que me preocupo com a música, considerada como uma arte em si e não como uma parte da Arte, tomada num sentido mais vasto. Acho sobretudo importantes a evocação dos aspectos emocionais e as possibilidades, harmónicas e pictóricas, inerentes às doze notas da escala.
P. – Abstractizando: o silêncio ouve-se?
R. – Sou capaz de ouvir o silêncio, no contexto mais lato do ruído. Pode ser um silêncio expectante, ameaçador ou entediante. Não costuma existir numa festa… Escrevo música que incorpora o silêncio quase total ou mesmo o silêncio verdadeiro, como ingredientes que podem ser coloridos por sonoridades que lhes estão adjacentes. Mas o silêncio total, absoluto, aterroriza-me. Talvez seja a razão por que faço música.

Nota: A discografia oficial de Roger Eno é constituída pelos álbuns “Voices”, “Between Tides”, “The Familiar” (com Kate St. John), “In a Room” (com o grupo de música de câmara italiano Harmonia Ensemble), “Classicall Music for Those with Memory” (min-álbum, também com os Harmonia Ensemble) e “Lost in Translation”.