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Vários – “Música Das Terras Altas” (mundo da canção)

Pop-Rock / Quarta-Feira, 01.05.1991


MÚSICA DAS TERRAS ALTAS



“O Porto é um mundo” – dizem os que lá vivem. É bem verdade. E dentro desse mundo há a Mundo da Canção, importadora e distribuidora portuense vocacionada para as músicas menos imediatistas, nomeadamente o jazz, a contemporânea e a tradicional. Sobretudo neste último campo, tem sido exemplar o trabalho empreendido pela Mundo da Canção, representante entre nós de catálogos importantes que abrangem grande parte do périplo celta, como é o caso das editoras Temple (escocesa), Hannibal (inglesa), Claddagh (irlandesa) ou, mais recentemente, a Edigal (galega). Portugal, é óbvio, tem estado presente nos projectos da casa. Refira-se, como exemplo, que “Terreiro das Bruxas”, segundo e excelente álbum dos Vai de Roda, editado pela UPAV, muito deve, em termos de apoio e divulgação, aos esforços empenhados dos responsáveis da Mundo da Canção. De raiz mais étnica são os álbuns “Terra do Marão”, pela tuna O Toque de Carvalhais, e o volume seis da série Música Tradicional, “Terra de Miranda”, ambos editados no selo madrileno Saga e distribuídos pela Mundo da Canção. “Terra do Marão”, com produção, coordenação e investigação a cargo de Salustiano Lopes e António Tentúgal (mentor dos Vai de Roda), recolhe temas tradicionais de Carvalhais, freguesia de Louredo, concelho de Santa Maria de Penaguião, distrito de Vila Real, na fronteira das províncias de Trás-Os-Montes e Ato Douro, em plena serra do Marão, interpretados pela tuna da aldeia. As tunas são conjuntos instrumentais populares de cordas e sopros, ao “serviço da música de feição meramente profana”, cujos elementos “lutam contra os ‘altifalantes’ que lhes abafam completamente os instrumentos e as mentes”. A de O Toque de Carvalhais toca a música da serra e da aldeia que “jaz aos pés do monstro, situada num dos seus fossos mais profundos”. De Carvalhais, onde “ao crepúsculo de um dia de sol melhor se vê a silhueta da mulher deitada na serra”. “Terra de Miranda” recupera o dialecto mirandês, os instrumentos artesanais e as vozes rudes de homens e mulheres cujos corpos e almas se confundem com a própria matéria de que o mundo é feito. Nos lugares de Póvoa, Duas Igrejas, Constantim e Paradela. Escutar as melopeias e cadências ancestrais transmontanas é sentir a vida a fluir, pulsando ao ritmo das gaitas e dos bombos. É sentir o sabor do sangue.

Elektra – “Elektra Na Maioridade” (editora | artigo de opinião | história)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 24 OUTUBRO 1990 >> Pop Rock


ELEKTRA NA MAIORIDADE

A editora americana Elektra faz 40 anos. Os seus responsáveis tiveram uma ideia brilhante: reatualizar temas antigos, gravados por artistas da casa, através de interpretações dos atuais signatários. Revolvidos os arquivos da história, encontrou-se a palavra ideal para simbolizar o projeto – “Rubáiyat”



O termo designa uma estrofe poética, formada por dois versos facilmente memorizáveis, inventada pelo poeta persa Omar Khayyam no século XII e que o povo cantarolava, como se de refrões de música pop se tratasse. Posteriormente, em 1859, o modo “Rubáiyat” foi reatualizado por Edmund Fitzgerald, que escreveu vários “rubay” com que entretinha os seus compatriotas vitorianos. Durante cerca de 30 anos, dedicou-se a interpretar e a reinterpretar os seus próprios versos, atualizando-os constantemente. São dele os imortais versos “But still the vine her ancient ruby yelds / And still a garden by the water blows”. O “staff” da Elektra asseguram que têm tudo a ver com o aniversário da editora. Quem somos nós para duvidar? “Manhã” – escreveu o astrónomo e matemático Omar –, “deixa-nos entornar o vinho vermelho.” Então não tem tudo a ver? É o ato de emborcar, de celebrar, enfim, de arranjar à força um pretexto.

A Magia do Rubi

“Rubaiyat” é também rubi, vermelho, da cor do sangue – pedra preciosa que celebra aniversários assinalados pelo número 40. Vermelho, tal qual o logotipo da editora. As conotações são evidentes. Mas as significações do termo mergulham mais fundo, penetrando nos arcanos do universo e da magia. Rubi é pedra de telepatia, talismã que afasta os pesadelos quando guardado debaixo da almofada. Estranho: se for tocado nos quatro cantos de uma casa, protege os seus habitantes da trovoada. Além disso, irradia energia, segundo uma refração dupla que vibra na nota musical “mi” (em inglês “E”). Elektra começa por “E”. Elektra, uma das sete plêiades, filha de Oceanus, mãe das harpias, musa inspiradora da arte musical. Ena! Isto dos discos tem muito que se lhe diga. Não tem nada a ver com comércio nem negociatas. Nada disso. É tudo gente altruísta, preocupada com os mais altos desígnios humanos, envolta numa aura de santidade e mistério, lidando com forças transcendentes que mal compreendemos. Se não, como explicar que participem neste projeto nomes desde sempre ligados ao esoterismo e às difíceis artes do ocultismo, como Gipsy Kings, Howard Jones ou os Metallica?
Convidaram-se estes e outros artistas para interpretar temas antigos à sua escolha. Critério único dessa escolha – a ligação afetiva às canções do passado. A mistura de nomes e canções impressiona pela heterogeneidade. Não confundir com confusão. São contemplados todos os géneros e estilos musicais, desde os já citados Gipsy Kings e Happy Mondays a John Zorn e Kronos Quartet, passando por luminárias como Jevetta Steele, The Havalinas, Lynch Mob e o magistral Danny Gatton. “Rubáiyat” será lançado no mercado em três formatos: CD e LP duplos com discos em vermelho, mais cassete dupla, tudo acompanhado de livrete contendo informação detalhada relativa ao projeto.
Nada foi deixado ao acaso. Desde a apresentação até às táticas promocionais, a Elektra fez questão de ser original e diferente. Assim, o desenho das capas e o restante trabalho gráfico foram entregues aos gémeos Doug e Mike Starn, celebrizados na cena artística nova-iorquina pelas suas fotos-colagens. “Rubáiyat” constitui o primeiro dos seus trabalhos que autorizaram a ser usado para fins comerciais. No capítulo da promoção, foram escolhidos 6 CD-“singles”, cada qual com um tema destinado a uma área de divulgação radiofónica específica: Teddy Pendergrass, para o género “contemporâneo, adulto e urbano” (?), os Metallica para as listas de “heavy metal”, Faster Pussycat para o AOR (“adult orientated rock”), Gipsy Kings para o mundo latino e Michael Feinstein para a rádio em geral. Vinte e cinco por cento dos lucros obtidos revertem a favor das organizações “Greenpeace”, “United Negro College Fund” e “Save the Children”. Afinal ainda há almas caridosas neste mundo tantas vezes cão. É a força do rubi a exercer as suas influências cósmicas e benéficas.

A Editora



É bastante antiga. Começou por ser um passatempo e um caso de amor. Foi a 10 de outubro de 1950 que o seu primeiro diretor, Jac Holzman, então um estudante apaixonado pelas técnicas de engenharia aplicada à música, deu início às atividades. O primeiro disco, um doze polegadas, era uma “Lied” assinada pelo compositor John Gruen e a cantora Georgiana Bannister. Teve o número 101 e direito a quase o mesmo número de cópias. Dinheiro era coisa que não havia. Tanto assim que a letra “E” do logotipo, em caracteres mais ou menos gregos, de acordo com a ideia pretendida, teve de ser feita utilizando um “M” deitado… A seguir vieram baladas montanhesas “Appalache”, cantadas por Jean Ritchie – Jac Holzman era apaixonado pela música “folk”, se bem que às vezes o termo lhe causasse alguma confusão.
A Elektra, sediada a princípio nas traseiras de uma loja de discos em Greenwich Village, passou rapidamente para a rua Bleecker, número 361, local onde Jac foi aos poucos aprendendo os truques do ofício, que é como quem diz, de como fazer dinheiro à custa da música. Mas nessa altura era mais uma questão de sobrevivência e não havia lugar para luxos. A distribuição era feita em mão, e os discos transportados numa Vespa.
Ainda a designação “world music” não tinha sido inventada, já a Elektra gravava recolhas folclóricas, oriundas de Itália, Rússia, Turquia, Espanha, França, Escócia, Inglaterra, Israel, México e outras regiões que constassem no mapa. Jac Holzman afirma que a sua paixão pela “folk” se deve ao interesse que sempre nutrira pelos instrumentos antigos e que o cravo era o culpado de tudo. “Os cravos – afirma – deram origem aos alaúdes, estes às guitarras, as guitarras à “folk”, e a “folk” à Elektra. Quer ele dizer que, não fora aquele instrumento de teclas, a editora nunca teria existido. Alguém de lembra de Cynthia Gooding, Ed McCurdy ou Shep Ginandes? Ninguém? Nem do Ginandes? Pois eram os “folk singers” da altura e parece que até não se vendiam mal – só à conta de Ed McCurdy e das suas séries de baladas isabelinas de genérico “When Dalliance as in Flower (and Maidens Lost their Heads)” a editora faturou na ordem dos 900.000 dólares.

Ecletismo

Com a entrada nos anos 60, o recém-chegado Paul Rothchild operou a primeira mudança de agulhas. Era a vez dos baladeiros de intervenção entrarem em cena, ao mesmo tempo que o movimento das flores dava os últimos retoques nas pétalas. A Phil Ochs, Tom Rush, Tom Paxton e Judy Collins foi dada oportunidade de recitarem os seus manifestos. Paralelamente, na sucursal Bounty Records, entretanto fundada, despontavam os Beefeaters, nada mais nada menos do que os futuros Byrds. Buffalo Springfield, Lovin’ Spoonful e os Love, de Arthur Lee, eram os mais ilustres representantes do batalhão pop. Mas a força imparável deste último não obstava a que músicos como o guitarrista de flamenco Juan Serrano ou o “jazzman” Art Blakey tivessem um cantinho da casa reservado para si. Do mesmo modo que a música folclórica búlgara, décadas antes de as suas vozes se tornarem misteriosas ou de falarem com Deus.
Alargava-se o leque de formas musicais – em 1964, a Nonesuch passava a albergar os representantes da “clássica”. Estrearam-na uma seleção de temas para trompete barroco, de Albinoni, e uma antologia de autores franceses da corte de Luís XIV. Hoje, a Nonesuch constitui a ala mais interessante da Elektra, integrando alguns dos expoentes da música contemporânea como John Adams, John Zorn, Kronos Quartet ou Wayne Horvitz. Por seu lado, as séries Explorer dedicavam-se a editar coleções de discos que continham efeitos sonoros ou instruções em código morse.
No selo mãe, o pacifismo reinante no seio da “beat generation” era minado pela violência niilista dos MC5 e dos Stooges de Iggy Pop. O niilismo romântico de Nico era outra história, ainda hoje por contar. Místicos e de tendências pró-celta, os Incredible String Band, personificavam, de forma inteligente e original, o estilo “hippy”, através dos poemas étnico-psicadélicos dos multi-instrumentistas Robin Williamson e Mike Heron.
Terminados os anos da paz, e Elektra é vendida por Jac Holzman à Kinney National Services Corporation, por dez milhões de dólares, retendo embora a autonomia artística. Três anos mais tarde, é a fusão com as poderosas Warner Bros. e Atlantic. Harry Chapin, Bread e Carly Simon ajudam a compreender que o tempo e o espírito eram outros. Jac já não conhecia todos os cantos da casa, que entretanto crescera desmesuradamente desde os tempos nas traseiras da rua Dez. Sentia que se estava a repetir a si próprio. A repetição mata o amor. Jac retira-se para o Havai, para regressar na condição de perito da Warner na área de investigação tecnológica aplicada aos audio-visuais.

Negócio e Moral

David Geffen pega nas rédeas do poder e a Elektra é de imediato submetida a nova operação cirúrgica. O membro implantado é desta vez a Asylum. Novos recrutas: Jackson Browne, Eagles, Linda Ronstadt, Joni Mitchell, Tom Waits. “Hotel California”, dos Eagles, faz engordar muita gente. Os anéis começavam a não entrar nos dedos. A imagem da editora, já nas mãos do novo “boss” Joe Smith, era a de uma instituição tradicionalista que apostava em valores seguros e consagrados. Na passagem para a década de 80 vingava o gigantismo dos megaconcertos. Os Cars e Motley Crue chegavam para as encomendas. Também a “new wave” não ficara esquecida, com a assinatura dos Television e Dictators. Mais o “country & western” (Hank Williams Jr., Stella Parton) e os “rhythm & blues” (Donald Byrd, Grover Washington Jr.).
O testemunho é finalmente passado a Bob Krasnow, que pretende dar um estatuto “ético” à editora. Bob é um moralista. Por volta de 1983, enuncia a célebre máxima: “Todo o artista desta editora tem como única missão fazer música. (…) Quem vem apenas pelo dinheiro não pertence ao negócio da música, pertence ao negócio do dinheiro.” Donde se conclui que dinheiro e negócio não andam necessariamente juntos. Mas é na difícil arte da dialética que Bob se revela mestre, pois, logo de seguida, acrescenta ao ramalhete filosófico: “Também é verdade que ninguém se refere a uma ‘show art’, mas sim ao ‘show business’.” Completa o raciocínio com tirada mais profunda e por isso mesmo mais obscura: “Uma editora de discos tem de ter sucesso se quiser atrair artistas e público e, visto que o custo de construção de uma experiência estética tecnologicamente complexa se torna uma equação auto-suficiente, não é de espantar que os caminhos de atuação se tenham tornado circuitos fechados, oferecendo passagem fácil apenas à oferta mais diluída.” Ora, nem mais. Moral da história: a companhia mudou-se com armas e bagagens para Nova Iorque, cidade que como se sabe é das mais castas em termos de insensibilidade ao vil metal. Perto da catedral de St. Patrick e do centro Rockefeller, como que simbolizando a eterna luta entre o espírito desapegado e o mundo diabólico das finanças. E se, às vezes, o pobre capitalista sucumbe à tentação é porque, nisto das músicas, “à medida que alguém vai crescendo, torna-se vítima do seu próprio sucesso”. Pois é, coitados, são umas vítimas. Mas, no fundo, que importância tem tudo isso? Tudo se revela claro e inocente. E tem razão quem afirma que “é só música, uma canção que se canta e se vende”.

O Disco

É uma salganhada. Ainda por cima, tivemos direito apenas a uma cassete amostra que inclui um resumo aleatório, mal amanhado e ainda mais mal gravado, da totalidade da obra, deixando de fora nomes e ideias importantes e incluindo outros perfeitamente medíocres e de todo despropositados.
Dos que foram incluídos à laia de engodo, destaque para os Pixies e a versão paranoica e saturada de eletricidade, produzida por Steve Albini, de “Born in Chicago”, um original de 1965 dos Butterfield Blues Band; os Ambitious Lovers e o “funky” esquelético com que traduziram “A Little Bit of Rain” de Fred Neil; Wayne Horvitz e um Bill Frisell alucinado, a suportar Robin Holcomb, menina de voz tremida e poderosa como a da índia Buffy Saint Marie, de “Soldier Blue”, cantando “Going Going Gone”, do Bob Dylan de 1974; e os They Might Be Giants numa interpretação weilliana do original de Phil Ochs “One More Parade”. John Zorn e os seus companheiros Robert Quine e Bill Frisell foram cortados a meio mal tinham aquecido na histérica e coerente leitura que faziam de “T.V. Eye” dos Stooges. A fita não chegava…
O resto é Billy Bragg, mais frenético do que nas habituais tiradas políticas, em “Steven & Steven is” dos Love, os “rhythm & blues” dos Black Velvet Band para um original de Warren Zevon, o açúcar “pop Sugarcubes” sugado aos Sailcat, o “reggae” de Shinehead para um tema de Josh White, uma paródia à Pogues, em “Bottle of Wine”, de Tom Paxton, com acordeão e bandolim avacalhados, por parte dos Havalinas, os Happy Mondays armados em Stones no “Tokoloshe Man” de John Kongos, 10.000 Maniacs divertidíssimos e todos “seventies” a cantar “These Days” de Jackson Browne, como se fosse ontem, e, finalmente, os Beautiful South e mais uma voz feminina e inofensiva tentando imitar Kate Bush, com solos de sax pelo meio, em “Love Wars” da dupla Womack & Womack. Ah, sim, o anúncio abre com os Cure a assassinar “Hello I Love you” dos Doors. Os mesmos Cure que, parecendo ser os atuais meninos bonitos da editora, abrem e fecham o rubi, com a sua versão e direito a ver um tema seu, “In Between Days”, interpretado por John Eddie. Bem feito. Cá se fazem, cá se pagam.



Tudo ao Molho

De fora ficaram, por exemplo, a rendição de “Marquee Moon” dos Television, pelo Kronos Quartet, os Metallica de que seria divertido ouvir a maneira como trataram “Stone Cold Crazy” dos Queen ou Tracy Chapman e Linda Ronstadt interpretando respetivamente os tradicionais “Rising Sun” e “The Blacksmith”.
Jevetta Steele, Gipsy Kings, Faster Pussycat, Phoebe Snow, Ernie Isley, Howard Jones, The Big F, Georgia Satellites, Sara Hickman, Teddy Pendergrass, Jackson Browne, Shaking Family, Howard Hewett, Shirley Murdock, Leadres of the New School, Michael Feinstein, Lynch Mob, Anita Baker e Danny Gatton completam a lista dos “atuais” ignorados. Pensando melhor, depois de a ler, talvez haja razão para agradecer o facto de termos sido poupados à audição da totalidade de “Rubáiyat”. Da lista dos antigos constam, entre outros, os New Seekers, Eagles, Carly Simon, Delaney & Bonnie, Cars, MC5, John Fogerty, Bread, Incredible String Band e Judy Collins.
“Rubaiyat”, a julgar pela amostra, parte de uma ideia interessante para se perder numa megalomania pouco significativa em termos exclusivamente musicais. É caso para se dizer “muita parra pouca uva” ou que “a montanha pariu um rato”. Ou que “nem tudo o que luz é ouro”. Neste caso, rubi.

Vários – “A Aprendizagem Do Silêncio” (artigo de opinião | música ambiente)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 1 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Na Capa


A APRENDIZAGEM DO SILÊNCIO



Entre o silêncio e a totalidade dos sons disponíveis no universo, as permutações são infinitas. Os jovens fartaram-se de dançar e agora só querem levitar e passar para esferas mais altas. Brian Eno é que tinha razão.

O silêncio nasce do recolhimento, da pacificação dos sentidos e da mente. Experiência religiosa, inseparável do conceito “música ambiental”, cujo objetivo, de acordo com o sentido etimológico da palavra “religião”, é religar – o homem a si mesmo, à Natureza e ao transcendente. Ao contrário do rock que explode, dispersando, a nova música implode, concentra, num movimento de “a-tensão”.
Oficialmente, foi Brian Eno o inventor do termo e da atitude, quando, por acidente, numa ocasião em que se encontrava imobilizado num leito de hospital, reparou que certas sonoridades musicais, se escutadas a baixos níveis de volume, tendiam a harmonizar-se com os sons ambiente, criando uma holografia sonora, por vezes erradamente designada como “música de fundo”.
Os antecedentes remontam, contudo, à escola “planante” alemã (Klaus Schulze, Tangerine Dream, Manuel Gottsching, Cluster, Deuter, Popol Vuh pegaram em baterias e sintetizadores e sequenciadores e transformaram o lado eletrónico dos Floyd em palácios majestosos onde se desenrolaram os sonhos cósmicos da geração pós-hippie), às teorias de La Monte Young firmadas no seu “Theatre of Eternal Music”, ao Zen e à música religiosa ritual (indiana, tibetana). Por outras palavras: êxtase sem “Ecstasy”.
Parece que a Ambient House é o último grito na periódica reciclagem dos produtos lançados pela indústria e pelos “media”, visando a também cíclica manipulação do gosto das massas consumidoras. O tiro foi disparado pelos KLF, com o álbum “Chill Out”, versão “house” dos Pink Floyd de “Meddle” (na música) e “Atom Heart Mother” (na capa). De repente, surgiram por todo o lado novas bandas a tocar música ambiental, citando como heróis nomes ainda há bem pouco atirados para a lama, como os Floyd, Klaus Schulze e Eno, indiscriminadamente etiquetados com o rótulo depreciativo de “New Age”. As pessoas, diz-se, fartaram-se de dançar e querem é sopas e descanso. Nas grandes metrópoles abrem clubes em que os frequentadores em vez de dançarem, ouvem (pasme-se) apenas a música. Fala-se da Natureza, do Sol, de passarinhos e do mar.

A Idade de Aquário

É certo que, por detrás da confusão e das operações de “marketing”, há razões cósmicas concretas. Entrámos na era de Aquário, e quer queiramos quer não, as cabecinhas começam a receber as vibrações transmitidas da grande estação emissora central, situada, quem sabe, no coração do Sol, como cantavam os Pink Floyd em “Ste the Controls for the Heart of the Sun”.
Ninguém reparou, ocupados que estavam todos com o frenesim da dança e da “techno” qualquer coisa, que dezenas de músicos, espalhados pelo mundo, que nunca se preocuparam com as voltas do tempo e das modas, há muito vinham construindo os alicerces de que hoje os novos se servem para edificar à pressa as “novas” teorias de misticismos requentados.

Bons ambientes

Sistematizemos então as principais correntes “ambientais”, de teor mais ou menos contemplativo e compartimentadas por editoras:
ECM – Invenção do produtor Manfred Eischer. Sons puros, cheios de reverberação e gravações impecáveis. Embora voltada para o jazz, cedeu parte do seu espaço às contemplações de Stephan Micus (que gravou um disco na catedral de Ulm, utilizando o som de pedras percutidas e o eco do templo, noutros discos servindo-se de instrumentos exóticos e de vasos afinados), Terje Rypdal (“Odyssey”, “After the Rain”) e Jan Garbarek (“Dis”, “Eventyr” – com harpas eólicas, “The Legend of the Seven Stones“).
Celestial Harmonies – De ressonâncias clássicas eruditas. Os seus artistas aliam o rigor conceptual a uma atitude geralmente mística. O Oriente é a principal fonte inspiradora. Peter Michael Hamel (teórico e autor de obras fundamentais na exploração dos teclados num contexto religioso, como “The Voice of Silence” ou “Nada”), o argentino Roberto E. Detrée (construtor de uma “Architectura Celestis” soando a cristais vibrando no éter) e Paul Horn (que toca a sua flauta nos espaços sagrados de vários templos do globo, como em “Inside the Cathedral” ou “Inside the Taj Mahal”) são algumas das referências importantes deste catálogo.
Recommended – Aqui se congregam as experiências mais interessantes e originais neste domínio, segundo uma corrente estética que recorre à pluralidade de fontes sonoras e tradições universais para criar sínteses inimagináveis. Os seus expoentes são Charles W. Vrtacek (“Learn to be Silent”, “When Heaven Comes to Town”), Steve Moore (“A Quiet Gathering”) e Philip Perkins (“Hall of Flowers/The Flame of Ambition”), mestres na arte da colagem e da utilização heterodoxa do “sampler”. Menção especial para a escola italiana, de certo modo já afastada do conceito “ambiental”, partindo para fusões que desembocam em territórios próximos da “world music” (“Water Messages on Desert Sand” e “Urban and Tribal Portraits”, obras geniais da dupla Roberto Musci-Giovanni Venosta), ou da música eletrónica “convencional” (Piero Milesi, Ricardo Sinigaglia). Do lado do pesadelo, os Biota destroem todas as noções e convenções, esculpindo formas distorcidas em “Vagabones & Rockabones”.
E.G. – Alberga no seu seio o inventor do género, Brian Eno. Todos os seus discos, a partir do seminal “Discreet Music”, incluindo “Music for Films”, “On Land” e “Apollo Atmospheres & Soundtraks”, são bíblias para a nova geração de “ambientais”. Da matriz Eno, destacam-se o pianista do silêncio, Harold Budd (“The Pavillion of Dreams”, “The Plateaux of Mirror”, “Lonely Thunder”) e o exótico Laraaji e as suas mantras hipnóticas no saltério eletrificado em “Day of Radiance”. Jon Hassell reina nas suas músicas do “quarto mundo”. “The Sinking of Titanic”, de Gavin Bryars, alarga o género até às dimensões da tragédia. O trio Budd-Hassell-Bryars gravou, embora para a Sub Rosa, um dos clássicos do movimento, o vol. 2 da série Myths (“La Nouvelle Serenité”), que inclui dez minutos de gravações de sons ambientais como sinos, pássaros e cânticos religiosos.
Referência ainda para alguns nomes sortidos: Benjamin Lew-Steven Brown (“A Propos d’un Paysage”), O Yuki Conjugate (“Into Dark Water”), Virginia Astley (“From Gardens where we Feel Secure”), Robert Rich (“Numena”), Jeff Greinke (“Timbral Planes”).
Escolham-se os ambientes e parta-se à descoberta do admirável mundo novo.