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Vários (Arcady, Strobinell, Vartinna) – “Bailes Nocturnos Animam Intercéltico – Terço De Sortilégios”

cultura >> terça-feira >> 27.02.1996


Bailes Nocturnos Animam Intercéltico
Terço De Sortilégios



OS IRLANDESES Arcady, os bretões Strobinell e as finlandesas Varttina são três dos nomes fortes que vão actuar no VII Festival Intercéltico do Porto, a realizar no cinema do Terço nos dias 29, 30 e 31 de Março. A representação nacional é da responsabilidade dos Gaiteiros de Lisboa e da Brigada Victor Jara, completando-se o programa com a banda do gaiteiro galego Carlos Nunez. Depois, como sempre, cultiva-se o bom hábito de fazer do festival um campo alargado de cultura e diversão, através das chamadas actividades paralelas. Este ano haverá até um baile anunciado fora de portas, com os Strobinell preparados para transformar a “gruta” do Castelo (o hotel onde, altas horas da madrugada, se desenrola como que um Intercéltico paralelo…) no palco de uma “festoù-noz” (baile nocturno) improvisada. Aberta a quem quiser participar.
Sexta-feira, Às 21h30, o Festival saúda oficialmente os Gaiteiros de Lisboa, uma força da natureza, com as suas “Invasões Bárbaras” a prometerem fazer a vida difícil, na segunda parte, À nova banda do “virtuose” da gaita galega, Carlos Nunez, o homem que faz soar as estopinhas a Paddy Moloney, dos Chieftains (“Carlos Nunez é um génio absoluto que, Às vezes, nos chega a roubar o nosso espectáculo. É preciso vigiá-lo bem!”). O que acontece sempre que ousa desafiar com a sua gaita plebeia, as reais “Uillean pipes”.
O dia seguinte é de sonho. Os Strobinell (“sortilégio”), da Bretanha, trazem as bombardas e o biniou-kohz para o Terço. Uma visão personalizada das “dans-plinn”, “dans-fisel” e “laridés” tradicionais que faz dos Strobinell, juntamente com os Skolvan e os Storvan, uma das maiores bandas bretãs da actualidade. Em Portugal está disponível o álbum “Na Aotrou Liskildri” mas a novidade será o lançamento mundial, no segundo dia do Festival, do seu novo trabalho, “Breizh Hud” (“Bretanha Mágica”). A seguir, as quatro Varttina, acompanhadas por uma secção instrumental de seis elementos, irão desvendar de uma vez por todas o segredo que lhes permite juntar nos seus cânticos jubilosos a tradição da Karelia celta com a música pop, a exemplo do que fizeram no seu álbum mais recente, “Aitara”.
Domingo receberá primeiro a Brigada Victor Jara, o grupo decano da música portuguesa de raiz tradicional, que apresentará as suas “Danças e Folias”. Com algumas surpresas na manga. Aos irlandeses Arcady compete fazer descer o pano sobre o Intercéltico. Integram o grupo, dos mais importantes da cena folk actual, dois “monstros sagrados”, o professor do “bodhran” Johnny “Ringo” McDonagh, debutante em anos já distantes nos De Danann, e o acordeonista Conor Keane, aos quais se veio juntar a nova aquisição, Niamh Parsons, uma voz feminina recém-chegada do selo escocês Greentrax.
Entre as actividades paralelas destaca-se, no dia 30, às 16h30, no Institut Français do Porto, a conferência subordinada ao tema “A Iconografia da Gaita-de-Foles no Noroeste Peninsular”, por Xosé Lois Foxo, director da Real Banda das gaitas de Ourense. No mesmo dia, no restaurante Pax, pelas 14h, terá lugar o lançamento do livro “Eurofonias – Uma Viagem Musical através da Europa dos Povos”, da autoria de Mário Correia. Um primeiro volume que viaja dos Cárpatos aos Balcãs, da Escandinávia à Europa Central, descendo até ao Mediterrâneo. Ainda no mesmo dia e no capítulo editorial, Philippe Page apresentará o catálogo “Artic/Paradise”, de música tradicional e popular da Finlândia. Ao longo do fim-de-semana estará patente, em local ainda por designar, uma exposição de cartazes da Bretanha. As habituais feira do disco e exibição de “vídeos” recebem os interessados no “hall” do Terço.
O Intercéltico volta a ser obra de um “tandem” que, através da música tradicional, tem levado cada vez mais longe o nome da cidade invicta. A iniciativa é do Pelouro de Animação da cidade-Câmara Municipal do Porto. A organização produção e divulgação cabe à MC-Mundo da Canção.

Vários | Hexagone – “Divulgados Segredos do Hexágono” (editora)

Pop-Rock, Quarta-Feira, 03.07.1991


DIVULGADOS SEGREDOS DO HEXAGONO

A Hexagone foi a principal editora francesa dos anos 70, na área da música folk. Contando com o grupo Malicorne como cartão de visita, foi alargando o catálogo até albergar no seu seio tendências tão diversas como as experiências de renovação da música tradicional, de expressão francesa, a ortodoxia militante do tango de Juan José Mosalini, ou o genuíno reggae dos Steel Pulse. As capas, do tempo em que não era necessário poupar cartão, são pequenas maravilhas. Mas a mudança dos tempos implicou a reconversão para o formato CD de, para já, dez títulos deste catálogo, em boa hora distribuído entre nós pela MC-Mundo da Canção.



Surgidos na primeira metade dos anos 70, na altura em que, do outro lado da Mancha, o “folk revival” britânico atingia o apogeu, e em Frnaça, seguindo o exemplo do bretão Alan Stivell, se davam passos semelhantes, os Malicorne constituem, para muitos, o expoente máximo daquilo que é possível fazer de novo, sem atraiçoar o espírito original, a partir da infinita matriz da música tradicional.
Datado de 1974, “Malicorne” irrompe na cena folk com a imponência e majestade de um monarca que, por direito divino, se prepara para tomar posse do seu reino. Clássico nas premissas, o álbum evidencia já o leque de estímulos estéticos e a fabulosa capacidade geradora de imaginários luxuriantes fundados e forjados nas lendas e rituais celtas, de que a banda se viria a revelar formidável cultora.
Entre as rondas, “bourrées” e “branles” gaulesas, avultam as baladas divinamente interpretadas pelos irmãos Yacoub, Gabriel e Marie, e as sonoridades de ressonâncias medievais, arrancadas aos céus e aos abismos por uma instrumentação rica e diversificada, onde pontificavam o violino, “bouzouki”, saltério, bandolim, órgão de foles, cromorna, espineta e sanfona.
Para a história ficariam este e os álbuns seguintes, anteriores à decadência: “Malicorne” (foram editados três discos diferentes com a mesma designação), “Almanach”, “Malicorne”, “L’Extraordinaire Tour de France d’Adélard Rousseau” e “Le Bestiaire”.

Ciclos Mágicos

No ano seguinte, novo disco intitulado “Malicorne”. Histórias de guerras e de amores: a rendição amorosa de Henriette de France ao rei Carlos I de Inglaterra, em “Le mariage anglais”. Os passeios de Marion, “La fille aux chansons”, por um jardim encantado à beira-mar, até ser raptada por piratas. O voyeurismo juvenil do “galante indiscret” que olha a sua “nanette” na penumbra gelada da meia-noite. Motes gregorianos, “andros” bretões, canções nascidas das profundezas do cancioneiro occitano. Mil e uma maneiras de cantar o lado mágico do mundo.
“Almanach”, álbum conceptual, é um “pequeno almanaque das tradições, festas mágicas e procedimentos que devem ser seguidos durante os doze meses do ano”. Para Gabriel Yacoub, só o conhecimento das práticas mágicas e dos ciclos cerimoniais, relacionados com as estações do ano, permite “compreender em profundidade o fundo espiritual dos cantos tradicionais”.
“Malicorne”, álbum número quatro, aprofunda a vertente clássica do grupo: “Nous sommes sonneurs de sornettes”, gavota retirada de “Terpsichore”, recolha de danças antigas compiladas por Michael Pretorius, entre 1571 e 1621, “Daniel mon fils”, inspirada no canto litúrgico das “Vésperas”, ou “La fiancée du timbalier”, escrita com base numa “pastiche” de Victor Hugo sobre a poesia medieval, projectam os Malicorne na busca do alicerce definitivo que sustenta o mundo e fundamenta a liberdade. Histórias sem fim, cíclicas, de transformações, típicas da mitologia celta: “La blanche biche” conta as desventuras da deusa Sarv, meio mulher, meio raposa, numa complexa polifonia vocal, em que a voz de Marie Yacoub se eleva sobre um “órgão de vozes” celestial.
O sonho prosseguiria, já na Elektra, com “L’Extraordinaire Tour de France…” (viagem iniciática de um pedreiro-livre pelo país de França) e “Le Bestiaire”. “Le Balançoir en Feu” e “Les Cathédrales de l’Industrie” pouco ou nada têm que ver com a aventura inicial.

Quintas-essências

De certa forma discípulos dos Malicorne, os La Bamboche constituem outra importante coluna do templo. Com quatro álbuns gravados (dois de título homónimo, “Quitte Paris” e “Née da la Lune”), os La Bamboche, liderados por Jean Blanchard – músico que deverá vir a Portugal, durante os II Encontros da Tradição Europeia, a realizar brevemente -, enveredam, na fase Hexagone, por uma via mais tradicionalista, recorrendo às danças rurais e ao “sabor a terra” da sanfona, do acordeão e da rabeca. A editora optou, para já, pela edição da colectânea “Quintessence” (genérico igualmente utilizado para os Malicorne, num e noutro caso subintitulado “pequeno sumário das suas mais belas cnções…”).
“Le Grand Bal Folk” reúne os Malicorne, La Bamboche, La Chiffonie e Le Grand Rouge na celebração feérica das danças rurais (na capa referem-se as “bourrée”, valsa, polka, mazurka, marcha “scottish”, giga, gavota e “branle”…). Quem, nos tempos de hoje, sabe ainda dançar como mandam as regras?
Grupo emblemático da folk magiar, distante dos códigos enunciados pelos Vosjikas, Sebö Ensemble ou os Muzsikas, de Marta Sebestyen, só para citar alguns nomes editados em Portugal, os Kolinda caracterizam-se por uma aproximação sofisticada (e estilizada) ao folclore húngaro, sem renegarem as “vozes” de instrumentos tão característicos como o “gardon” (espécie de violoncelo esculpido num tronco de árvore), a espineta húngara ou o oboé turco (versão da popular bombarda bretã). Destaque para a voz profunda e misteriosa, de Agnes Zsigmondi e para os arranjos, tradutores da vertente mais soturna e dramática da sensibilidade magiar.
Completam a lista dos compactos agora editados pela Mundo da Canção os tangos de “Don Bandoneón”, superiormente interpretados a solo, no bandónio, por Juan José Mosalini, e a viagem guitarrística pelos universos de fábula de “Douar nevez” (“terra nova”), empreendida com algumas cedências de mau gosto ao rock por Dan Ar Bras, antigo companheiro de Alan Stivell, nos tempos de “Chemins de Terre”.
Do catálogo Hexagone constam ainda (por enquanto só em vinilo) outras obras dos já citados La Chiffonie, Kolinda, La Bamboche e Le Grand Rouge, bem como dos Vielleux du Bourbonnais (quatro sanfonineiros e dois gaiteiros), dos argentinos Lagrima e Tiempo Argentino e dos mexicanos Tequila. Por estas e por outras é que gostamos tanto dos franceses.

Vários (Vai de Roda, Gwendal) – “Festival Intercéltico Terminou – Bruxas À Solta No Porto”

Secção Cultura Segunda-Feira, 22.04.1991


Festival Intercéltico Terminou
Bruxas À Solta No Porto


Os portugueses Vai de Roda e os bretões Gwendal fecharam, com chaves de ouro e prata, a semana da Bretanha. Os portugueses provaram que o futuro é compatível com a tradição. Os bretões apostaram na fusão de estilos e no virtuosismo. Durante quatro dias, o Porto foi a capital celta.



António Tentúgal, ficou provado, é um perfeccionista. Sábado, no espectáculo ao vivo dos Vai de Roda, nada foi deixado ao acaso, de maneira a transformar a sala do Teatro Rivoli num palácio se sortilégios. Ainda as pessoas se acomodavam nos respectivos lugares e já, na penumbra do palco, se faziam ouvir os “espanta diabos”, chocalhos e assobios, a afugentar os maus espíritos e a criar a atmosfera propícia à vinda das “bruxinhas boas”.
Tentúgal (sanfona, braguesa, “tin whistle”, acordeão e ponteira), Bilão (braguesa, bandolim, “bodhran” e harmónica), Tinó (acordeão), Cristina (sintetizadores), Emanuel (violino) e Miguel Teixeira (guitarras clássica e folk, braguesa, cavaquinho e percussões) recriaram, no recinto, um mundo mágico, encenado e narrado em histórias de encantar e lenga-lengas que evocam memórias ancestrais perdidas nas brumas do tempo.
Ao contrário de outros grupos que por aqui passaram (como os Na Lua ou os próprios Gwendal), nos Vai de Roda a electricidade não se intromete nos assuntos do espírito, antes com ele se casa e harmoniza. Os sintetizadores manipulados pela Cristina servem a natureza e a fonte tradicional, arquitectando ventos e trovoadas ou compondo ressonâncias palacianas fundadas em ritmos nascidos das entranhas da terra-mãe digita.
“Rosinha vem-te comigo” foi o tema escolhido para abrir o concerto, embalado no enovelar da sanfona e na doçura das palavras cantadas por Tentúgal, criando desde início, entre o público, um espaço de silêncio maravilhado. Público que no fim se rendeu completamente ao universo onírico dos Vai de Roda, culminado, de forma sublime, na interpretação do tradicional transmontano “La Vitorina”. Depois, impressionaram as vozes de todos os elementos masculinos da banda, juntas nas celebrações do “S. João” e a concepção teatral a que todo o concerto obedeceu, de modo a tornar as canções de “Terreiro das Bruxas”, numa espécie de livro de histórias a que não faltou sequer o toque picaresco do erotismo popular, na narração dos amores proibidos entre um alho-porro e uma donzela inocente… Os Vai de Roda regressaram ao palco para um merecido “encore”, através do instrumental “Realejo sacabruxas”, de mãos dadas com o mafarrico, que deixou no ar um aroma de flores e enxofre.
Os Gwendal, fundamentalmente um duo constituído por Youenn le Berre (flauta electrificada, “tin whistle” e gaita-de-foles”) e Robert Le Gall (violino electrificado e guitarra eléctrica), acompanhados na ocasião por quatro músicos, nos sintetizadores, baixo, guitarra eléctrica, guitarra acústica amplificada e bateria, interpretaram temas do seu mais recente disco “Glen River”, utilizando a receita habitual – técnica irrepreensível de todos os executantes (com destaque para as proezas na flauta de Le Berre), electricidade à solta e uma mistura de estilos que abrange o jazz, a música africana, as danças bretãs e os endiabrados “airs” e jigas irlandeses. Houve espaço para tudo, até para solos de bateria e guitarradas que mais faziam lembrar os Dire Straits. Oscilando entre o bom (nos temas mais tradicionais) e o péssimo (nas “rockalhadas” de bailarico de subúrbio), os Gwendal disfarçaram contudo os pontos fracos com as proezas técnicas dos músicos. Ainda houve quem, ao canto da sala, se atrevesse a dançar, mas a complexidade dos compassos e dos arranjos cedo desmotivou os atrevidos.
Feito o balanço do Festival, fica a certeza de um sucesso organizativo, em termos artísticos e de bilheteira, e a promessa de, para o ano, regressar ainda com mais força, se possível, integrado, a exemplo do “Fantasporto”, na programação oficial da Câmara Municipal. A cidade e a música só teriam a lucrar.
Uma palavra final de louvor para a organização, a cargo da Mundo da Canção, através dos seus mentores, Avelino Tavares e Mário Correia, impecáveis em todos os aspectos, sem esquecer Bernard Despaumadères (gaulês de coração tripeiro), do Instituto Francês do Porto, entidade produtora do Festival, que soube como ninguém fazer a ponte entre a capital nortenha e a Bretanha. O mundo celta está de parabéns.