Arquivo mensal: Abril 2024

Bleizi Ruz, Cran, Leilia, La Musgana – “Sons Da Via Láctea” (festival)

pop rock >> quarta-feira, 16.06.1993


SONS DA VIA LÁCTEA



Hent Sant Jakez é o nome dado na Bretanha ao caminho para Compostela. Santuário de milenar peregrinação, Santiago de Compostela simboliza o ponto de chegada (há quem defenda que a obra só estaria completa com a deslocação para Sul, até uma certa serra portuguesa junto ao mar…), físico e simbólico, de uma iniciação, demanda alquímica do homem em busca do seu centro divino. Hent Sant Jakez designa simultaneamente um outro tipo de caminho, musical, através da recriação dos passos, sons, lendas e imagens de uma das mais antigas aventuras da Europa peregrina e desbravadora dos mundos que estão por vir.
Com início no bar Triskell, em Brest, na Bretanha, e fim na Casa das Crechas, na Galiza, junto à mítica catedral, o projecto Hent Sant Jakez (com produção portuguesa da MC – Mundo da Canção), montado por Leula Prado, da editora discográfica galega Guimbarda, e Eric Liorzou, músico dos bretões Bleizi Ruz, faz uma pausa na Aula Magna, assentando arraial nas Festas da Cidade de Lisboa. Integram a comitiva musical desta espécie de festival ditado pelo brilho da Via Láctea, para além dos próprios Bleizi Ruz, os grupos Cran, da Irlanda, Leilia, da Galiza, e La Musgana, de Castela. Xesús Carballido, ex-Alecrim, assegurará a reconstituição do vestuário medieval, bem como a disposição cénica do espectáculo, enquanto Xulio Villaverde, co-fundador da Casa das Crechas, terá a seu cargo a representação teatral de diversos personagens conotadas com o caminho das estrelas.
Histórias, contadas por Xesús Carballido, danças, jogos de luz e música celta vão decerto constituir um momento de excepção no programa das Festas, trazendo para o coração da urbe lisboeta as pulsações e motivações de um outro tempo, quando o homem se regia pelo sagrado e a palavra “viagem” significava mais que simples deslocação no espaço.
Segue-se o nome, a estela (a concha em forma de estrela que simbolizava o guia interior do peregrino) e o bordão dos principais protagonistas. Belizi Ruz: Eric Liorzou (guitarra, mandola, voz), Bernard Quillian (bombarda, gaita-de-foles, “tin whistle”, voz e Loic LeBorgne (acordeão, sintetizadores, voz). Álbum disponível em Portugal: “Bleizi Ruz en Concert”. Cran: Desi Wilkinson (flautas, violino, voz) e Sean Corcoran (bouzouki, voz). Quatro álbuns, nenhum disponível em Portugal. La Musgana: Enrique Almendros (gaita-de-foles, tamboril), Jaime Munoz (clarinete, acordeão), Cuco Perez (acordeão), Luis Delgado (percussão, sanfona, alaúde) e Carlos Becairo (caixo, cistre). “El Paso de la Estangua” (só em vinilo) e o recente “Lubican” disponíveis em Portugal. Leilia: Mercedes Rodriguez, Rosario Rodriguez, Ana Rodriguez, Felisa Otero, Patricia Otero, Montserrat Crespo, vozes e percussão, e Manuel Novais, gaita-de-foles. Dois álbuns, por enquanto não disponíveis por cá. Acenda-se o forno, prepare-se o cadinho e encete-se a obra.
FESTAS DA CIDADE
PORTO – PRAÇA DA RIBEIRA, 22H
LISBOA – AULA MAGNA, DIA 19 DE JUNHO, 22H

Jean-Michel Jarre – “Chronologie”

pop rock >> quarta-feira, 16.06.1993


Jean-Michel Jarre
Chronologie
CD Dreyfuss, distri. Polygram



Entre dois megaconcertos para plateias de milhões, Jean-Michel Jarre lá vai gravando, para gigantones electrónicos, as suas peças com tanto de desmesuradas como de inconsequentes. Há excepções e essas mostram que o francês, quando quer, até consegue fazer valer a sua música com o recurso a outro tipo de argumentos. É o caso de “Zoolook”, com a participação de Laurie Anderson e Adrian Belew, ou do recente “Waiting for Cousteau”, que inclui uma faixa ambiental de cinquenta e tal minutos capaz de fazer Brian Eno corar de vergonha. “Chronologie”, peça única, ambiciosa do alto das suas oito subdivisões, não pertence infelizmente a esta categoria sendo, antes, mais um daqueles pastéis em que os sintetizadores lutam uns com os outros para ver qual grita mais alto e as melodias se revolvem até à náusea na fórmula, raramente ultrapassada, de “Oxygène”. “Chronologie 4”, uma das partes dançáveis, foi repescada por uma série de grupos “rave”, entre os quais os Sunscreen, através das habituais “mixes” e “remixes” em que a única função é fazer dar ao pé com o piloto automático ligado. Deve ser difícil ser-se casado com Charlotte Rampling e ainda ter tempo para fazer música interessante. (4)

Barry Adamson – “The Negro Inside Me”

pop rock >> quarta-feira, 16.06.1993
NOVOS LANÇAMENTOS POP ROCK


Barry Adamson
The Negro Inside Me
CD Mute, distri. Edisom



Quando não tem bandas sonoras Barry Adamson inventa-as. Assim aconteceu com “Moss Side Story” e o anterior “Soul Murder”. Filme a sério teve-o o ex-Magazine em “Delusion”. Desta feita o referente imaginário cinematográfico – recuperado logo pelo aspecto gráfico da ficha técnica, elaborado à maneira de um filme – emergiu numa curta-metragem de trinta e um minutos na qual Adamson foi buscar as sonoridades “standard” das fitas, sobretudo policiais, dos anos 60 e 70, aqui postas em relevo através das deambulações solistas do órgão Hammond e de um infatigável maremoto rítmico entre “Shaft” e o acid-jazz. Dos seis apontamentos que compõem “The Negro Inside Me” destacam-se “Busted”, com os sopros a explodirem em ondas “funky” próximas de Booker T. and the MG’s e o trabalho de corte e costura das técnicas de “dub” equidistantes às do álbum novo de Holger Czukay, e o genérico final “A perfectly natural union”, no paziguamento de um diálogo a três entre um vibrafone “cool”, um contabaixo e o restolhar das vassouras nas peles dos tambores.
“The snowball effect” abre com a desbunda do Hammond, “Dead Heat” serve-se de vários lugares-comuns do “thriller” de série B, com ambulâncias e sirenes de polícia a empurrarem o tema para o lado mais óbvio e “Cold black preacher” aposta no registo mistério.
Sobra uma versão do clássico “kitsch”/erótico “je t’aime moi non plus” em que os trejeitos mecânicos de Louise Ness não fazem esquecer os genuínos orgasmos, gravados “in loco” na cama por Jane Birkin. Mas como em tempo de sida e “safe sex” não convém originar grandes excitações, tem que aceitar-se o novo arranjo, à laia de preservativo.
Um álbum interessante, de baixo orçamento, a anteceder talvez uma próxima grande-produção que dê a Barry Adamson o direito de deixar a marca do pé gravada no mítico passeio em frente ao Chinese Grauman’s Theatre. (7)