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Chico Buarque de Holanda – “Chico Buarque Em Portugal – Geração Derrotada”

cultura >> quinta-feira >> 27.05.1993


Chico Buarque Em Portugal
Geração Derrotada


Chico Buarque regressa a Portugal e aos sons num novo espectáculo de “reconciliação com a música e o violão”. Canções novas, outras pouco conhecidas, a rodagem para um novo disco a editar no final do ano. A contrariar a imagem de um homem desiludido que fez parte de “uma geração derrotada”: “Nos anos 70 queria derrubar o Governo. Hoje não quero derrubar governo nenhum.”

Envergando uma camisola azul-escura de gola alta (dá a impressão que ultimamente apenas veste camisolas azuis de gola alta), olhar atento e penetrante, Francisco Buarque de Holanda, Chico Buarque, falou ontem em conferência de imprensa realizada na embaixada do Brasil sobre o seu novo espectáculo, com organização da Propalco, a apresentar em Portugal. Hoje À noite no Teatro São Luiz, só para convidados, com filmagem da SIC para posterior apresentação televisiva; dias 28 e 29, no Pavilhão Carlos Lopes, dia 3 de Junho em Aveiro, no Teatro Aveirense, e 4 e 5 de Junho no Coliseu do Porto. Todos às 22h.
“Mais ‘cool’, intimista – prometo não dançar – e apurado musicalmente” que o seu anterior “show”, “Frncisco”, é como o cantor e compositor brasileiro define a nova apresentação ao vivo, ultrapassada para já a faceta de escritor que lhe tomou toda a atenção durante os últimos meses. Do novo recital, como Chico Buarque prefere chamar-lhe, fazem parte quatro canções novas: as parcerias “Choro bandido”, com Edu Lobo, “Pianao na Mangueira”, com Tom Jobim, e “Outra noite”, escrita para a mini-série portuguesa “Procura-se”, ainda inédita, com Luís Cláudio Ramos, maestro e guitarrista do actual agrupamento, além de um novo arranjo para o tema “Pivete” (o puto da rua, no Brasil).
O resto será constituído por temas menos conhecidos do público aos quais se irão acrescentar novas composições, à medida que a digressão for decorrendo, para inclusão num próximo álbum a editar no final do ano. Completam a banda que acompanha Chico a Portugal o percussionista Chico Batera, o baterista Wilson das Neves, o baixista Jorge Hélder, o pianista João Rebouças e Marcelo Bernardes, nos sopros.
Chico Buarque, prestes a atingir os 50 anos de idade, está diferente. Joga futebol e distancia-se da política: “Aconteceu alguma coisa nova em política este ano no Brasil?” A ironia, percebe-se, tornou-se uma arma de dois gumes. Deixou de parte os temas mais politizados porque “há canções que ficam datadas, demasiado vinculadas a determinados momentos. Até podem voltar mais tarde, mas com uma referência histórica. Existe um hiato de tempo em que é melhor elas ficarem na geladeira”.
Canções “escritas na época mais dura da repressão brasileira, pela necessidade de contestar, mas que com o tempo se desgastam”. Depois, “a quantidade de problemas e de miséria é tão grande que chega a saturar. A canção, que pretendia tocar as pessoas, chamar-lhes a atenção, despertar emoções, tornou-se insuficiente. A realidade está ali gritante, na televisão e na rua, em toda a parte”.
Nota-se nas palavras o cansaço e a desilusão. Para o autor da “Ópera do Malandro”, “o papel político do artista tem muito menos peso hoje do que nos anos 70”. Aponta como exemplo as campanhas eleitorais em que “os artistas se fazem pagar para fazer propaganda política. Há dez anos, quando se queria insultar um artista dizia-se que tinha sido pago para fazer tal propaganda. Hoje já não é insulto mais uma coisa rotineira. Tudo ‘show business’”.
Sem querer fazer “juízos de valores”, Chico Buarwue diz que “são profissionais que, assim como anunciam uma geladeira ou um automóvel, também anunciam um candidato político”. “A opinião do artista”, acrescenta, “perdeu em termos de testemunho para se transformar num testemunho meramente comercial.”
Mas não se escusou a comentar problemas como a segregação dos brasileiros em Portugal (o cantor manifestou-se, inclusive, preocupado com a possibilidade de a sua filha ser impedida de desembarcar em Lisboa na próxima quinta-feira, por não trazer os documentos em ordem, estar sem dinheiro e não possuir visto de trabalho) – “resultante de uma ignorância que está um pouco disseminada por toda a parte” – ou o próximo acordo ortográfico: “Eu vou ter que mudar a minha escrita? [depois de algumas explicações] Ah, então para mim não muda nada, vocês é que vão ter que arranjar uma solução para o problema!…”
Por trás do sorriso ressalta, porém, a imagem do cidadão que viu desfazerem-se muitos dos seus sonhos. De alguém “com quase 50 anos” que “andou criticando muitas coisas que não se modificaram”. De Chico Buarque que um dia cantou “eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia” espanta ouvir dizer: “De certa forma pertenço a uma geração derrotada. Mas uma geração que se orgulha das suas derrotas, que sempre se manifestou contra o que está acontecendo hoje.”
Mas o tempo e o cansaço vão corroendo os ideais. Uma justificação: “O que muda é a atitude. Nos anos 70, se pudesse, eu derrubava o Governo. Hoje não quero derrubar governo nenhum.” E um conforto: “Continuo a ter uma reacção crítica em relação ao actual Governo, mas estou aqui na embaixada…”

UHF – “Santa Loucura”

pop rock >> quarta-feira >> 26.05.1993


UHF
Santa Loucura
2xCD, BM



António Manuel Ribeiro a solo é uma coisa e com os UHF é outra, bastante melhor. Em “Santa Loucura” deixaram-se todos de mariquices e assinaram um bom álbum, sólido, à boa maneira do grupo. O primeiro disco é puro rock ‘n’ rol, com AMR a cantar ao seu velho estilo monocórdico, mas, neste registo, eficaz. Rui Dias dá um “show” constante de guitarra eléctrica, num dos melhores desempenhos neste instrumento alguma vez gravados em disco de produção nacional. Fernando Delaere, no baixo, é outra revelação. Poderoso, melódico, ora em diálogo acertado, ora em suporte musculado da guitarra. Os dois bem secundados pela bateria de Fernando Pinho. Para ouvir bem alto, como a banda aconselha, “de acordo com o artigo primeiro do rock”. O segundo disco, pretendendo mostrar o lado mais calmo e intimista da banda, baixa um pouco a fasquia. AMR faz cara e voz sérias enquanto declama o texto de “Suave dança do vento” e Renato Júnior tem espaço para deixar respirar o piano. Há temas ecologistas, lamentos por Sarajevo e uma aproximação engraçada aos Xutos & Pontapés, em “No banco de trás”. Tivesse “Santa Loucura” ficado limitado à linha dura do primeiro disco e seria um dos melhores UHF de sempre. (6)

Negativland – “Free”

pop rock >> quarta-feira >> 26.05.1993


CEM POR CENTO DE SABOTAGEM

NEGATIVLAND
Free
CD Seeland, import. Contraverso



O meio é a mensagem. Os Negativland são como que a emissora de rádio proibida dos Estados Unidos da América. A voz (des)autorizada do vazio e da paranoia que habita no coração desta nação que disseram ser a pátria de todos os sonhos. A banda da contracosta leste que recentemente foi processada pela utilização abusiva do nome, do logotipo e da música dos U2, “a pior banda do universo”, retoma a investida contra o “establishment”, carregada de doses maciças de ironia e terrorismo musical, na manipulação e corrosão sistemáticas das palavras e dos sons. “Free” (“grátis” e “livre”, em inglês) desmonta esquemas e comportamentos, numa espécie de desenho animado de terror que nada deixa escapar, na tradição interrompida do magistral “Escape from Noise”. O mesmo é dizer que a música volta a ocupar o lugar central na estética dos Negativland, contrariando a tendência de “Helter Stupid” e do single CD “Guns” que privilegiavam a palavra na dissecação dos processos mediáticos amplificadores da mensagem, até ao delírio tecno-moralista dos grandes meios de comunicação. “Comunicação” continua a ser o termo chave – através de diálogos recortados e deslocados de contexto criadores de uma nova realidade, “alter ego” aleatório, e, à sua maneira, totalitário, da América imperialista do final do século.
A outro nível, os Negativland assumem por inteiro a noção de produto, usando a indústria discográfica para melhor a desmontar e sabotar. “Free”, diz o gráfico incluso na capa, é 17 por cento de “receptable programming”, 4 por cento de “classic rock”, 6 por cento de “album oriented rock”, 20 por cento de “adult contemporary”, 4 por cento de “news talk”, 10 por cento “gold”, numa enumeração de elementos que reduzem a obra musical a simples enunciado estatístico. A menção de 52 por cento de country é a piada final, em refer~encia à música de brancos mais popular dos “states”, utilizada como isco mas que, na prática, se reduz ao envenenamento do género no paradoxalmente intitulado “Cityman”. E, mesmo que permanecêssemos surdos ao sarcasmo, ficariam ainda as melodias infecciosas (“Truck stop, drip drop”, “Crumpled farm”, “Pig digs pep”, “I am god”…) com que os Negativland nos atraem para melhor nos desfecharem na cara um tiro à queima-roupa.
“Free”, tornada palavra sem sentido, a mais publicitada na América da era Clinton, dá o mote, em “Freedom’s wiating”. Ponto de partida para os combates de estilo em que a banda se notabilizou. “The gun and the bible” faz contracenar sinos de igraja com disparos de metralhadora. “The bottom line” disseca o tema da tortura: “A morte já não é suficiente. Tornou-se necessária a tortura. Até os adolescentes a usam como forma de aliviar o ‘stress’ do dia-a-dia. Tortura ‘hi-tech’.” Melopeias infantis e caixas-de-música insinuam-se no crepitar digital dos computadores. No tema mais longo, a perturbação estende-se por dez minutos de tensão que narram a história de uma velhota do campo “que tinha um gato, um cão e uma harmónica”. E um sonho: “Aprender a tocar ‘Home sweet home’ para fazer a harmónica feliz.” Com a agilidade subversiva de um vírus informático empenhado na destruição das rotinas do sistema, os Negativland operam a verdadeira revolução da música pop. Um dos álbuns do ano. (10)