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UHF – “Os Melhores De Sempre” (dossier | editado em livro)

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995
OS MELHORES DE SEMPRE


MÚSICA PORTUGUESA

Esta selecção dos melhores álbuns de sempre da música produzida em Portugal até aos anos 90, resulta de uma votação feita pela equipa do suplemento Pop/Rock. São privilegiados os trabalhos concebidos sob a forma de álbum, mas também sendo aceites compilações e mini-álbuns quando estes forem os melhores ou únicas edições dos respectivos autores. A ordem de publicação é aleatória.

UHF À Flor Da Pele



Como Foi

GNR, CTT, NZZN, UHF. Não se sabe bem por que estranho fenómeno (para António Manuel Ribeiro tratar-se-ia de uma “maneirismo do pós-25 de Abril2), parte das bandas de rock português que emergiram no início dos anos 80 adoptaram siglas como designação. Apenas a primeira e a última sobreviveram. Muito por força de duas personalidades dominantes do a partir de então denominado “rock português”: Rui Reininho e António Manuel Ribeiro, ambos apostadores natos na importância das palavras. No som das palavras, Reininho. Na sua carga existencial, Ribeiro. “À Flor da Pele”, disco de estreia da banda almadense, vive em grande parte dos textos empenhados de AMR, cantor por força de uma necessidade interior e da circunstância de ter nascido onde nasceu. No estúdio foi difícil. AMR acha apenas que foi “curioso”: “O início da gravação coincidiu com a altura em que a Valentim começou a transformar os seus estúdios. Então, a meio das gravações, era completamente impossível cantar. Na altura em que comecei a meter as vozes, de noite, ou de manhã, tinham lá estado os pedreiros a partir paredes e o estuque pairava no ar. Começava a tossir e não conseguia cantar. Houve ali uns dias em que tivemos que parar”. Foram ainda as circunstâncias que obrigaram o vocalista a desempenhar as funções de guitarrista. “Comecei a tocar guitarra solo, uma coisa para a qual não estava sequer vocacionado. Tudo porque o Renato Gomes estava a fazer o SMO [N.A: Ainda a mania das siglas. Para os menos conhecedores, SMO significa ‘Serviço Militar Obrigatório’] que na altura durava dezoito meses. Dezoito meses duros, sobretudo os primeiros quinze dias, da chamada recruta. Ninguém podia sair do quartel. Houve uma altura em que o Renato não podia estar em estúdio. Aliás há uma canção, ‘Rola roleta’, em que ele pura e simplesmente não toca”.
Descontando as dificuldades causadas pelo estuque e pela tropa, problemas que hoje AMR considera “giros” (“habituámo-nos àquilo tudo!”), o clima de trabalho que se gerou foi, segundo diz, “fabuloso”. “Sobretudo”, diz, “porque tivemos a ajuda de uma pessoa importante, o Hugo [Hugo Ribeiro, técnico de som], para mim um dos mestres de som deste país. Era o técnico da Amália e foi ele que nos foi destinado. Percebeu perfeitamente que nós, músicos, éramos demasiado ingénuos em algumas coisas e ajudou-nos bastante. No meio disto tudo havia ainda a mão patronal de Francisco Vasconcelos que nos deixou fazer tudo o que quisemos”. Tamanhas facilidades não era costume serem dadas às bandas que pela primeira vez entravam em estúdio, o que levou a que muitas delas, as quais, diga-se de passagem, nem sequer lá deveriam ter entrado, fossem trucidadas no processo. Enquanto algumas gravavam um álbum em dois ou três dias, os UHF estiveram lá dentro perto de três meses. “Era um ‘modus operandi’ esquisito”, reconhece o líder do grupo, “banda que entrasse em estúdio gravava quatro canções para dois ‘singles’, o primeiro saía logo e o outro muitas vezes só seis meses depois, já a banda estava desfasada”. Tal não aconteceu com os UHF, talvez porque esse fenómeno tenha acontecido “somente depois do sucesso do ‘Cavalos de corrida’ e do ‘Chico fininho’, ou ainda dos Táxi, que reconfirmam todo este sucesso de uma música nova feita em Portugal. A partir daí é que é a bagunça total”.
A banda de Almada ultrapassou essa bagunça. Desde logo transformados em estrelas do rock’n’roll, o seu estilo de vida adaptou-se ao novo estatuto. “Na altura foi um bocado ofuscante. Quando se passa de concertos em clubes pequeninos, em Almada, para trinta pessoas, para audiências de milhares, é outra dimensão, é quase passar para o infinito. E depois são as vendas. Sem querer fazer uma leitura pelo lado negativo, o que começa a criar alguns problemas é o dinheiro que se passa a ganhar. De repente, começámos a ser solicitados para todo o tipo de actuações. Em 1981 demos qualquer coisa como 140 espectáculos, algo que hoje ninguém mais fez em Portugal”. Os UHF precaveram-se bem cedo contra este tipo de pressões, assegurando para os seus espectáculos uma qualidade de som à altura, criando para tal a sua própria empresa de som, Furacão. “Garantimos a nossa autonomia, sem dependermos de ninguém. Até 1979, a980, tínhamos tido muito más experiências com o som de estrada”. O resto do dinheiro serviu para fins menos utilitários: “Passámos da imperial para o whisky duplo de doze anos!”. Quanto à imagem de estrela, não tiveram vontade nem tempo para a cultivar. “Não tínhamos muito tempo para a pose, até porque não havia este culto que hoje existe. Os UHF nunca foram, a esse nível, muito ofuscados nem pelo estrelato nem pela pose, ter que estar todo o dia vestido assim, ou maquilhar-se e pentear-se para as fotografias”.
Estava, ,ais preocupados em ferir a realidade que os rodeava. Em particular do “ambiente citadino de Almada nos anos 70 e princípio dos 80”. “Nomeadamente a questão do 25 de Abril, para quem vai fazer 20 anos na altura, era um bocado confusa. Estávamos na fronteira de nada”. AMR era “contra o antigamente, mas não de uma forma partidária”. Estava simplesmente “contra”: “Contra a guerra”, por exemplo, e “à espera que aparecesse alguma coisa que valesse a pena”. Em Almada, sobretudo, AMR via à sua volta “muitas pessoas andando pelos mesmos caminhos, ou pelos mesmos becos”. Não é por acaso que, ainda hoje, ele é considerado como porta-voz dos habitantes mais jovens da cidade. “Os UHF cresceram no meio da rua”, diz, “eu andava na faculdade, mas simultaneamente ia ao café onde toda a gente ia. Os UHF cresceram um bocado nessa onda, conheces um baixista, conheces um baterista, foi assim que as coisas aconteceram. Juntaram sempre à sua volta um grande grupo de pessoas”. Muitas dessas pessoas foram ponto de partida para canções, como no caso de “Rapaz caleidoscópio”, um “cruzamento de vários sujeitos”. Histórias, como essa, de “amigos que iam buscar três meses de trabalho aos estaleiros da Lisnave para poderem passar as férias de Verão num parque de campismo no Algarve”, escreveu-as AMR na solidão do seu quarto: “Sempre escrevi muito sozinho. Só depois é que começa a escrita de estrada”. Cita “Ébrios (pela vida)”, uma canção “mágica”. Na prática, porém, essa magia manifestou-se de forma pouco ortodoxa: “Foi escrita na primeira casa que tive na Costa da Caparica. Ensaiávamos no segundo esquerdo e havia uma vizinha por baixo que batia com a vassoura por causa do barulho”. Catorze anos depois de “À Flor da Pele”, ainda há quem bata com a vassoura.

Como É

Rui Veloso abrira o caminho, com “Chico Fininho”. Na rádio, Luís Filipe Barros pegara a fera de caras, nas tardes da Rádio Comercial, com o seu “Rock em Stock”. Era o “boom” do rock português que pouco tempo depois explodia num “bum!” que se ouviria por alguns anos de distância. Mas nessa altura, despontavam os anos 80, era só euforia e a descoberta de que o produto português afinal também vendia. Proliferavam as bandas, quase todas más. Não fazia mal, desde que fossem portuguesas. Os UHF, na primeira linha, não eram maus. Não tocavam muito bem, é certo, mas sobrava-lhes uma convicção, uma honestidade e uma energia que lhes dava um cunho de autenticidade e os colocava num lugar à parte da chusma de bandas oportunistas que iam cavando a sepultura do movimento. Quando António Manuel Ribeiro cantava “Jorge Morreu” (edição anterior em “single”, não incluída em “À Flor Da Pele”), em homenagem a um amigo falecido, ou martelava as palavras, sentidas na pele, de “Ébrios (pela vida)” ou “Nove e Trinta”, percebe-se que havia nele uma raiva genuína, uma sensibilidade de “rocker” assumida no sentido mítico do termo, enquanto herói existencial e porta-voz solitário de uma geração que sobrevivia na prisão de uma cidade dos subúrbios, Almada. “à Flor da Pele” funciona porque é sincero. É um disco cru, por vezes cruel, que recusa as imagens pelas imagens. Não se refugia no solipsismo da auto-análise fechada sobre si mesma, antes volta o olhar – por vezes de uma forma ingénua mas sempre destituída do verniz da superficialidade – para o cerco e os estigmas sociais, personificados por pessoas (“Modelo fotográfico”, “Rapaz caleidoscópio, “Geraldine”) ou lugares (“Rua do Carmo”, um dos “hits” do grupo). “Rapaz caleidoscópio” é a fotografia em negativo de “Chico fininho” (o lado negro niilista da vivência do “rocker” nacional, em oposição à leviandade jovial da canção de Rui Veloso) e um murro nos olhos vidrados do psicadelismo. Um sinal do que viria a ser no futuro o caminho traçado, sem desvios, por AMR e os UHF, com uma legenda decalcada dos versos finais de “Anjo Feiticeiro”: “Não vou ficar por aqui / escolho por mim, passei por ti / podes guardar a imagem”.

ALINHAMENTO
Lado A
1 – Rua do Carmo (texto & música: António Manuel Ribeiro)
2- Rapaz Caleidoscópio (texto: António Manuel Ribeiro; música: Renato Gomes e António Manuel Ribeiro)
3 – Nove e trinta (texto & música: António Manuel Ribeiro)
4 – Anjo Feiticeiro (texto & música: António Manuel Ribeiro)
Lado B
1 – Modelo Fotográfico (texto & música: António Manuel Ribeiro)
2 – Rola roleta (texto: António Manuel Ribeiro; música: Carlos Peres, António Manuel Ribeiro, Zé Carvalho)
3 – Geraldine (texto: António Manuel Ribeiro; música Carlos Peres)
4 – Ébrios (pela vida) (texto: António Manuel Ribeiro; música: Carlos Peres)

MÚSICOS
Zé Carvalho (bateria)
Carlos Peres (baixo, voz)
Renato Gomes (guitarras)
António Manuel Ribeiro (voz, guitarras, sintetizador, órgão)

PRODUÇÃO
Luís Filipe Barros e Nuno Rodrigues

GRAVAÇÃO
Estúdios Valentim de Carvalho, Paço de Arcos, entre 16 de Março e 6 de Maio de 1981.
Técnico de som: Hugo Ribeiro

FOTOGRAFIAS E CAPA:
Luís Vasconcelos

EDIÇÃO
EMI, 11C 076-40554,
1981
Reeditado em compacto, pela mesma editora, em 1993



UHF – “Santa Loucura”

pop rock >> quarta-feira >> 26.05.1993


UHF
Santa Loucura
2xCD, BM



António Manuel Ribeiro a solo é uma coisa e com os UHF é outra, bastante melhor. Em “Santa Loucura” deixaram-se todos de mariquices e assinaram um bom álbum, sólido, à boa maneira do grupo. O primeiro disco é puro rock ‘n’ rol, com AMR a cantar ao seu velho estilo monocórdico, mas, neste registo, eficaz. Rui Dias dá um “show” constante de guitarra eléctrica, num dos melhores desempenhos neste instrumento alguma vez gravados em disco de produção nacional. Fernando Delaere, no baixo, é outra revelação. Poderoso, melódico, ora em diálogo acertado, ora em suporte musculado da guitarra. Os dois bem secundados pela bateria de Fernando Pinho. Para ouvir bem alto, como a banda aconselha, “de acordo com o artigo primeiro do rock”. O segundo disco, pretendendo mostrar o lado mais calmo e intimista da banda, baixa um pouco a fasquia. AMR faz cara e voz sérias enquanto declama o texto de “Suave dança do vento” e Renato Júnior tem espaço para deixar respirar o piano. Há temas ecologistas, lamentos por Sarajevo e uma aproximação engraçada aos Xutos & Pontapés, em “No banco de trás”. Tivesse “Santa Loucura” ficado limitado à linha dura do primeiro disco e seria um dos melhores UHF de sempre. (6)

UHF – “UHF Deixam a Edisom” (notícia)

Secção Cultura Quarta-Feira, 13.03.1991 (Notícia)


UHF Deixam a Edisom

Está tudo acabado entre os UHF e a Edisom, na altura em que estava prestes a findar o contrato de três anos que a banda assinara com esta editora – “um divórcio de comum acordo” – nas palavras de António Manuel Ribeiro, líder dos UHF, que aponta como motivos para a separação, aspectos ligados a uma promoção deficiente: “Muitas vezes foi difícil à Edisom furar um certo círculo onde quase todas as chamadas multinacionais trabalham muito bem.” Os UHF queixam-se, por exemplo, de, ao contrário de outros artistas da editora, “nunca terem visto o seu trabalho ser editado em mini-cassete”, formato que consideram ser o que mais vende em Portugal. “Opções editoriais” que a banda de Almada diz “respeitar”, mas não poder já aceitar. Neste momento os UHF preparam o lançamento do seu próprio selo, “UHSom”, que inclusive poderá vir a editar trabalhos de outros artistas. A 15 de Abril, António Manuel Ribeiro regressa ao estúdio, para iniciar as gravações de mais um disco da banda bem como da sua estreia a solo.