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Le Crème De La Crammed

25.07.2003

Le Crème De La Crammed

Nos anos 80, a editora belga Crammed provou que a música popular podia voltar a ambicionar ser obra de arte. Ou, se não, a pôr um bigode no nariz do classicismo. Afinal de contas, Dada também se podia dar ao luxo da luxúria.

Os “eighties” foram mais do que o reservatório de óleos pesados, faíscas eléctricas e quinquilharia “glamour” que hoje, devidamente reciclados, tomaram a forma de “electroclash”, “tecnocoisa” e outras designações estapafúrdias que mais não servem do que para embalar produtos, na sua maioria, absolutamente destituídos da menor mais-valia musical.
Havia, é certo, os Human League, Orchestral Manoeuvres In The Dark, Tubeway Army ou Berlin Blondes para fazer a ligação entre a monstruosidade industrial dos Throbbing Gristle, Test Dept., SPK e os primeiros Cabaret Voltaire, e as afectações dos chamados neo-românticos (Spandau Ballet, Duran Duran, Classix Nouveux, etc.). Era a maneira de tornar inofensiva uma atitude que levava a rebeldia “punk” aos extremos da ideologia, da tecnologia e da magia. A par destas manobras mais ou menos subversivas, a pop, claro, continuou a sua viagem de longo curso.
No continente, porém, uma terceira via emergiu, o lado “arty” dos anos 80, ponto de cruzamento de mil e uma estéticas, da pop à música contemporânea, da étnica à electrónica, da clássica ao minimalismo, do jazz Às sínteses mais inverosímeis – repondo a questão, deixada em aberto com a irrupção explosiva do “punk”, de como continuar as experiências direccionadas para uma música, dita “pretensiosa”, encetadas na década anterior pelo rock progressivo.
Em Inglaterra já havia quem tratasse do assunto, na cooperativa, editora e distribuidora Recommended que, a partir das sementes lançadas pelos Henry Cow e pelo movimento RIO (“Rock In Opposition”), criara o chamado “rock de câmara”, personificado por bandas como os Art Bears, News From Babel, Present, Conventum, Univers Zero e Art Zoyd.
Na Bélgica constituiu-se a sede do contrapoder, com a criação, em 1981, por Marc Hollander e Véronique Vincent, da editora Crammed, rapidamente extensiva a uma sua subsidiária, a Made To Measure, vocacionada para a divulgação de propostas mais elitistas e totalmente desfasadas da “normalidade”. A Cramworld, especialista em “world music” surgiria anos mais tarde. Tinha assim início uma aventura “com base em encontros, paixões, rupturas e flirts musicais”, mas também resultante de uma rede de cumplicidades que viria a envolver ainda Hann Gorjaczkowska, responsável pela direccção artística e gráfica, Vincent Kenis e Samy Birnbach, dos Minimal Compact, hoje operativo nas pistas de dança com a designação DJ Morpheus.
Marc Hollander e Véronique Vincent eram, são, ambos músicos. Marc fundou um dos grupos mais importantes dos anos 80, situado na charneira entre o pólo Recommended e o europeísmo “dandy” da sua própria editora, os Aksak Maboul. Véronique era a cantora dos The Honeymoon Killers. Grupos que, curiosamente, permaneceram até à data com dois dos seus trabalhos a não merecerem honras de reconversão para CD. O presente pacote de 12 reedições, genericamente embalado com o rótulo “Crammed Global Sounclash, 1980-1989” (mais duas colectâneas, uma centrada nas fusões “world”, outra na “electrowave”) disponibiliza-os, enfim: “Onze Danses pour Combattre la Migraine”, que tanto pode ser encarado uma protoencarnação dos Aksak Maboul como um trabalho a solo de Hollander, e “Les Tueurs da la Lune de Miel”, álbum único dos Honeymoon Killers.

Feito À Medida
A Made to Measure, subsidiária da Crammed, coube a tarefa de abrir os portões de um novo mundo. De súbito, a Europa começou a reparar na existência de uma nova música, luxuosamente embalada e produzida, que escapava às habituais catalogações de estilo. Álbuns “feitos à medida” de uma concepção estética que poderíamos designar por “neoclássica” de acordo com o propósito da criação de uma colecção de objectos únicos – obras de arte na verdadeira acepção da palavra. Foi, além disso, uma das primeiras editoras, senão mesmo a primeira, a lançar o conceito de “série”, englobando a diversidade em caixas com selo de marca num misto de obscurantismo quase esotérico e apelo gráfico irresistível. Mais importante que tudo: as músicas que ostentavam na capa a tira “Made to Measure” eram garantia de surpresa e de associações musicais sem paralelo.
O cartão de visita, com número de série MTM1, veio à luz em forma de antologia, com a participação dos Aksak Maboul, Tuxedomoon, Minimal Compact e Benjamin Lew em inéditos compostos de propósito para ela. O destino estava traçado e os números da série seguinte dariam a conhcer algumas obras marcantes da música alternativa dos anos 80. Os melhores: “Reixax au Bongo”, de Hector Zazou (faz parte do actual pacote), “Colorado Suite, de Blaine L. Reininger e Mikel Rouse, “western spaghetti” em forma de “opus” minimalista (“Philip Glass meets Bonanza”, como escreveu alguém), a “Walk in the Woods”, de The Mikel Rouse Broken Consort, minimalismo com electrónica e costela romântica, “Sedimental Journey”, de Peter Principle, fragmentos quebrados e incongruentes dos Tuxedomoon, misturados com poemas e interferências cósmicas.
“Géographies”, de novo Hector Zazou, Wagner, Raul Ruiz e ZNR em sinfonias de ópio, “Stranger than Paradise”, de John Lurie, “Desert Equations: Azax Attra”, de Susan deyhim e Richard Horowitz (incluído no pacote), “Music for Commercials”, de Yasuaki Shimizu, electroanúncios para televisão, “If Windows They Have”, de Daniel Schell & Karo, neo-tudo e obra-chave dos anos 80, “Down by Law”, de John Lurie, mais BSO em formato de jazz “downtown” de câmara, “Douziéme Journée: Le Verbe, la Parure, l’Amour”, segredos e romances electrónicos, outro clássico e a sua sequela, “A Propos d’un Paysage”. “Tone Poems”, de Peter Principle, o título diz tudo e não diz nada, “Géologies”, de Hector Zazou, na linha de “Géographies”, “Pretty Ugly”, de Peter Scherer e Arto Lindsay, “noise” e “no rock” domesticados mas não menos sinistros para um “ballet” da Amanda Miller, “Arrows”, de Steve Shehan, “world music” de uma galáxia distante.
Mais recentes: “Le Secret de Bwlch”, de Daniel Schell e Karo, refinamento da nova “chamber music” deste grupo suíço, “Domino One”, de Ramuntcho Matta, “kitch”, vudu, carnaval, sons de água e de galinhas. Mais convencionais, semi-fracassados ou “excêntricos” pelos motivos errados (exibicionismo sem nexo nem propósito), encontram-se discos de Benjamin Lew, Samy Birnbach e Benjamin Lew (“Nebka” e “Le Parfum du Raki” não estão ao nível dos duetos com Steven Brown), Fred Frith (a BSO, pouco gratificante, “The Top of His Head”), Steven Brown & Delphine Seyrig, Zelwer, Gabor G. Kristof, Karl Biscuit, Seigen Ono, David Cunningham (fez bem melhor do que aqui, com “Water”), ainda Hector Zazou (o redundante “Sahara Blue” e “Glyph”, com Harold Budd), Brion Gysin (neste caso a conversa é mais que música…) e John Lurie National Orchestra.
Tudo somado, dá para uma quantidade de horas de audição, deslumbramento e, eventualmente, desorientação. As medidas da Made To Measure variavam com a mesma facilidade que a arquitectura das cidades obscuras em BD de Shwitens e Peeters. Mas a Crammed reservou outras das suas preciosidades para o seu próprio catálogo. O bolo teve mais do que uma cereja no topo.

Doze Danças Para Combater a Enxaqueca

Aksak Maboul
Onze Danses pour Combattre la Migraine
(1977)
8/10

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Fica finalmente disponível em CD o antecessor de “Um Peu de l’âme des Bandits”. Marc Hollander assegura a quase totalidade da composição e instrumentação deste disco em que o rock de câmara ganha as tonalidades de música de feira, com as suas caixas-de-ritmos de primeira geração, minimalismo “kitsch”, divagações de jazz e variedades impressas em cartões de visita desbotados que evocam os “orgues de barberie” de Pascal Comelade. Um álbum que ditaria algumas das vias posteriormente seguidas por outros artistas do catálogo

Tuxedomoon
Desire
(1981)
10/10

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Exilados na Europa, os norte-americanos Tuxedomoon abandonaram o pós-punk erudito que marcou o seu álbum de estreia na Ralph, inevitavelmente influenciado pelo som dos Residents, para mergulharem no crepúsculo de uma música que aliava a nostalgia ao futurismo. Ritmos automáticos, o violino “alien” de Blaine L. Reininger, o arsenal de efeitos electrónicos desconjuntados de Peter Principle e os teclados e sopros de Steve Brown, capazes de se infiltrarem no sangue de um jazz doente como um antibiótico, servem canções sobre a decadência do amor e do Ocidente.

Honeymoon Killers
Les Tueurs de la Lune de Miel
(1982)
8/10

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Os assassinos da lua-de-mel, bizarra formação franco-belga liderada pelo saxofonista, já falecido, Yvon Vromann, não são assim tão violentos, embora se inspirassem no “punk” e na “new wave”, mas seguindo um figurino francês. O lado “arty” emerge, porém, quando menos se espera, nas aproximações jazz/burlescas de uns Etron Fou Leloublan enquanto o sorriso pop chega a ser pateta numa faixa como “Histoire à suivre”, com sabor a Jane Birkin. Tudo estaria bem se não houvesse um saxofone a gritar “free jazz”. E há coisas como faziam os Kas Product (lembram-se?) e os Alésia Cosmos (ninguém se deve lembrar…). Electrónica no batedor e ritmos Recommended integram igualmente este curioso objecto que agora surge aumentado por temas extra, entre os quais um “live” com os Aksak Maboul.

Benjamin Lew
Compiled Electronic Landscapes
(1982)
8/10

Antologia de fragmentos e paisagens electrónicas extraídos dos álbuns a solo “Nebka” e “Le Parfum di Raki”, bem como das anteriores e francamente superiores colaborações com Steven Brown. Os tírulos e ambientes dir-se-iam recortados de um filme de Marguerite Duras ou do “Marienbad” de Resnais. Portos do Mediterrâneo, ventos do deserto, as aventuras de Adéle Blanc-Sec e de Arsène Lupin na Paris da Belle Époque em quadros electrónicos onde a influência de Eno se veste com o onirismo dos filmes do inconsciente.

Zazou, Bikaye, CY1
Noir et Blanc
(1983)
8/10

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Desta colaboração entre Hector zazou, previamente nos ZNR, o cantor congolês Boni Bikaye e o grupo de electrónica Cy1 resultaria um dos primeiros exemplares de etnotecno, antes da queda na variante etnoseca. As programações, imbuídas do calor próprio dos sintetizadores e sequenciadores analógicos, seguram danças dervíshicas enfeitiçadas pelos cânticos afro de Bikaye. Absolutamente hipnótico ou, como alguém descreveu na altura esta fusão de prototecno e arvoredos “world”: “Fela Kuti meets Kraftwerk on the dance floor”. Arrumar ao lado da variante kraut e, inevitavelmente, mais fria, “Zero Set”, de Dieter Moebius, Conny Plank e Mani Neumeier.

Minimal Compact
Deadly Weapons
(1984)
6/10

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Samy Birnbach e a israelita Malka Spiegel fizeram dos Minimal Compact uma das bandas da Crammed com maior projecção fora de portas. A mistura de elementos rock com melodias e sonoridades do Extremo Oriente, onde alguém, mais excitado, viu o encontro de Ian Curtis com a cantora folk egípcia Oum Kalsoum, não resistiu ao tempo, ouvindo-se hoje como um típico objecto dos anos 80 pós-Joy Division, já impregnado pelo espírito electro.

Karl Biscuit
Secret Love
(1984)
5/10

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Karl Biscuit era uma figura enigmática que aparece na capa de “Secret Love” a fazer o número do manequim romântico. Apesar das referências aos Depeche Mode e aos Human League e da graça de lhe terem chamado “Julien Clerc em três dimensões”, a pop electrónica e as “torch songs” de pacotilha servidas em bandeja de mambo e electrobeats baratos é pouco convincente enquanto testamento musical deste francês hoje responsável pela companhia de dança Castafiore.

Hector Zazou
Reivax au Bongo
(1986)
9/10

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Registado originalmente na Made to Measure, “Reivax au Bongo” é um daqueles discos que parecem saídos do sonho de um louco. Composto como banda sonora para uma telenovela imaginária (!9, o “primeiro lado” experimenta, num contexto de desenhos animados, as vocalizações étnicas de Boni Bikaye, Kanda Bongo Man e Ray Lema. Tão delirante como exótico, este primeiro segmento não faz prever o que se segue: naipes grandiosos de música coral cantada por donzelas e querubins que se levam nas alturas como um madrigal pré-barroco de Gabrielli ou Heinrich Schütz.

Colin Newman
Commercial Suicide
(1986)
6/10

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Pop electrónica com dose de excentricidade q.b. pelo ex-vocalista dos Wire, em colaboração com John Bonnar, Malka Spiegel e o engenheiro de som/produtor e alicerce do chamado “som belga”, Gilles Martin. A par de canções padronizadas na pop electrónica da época, a presente reedição junta-lhes um inédito com Newman a falar da sua música, sobre fundo sonoro. Os mais exagerados viram neste álbum as mesmas qualidades de “Rock Bottom”, de Robert Wyatt, e de “The Madcap Laughs”, de Syd Barrett, mas a verdade é que a este “suicídio comercial” falta tanto a tragédia como a loucura.

Sonoko
La Débutante
(1988)
7/10

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Disco de uma beleza fora do vulgar a deste baile de debutante de uma cantora japonesa com a voz de boneca caóda no jardim de Virginia Astley. O som de dar corda a uma caixa-de-música dá o mote a uma colecção de melodias frágeis, por vezes arrebatadoras, que incluem uma mutação cândida de “Cheree”, dos Suicide, modificada para “Cheri cheri”, uma letra de Shakespeare, uma dedicatória a Brigitte Bardot, “La poupée qui fait non”, de Michel Polnareff, música de igreja, um requiem de Gabriel Fauré (1888) e uma arrepiante, porque falsamente ingénua, versão de “In heaven”, da banda sonora de “Eraserhead”, de David Lynch. No filme o tema é cantado por uma bailarina que vive dentro de um radiador, ao mesmo tempo que pisa espermatozóides: “In heaven everything is fine”.

Sussan Deyhim & Richard Horowitz
Desert Equations: Azax Attra
(1987)
8/10

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Étnica, técnica, tecno, cânticos da Pérsia, programas de computador, “drones” e dunas. Danças electro em contraponto com uma voz planetária. O escritor Paul Bowles perguntou, a propósito, se esta música foi composta sob a influência de algum alucinogénico, enquanto Jaron Lanier, cientista, compositor e inventor da realidade virtual fala de uma genuína viagem dos corpos através de uma paisagem hi-tech. “Azax Attra” percorre-se como se pisássemos o solo de uma ilusão e subitamente sentíssemos no rosto o choque da areia empurrada pelo vento.

Bel Canto
White-out Conditions
(1988)
7/10

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Muito antes dos icebergs imóveis dos Sigur Rós, os noruegueses Bel Canto, da cantora Anneli Marian Drecker, lançavam ao mar o conceito de pop ártica que viria a ramificar-se na actualidade por nomes como Biosphere, Chiluminati e Röyksopp. Apesar da rótmica ser de gelo, chovem melodias capazes de inflamar os corações, como “Blank sheets”. Fizeram-se comparações com os Cocteau Twins, Sara MacLachlan, Dead Can Dance e Talk Talk, mas é mais singelo do que isso.

Tuxedomoon – Cabin In The Sky

02.07.2004
Tuxedomoon
Cabin In The Sky
Crammed, distri. Megamúsica
8/10

Tuxedomoon – Cabine de Provas

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Notícia excitante: os Tuxedomoon estão vivos. Melhor ainda: gravaram um álbum novo. Chama-se “Cabin in the Sky” e é, pelo menos, tão bom, como os álbuns clássicos da banda de São Francisco que se estreou com “Half-Mute” na mesma editora dos Residents e assinou a obra-prima “Desire” ou o angustiante e subterrâneo “Suite en Sous-Sol”. Corriam os anos 80, o tempo passou entretanto, mas o melhor permanece intacto – uma sonoridade única e canções que parecem querer desmoronar-se a qualquer instante mas acabam por se aguentar orgulhosas na sua própria lógica. O saxofone e teclados de Steven Brown e o violino de Blaine L. Reininger fazem o som. Um romantismo estranho (é costume dizer-se, e é capaz de ser verdade, que os Tuxedomoon são a banda mais europeia da América) e estranhas combinações de letras em italiano (“Diario de un egoísta”, “Luther Blisse”) e ambientes cinematográficos fazem as canções. A folha de promoção não poupa nos elogios e, ao tentar definir “Cabin in the Sky”, garante que o disco suscita no ouvinte “impressões simultâneas de Miles Davis, electrónica alemã, Paolo Conte, Radiohead, Debussy, ciber-ciganos, Michael Nyman, Velvet Underground e uma dúzia de outros”. Descontando o prazer que é sempre ver citado Paolo Conte, o álbum é Tuxedomoon “vintage”, ainda que, desta feita, o grupo se tenha socorrido das colaborações de John McEntire, Akasak Maboul, Tarwater, Marc Collin, Juryman e DJHell. Mais a propósito, a mesma folha, abre um catálogo de pintura e lança os nomes de Pollock, Bacon, Miró e Dali. Já faz mais sentido. Cada canção é um híbrido que abarca várias influências, constituindo-se em quadros de disformidade e de uma beleza que atinge os píncaros do surrealismo em “La Piu Bella”, construído a partir de um sample com a voz de um anónimo italiano. No extremo oposto, “Here ‘til Xmas” é electro, graças à presença de DJHEll, o mesmo que há dois anos gravou uma série de remisturas de um dos temas mais antigos dos Tuxedomoon, “No Tears”, e “Chinese mike” combina elementos dos Cabaret Voltaire, respiração asmática, uma secção de sopros e batida falsamente “house”, enquanto “The Island” cola ondas de poluição a ruído rosa, sintetizador borbulhante e um saxofone lânguido, num tom mais experimental semelhante ao dos álbuns a solo de Peter Principle, e “Luther Blisset” (de novo com letra em italiano) é irresistível na junção de ritmo tecno com “free jazz”. Há os habituais ambientes de feira, nostalgia gelada, um baixo poderoso (“A home away” esmurra-nos o estômago), acordeão, programações poderosas, jazz de bordel e de grandes canções, como “Baron Brown”, entre a declamação e uma “catchiness” com algo a fazer lembrar os finlandeses Wigwam. A atitude já não é tão punk como nos primórdios mas a inteligência e a desfaçatez continuam intactas.
Os Tuxedomoon tornaram-se uma das grandes bandas do séc. XXI e “Cabin in the Sky” tem a elegância de um fato Armani.

Steven Brown (Tuxedomoon) – Entrevista – : Ser Ou Não Ser Tuxedomoon, Eis A Questão

20.03.1998
Ser Ou Não Ser Tuxedomoon, Eis A Questão
Vestir Ou Não Vestir O “Smoking”

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“Joeboy in Mexico”, afinal, não é um disco novo dos Tuxedomoon, embora um rótulo colado na capa proclame “o regresso dos Tuxedomoon”. Mas Steven Brown, com quem o PÚBLICO falou, diz que não. O México, com o seu “magnetismo” e as suas “forças espirituais”, determinou a diferença. E – sim – os Tuxedomoon, a lua de “smoking”, foram a primeira banda pós-rock da História.

Gravado em casa no México, retocado num estúdio comercial, “Joeboy in Mexico”, apresenta o lado mais obscuro e interessante da música da lendária banda de São Francisco, aqui explorado por Steven Brown com Peter Principle, com o convidado muito especial Blaine L. Reininger, o terceiro vértice dos Tuxedomoon.

FM – “Joeboy in Mexico” afinal não é um álbum dos Tuxedomoon…

STEVEN BROWN – Não é, de facto, e sublinho este “não”. Se fosse um álbum do grupo, teria essa indicação [Steven Brown deve ignorar a existência do tal rótulo]. Na realidade, a editora Opción Sónica pediu-me para fazer um novo álbum na sequência de “Ninerain”. Queriam uma coisa diferente, mais personalizada. Decidi trabalhar com Peter Principle, a companhia aceitou e ele veio ter ao México, para trabalhar durante um mês comigo, com Nikolas Klau, Alejandro Herrera e Juan Carlos Lopez. “keredwin’s reel” foi escrito por Blaine Reininger, a quem eu pedi que participasse no projecto. Depois disso, Peter partiu para Roma e Nova Iorque. Eu e os outros acabámos as gravações. Em 1981, peter e eu já tínhamos gravado “Joeboy in Rotterdam”, daí o nome do álbum. Qualquer destes dois álbuns aparece com pseudónimo na ficha técnica. É um segredo.

FM – Há alguma possibilidade de você, Peter Principle e Blaine Reininger voltarem a tocar juntos ao vivo?

STEVEN BROWN – Tocámos os três juntos, pela primeira vez em oito anos, no ano passado, em Telavive, Atenas, Salonica e Polverigi, na Itália. Além de que estamos a planear um novo disco e uma digressão pela Europa no próximo ano.

FM – Como é que se processaram as gravações? Foi ou não um trabalho colectivo?

STEVEN BROWN – No início a ideia era gravarmos no meu estúdio em casa. Com todo o tempo disponível para compor e gravar sem quaisquer preocupações monetárias. Mas uma avaria no equipamento obrigou-nos a mudar para um estúdio comercial vulgar. a maior parte dos temas foram compostos por mim com Nikolas. Alguns são peças inteiramente feitas e tocadas por mim, como “Bitter bark” e “Shipwreck”. “Brad’s loop” e “El Popo” incluem Alejandro Herrera como autor. Nesta medida, pode considerar-se um projecto colectivo.

FM – Há algum elo de ligação entre este disco e o anterior, “Ninerain”?

STEVEN BROWN – A presença, em ambos, de Alejandro e de Juan Carlos. A editora também é a mesma.

FM – “Joeboy in Mexico” recupera o lado instrumental e mais experimental dos Tuxedomoon, de álbuns como “Suite en Sous-Sol” e “The Ghost Sonata”, já para não falar dos dois primeiros álbuns, “Half-Mute” e “Desire”. Os Tuxedomoon serão um grupo “maldito” para sempre?

STEVEN BROWN – Tenho orgulho em fazer parte do “underground”, embora reconheça que é um estilo de vida que exige a existência de “senhorios” compreensivos…

FM – O espírito e a atitude musical dos Tuxedomoon está bastante próxima do actual pós-rock, de bandas como os Tortoise e Trans AM. Consideram-se pioneiros do rock mais radical?

STEVEN BROWN – Não conheço nenhuma dessas duas bandas (mande-me uma cassete, por favor!9. De qualquer forma, suponho que os Tuxedomoon foram, desde o início, uma espécie de banda pós-rock, ou pós-moderna. Quando começámos, nos anos 70, não havia muitos grupos como nós, a usarem violino, saxofone, caixas de ritmos, guitarra, órgão e fitas magnéticas.

FM – A capa do álbum faz lembrar o grafismo usado por um músico mexicano, Jorge Reyes…

STEVEN BROWN – Acho a capa fantástica! É um trabalho de Jaime Keller, um velho amigo meu e um grande artista. Quanto a Jorge Reyes, conheço-o. Gravamos para a mesma editora.

FM – O facto de o isco ter sido feito no México teve alguma importância no proceso criativo? Estamos a lembrar-nos dos fragmentos de manifesto revolucionário que foram usados no tema de abertura…

STEVEN BROWN – Salvador Dali afirmou um dia que teria pintado exactamente da mesma maneira mesmo se tivesse vivido no Pólo Norte, querendo com isto dizer que a localização geográfica não desempenha qualquer papel na produção artística. Já Peter Principle me disse exactamente o contrário, que o local tem muito que ver com os resultados. Para ele, o México determinou e conduziu todo o proceso de gravação, devido a um magnetismo ou a quaisquer forças místicas presentes neste país. A minha opinião está algures entre estas duas.

FM – Tem planos para gravar em breve um novo álbum?

STEVEN BROWN – Há um plano, que tenho em mente há mais de cinco anos, de gravar com Harold Budd.

FM – Ainda ouve música rock? Que discos é que tem andado a ouvir ultimamente?

STEVEN BROWN – O mais próximo do rock que tenho ouvido é Olivier Messiaen e Conlon Nancarrow, um compositor americano que viveu no México há 40 anos e compunha para executantes de pianola!…
Agora a sério, ouvi o novo de Todd Rundgren, com canções novas feitas ao estilo bossa-nova. Recentemente, eu e Peter Principle temos andado a trabalhar uma versão de Isaac Hayes de “Walk on by”, de Burt Bacharach.

FM – Atendendo à importância histórica dos Tuxedomoon, não está prevista nenhuma reedição remasterizada da sua discografia, como aconteceu, por exemplo, ainda há pouco tempo, com os Residents?

STEVEN BROWN – É uma boa ideia. Apesar de estar tudo disponível, em edições normais, através da Crammed, de Bruxelas, e ter sido lançada, em 92, a colectânea “Solve et Coagula”.

FM – Devemos considerar “Joeboy in Mexico” uma escultura sonora, um manifesto artístico ou uma boa anedota?

STEVEN BROWN – Folgo em saber que tem sentido de humor!

Nota:
Outros Discos Brilhantes E Obscuros Por Elementos Dos Tuxedomoon:
Steven Brown: “Searching For Contact”, “Zoo Story”;
Steven Brown & Benjamin Lew: “Douzième Journée: Le Verbe, La Parure, L’Amour”, “A Prpopos D’Un Paysage”;
Peter Principle: “Sedimental Journey”, “Tone Poems”;
Blaine L. Reininger: “Instrumentals, 1982-1986”;
Blaine L. Reininger & Mikel Rouse: “Colorado Suite”.