Roger Eno, Virginia Astley, Kate St. John – “Roger Eno, Em Entrevista Ao PÚBLICO E Esta Noite Em Lisboa, Às 22h – ‘O Silêncio Total Aterroriza-me'”

cultura >> sábado, 18.11.1995


Roger Eno, Em Entrevista Ao PÚBLICO E Esta Noite Em Lisboa, Às 22h
“O Silêncio Total Aterroriza-me”


Roger Eno actua esta noite no São Luiz, em Lisboa, ao lado de Virginia Astley e Kate St. John, duas vozes de anjo que ligam bem com a veia melancólica do pianista, irmão de Brian Eno. O seu álbum mais recente baseia-se em textos de hereges da Idade Média. Satie inspira-o. A fronteira com o silêncio, o terrível silêncio, faz com que seja necessário aproximar a atenção e o ouvido. Sons ideais para colorir uma noite de Outono.



“Lost in Translation” é o título do mais recente trabalho discográfico de Roger Eno. Ao contrário do mano mais velho, Brian, Roger preocupa-se mais com o passado do que com o futuro. O que confere à sua música subtilezas que não cabem no corredor congestionado dos “tops”. É preciso sintonizar numa onda mais grave, para captar as suas subtilezas e as suas sombras. E abeirar-se do silêncio, essa fonte assustadora de onde brotam todos os sons.
PÚBLICO – Como é que descobriu “The Heretical Christian Thinkers” (os pensadores cristãos heréticos), de Waltius Van Vlaanderen? Não se trata propriamente de um “best seller”…
ROGER ENO – “Heretical Christian Thinkers, An Anthology”, é um livro compilado pelo reverendo doutor William Groves, um inglês da época vitoriana. Contém tratados de Waltius, d’Albenlo, Cuthbert de Tetley e John “The Unwashed”, um irlandês do século XII. A maioria dos trabalhos de Waltius foram queimados em 1340, daí não ser conhecido nenhum livro da sua autoria. Existem, contudo, peças isoladas espalhadas por algumas bibliotecas da Europa, nomeadamente na Flandres Heritage, em Gent, Bélgica. Há muito que me interesso por trabalhos (literários, pictóricos ou musicais) que transpirem uma certa atmosfera. Nos escritos de Waltius descobri um lampejo de uma época simultaneamente de fé e de confusão, a chamada “idade das trevas”, de onde nasceria a Renascença.
P. – Seguiu algum método particular na composição musical?
R. – Ao escrever a música para os textos de Waltius, procurei reter, pelo menos em parte, a “fragrância” da sua época. Usei referências ao cantochão e à ronda (canção em forma de cânone). Por outro lado, as formas melódicas foram, nalguns casos, determinadas por métricas pré-existentes e, obviamente, pela atmosfera global da sua escrita.
P. – O que quis dizer com o título do disco, “Lost in Translation” (à letra: “perdido na tradução”)?
R. – “Lost in Translation” pode significar, de facto, “detalhes ou significados alterados através do processo de tradução”, mas há uma relação mais curiosa: em especial na época medieval, quando um homem santo morria, os seus objectos pessoais, os seus ossos, as suas roupas, etc. eram levados do local da sua morte para uma abadia ou para uma catedral. Este processo era conhecido por “translating” (transladação), o que confere ao título do disco um significado bastante diferente.
P. – Como acontece em todos os seus discos, “Lost in Translation” é triste e melancólico. Existe alguma razão para esta melancolia?
R. – Interesso-me por música que tenha um ambiente [“mood”] forte. Muita da música que ouço é, ou pode ser considerada, sombria. Não encontro uma razão para isto. Em parte, talvez se deva à importância que dou à introspecção.

A Avenida Satie

P. – A influência de Erik Satie também pode estar relacionada…
R. – Erik Satie ensinou-me que é possível compor música maravilhosa com um mínimo de componentes e ser capaz de a tocar sem a necessidade de ser um virtuoso. A sua música exige um tipo diferente de aproximação. Decidi avançar por essa avenida.
P. – Ao contrário da música que o seu irmão (Brian Eno) faz actualmente, abstracta na forma, a sua é descritiva e romântica, quase feminina, o acompanhamento ideal para as vozes de Virginia Astley e Kate St. John. Sente-se à vontade no papel de acompanhante?
R. – Numa canção, a voz é o ponto fulcral. Além disso, interesso-me pelo que se passa num segundo plano, pelas atmosferas, pelas relações entre a melodia e a harmonia. Ou seja, pelos elementos evidentes de uma “performance” musical, as suas subtilezas ou a sua cor.
P. – Por que motivo não toca mais vezes com o seu irmão? Será que os vossos universos musicais são assim tão inconciliáveis?
R. – Brian interessa-se pelo presente e pelo futuro e eu pelo passado. Ocasionalmente estes dois mundos sobrepõem-se…
P. – A julgar pelos seus discos, fica-se com a impressão de que é um músico tradicionalista e, acima de tudo, um pianista, no sentido erudito do termo. Nem sequer usa sintetizadores…
R. – Sou talvez demasiado cauteloso no que se refere à “novidade” e ao temporário. Tenho a tendência para me apoiar nos elementos tradicionais, como suportes para a minha própria criação e não para a investigação de novas áreas. Talvez seja um defeito. A verdade é que me preocupo com a música, considerada como uma arte em si e não como uma parte da Arte, tomada num sentido mais vasto. Acho sobretudo importantes a evocação dos aspectos emocionais e as possibilidades, harmónicas e pictóricas, inerentes às doze notas da escala.
P. – Abstractizando: o silêncio ouve-se?
R. – Sou capaz de ouvir o silêncio, no contexto mais lato do ruído. Pode ser um silêncio expectante, ameaçador ou entediante. Não costuma existir numa festa… Escrevo música que incorpora o silêncio quase total ou mesmo o silêncio verdadeiro, como ingredientes que podem ser coloridos por sonoridades que lhes estão adjacentes. Mas o silêncio total, absoluto, aterroriza-me. Talvez seja a razão por que faço música.

Nota: A discografia oficial de Roger Eno é constituída pelos álbuns “Voices”, “Between Tides”, “The Familiar” (com Kate St. John), “In a Room” (com o grupo de música de câmara italiano Harmonia Ensemble), “Classicall Music for Those with Memory” (min-álbum, também com os Harmonia Ensemble) e “Lost in Translation”.

Vários – “Espanta Espíritos”

pop rock >> quarta-feira, 15.11.1995
álbuns
portugueses


VÁRIOS
Espanta Espíritos (6)
Dínamo, distri. BMG

BOLAS PARA O NATAL

Um disco de Natal. Nada do outro mundo agora que se aproxima a época da paz e das boas-vontades. Só que “Espanta Espíritos”, sendo um disco de Natal, não é um disco pacífico, pelo menos nas intenções. Manuel Faria foi o catalisador e impulsionador do projecto. Convidaram-se os artistas, pediu-se-lhes um original alusivo à época, os acasos mais ou menos felizes fizeram o resto. “Espanta Espíritos” mistura vozes e autorias, suscita expectativas, procura oferecer surpresas como prendas.
Xana põe as primeiras notas no sapatinho, com um companheiro habitual, Jorge Palma, num “Final do ano” que acaba empatado zero a zero. António Manuel Ribeiro embala o berço em conjunto com Miguel Ângelo em “Podia ser Natal”. Sonolento. “Hardcore” e “overdoses” com fartura são os componentes do “rap” interpretado a meias por Pacman, e Sérgio Godinho, este enfiado num colete de forças no seu papel de “rapper” em velocidade de cruzeiro. Verdadeiramente de Natal, com sinos, cabeças nos ombros e estrelinhas nos olhos, é “Uma rocha negra”, onde Kalú, dos Xutos, rivaliza nas vocalizações “valium” com Andreia, dos Valium Electric. “+ um comboio” traz de novo Jorge Palma, desta feita com Flak, ainda no mesmo registo de moleza – aqui num espreguiçar monocórdico muito Lou Reediano – que predomina em “Espanta Espíritos”. “Jura”, juram as Vozes da Rádio sobre uma letra de Carlos T e música de Rui Veloso. Bonita, swingando devagar, para não destoar, João Aguardela, dos Sitiados, teve uma ideia engraçada, pôr dois catraios a cantar e a improvisar sobre a letra, o que permite ficar a conhecer os gostos musicais da raia miúda, num perímetro compreendido entre Bom Jovi , Bryan Adams e Michael Jackson. É das coisas mais originais do álbum, uma espécie de “rap” infantil, onde os Sitiados vestem a pele de um Jon Anderson embriagado de castanhas e água-pé. Harpas, sorrisos, um madrigal a rimar com Pai Natal, dão o tom em “São Nicolau”, uma boa canção para uma colectânea natalícia dos Mini Stars. Por Viviane e Tó Viegas, dos Entre Aspas. Dois temas sobem mais alto neste presépio da música portuguesa, com barbas tão compridas como as do Pai Natal. São eles “A lenda da estrela”, composição de João Gil, para a voz de Né Ladeiras, frágil e cintilante, numa oração rezada nas traseiras do tempo, e “Família virtual”, uma bordoada valente desferida, em ritmo “ska”, pelos Despe & Siga, sobre a febre consumista e a treta virtual, com a participação especialíssima do fadista Alcindo de Carvalho, protagonista, na entoação mais chunga de que é capaz, de uma frase que vale como um manifesto: “A minha esposa é formidável, pá, sempre, sempre, sempre na alta sóçáiati!”. O mesmo Alcindo de Carvalho muda para o registo “sério” no tema final, acompanhado ao piano por Manuel Faria, um fado-balada original do grande António dos Santos, “Minha alma de amor sedenta”, onde algumas traições à afinação são compensadas pela devoção com que é cantado. Até porque, como se diz no “leitmotiv” de “Espanta Espíritos”, “… Quem perde o amor na vida jamais devia cantar”. Ao disco, falta-lhe a estrelinha…

Telectu – “Telectu, Cutler, Berrocal”

pop rock >> quarta-feira, 15.11.1995


Telectu
Telectu, Cutler, Berrocal
ED. FÁBRICA DE SONS, DISTRI. MOVIEPLAY



Quem porfia sempre alcança, diz-se, e Jorge Lima Barreto tem porfiado bastante. O mais recente “opus” da dupla Barreto / Rua reúne actuações ao vivo com os convidados Chris Cutler, nas percussões e electrónica, e Jac Berrocal, trompete e electrónica, realizadas o ano passado, no Teatro S. Luiz, em Lisboa; só com Berrocal, no mesmo ano, na Casa de Serralves, no Porto; e com Cutler, há dois anos, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra. Os 42 minutos e 13 segundos da “performance” em Lisboa constituem o prato forte da improvisação em quarteto, onde o principal atractivo reside em tentar descortinar onde termina o aleatório e começa o discurso previamente, pelo menos em parte, estruturado. O caos mostra deter as rédeas de comando neste périplo pela cacofonia que substitui os anteriores “mimetismos” da dupla portuense. Há sons estranhos, encadeamentos com a duração de segundos onde os músicos se surpreendem a tocar juntos, instantes de poesia, até de silêncio. É óbvio que tanto Rua como Barreto assimilaram convenientemente algumas das cifras correntes da chamada “new music”. A maior virtude dos Telectu tem sido, desde sempre, a de tirar o máximo partido da limitações próprias. Por fora, este disco tem um néon a piscar “novidade” e “experimentação”. Difícil, a exigir esforços da imaginação, é descortinar nele um sentido mais além, um dizer algo que não se esgote no próprio instante do acto interpretativo. Por ora os Telectu parecem comprazer-se nas delícias do fugaz. Guardamos na memória o bom entendimento de Rua com Cutler no tema do Gil Vicente, e o “tour de force”, de Lima Barreto, nos sintetizadores do terceiro e último acto. O invólucro pictórico leva a assinatura, como de costume, de António Palolo. (7)