Arquivo da Categoria: R.I.O.

Peter Belgvad, John Greaves – “Unearthed” + Sahan Arzruni – “Visionary Landscapes” + David Darling – “Eight String Religion” + Pascal Gaigne – “El Sol del Membrillo y Ozkak” + Secret Garden – “Songs From A Secret Garden” + Ensemble Harmonia – “Harmonia Meets Zappa” + Social Interiors – “The World Behind You” + Roberto Neulichedl – “3-Estação”

pop rock >> quarta-feira >> 05.07.1995
curtas


PETER BLEGVAD, JOHN GREAVES
Unearthed
Sub Rosa, distri. ????



Textos de Peter Blegvad, excêntricos à boa maneira britanica, declamados pelo próprio, com a ajuda do seu antigo companheiro nos Slapp Happy e Henry Cow, John Greaves. Quem estiver a pensar na anterior colaboração da dupla, o magnéfico 2Kew. Rhone”, pode tirar os cavalinhos da chuva. É tudo falado, sobre um fundo sonoro que acompanha a estranhez das apalvras. Pelo meio, uma canção, “The only song”, pois claro, a meio caminho entre os Beatles e os Faust. (6)

SAHAN ARZRUNI
Visionary Landscapes
Hearts of Space, distri. Strauss



Sahan Arzuni, pianista armeno, interpreta em solo absoluto a música de Alan Hovhaness, um compositor norte-americano de 84 anos, de inspiração mística, que parte das culturas não ocidentais para a descoberta da ligação entre o mundo físico e o “cosmos metafísico”. Música introspectiva, de carácter iniciático, que convida à meditação e À viagem, numa linha programática idêntica à transposição dos hinos de Gurdjieff, por Keith Jarrett. (7)

DAVID DARLING
Eight String Religion
Hearts of Space, distri. Strauss



Grava com regularidade para a ECM mas, para o violoncelista David Darling, isso não chega. Longe do jaz e da complexidade estilística das suas obras nesta editora, em “Eight String Religion” o momento é de contemplação e de calma, em solilóquios de extrema simplicidade do violoncelo sobre gravações de ruídos ambientais naturalistas como pássaros, água, insectos, vento, etc. Repousante. (6)

PASCAL GAIGNE
El Sol del Membrillo y Ozkak
NO-CD, import. Ananana



A primeira parte reúne temas compostos para um filme de Victor Erice, premiado em Cannes. A segunda é música de uma peça de bailado pela Companhia Ekarie. Sons de piano impressionista, um “bandoneon” vagabundo, sopros violeta e um violoncelo a chorar no sonho de um pintor. Melodias romântico-minimais que vão caindo como folhas de Outono. Um disco melancólico, fora de estação. (6)

SECRET GARDEN
Songs From A Secret Garden
Mercury, distri. Polygram



Depois da vitória inesperada no recente Festival da Eurovisão, os seminoruegueses semi-irlandes Secret Garden tentam aqui dar a imagem de grupo sério, escolhendo para tal um figurino “new age” vagamente céltica, vagamente nórdica, que se procura arrumar na mesma estante de Enya e quejandos. Mas é piroso na mesma. Quanto a Davy Spillane, convidado especial no “tin whistle” e nas “uillean pipes”, perdeu o último pingo de vergonha, baixando irremediavelmente à categoria de “pato bravo”. (2)

ENSEMBLE HARMONIA
Harmonia Meets Zappa
Materiali Sonori, distri. Megamúsica



O génio da transgressão nas mãos civilizadas de um grupo italiano de moderna música de câmara que, nos últimos tempos, tem colaborado com Roger Eno. Não se pode dizer que o essencial de Zappa esteja na pauta, mas é, apesar de tudo, um projecto interessante, que alterna composições de Zappa com originais do grupo. Um trabalho de jardinagem competente, que corta pela raiz o lado mais daninho do compositor. (6)

SOCIAL INTERIORS
The World Behind You
Extreme, import. Ananana



“Uma paisagem sombria para navegação aural”, lê-se na capa do disco. É mais escuro do que isso, no confronto terrífico com sons do quotidiano e da Natureza que, de súbito, se animam como monstros saídos do inconsciente. Os Social Interiors são uma câmara de reverberação idêntica à dos Biota, que obriga a perceber o mundo e a música com novos órgãos dos sentidos. Cuidado, o cântico dos insectos e da chuva numa noite de trovoada esconde o ruído de passos de alguém que caminha atrás de nós. (7)

ROBERTO NEULICHEDL
3-Estação
XXX, import. Áudeo



Música composta para o espectáculo do mesmo nome levado à cena pelo Teatro de Marionetas do Porto e pelo Ballet Teatro Companhia. Silêncios, um piano desolado, as vozes dos actores sequenciadas por meios electrónicos. Faltou coragem para transformar esta viagem pela memória de uma mulher que recorda os seus amores num objecto musical autónomo e inovador. (5)

Perve – “Perve Em Estreia Com ‘Segmentos’ – PERVERTER PELA POSITIVA”

pop rock >> quarta-feira >> 24.05.1995


Perve Em Estreia Com “Segmentos”
PERVERTER PELA POSITIVA


“Segmentos”, álbum de estreia dos Perve, apresenta alguns enigmas, a começar pela personagem da máscara, cantor e letrista do grupo, enigmaticamente designado “O Homem”. “O Homem” não dá, por enquanto, entrevistas. O mundo jornalístico não está por enquanto preparado para a sua mensagem. Nuno Tavares, o guitarrista, substituiu-o no desvendar de alguns, poucos, desses mistérios. É também o regresso dos álbuns conceptuais e da defesa de conceitos como a “libertação sexual”, como forma de dizer alguma coisa que fuja aos esquemas rotineiros de produção.
PÚBLICO – Como é que nasceu a ideia do “Homem”?
NUNO TAVARES – Foi para chamar a atenção das pessoas, não no sentido comercial, mas para uma série de coisas que nós, Perve, e em particular “O Homem” temos para transmitir. Questões de valores.
P. – Mas são precisos a máscara, o anonimato, para transmitir esses valores?
R. – Quem transmite é o grupo, a forma musical. Os textos, poemas, é que são do “Homem”. Porquê a palavra “homem”? A ideia surgiu ao longo do nosso trabalho nos últimos dois anos, à medida que nos apercebíamos do que estávamos a fazer. Queríamos transmitir a nossa mensagem de uma forma lata e englobava valores que consideramos fundamentais…
P. – Que valores e que mensagem?
R. – Uma mensagem de valores humanos, de sensibilidade e liberdade. A todos os níveis. Tem a ver com os “segmentos”, como no tema “Mexe-te”, que fala de uma libertação do corpo. Aí queremos transmitir a mensagem da libertação sexual. Com os montes de problemas que hoje existem, as pessoas retraem-se, fecham-se cada vez mais. É o exemplo de uma mensagem transmitida ao homem pelo “Homem”.
P. – Nesse aspecto os textos do “Homem” nem sempre são muito claros. Estamos a recordar-nos, por exemplo, do tema “Calafrio”…
R. – Esse texto já não é tão directo. Está incluído no “Segmento do Ébano”. Tem mais a ver com uma calma nocturna. No fundo, é um sonho, um calafrio que a atravessa. “A flor do corpo”, por outro lado, tem uma componente um bocado surreal…
P. – A liberdade de que falava há pouco está, quanto a nós, mais nas formas musicais que vocês escolheram do que propriamente nas palavras, que se tornam em alguns casos quase redundantes.
R. – Não. É um facto que tentámos perverter algumas tipologias musicais que nos são familiares e que fizeram parte da nossa aprendizagem, a ouvir discos ou a ir a concertos. Temos uma percepção da música tanto no sentido mais normal do termo como no da música concreta ou do próprio ruído.
P. – Perve significa então essa perversão?
R. – Sim, é uma abreviatura de perversão, só que uma perversão que no nosso caso não tem qualquer carga negativa. Uma perversão positiva.
P. – Estávamos a falar das palavras…
R. – As palavras são fundamentais. As músicas nasceram quase sempre a partir de poemas. Um exemplo: o tema “A mulher-néon”, em que todo o ambiente, pesado, nasceu a partir da palavra “néon”.
P. – A audição de “Segmentos” indica que as pessoas do grupo ouviram muita música antes. Concretamente, o quê?
R. – No meu caso, sou um ouvinte de música mas não me preocupo muito em ir buscar… Não vou dizer nomes, acho que ia deixar sempre alguns de fora. A maneira como me relaciono com a música é procura-la quando ela não vem ter comigo.
P. – Os nomes da editora “Recommended” dizem-lhe alguma coisa?
R. – Conheço alguma coisa. O Chris Cutler, algumas das coisas que ele fez com vários grupos. Mas não tenho um conhecimento exaustivo da “Recommended”, até porque não é fácil encontrar os discos…
P. – “Segmentos”, como acontece com o disco de estreia dos U-Nu, descobre vias alternativas para a música portuguesa. Que opinião tem da música que se está a fazer hoje em Portugal?
R. – Estão a surgir várias coisas dentro de áreas distintas. Há grupos que continuam a procurar, não sei se uma originalidade, mas pelo menos uma coisa própria, que tenha a ver com o próprio país onde vivem. Depois há, por outro lado, uma tendênciapara surgirem muitas coisas que são demasiado coladas a sonoridades estrangeiras. Admitimos a influência da música anglo-saxónica, até porque a andámos a ouvir durante muitos anos, mas isso tem que ser filtrado e aplicado à realidade em que se vive. Outros há ainda que facilitam ainda mais e se deixam dominar por essas músicas.
P. – Sem pensar muito, diga o que pensa dos Madredeus?
R. – Sem pensar… É tão terrível… Madredeus… tem a ver com uma determinada tradição de música urbana.
P. – Pedro Abrunhosa?
R. – Um marco importante na viragem de determinada mentalidade e de determinados grupos instituídos. De repente aparece uma pessoa que de um momento para o outro põe em causa, com a sua música e a sua atitude, muitas das coisas que pareciam já ser instituições.
P. – A música dos Perve destina-se a minorias?
R. – Queremos, e estamos a trabalhar nisso, ter um espectáculo e ser um grupo que chegue ao maior número possível de pessoas. Não de uma forma massificada, de exposição total e absoluta, mas sim que a nossa mensagem seja compreendida. O que estamos a transmitir não é uma coisa directa, as pessoas podem não entender tudo à primeira, ou identificar-se somente com uma ou duas músicas, ou um determinado “segmento”.
P.- Acreditam na disponibilidade do público para receber essa mensagem que dizem não ser directa?
R. – Há pessoas que se podem identificar com o “Segmento da evasão”… No fundo é algo de que nós todos precisamos. Se calhar neste momento há um exagero, devido à conjuntura económica e social, e as pessoas precisam de extravasar para o álcool, para a droga, para o momento. Mas isso faz parte da vida. No fundo, há uma crise de valores e as pessoas refugiam-se. Nós não queremos condenar isso – até porque, como já disse, achamos a evasão legítima e natural -, mas sim mostrar que há outras coisas na vida.

Arturo Stalteri – “Racconti Brevi… E Il Pavone Parlò Alla Luna”

pop rock >> quarta-feira >> 19.04.1995
reedições


As Plumas Do Pavão

ARTURO STALTERI
Racconti Brevi… E Il Pavone Parlò Alla Luna (8)
Materiali Sonori, distri. Áudeo



Quem e lembra daquelas melodias, únicas no universo, que os Faust costumavam compor em guitarras acústicas, para grande assombramento de álbuns como “So Far” ou toda a sequência final de “The Faust Tapes”? “Racconti Brevi…” – o compacto reúne dois discos diferentes, “Racconti Brevi”, um mini-LP gravado entre 1977 e 1979 e remisturado em 1993, e “… E Il Pavone…”, de 1983 – começa na mesma veia bucólico-minimalista. O que se segue, como acontecia com aquele grupo germânico, é indescritível. Stalteri, um italiano que tocou numa banda chamada Pierrot Lunaire, faz parte daquela família de iluminados que, além dos Faust, inclui nomes como Daniel Schell, Lars Hollmer, J. Lachen, Marc Hollander (quem reedita em CD o fenomenal “Onze Danses pour Combattre la Migraine”?) e os Z.N.R., de Hector Zazou (há mais, muitos mais, que a turba ignora e não poucas vezes despreza).
Stalteri é um compositor nato com tendência para utilizar as regiões menos exploradas do cérebro. As ideias que lhe jorram da cabeça assumem invariavelmente formas pouco usuais. Não são jazz, nem progressivo, nem clássico, nem é pop, mas algo mais além e escondido. Nos domínios de Alice e dos delírios surrealistas. Um órgão Farfisa em transe meditativo, ragas psicadélicas, refracções electro-acústicas inspiradas em Terry Riley, da sala de espeçhos “Poppy nogood and the phantom band”, num passeio pela Idade Média (“Goa difronte all’oceano), um “Volo noturno” que lembra “Magician’s Hat”, de Bo Hansson, nas suas vibrações de catedral esculpida num iceberg. Referências que apenas servem enquanto sinais de orientação.
Em “Mulini” Arturo Stalteri tira o máximo partido da sua experiência como pianista clássico. A música indiana cruza-se com a guitarra de Robert Fripp em “… E il pavone parlò alla luna”. “La pescatrice di perle” prenuncia os “loops” ambientais de Ingram Marshall. Num “Morceau” de 46 segundos Arturo Stalteri transforma-se me Keith Jarrett, que se transforma em Hector Zazou, que se transforma em Keith Emerson. “Raga occidentale” oscila por 17 minutos, durante os quais o espectro da dupla Slapp Happy – Henry Cow, de “Desperate Straights”, se dilui na auto-hipnose de um piano autista. Um objecto nas margens mais longínquas da normalidade.