Arquivo da Categoria: Fusão

Reis do Mambo, Diabólicos – “Reis Do Mambo Portugueses Dão Baile Nos Alunos De Apolo – Dançar De Memória”

Cultura >> Quinta-Feira, 16.04.1992


Reis Do Mambo Portugueses Dão Baile Nos Alunos De Apolo
Dançar De Memória


Os Reis do mambo em Portugal chamam-se Diabólicos. São o testemunho vivo de um passado em que não se tinha vergonha de dançar e sentir o calor do outro corpo. Mas, na noite de terça-feira, na Sociedade dos Alunos de Apolo, os corpos voltaram a abraçar-se. Ao som do mambo, das rumbas e boleros da nossa imaginação. Quem resiste à vertigem quando se tocam canções de amor?



Tudo começou nos anos 40, no salão de festas Palladium, na Broadway, Nova Iorque, para acabar terça-feira à noite na Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo, em Campo de Ourique, a “catedral das danças de salão”, como lhe chamam. Na Broadway como nos Alunos de Apolo, o mambo foi o rei da festa e os seus intérpretes os “reis do amor”. Reinaram os Diabólicos Troupe Jazz, únicos sobreviventes de um tipo de agrupamentos que entre os anos 40 e 60 abrilhantaram os bailes da sociedade lisboeta e incendiaram os corações e não só dos jovens dessa época.
Nos Alunos de Apolo, há baile todos os fins de semana. Há o gosto pela dança. Ensina-se quem quer e elegem-se os melhores. O baile desta noite serviu para assinalar a edição simultânea do livro e do CD “Los Reyes del Mambo Tocan Canciones de Amor”, o primeiro da autoria de Oscar Hijuelos, o segundo uma colectânea que reúne os melhores intérpretes do género.

“Volare” Pelo Salão

Anunciavam-se bebidas tropicais, um cheiro a exotismo e muita sensualidade. As bebidas tropicais eram estranhas e ostentavam designações bizarras: “sumo de laranja”, “vinho branco” e “imperial”. Serviram às mil maravilhas para pôr toda a gente bem disposta. Os Diabólicos fizeram o resto e mostraram “como se tocava nesse tempo para os amantes da música de salão”. Começaram nas Caraíbas, com mabos, rumbas e boleros a preceito e acabaram nas “emoções” de Roberto Carlos: “Aqueles ojos negros”, “Volare”, com muita gente a cantar o refrão “nel blu dipinto di blu”, “Kanimambo”, “Pensylvannia Station”… Domenico Modugno, João Maria Tudela e Glenn Miller misturados na recordação de outros tempos em que não se tinha vergonha de dançar agarrado ao parceiro nem de rodopiar pelo meio da pista…
Sensualidade não houve muita, pelo menos que se comparasse à que antigamente acontecia em clubes como o “Mamboscope”, nos chamados “mambobacanais” onde as “muchachas lucian trajes sensuales y bailavan com movimentos provocativos cambiando de pareja al final de cada canción”.
Não faltaram demonstrações nem um concurso de dança de salão. Agora chamam-lhe “dança desportiva” – porque já “estamos integrados na Europa”, explicou o apresentador – e há pares campeões nacionais: José Carlos e Lena, Armando e Anabela e os campeoníssimos Marina e Alberto que positivamente voaram entre as colunas do salão embalados por uma valsa de Viena ou “desenvolvendo jazz”, segundo a explicação científica dada pelo apresentador da noite a um “swing” de Glenn Miller.

“Toda Uma Filosofia Sobre A Dança”

Entre os dançarinos havia-os ilustres. Teresa Guilherme, de mini-saia primaveril, regozijava-se por “se viver uma fase em que as pessoas perderam a vergonha de dizer que gostam de dançar”. A apresentadora do “Eterno Feminino” só parou para descansar. Mais calmo, o historiador José Mattoso também não se coibiu de ensaiar uns passos de dança. Veio “só para acompanhar os amigos” mas acabou por se render e concordar que “estes ritmos são muito envolventes e que em todas as épocas as pessoas gostam de dançar”. No final, ele e a ensaísta Teresa Rita Lopes foram um dos pares premiados pelo júri do Concurso.
Carlos do Carmo trocou por uma noite o fado pelas emoções fortes da rumba e do chá-chá-chá. O autor de “Um Homem na Cidade” apontou os jovens, abaixo dos 25 anos, que “não sabem dançar estas danças nem fazem a mínima ideia de como o fazer” e referiu-se aos dias de hoje, “vazios de memória”. Para ele uma noite como esta “não foi revivalismo mas um exercício de memória”, mesmo que a velha-guarda se tenha mostrado “um pouco destreinada”.
Zita Seabra, ex-dirigente da comissão política do PCP e editora, também “gosta muito de dançar” e choca-se com que “dança para se exibir e não para estar com a outra pessoa”. Correndo o risco de “parecer um arcaísmo”, a dissidente comunista acha que “a dança é uma coisa para se fazer a dois – não é possível dançar o tango sozinho no meio da pista”. “Eis toda uma filosofia sobre a dança” – disse, antes de desaparecer rodopiando entre as colunas do salão.

“Acabava Tudo À Batatada”

Sobre o palco, o sr. Alfredo Manuel, 64 anos de idade, 43 anos a tocar banjo nos Diabólicos, viu de novo desenrolar-se um filme e um baile sempre iguais – “apanhei três gerações, vou a caminho da quarta, de pessoas a dançar” – mas sempre diferentes: “Antes dançava-se até às 7h00 da manhã, havia concursos de “dance-hall”, tocava-se Fox a prémio e normalmente acabava tudo à batatada”. Hoje os Diabólicos Troupe Jazz, formados em 1947, em Campo de Ourique, ali ao pé do Jardim da Parada, são a única “troupe” do género existente em Portugal e teimam em manter viva uma época de ouro só perturbada à entrada dos anos 60 pelo aparecimento da “música yé-yé que começou a separar os pares uns dos outros”. Os Beatles vinham substituir as “troupes” que tocavam “temas das melhores orquestras americanas, do Glenn Miller, Harry James e tantos outros”.
O sr. Alfredo e os Diabólicos são um sonho de que ninguém quer acordar. Tocam todos os fins-de-semana, e até sempre, nos bailes dos Alunos de Apolo. Tocam canções de amor.

caixa

“Los Reyes del Mambo Tocan Canciones de Amor”
CD, EDiÇÕES MANZANA
Mambo! Só o nome tem a força de uma explosão. Se Rambo é o rei dos músculos, mambo é ginástica para os músculos do amor. O CD apresenta 22 versões originais dos anos 40 e 50, interpretadas pelos melhores intérpretes da música latino-americana: Tito Puente (considerado “el rey del timbal”) e a sua orquestra, Machito & his Afrocubans, Tito Rodriguez & Orquestra, Celia Cruz, Graciela, Neno Gonzales, José Fajardo & Orquestra, Alfredito Valdez, Rosendo Ruiz Jr. E a Orquestra Super Colosal. Trompetes, marimbas, “steel drums” não dão descanso aos pés nem ao coração. As vozes de Celia Cruz e de Graciela sussurram ou gritam desafios de sedução no calor da noite. O mambo nasceu nas Caraíbas, mas estendeu-se rapidamente ao continente americano, desejoso de suar em lutas corpo-a-corpo, dos abraços nos clubes aos enlaces no divã. Mambo é ritmo de exibicionistas, dos mil requebros inventados só para provocar. Canções de amor? Mais de paixão. Um disco abrasivo, de atear incêndios. Um disco que é fogo.

John Zorn – “Film Works, 1986-1990” + God – “Possession” + The Carl Stalling Project – “Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 15.04.1992


A CÂMARA ASSASSINA e outros desenhos animados

JOHN ZORN
Film Works, 1986-1990 (8)
CD, Elektra Nonesuch, import. Contraverso

GOD
Possession (7)
CD, Venture, distri. Edisom

THE CARL STALLING PROJECT
Music From Warner Bros. Cartoons, 1936-1958 (7)
CD, Warner Bros., import. Contraverso



A música de John Zorn é por natureza cinematográfica. O saxofonista e compositor inglês disseca os sons, retalha-os e reconstrói-os segundo um processo de montagem em tudo semelhante ao do cinema. Sobretudo desde “Big Gundown”, Zorn tem vindo a entregar-se a um meticuloso reprocessamento sonoro de variadíssimos estilos e “inputs” musicais que, ao invés de tenderem para sínteses aglutinadoras, disparam em vertigem centrífuga, em direcção a uma “micro-música”, chamemos-lhe assim, de ampliação e revalorização de pormenores. Como se a Zorn interessasse estudar o filme, fotograma a fotograma. Estética de fragmentação já presente em obras como o citado “The Big Gundown” (ainda sustentada pelas partituras de Ennio Morricone) e “Spillane” (outra referência explícita ao universo cinematográfico, neste caso ao “filme negro”), na longa dissertação sobre Godard incluída no álbum de homenagem a este cineasta, editado pela Nato, e finalmente levada ao extremo na autodevoração de “Naked City” e “Torture Garden”. “Film Works” reúne as bandas sonoras compostas por Zorn para os filmes “Hite and Lazy”, de Rob Schwebwr, “The Golden Boat”, de Raul Ruiz, e “She Must be Seeing Things”, de Sheila McLaughlin, e uma versão “pastische” de “The Good, the bad and the ugly” para um anúncio da Camel. As imagens sonoras de Zorn são sinónimo de agressão. O desenho da capa – uma câmara que é ao mesmo tempo um revólver (símbolo / ícone já anteriormente presente em “Spillane”, “Deadly Waepons”, com Steve Beresford e David Toop, e “Naked City”) – ilustra bem o modo como o filme roda no cérebro do seu autor. Mais próximo de “Big Gundown” e “Spillane” do que das torturas sónicas dos Naked City, “Film Works” apresenta-se ainda como uma série de exercícios exploratórios sobre linguagens musicais autónomas (blues, country, jazz, ambiental, no caso das composições para Raul Ruiz, reproduzidas sob a forma de “géneros” anedóticos e arquivadas em títulos como “Jazz oboés”, “Horror organ”, “Slow” ou “Rockabilly”), com a diferença de que aqui cada um deles se compartimenta e arruma num tema específico, com tempo e espaço. Suficientes para respirar. Como se desta feita Zorn (acompanhado pela “troupe” do costume: Robert Quine, Arto Lindsay, Carol Emanuel, David Weinstein, Ned Rothenberg, Frissell, Previte, etc.) optasse por escrever o índice completo e detalhado da sua obra, de modo a facilitar ao ouvinte a decifração do labirinto. John Zorn figura como músico convidado em “Possession”, embora em termos sonoros os God não se afastem em demasia do universo estético / terrorista dos Naked City, com quem partilham uma especial preferência pelas virtudes do sadomasoquismo. No folheto interior, entre corações de metal, máscaras e vísceras sortidas, os God deixam clara a imagem que fazem do amor: “Being person who is owned and fucked becoming someone who experiences sensuality in being possessed.” Aqui o filme é de horror e o som abrasivo, feito de massas sonoras em descargas contínuas de ódio e distorção. De “Fucked “ e “Return to hell” a “Soul fire” e “Hate meditation”, os God mostram que são feios, porcos e maus. Registe-se como curiosidade a inclusão no grupo de Tim Hodgkinson, que integrou a formação original dos Henry Cow e agora se vê metido no inferno. Antecedente principal e referência paradigmática das estratégias Zornianas, a obra de Carl Stalling prefigura-se, entre os anos 30 e 50, como uma das mais revolucionárias da época na América. Vinte e poucos anos ao longo dos quais Stalling compôs as bandas sonoras para os desenhos animados de Tex Avery para a Warner. “The Carl Stalling Project” reúne gravações originais dessa era dourada da animação. Cinco anos antes da sua morte, referia-se nestes termos ao cinema de animação actual: “Têm tantos diálogos que a música deixa de ter significado.” Entre as tropelias de Bugs Bunny e Duffy Duck, a música destas pequenas sinfonias delirantes congrega em segundos toda a história da música americana que vai de Ellington a Copland, de Ives a Cage, intercalada pelo “Mickey mousing” – termo técnico que designa os ruídos onomatopaicos que acompanham a acção e os distúrbios das personagens animadas.

Carlos Zíngaro – “Violinista Só Fora De Casa Faz Milagres – Zíngaro Grava E Actua No Estrangeiro”

Cultura >> Quinta-Feira, 09.01.1992


Violinista Só Fora De Casa Faz Milagres
Zíngaro Grava E Actua No Estrangeiro



Carlos Zíngaro, violinista, “cartoonista”, improvisador e experimentador de sons e ideias, um dos mais interessantes e menosprezados músicos portugueses, conotado com as chamadas “novas músicas”, não tem mãos a medir. Da agenda para o ano em curso consta uma mão-cheia de projectos, entre espectáculos ao vivo, a edição de três novos CD e uma série de colaborações com alguns dos melhores executantes europeus da música improvisada. Violinista português só fora de casa faz milagres.
Já em Janeiro, Carlos Zíngaro actuará em Vandoeuvre-les-Nancy, no festival “Musique Action”, um dos mais prestigiados do género que se realizam todos os anos na Europa. Dois meses depois, em Março e Abril, será a digressão pela Alemanha, Áustria e Suíça, integrado nos “Canvas Trio”, ao lado da contrabaixista francesa Joelle Léandre, com a qual Zíngaro vem há anos mantendo colaboração regular, e o clarinetista alemão Rüdiger Carl, conhecido sobretudo pelos seus trabalhos em duo com a pianista Irene Schweizer. Em Junho será a vez do festival de Nocci, na Itália, de parceria com Joelle Léandre.
No capítulo das edições discográficas está prevista a saída de três novos CD do violinista, apesar de tudo, português. “Carlos Zíngaro solo au monastère des Jerónimos” foi gravado, como o nome indica, nesse mesmo local que durante séculos fez História e em breve passará à história, trocando com o Centro Cultural de Belém o papel de “ex-libris” da nossa vocação universalista. Na editora francesa “In Situ” e com algum atraso, motivado por problemas técnicos surgidos na fábrica. Uma boa oportunidade para as entidades culturais portuguesas descobrirem o músico, ex-Plexus, ex-Banda do Casaco e desde há anos aceite fora de portas como membro “oficial” da vanguarda europeia. Por tudo isto e pelo jeito que dá o local onde o disco foi gravado, a Comissão dos Descobrimentos devia aproveitar.
Previsto está também um CD com os “Canvas Trio”, para o selo austríaco Hat-Hut em cujas fileiras militam músicos tão importantes como Anthony Braxton, Steve Lacy, Cecil Taylor e os Vienna Art Orchestra. Por último, e ainda no formato compacto, uma colaboração com o trio parisiense de electro-acústica “Un Drame Musical Instantané”, constituído por Jean-Jacques Birgé, Bernard Vitet e Francis Gorgé. De notar a terminação em “ê” de todos os nomes – verdadeiramente dramática e electro-acústica.
Durante o próximo mês de Fevereiro, Carlos Zíngaro colaborará com o teclista Richard Teitelbaum – já gravaram juntos uma actuação ao vivo captada no Festival de Victoriaville, Canadá – na apresentação em Berlim da ópera “Golem” inspirada na figura mítica judaica que serviu de tema à obra homónima do místico e romancista Gustav Meyrink.