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Carlos Zíngaro + José Mário Branco + Luís Cília + Nuno Rebelo + U-NU + Júlio Pereira + Vai de Roda + Realejo – “O Que Está Para Acontecer”

pop rock >> quarta-feira >> 04.01.1995


O QUE ESTÁ PARA ACONTECER

CARLOS ZÍNGARO



MÚSICO DE GRANDE PROJECÇÃO ALÉM-FRONTEIRAS, CARLOS Zíngaro nunca teve em Portugal o reconhecimento merecido. 1995 será mais um ano em que o violinista se desdobrará por várias actividades no âmbito da nova música europeia. A reedição, no início deste ano, do compacto “Solo”, gravado no Mosteiro dos Jerónimos com o selo In-Situ, cuja primeira edição se esgotou, será acompanhada, na mesma editora, pelo lançamento de um álbum de genérico “Periferia”, por um quarteto do qual fazem parte, além de Zíngaro, o saxofonista Daunik Lazro, o contrabaixista Jean Bolcato e o pianista Sakis Papadimitriou.
Ainda em matéria de novos discos, sairá este ano, na Avant, editora de John Zorn, a ópera interactiva “Golem”, do teclista Richard Teitelbaum, na qual participam o violinista português, a cantora Shelley Hirsch, o guitarrista David Moss e o trombonista George Lewis.
Em termos de espectáculos, Carlos Zíngaro tem programado um concerto em Colónia, realizada pela WVDR (Rádio Televisão da Vestefália), integrado num festival de nova música, ao lado de outros dois violinistas, Mark Feldman e Malcolm Goldstein – todos em actuações a solo. No Festival de Artes de Seul, na Coreia, Zíngaro apresentará nos finais de Setembro um projecto duplo, com actuações com músicos locais e, em paralelo, espectáculos de bailado com música ao vivo e a participação dos bailarinos João Natividade e Margarida Bettencourt.
O mesmo formato, apresentado pela primeira vez em Macau no passado mês de Dezembro, será seguido em Tóquio, onde o músico português tocará com executantes japoneses. “A editora de Hong-Kong, Sound Factory, mostrou-se por seu lado interessada em editar, caso as ‘masters’ estejam em condições, a banda sonora deste projecto, que foi apresentado me Macau”, acrescenta Carlos Zíngaro.
Em Portugal, está agendado um concerto ao ar livre, em Idanha-A-Nova, com o compositor e percussionista espanhol Llorenç Barber, a realizar em Agosto numa ponte romana que liga Portugal a Espanha. Neste projecto, Barber tocará os sinos de vários campanários de igrejas da região.

JOSÉ MÁRIO BRANCO




AINDA NÃO SE ESGOTARAM OS ECOS DO espectáculo “Maio Maduro Maio”, realizado recentemente no S. Luiz, em Lisboa, e José Mário Branco não tem mãos a medir. O novo ano tem uma agenda carregada à sua espera. 1995 será o ano de edição em compacto da obra integral deste autor, numa editora que deverá ser a Edisom. Serão sete CD, os três que já saíram – o duplo “Mudam-se os Tempos” e “Margem de Certa Maneira”, e “Correspondências” – aos quais se irão juntar “A Mãe”, “A Noite”, “Ser Solidário / FMI” e um sétimo disco, que “terá coisas dispersas, anteriores, como ‘O soldadinho’, ‘Cantigas de amigo’, temas do GAC e alguns inéditos”. Os discos serão vendidos separadamente mas, ao mesmo tempo, será editado um pacote com os sete, contendo um livro autobiográfico e com a análise da obra e iconografia de José Mário Branco. Também para este ano está prevista a saída do disco, na Sony Music, com a gravação ao vivo do espectáculo “Maio Maduro Maio”. Outro dos projectos de José Mário Branco é a produção, em Janeiro, de um disco de fados, ao vivo, de Camané: “Vai ser gravado em condições relativamente inéditas em termos de fado, ou seja, vamos recriar, durante quatro noites, o ambiente pré-preparado de uma casa de fados, com pessoas escolhidas, vinho tinto e chouriço assado, um bocado como na televisão, com possibilidade de repetir”. Logo a seguir, será a gravação de um projecto de José Peixoto, José Salgueiro, Paulo Curado e João Paulo, um disco de canções infantis cantadas por Maria João. José Mário Branco terá a seu cargo os arranjos e a direcção musical. O disco chamar-se-á “Bom Dia, Benjamim” e é “a história de um dia da vida de um miúdo de cinco anos de idade” – após o que será a entrada em estúdio dos Gaiteiros de Lisboa, para a gravação do seu álbum de estreia, com edição prevista para o meio do ano, coincidindo com um concerto misto de José Mário Branco com o grupo, inicialmente agendado para este mês mas que acabou por ser adiado e substituído pelo espectáculo “Maio Maduro Maio”.

JÚLIO PEREIRA
JÚLIO PEREIRA ESTÁ ZANGADO COM A EDITORA, A SONY MUSIC. O ALBUM “ACUSTICO”, EDITADO no final do ano passado, foi bem recebido pela crítica, o que, segundo o músico, justificaria da parte da editora uma aposta maior em termos de promoção: “Eu, projectos para este ano, tenho vários, mas não me apetece divulga-los agora. Os projectos passam muito pela resposta aos trabalhos que a gente faz. Neste momento, ainda estou à espera que a minha editora, que é a Sony, avise e informe as pessoas do meu país, e, inclusive, do estrangeiro, que o meu disco saiu. Não quero entrar numa má, mas neste momento não me apetece ficar calado.” Está dado o recado.

LUÍS CÍLIA




“A ÚNICA CERTEZA É QUE NO FINAL DE JANEIRO sairá um disco meu”, diz Luís Cília, em relação a projectos para 1995. O disco, instrumental, será editado sob a etiqueta Strauss e conterá extractos de bailados, para a Gulbenkian, que o artista foi compondo ao longo dos últimos anos, em vários locais, como a Holanda e a Suíça. O saxofonista Edgar Caramelo será o único convidado presente. Para além deste álbum, Luís Cília não arrisca outros prognósticos. “Em Portugal não se pode fazer grandes projectos”, diz. “Sobretudo depois do que se gastou com Lisboa 94, com a Lisboa ‘gutural’, como eu lhe chamo. Não sei se restou algum dinheiro para os artistas portugueses. Projectos, em Portugal, só se forem a curto prazo.” Luís Cília conta também escrever a música para a peça “A Morte de Um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller, que será levada à cena pela companhia de teatro Malaposta.

NUNO REBELO




NÃO APARECE MUITO NA IMPRENSA, GOSTA DE participar em projectos multimédia, de experimentar campos musicais alternativos e gravou um disco lapidar: “Sagrações do mês de Maio”. Este ano Nuno Rebelo, ex- Street Kids, ex-Mler Ife Dada e ex-Plopoplot Pot, vai dar um concerto à hora de almoço no Acarte, no dia 2 de Fevereiro. “Com música ao vivo sobre um vídeo do Edgar Pêra, ‘Um Mundo sobre o Outro, Desbotado’ baseado numa novela de Maria Isabel Barreno.” O vídeo, gravado para o ISPA, tinha 20 minutos de duração e música composta por Rebelo. No espectáculo ao vivo será, porém, apresentada uma versão diferente, intitulada “As alucinações estão aí”. No palco vai estar, ao lado de Nuno Rebelo, o guitarrista Jean-Marc Montera, que já tinha tocado este ano no S. Luiz, em Lisboa, com Paul Lovens e Carlos Zíngaro. Além deste concerto, Nuno Rebelo refere que apenas tem na agenda compor música para “umas peças de teatro à espera de subsídio, aquelas coisas…”.

REALEJO
OS REALEJO SÃO UM GRUPO DE MÚSICA DE RAIZ TRADICIONAL DO QUAL MUITO SE ESPERA PARA este ano. Fernando Meireles, construtor e tocador de sanfona, anunciou que a banda vai estar em estúdio em Janeiro e Fevereiro para gravar o álbum de estreia que em princípio deverá sair no início da Primavera. “Quem vai produzir o disco é o Luís Pedro Fonseca, que trabalhou no álbum da Né Ladeiras. Penso que ele irá vender o disco à EMI”. “Tudo surgiu”, explica Fernando Meireles, “por causa da nossa participação no disco do Fausto”. O álbum dos Realejo esteve para ser feito no Nova Estúdio, o que não aconteceu porque entretanto “surgiram umas complicações”. “Eles não tinham dinheiro para investir, tivemos que ser nós a fazê-lo”, diz Fernando Meireles. Depois da apresentação do disco, este músico é de opinião que para os Realejo “as coisas irão tomar um novo rumo” em 1995, embora reconheça que o ano que passou foi aquele em que os Realejo fizeram mais espectáculo – “tem vindo a melhorar de ano para ano!”

U-NU




OS U-NU SÃO UMA NOVA BANDA DO PORTO CUJA estreia discográfica, “A Nova Portugalidade”, o POPROCK inclui na lista dos dez melhores discos portugueses do ano. Para já, segundo o letrista do grupo, José João Cochofel, ex-membro dos Clã, os U-Nu “vão aguardar pelo tipo de aceitação que o disco terá e ver até onde poderá chegar”. A intenção é fazer espectáculos, “muitos espectáculos”. Para já, a apresentação em Lisboa de “A Nova Portugalidade” está marcada para o próximo dia 9, ao fim da tarde, no Chapitô. À noite, a banda fará uma actuação ao vivo no novo bar deste recinto. Dia 12, no Johnny Guitar, haverá nova oportunidade para o público lisboeta escutar a música inovadora dos U-Nu.
Num ano que para este grupo se poderá considerar muito positivo, José João Cochofel faz o balanço e acha que “houve espaço para os novos projectos”, embora considere que 1994 foi um ano “um bocado confuso”. “Houve coisas”, diz, “que surgiram de repente e de que ninguém estava à espera, como é o caso do Abrunhosa. Ninguém pensaria que o fenómeno tomasse as proporções que tomou. Por outro lado, so grupos mais consagrados andaram um bocado mais apagados”. Quanto aos U-Nu, não têm grandes razões de queixa, embora reconheçam que a época escolhida para a apresentação à editora do projecto “A Nova Portugalidade”, há cerca de dois anos, não tenha sido muito propícia – “o trabalho talvez estivesse ainda um pouco verde ara editar”. Certo é que os U-Nu apresentaram então uma maqueta “praticamente igual ao que seria o disco” e pouco tempo depois a editora, a Numérica, aceitou fazer a edição de um trabalho que o próprio José João Cochofel considera ser “um bocado difícil”. Até agora “A Nova Portugalidade” tem já vendida cerca de meia edição, o que não é mau para um disco com as suas características e acabado de editar. Apesar de “alguma confusão em certas lojas, que não têm o disco”, como acentua José João Cochofel, para quem a explicação para isto talvez seja “o facto de ser Natal…”.

VAI DE RODA
“VAI DE RODA” E “TERREIRO DAS BRUXAS” SÃO dois álbuns, distantes um do outro no tempo, que vieram recolucionar o conceito de música de raiz tradicional feita em Portugal. É pois com enorme expectativa que se aguarda o terceiro capítulo da obra deste grupo liderado pelo tocador de sanfona, e outros instrumentos, Tentúgal. O final da gravação deverá acontecer, segundo Tentúgal, no final de Janeiro, estando a edição do álbum apontada para a Primavera. O disco será, em princípio, editado pelos próprios músicos do grupo, não estando posta de parte a hipótese de uma editora o comprar. “Tivemos cinco propostas de editoras, mas nenhuma delas nos agradou, portanto resolvemos tomar nós a peito todo o processo”. Sobre os actuais Vai de Roda, Tentúgal diz que a sua formação “está mais madura” e sobre o terceiro disco da banda apenas adianta que “vai ter a inclusão de novos instrumentos, como a gaita-de-foles a ganhar uma maior predominância”. Neste momento, além do próprio Tentúgal, o grupo tem como gaiteiro principal Jorge Lira. Quanto a espectáculos, na altura em que os Vai de Roda deixaram de ter a Mundo da Canção como empresária – “estamos autónomos” -, incluindo o de apresentação do novo disco, irão ter lugar sobretudo na Galiza, à semelhança do que aconteceu em 1993.
Este ano será ainda, para Tentúgal, um ano de “animação”. O músico é produtor da Filmógrafo, com actividade no cinema de animação, tendo composto a banda sonora de “Os Salteadores”, uma curta-metragem realizada por Abi Feijó, que ganhou um prémio em Aix-la-Provence, obteve a Espiga de Ouro em Valladolid e agora está proposta para os Óscares. Tentúgal encontra-se neste momento a fazer música para os próximos projectos de Feijó.

Annette Peacock e Carlos Zíngaro – “Encontro à Margem Das Leis”

pop rock >> quarta-feira >> 12.10.1994


Encontro à Margem Das Leis

Annette Peacock e Carlos Zíngaro aliaram-se na feitura de uma mini-ópera que envolve bailado e improvisação. Sobre o tema dos “encontros e desencontros das pessoas e a fragilidade das relações humanas”. Um tema velho revisto à luz das novas músicas.



Ficha Artística
Annette Peacock – Sintetizador, voz, acção
Carlos Zíngaro – Violino electrónico, computadores
Roger Turner – Bateria, percussão, acção
João Natividade – Movimento
Margarida Bettencourt – Movimento
Paulo Graça – Iluminação

A ideia de fazer uma mini-ópera veio de Carlos Zíngaro e nasceu no ano passado, em Outubro, após o concerto da cantora americana em Lisboa. Mais do que um simples concerto, este trabalho em conjunto dos dois músicos pretende integrar elementos e metodologias pertencentes à dança, ao teatro e a outras actividades multimédia.
Com um esquema base elaborado sobre composições originais de Annette Peacock, o espectáculo, com a designação “Encontros” – da responsabilidade das Produções Única, com apoio do departamento de música popular de Lisboa-94 -, inclui momentos de improvisação nos quais vão assumir primordial importância como sustentáculo rítmico unificador, as percussões de Roger Turner. Trata-se de um músico inglês que partiu da cena de Canterbury dos anos 60 para o discurso improvisado, tendo colaborado, ao longo de décadas de dedicação à “new music” (generalização para todas as músicas “marginais” que englobam e reestruturam em sínteses inovadoras linguagens tão díspares como o jazz, o rock, a música concreta, a música étnica, o “vaudeville”, a electrónica, etc.), com Elton Dean, Lol Coxhill, Fred Frith, Derek Bailey, Cecil Taylor, Evan Parker, Toshinori Kondo e Marilyn Crispell, entre outros.
Os bailarinos Margarida Bettencourt e João Natividade repartem entre si a planificação e interpretação da parte coreográfica. Paulo Graça terá a seu cargo a iluminação, importante na elaboração dos vários ambientes que, segundo Carlos Zíngaro, pretende recriar “os encontros e desencontros das pessoas, a fragilidade das reações humanas, a visceralidade dos encontros e o realismo cru dos desencontros, e as situações de profundo desconforto em que se pensa “quem me dera não estar aqui”. Um tema suficientemente vago para permitir dar livre curso a toda a espécie de enunciações conceptuais e explorações ao nível da tríade intérprete – tecno logia – “environment”. Algo que poderá não andar longe, pelo menos em termos de atitude, da veia dramática de uma Meredith Monk ou da cornucópia electro-humanista de uma Laurie Anderson.
Anuncia-se que o concerto vai ter humor e alguma maldade. A criatividade terá rédea solta para se exprimir. Não espanta que assim aconteça, tendo em conta os antecedentes dos dois principais protagonistas, ambos nomes credenciados no universo das músicas alternativas.
Annette Peacock, de “performer” provocatória que nos primeiros anos de carreira exibia os seios, e uma das primeiras a arriscar submeter a voz aos tratos de um sintetizador, passou a estátua de semblante e pose gelados. Nela o erotismo escorre por vias e ligações obscuras. Num corpo e voz fora das normas e estéticas vulgares. Com a fulminância da electricidade e a ferocidade e o hermetismo de uma máscara. Nela tudo se mediatiza. Através do corpo, do canto ou das palavras. Como numa “trip” de um ácido congelado. Entra-se na sua música como no labirinto interior de um circuito integrado cuja estrutura reproduz um cérebro, um organismo humano ou o tecido social de uma cidade. “Contacto abstracto”? Ou, pelo contrário, um contacto físico, uma “proximidade física” que, para Zíngaro, “está a diluir-se”. Algo que, segundo o violinista, terá consequências, já que “algumas coisas ganharão” com essa diluição, enquanto outras “estão em risco de se perder”.
Comparado com a cantora norte-americana, Carlos Zíngaro é mais cerebral. Ou é cerebral de uma forma mais matemática. Nele a ideia de arquitectura substitui a de “swing”. O seu violino é uma nave, no duplo sentido de veículo e espaço delimitado. Um violino cuja voz procura e se procura no confronto – diálogo – dissolução com outras vozes. Dele próprio, de máquinas, ou, no caso vertente, de Annette Peacock. Um violino que mergulha nas entranhas de um computador e sai dele com a forma de um ente diferente: um comboio, uma gaivota ou simplesmente ainda um violino – multifónico, duplo cibernético. “Músicas de cena”, se quisermos simplificar e utilizar o título de um dos seus discos mais recentes. Ou um violino que se súbito se cala para escutar-se e escutar o silêncio, se fecha em si próprio na introspecção das suas fontes e dos seus limites. Como aconteceu nas radicais prestações a solo registadas por Carlos Zíngaro ao vivo no Mosteiro dos Jerónimos.
É português, Carlos Zíngaro, que remédio! A sua música, essa, não conhece fronteiras. Desde os tempos pioneiros com os Plexus e da passagem bem-humorada pela Banda do Casaco até à inevitável viagem para outras latitudes e altitudes mais elevadas, onde não se sente o efeito da asfixia e é possível respirar sem constrangimentos. Uma viagem, se calhar também ela de “encontros e desencontros”, onde acima de tudo existe a compreensão de que a evolução só é possível através do diálogo. E há formas de diálogo que nem passam pela cabeça das pessoas, onde o outro até pode ser uma extensão, projecção, transfiguração de um único e mesmo indivíduo. Zíngaro que o diga.
Claro que o músico, enfim, português, já se “bateu” com companheiros de armas como Andrea Centazzo, Barre Philips, Christian Marclay, Derek Bailey, Evan Parker, Joelle Léandre, Jon Rose, Ned Rothenberg, Rüdiger Carl, Shelley Hirsch, entre outros “loucos”, pilares de um planeta musical que sem eles se arriscaria a atolar-se no lodo do menor múltiplo comum com que querem cimentar as estéticas nado-mortas do “admirável mundo novo”, paraíso dos pacóvios, dos bajuladores, dos indigentes e dos funcionários e desalmados em geral.
Por tudo isto, ou se tudo isto for pouco ou for demais, apenas pela excelência de todos os participantes envolvidos, é obrigatório não faltar a estes “Encontros”. Mesmo que os desavisados possam sentir o tal desconforto do “quem me dera não estar aqui”. Para esses, fica a conclusão em forma de lugar-comum: quem não arrisca não petisca.
DIA 15, TEATRO SÃO LUIZ, LISBOA, 22H

CAIXA
Mano A Mano

Não são de agora os duetos de músicos portugueses com estrangeiros de maior ou menor nomeada. Em diversas áreas, do fado ao jazz passando pelo rock, a pop e a música tradicional, cantores e instrumentistas nacionais arranjaram companhia lá fora, com o objectivo de enriquecerem determinadas propostas musicais, registadas em disco. Algumas resultaram em cheio. Outras nem tanto.
Recordemos vários desses duetos, com a indicação do título do álbum, ano de edição e os nomes envolvidos.
“Encontro”, 1973, Amália Rodrigues com Don Byas. O saxofonista tenor no encontro com o fado. A improvisação a empurrar a diva para procurar-se e procurar o (seu) fado noutra voz.
“No Jardim da Celeste”, 1981. Banda do Casaco com Jerry Marotta. Nuno Rodrigues voltava o casaco do avesso. O baterista de Peter Gabriel juntou uma certa modernidade urbana e internacionalista à tradição. Esta, se não ficou a perder, saiu pelo menos confundida da aventura.
“Coincidências”, 1983. Sérgio Godinho com Ivan Lins. Irmãos na resistência. Dois lutadores cuja arma é a poesia.
“Looking for Love”, 1988, e “Alice”, 1990. Maria João com Aki Takase. Mais do que uma colaboração, uma cumplicidade. Uma voz e um piano, cidadãos do mundo. João canta também com os outros “monstros” agrados do “jazz”. Nós é que muitas vezes não reparamos.
“Amor é Cego e Vê”, 1990. Eugénia Melo e Castro com Ney Matogrosso, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque, Simone e Gal Costa. Todos os grandes artistas brasileiros querem estar ao lado de Geninha. É uma honra.
“Dialogues”, 1991, Carlos Paredes com Charlie Haden. Um génio fechado dentro de quatro paredes. O contrabaixista da Jazz Composers Orchestra compreendeu isso À própria custa.
“Delírios Ibéricos”, 1991, Rão Kyao com Ketama. Nas suas viagens pelo Sul o encontro inevitável das flautas de bambu com o flamenco.
“Evil Metal”, 1992. Telectu com Elliott Sharp. Lima Barreto e Vítor Rua sabem escolher as vanguardas em que se movem. Chris Cutler, um dos expoentes da “nova música” europeia (Henry Cow, Art Bears, Cassiber, News from Babel, etc.), também toca com eles ao vivo de vez em quando.
“Laura”, 1993, e “Divertimento for Duke and Monk”, 1993. Depois de uma experiência pioneira com o baterista Aldo Romano, o trompetista português Laurent Filipe gravou com Pedro Sarmiento, um pianista espanhol que vai dar que falar.
“Repress”, 1994,. Luís Represas com Pablo Milanês. A música é a mesma, mas como foi gravada em Cuba faz de conta que não. A voz do cubano, apesar de tudo, aquece mais do que arrefece.
“Sob Escuta”, 1994. GNR com Vicente Amigo. O sal do flamenco a condimentar os jogos de “charme2 de Reininho.
“Viagens”, 1994. Pedro Abrunhosa com Maceo Parker. A “música nova” do guru Abrunhosa toda ela “funky” com a ajuda do ex-trompetista de James Brown. A propósito de novidade, já alguém reparou no genérico musical de O Tal Canal?
“Salsetti”, Bernardo Sassetti com Paquito d’ Rivera, a aguardar edição. Novos mapas que passam pelos trópicos, no alor dos sopros de um cubano guardião da herança de Dizzy Gillespie.
Próximo disco dos Chieftains, 1995. Júlio Pereira com os Chieftains. O reconhecimento pelos mestres da música tradicional irlandesa de um dos maiores instrumentistas portugueses. Neste caso foram eles a chamá-lo.
Quanto a Carlos Zíngaro, já gravou discos com meio mundo de músicos europeus importantes: Andrea Centazzo (“Mitteleuropa Orchestra Live”, 82), Daunik Lazro (“Sweet Zee”, 84), Richard Teitelbaum (“The Sea Between”, 86), Derek Bailey, Lee Konitz, Barre Philips e Teitelbaum (“Once”, 89), Joelle Léandre (“Écritures”, 90), Une Drame Musica Instantané (“Opération Blow Up”, 92), Rüdiger Carl (“Canvas Trio”, 93).

Miguel Azguime + Irene Schweizer + Carlos Zíngaro + Paul Lovens + Jean Marc Montéra – “Música Improvisada Em Lisboa Um Passo Em Frente, E Outro, E Outro…”

cultura >> segunda-feira >> 20.06.1994


Música Improvisada Em Lisboa
Um Passo Em Frente, E Outro, E Outro…


“A VERDADE do efémero”. Assim define Miguel Azguime – organizador e participante no ciclo “Improvisação na música do séc. XX”, integrado no programa de Lisboa-94, que hoje e amanhã vai ter lugar no Teatro S. Luiz, em Lisboa – o essencial da música improvisada.
Seis concertos, divididos pelos dois dias, mostrarão o que Azguime enuncia como “uma praxis metodológica que consagra rigor e liberdade, num sempre reinventado ‘work in progress’, verdadeiro acto de criação no presente, que pode estar ligado a qualquer estética, estilo ou cultura”. Participam neste ciclo, hoje, Miguel Azguime, que apresenta a peça para percussão solo “Ícones”, a pianista suíça e nome importante do “free jazz” europeu, Irene Schweizer, em piano solo, e oo trio formado pelo violinista português Carlos Zíngaro com Jean Marc Montéra na guitarra e Paul Lovens na percussão.
Amanhã será a vez de improvisarem o trio de Denis Colin, com Denis Colin no clarinete baixo, Didier Petit no violoncelo e Pablo Cueco no “zarb”, seguido de Giancarlo Schiaffini, na composição para trombone solo e electrónica, Édula”, e os portugueses Idéfix Generator – Sérgio Pelágio, guitarra eléctrica, Paulo Curado, saxofones, Thomas Kahrel, guitarra eléctrica e percussão, Ricardo Cruz, baixo eléctrico e Bruno Pedroso, bateria – a finalizarem o ciclo.
Azguime, percussionista dos Miso Ensemble de rara intuição, atento às texturas, cores e vibrações da natureza; Irene Schweizer, figura de proa do “Feminist Improvising Group”, ex-companheira de aventuras com Peter Brotzmann, Evan Parker, Derek Bailey, Willem Breuker, Hank Bennink e Alexander Von Slippenbach, em excentricidades levadas ao gozo absoluto de tocar na colaboração actual com o acordeonista Rüdiger Carl; Carlos Zíngaro, um dos maiores violinistas da vanguarda europeia actual, músico do mundo, português por acaso que não por acaso tocou lado a lado com Andrea Centazzo, Barre Phillips, Christian Marclay, Derek Bailey, Evan Parker, Joelle Leandre, Jon Rose, Ned Rothenberg, Shelley Hirsh, toda uma galáxia de foragidos da normalidade apostados em reformular o universo e a filosofia dos sons; Jean Marc Montera, o mesmo que dirigiu a ópera “free rock”, “Helter Skelter”, com Fred Frith; Paul Lovens, inventor de sons e objectos percussivos, criador de ritmos sem fronteiras no seio da fabulosa Globe Unity Orchestra.
A lista prossegue: Denis Colin, tão à vontade a tocar com “monstros” como Steve Lacy, Archie Shepp e Cecil Taylor como a fazer música para teatro, televisão, desenhos animados e poesia; Didier Petit, companheiro de Colin nos Celestria Communication Orchestra e participante, entre outros projectos, no inclassificável Un Drame Musical Instantané (por onde aliás já também já passou Carlos Zíngaro). E Pablo Cueco que apesar do apelido já mostrou o que vale com Luc Ferrari e dispersa os seus talentos pelo jazz, a música contemporânea, a salsa, a música antiga e a música tradicional, Giancarlo Schiaffini apresenta em Lisboa uma obra “comestível”. Viajou e viaja da música renascentista até ao convívio com os mestres da cinética, Cage Merce Cunningham e Nono.