Arquivo da Categoria: Kitsch

Vitorino, André Cabaço, Filipa Pais E Janita Salomé – “Vitorino, André Cabaço, Filipa Pais E Janita Salomé Tiveram Saudades No Casino Estoril – Com As Cançonetas Coladas À Pele”

cultura >> sábado, 06.05.1995


Vitorino, André Cabaço, Filipa Pais E Janita Salomé Tiveram Saudades No Casino Estoril
Com As Cançonetas Coladas À Pele


Se não foi um concerto revivalista então foi o quê? Na apresentação do espectáculo – mais um da série de “Concertos Íntimos” que se está a realizar do Casino – Vitorino disse que não, que não iria ser revivalista mas sim um espectáculo “comparado”. Comparado com quê? Mais valia admitir as delícias do “kitsch”…



Afinal, e ao contrário do que o programa deixava entender, estas “Saudades, anos 60 e 70” – que hoje a manhã ainda pode ver no mesmo local – não foram um espectáculo de Vitorino com convidados. Vitorino cantou as seis primeiras canções e só voltou a aparecer no tema final. Foi antes uma sequência de canções repartidas por quatro cantores, com André Cabaço a tomar o lugar do cantor de Redondo, seguindo-se Filipa Pais e Janita Salomé, para finalmente se juntarem todos no abraço habitual sobre as palavras e as notas de José Afonso de “Traz outro amigo também”.
Foi de facto revivalista, desculpem lá a insistência. Faltou distanciação e um olhar crítico sobre as canções para se poder falar em algo mais. O mergulho no passado não teve viagem de retorno. Vitorino, depois do início com o omnipresente Zeca Afonso, numa interpretação forte dos “Índios da meia praia”, vestiu a pele de cantor galante, cantando em espanhol com a maior convicção deste mundo coisas como “Adios muchachos”, “Reloj” e “Caminito”. É a sua costela de artista de variedades – antes dizia-se “cançonetista” – a funcionar, o apelo do romantismo fora-de-moda de uma Lisboa provinciana. André Cabaço, cantor africano amigo e colaborador de longa data de Vitorino, prosseguiu na mesma veia, embora o seu “look” de “rasta” chique não ligasse por aí além com o estilo Nat King Coleano de temas como “Ansiedad”, “Quizas” e “Cachito”.
Filipa Pais, deslumbrante como sempre no contraste do louro dos cabelos com o negro do vestido, entrou nervosa, estilo concorrente ao “Chuva de Estrelas”, com “Imagine”, de John Lennon, melhorou no “jazzy” “Paper moon”, safou-se em “Here, there and everywhere”, dos Beatles, maravilhou no regresso das palavras ao português, em “Bairro negro”, saindo por cima e em passo de euforia brasileira, com “Teco Teco”.
Para o seu lugar saltou Janita Salomé, o vozeirão do costume, na ocasião mais operática do que nunca. Gostámos sobretudo do sentimento que pôs em mais uma citação a José Afonso, na “Canção de embalar”. Mas valeu a pena a deslocação ao casino só para o ouvir cantar, de forma arrebatada, o “Ne me quite pas” de Jacques Brel e tomar posse do picante parisiense de Edith Piaf, em “Rien de rien”. De facto, a Bélgica e o Alentejo não estão tão longe assim. Nem o “cante” do “la vie en rose”. Mas a noite era de saudades e nem sequer surpreendeu o fecho com a canção de luta de um “cantor ‘hippie’ brasileiro”, um tal Nelson Vandré, “Pra não dizer que não falei das flores”, a parte final entoada pelos quatro cantores que ficaram ainda para o afonsino “Traz outro amigo também”. Os três instrumentistas, Vasco Gil, nas teclas, Rui Alves, na bateria, e Quim N´Jojo, nas percussões, constituíram um verdadeiro grupo de casino, de genuína música de variedades. Que melhor elogio lhe podemos fazer?
Anos 60 e 70, quem ficou com saudades deles à saída do casino? O quarteto de saudosistas passou ao lado do que realmente fez história nestas duas décadas. Mas, como Vitorino avisara logo de início, o reportório passou apenas em revista as canções que à época se cantavam no país, “nos bailes, nos salões, nas festinhas em casa e nos serões para trabalhadores”. Bem nos queria parecer!…

Jorge Rocha e as Lipstick – “De Vila De Marmeleira A Cavalões”

pop rock >> quarta-feira >> 03.08.1994


De Vila De Marmeleira A Cavalões


“’Sexy’s’ – quentes – electrizantes – espectaculares!”, é assim que Jorge Rocha e as suas Lipsticks anunciam o novo visual. “Sensualidade, carisma, êxtase, loucura, música e ‘performance’”, continuam a ser as palavras de ordem, agora aumentadas com a “criatividade” e “choque”. Nucha (a loira) e Cristina (a morena) são os braços direitos, as pernas e outros apêndices fisiológicos de Jorge Rocha, o “Prince português”. Por onde passam, ele e elas provocam o “delírio”. “Totalmente identificados com os padrões europeus e americanos”, Jorge Rocha e as duas meninas continuam “marcando pontos na procura da diferença, do modernismo e do amanhã com a coragem, capacidade e talento que caracterizam a irreverência do grupo”.
Na foto, de baixo, pode ver-se a banda a marcar pontos. Com a moto e os novos visuais, “inspirados me modelos ‘made in USA’, com materiais em vinil (PVC) e couro”, cuja “concepção e imaginação” pertencem a Jorge Rocha em colaboração, na “produção dos visuais”, com o estilista Sérgio Antunes, do Porto. A propósito, está certo que a moto se pode considerar um símbolo fálico mas também não é preciso exagerar.
Jorge Rocha e as Lipstick encontram-se em plena “World Tour/94” de cujo calendário fazem parte concertos em A-Ver-o-Mar (6 de Agosto), Baleizão (7), Vila de Marmeleira (13), Barco (14), Cavalões (20), Vila Mar (22), Gala Top Model Internacional, Casino da Figueira da Foz (27), Sardoal (29), Festa das Vindimas, Palmela (1 de Setembro), Discoteca Efundula, Pêro Pinheiro (2 e 3) e Santarém (10).
Um único objectivo, como eles próprios apregoam: “Devorar Portugal!”

Conjunto António Mafra – “‘O Melhor Dos Melhores, vol. 48’ + ”Não Pára””

pop rock >> quarta-feira >> 03.08.1994


CONJUNTO ANTÓNIO MAFRA

O Melhor Dos Melhores, vol. 48 (5)
Movieplay
“Não Pára” (4)
Pôr do Som, distri. BMG



“Eram para aí sete e picos, oito e coisa, nove e tal…” Quem nunca trauteou tais horas incertas, sabendo ou não quem são os sues autores? O Conjunto António Mafra é uma espécie de lenda. Reis do “kitsch” popular e de um humor, ao contrário do de Quim Barreiros, com pouco ou nenhum picante, o seu reinado dura há 35 anos, sobrevivendo à morte do seu fundador e mentor, António Mafra. O Conjunto António Mafra nasceu no Porto, junto aos Clérigos num pequeno local chamado “Cantinho da Rambóia”, na noite de S. João.
Seis Mafras, uma família que se entregou às noitadas e aos sons populares polvilhados de graça, das chulas, marchas e viras que contavam o “Baile da Dona Ester” e iam beber o “Vinho da Clarinha”. Os dois discos agora editados marcam o regresso dos Mafras, para “abanar o capacete” em plena “era digital dos compact-disc e do software”, como eles dizem.
A estratégia é semelhante ao do também recém-regressado Vítor Gomes: capitalizar no passado e procurar acertar o passo com a onda de revivalismo do “popularucho” que grassa actualmente em Portugal. Os Sitiados, por exemplo, incluem no seu reportório “O carteiro”. “O Melhor dos Melhores” é uma compilação de interpretações originais de êxitos como “Sete e pico”, “Ó Zé olha o balão” ou “Arrebita, arrebita, arrebita”. Ingénuas e com aquele toque de humor atravessado de nostalgia que caracterizava Max, com quem a música dos Mafras tinha e tem parecenças.
“Não Pára” é também uma colectânea (seis temas repetem-se nos dois discos) mas com a particularidade de ser gravada já este ano pela actual formação do grupo. As diferenças não são muitas, mas nota-se uma atitude de maior profissionalismo, presente nomeadamente no cuidado com que são tratadas as harmonias vocais que eram um dos pontos fortes do grupo, a par das vozes de “falsetto” e imitação que entravam de surpresa, a servir de contraponto humorístico, um pouco à maneira dos jograis, técnica que, por exemplo, Sérgio Godinho, noutro contexto, utiliza em algumas das suas canções.
As percussões aparecem por seu lado mais marcadas, o que acentua o carácter folclórico dos temas mas tem o inconveniente de os tornar mais pesados e lhes retira alguma da frescura original. Mas é impossível não sentir alguma simpatia por esta música que procura sacudir a poeira das recordações e surge como um quadro vivo de um tempo que a memória enterrou.