Arquivo da Categoria: Críticas 1994

Stina Nordenstam – “And She Closed Her Eyes”

pop rock >> quarta-feira >> 04.05.1994


Stina Nordenstam
And She Closed Her Eyes
East West, distri. Warner Music



Faz frio, é sempre Inverno no universo nocturno e gelado de Stina Nordenstam. A acção poderia desenrolar-se em Twin Peaks. Stina Nordenstam é uma sueca de voz igual à das criancinhas e com um jeito especial de nos arrastar para lugares sórdidos, tristes ou simplesmente perigosos. Há nela uma falsa inocência, como a das suas duas irmãs espirituais, Virginia Astley e Julee Cruise. Stina deambula por ruas cortadas pelo amor de um casal de bombistas, em comboios que atravessam paisagens sem fim nem nexo, por amores furtivos iluminados a luz negra. Cada canção embala-nos como uma “lullaby” e põe-nos a sonhar com a força de um narcótico. A ressaca nunca será agradável. “Proposal” é uma árvore de Natal de um filme de terror, que se sustenta nas flutuações de um piano eléctrico e nos sininhos da rena. Jon Hassell empresta a sua trompete de surdina a “I see you again”, um dos temas em que o gelo se derrete por momentos. O torpor de uma bossa-nova sonambúlica invade “So this is goodbye”. Suzanne Veja aparece como professora de voz em “Something nice” e “And then she closed here yes”. Julee Cruise e o seu mel do inferno derretem-se nas vocalizações sintetizadas de “Murder in Maryland park”. Tudo isto poderia ser exaltante, se a monotonia não espreitasse no registo insistente de criança ferida de que a voz de Stina nem por um segundo se afasta. Uma anestesia tem o duplo efeito de permitir observar o mundo sem sentir dor e ao mesmo tempo de impedir a fruição das cores, sons, cheiros e outras coisas palpáveis desse mesmo mundo. Quem quiser que feche os olhos e entre no limbo. (7)

Jorge Palma – “‘Té Já”

pop rock >> quarta-feira >> 04.05.1994


Jorge Palma
‘Té Já
Strauss



Como as coisas se revelam diferentes à distância! Em 1977, ano da sua primeira edição, “Té Já” soava como um disco soava como um disco importante de um autor então à margem dos esquemas normais de produção. “Outsider”, viandante das estradas de dentro e de fora, Jorge Palma viajava nessa altura também em busca da forma ideal para as suas canções. Com um pé nos sintetizadores do “rock sinfónico”, nas duas versões de “Ainda há estrelas no teu olhar”, outro no jazz, no caso de “O amigo das plumas coloridas”, e o olhar perdido, já “triste e cansado”, nos amores e nas baladas intimistas que vieram a caracterizar parte importante do seu estilo, Jorge Palma soltava no ar gritos de angústia e de protesto, fazendo-se arauto do eterno conflito de gerações. E procurava remédio ou fuga nas palavras, antes de finalmente descansar no “Bairro do Amor”, que neste disco aparece na sua primeira e ainda incipiente versão, distante do magnífico tema em que se viria a transformar, com novo arranjo, incluído no álbum de 1989 com o mesmo nome. Hoje, a força de canções como “Eu sei lá” aparece diluída e a ingenuidade ressalta no meio de tantas boas intenções. Mesmo assim as palavras de “Podem falar” e “Eles já estão fartos” – dois dos melhores temas deste trabalho, por sinal aqueles onde a mensagem de revolta social e geracional surge de forma explícita – continuam ainda hoje a provocar cócegas na consciência… (6)

Jon Hassell – “Dressing For Pleasure”

pop rock >> quarta-feira >> 04.05.1994


Jon Hassell
Dressing For Pleasure
Warner, distri. Warner Music port.



“City: Works of Fiction” e, em particular, o “single” retirado deste trabalho, “Voiceprint”, forneciam já alguns indícios do que poderia vir a tornar-se a música de Jon Hassell. “Dressing For Pleasure”, subintitulado “The Rebirth of the Virtual Cool”, transpõe a música do chamado “quarto mundo” dos anteriores trabalhos do trompetista pára um palco urbano. A selva agora é a cidade, cadinho de um novo tribalismo que nos ritmos de dança encontra os seus cogumelos mágicos de transe colectivo. No fundo, e a dar razão ao subtítulo do disco, Hassell procede aqui de maneira idêntica à de Miles Davis quando este ligou a linguagem do “cool” ao “ghetto” e à negritude. Só que, no caso de Hassell, houve o cuidado de acrescentar ao híbrido o termo “virtual”. De facto “Dressing For Pleasure” é como que um caleidoscópio onde se entrechocam os referentes da cultura “hip-hop”, o “acid-jazz”, o “dub”, o “Space funk”, a música de dança e, nas faixas sinalizadas, o mesmo “rap” alucinogénico que Annette Peacock ensaiou em “Abstract Contact”, um disco cujo título de resto, coincidência ou não, aponta para uma mesma ordem de valores. Síntese global apenas possível pela via da tecnologia e da simulação, o quarto mundo, este ou outro qualquer, nunca existiu senão ao nível do imaginário e de um “ser” e “estar” meramente conceptuais. Afinal, o mesmo que os Yello, de uma forma paródica, têm vindo a fazer desde há mais de uma década. E não é de certeza a imaginação que nos faz reconhecer numa faixa como “The gods, they must be Crazy” mais do que uma semelhança com a música daquele grupo suíço. É assim que, enquanto nos pudermos refastelar nos jogos infinitos de sons e imagens que o final do século colocou ao nosso dispor, objectos de pura luxúria sensual como “Dressing For Pleasure” se erguem tótemes de um comunitarismo renascente. Um aviso para quantos se acostumaram ao percurso prévio deste ex-colaborador de Brian Eno. Tenham cuidado, pois poderão sofrer no processo um forte abalo emocional. (8)