Arquivo da Categoria: Críticas 1990

Shawn Colvin – “Steady On”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 JULHO 1990 >> Videodiscos >> Pop


SHAWN COLVIN
Steady On
LP e CD, CBS, distri. CBS portuguesa


O mundo vai, progressivamente, tornando-se feminino. As mulheres fingem que não reparam e vão avançando com suavidade, mas em força. À sua maneira. O lado masculino tem consciência da ameaça, mas não parece importar-se muito. Deve pensar que já cumpriu a sua parte e agora merece descansar. Na música o fenómeno é evidente e ninguém se deve queixar. Enquanto as novas divas souberem encantar, não há razões para tal. É o caso de mais uma novata (nisto dos discos, que não na carreira, já longa e, nalguns meios, de certa notoriedade), Shawn Colvin. Depois de dar nas vistas em clubes e ter integrado bandas de “hard rock”, “country” e “bluegrass”, graças a uma voz lindíssima, de entoações suaves e “folky”, chegou por fim ao mundo da indústria, dos números e do vinilo. Em “Steady On” são notórias duas influências, qualquer delas não constituindo motivo de vergonha, antes pelos contrário: Joni Mitchell e, sobretudo, Suzanne Vega, para quem Shawn contribuiu com apoios vocais, em “Solitude Standing” e que agora retribui, cumprindo a mesma função, num dos temas de “Steady On”. Mas, como se sabe, ter boa voz, se é meio caminho andado para o sucesso, não é, porém, o caminho todo. A voz fez-se para cantar. As boas vozes, para cantar boas canções. Há-as excelentes neste disco. Quase todas prendem a atenção. E, mais importante, ao prazer físico proporcionado pelas carícias da voz, junta-se o agrado espiritual, só possível quando acontece verdadeira música. Oiça-se “Shotgun Down In The Avalanche”, talvez o expoente máximo, neste disco, do encanto e tente-se evitar o arrepio…
A produção, ótima, é de John Leventhal e Steve Addabo (que já trabalharam com Vega) e as misturas, de Kevin Killen (U2, Costello, Gabriel, K. Bush). A combinação do estúdio com a frescura e o timbre suave e incisivo da voz de Colvin resultou numa sedutora estreia a escutar atentamente. As mulheres continuam a ganhar.

Vários – “RooArt Presents”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop


VÁRIOS
RooArt Presents
Mini LP, RooArt, import. Polygram


Da Austrália pode esperar-se o melhor e o pior. Os SPK e os Severed Heads são do melhor que o país dos cangurus tem exportado para o Ocidente, em termos de música mais ou menos popular. Do contingente dos “experimentais” nada pois a dizer senão bem e que venham mais. Do campo mais exposto da pop e do rock também não há razão para grandes queixas: Go-Betweens ou Midnight Oil são apenas dois bons exemplos da aceitação e da qualidade que as bandas deste continente, quase sempre, fazem questão de manifestar. A RooArt é uma pequena editora dirigida por Chris Murphy, Sebastian Chase e Justin Van Stom, vocacionada para o lançamento e promoção de novos nomes australianos, procurando deste modo preencher o vazio existente entre os consagrados e os debutantes ávidos de se fazerem ouvir, fora do seu território natal. O problema, tendo em conta a atual mostra, é que nem sempre o produto final se revela à altura das intenções. Neste caso, das seis bandas em exposição, apenas The Hummingbirds e os Crash Politics têm algo de minimamente interessante e original para dizer. Os primeiros praticam a pop descaradamente passadista, de recuperação “sixties”. Afirmam-se inseridos na tradição dos Stones e Velvets mas, acima de tudo, têm o sentido nato de como compor uma boa melodia, o que, no seu campo, é afinal o mais importante. Os segundos apresentam uma curiosa variação do som “new wave” americano dos primórdios, (Cars, Feelies), convicta e convincente. Das restantes bandas, uma referência ainda para os Martha’s Vineyard e para a sua vocalista Peggy Van Zaim que, embora lembre em demasia Chrissie Hynde, fez o possível para chegar aos calcanhares dos seus heróis, Jefferson Airplane e Richard and Linda Thompson. Quanto aos outros, façam o favor de esperar.

Paolo Conte – “I Primi Tempi” + Vários – “Bandes Originales Du Journal Spirou” + Mark Stewart – “Metatron” + Robert Rich – “Numena” + Ashley Hutchings & Friends – “Morris On” + Muzsikás – “Blues For Transylvania”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 20 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop


PRECIOSIDADES


Paolo Conte
I Primi Tempi
LP e CD duplos, BMG Ariola


Não existe nenhum músico como Paolo Conte. Nenhum tão ridículo, patético, sublime, piroso, grandioso, elegante, bêbado, disparatado, comovente e inspirado. Nenhum tão italiano e tão estrangeiro. “I Primi Tempi” é uma coletânea contendo temas que vão de 75 a 82, a sua melhor fase. Imaginem uma mistura de Carla Bley, Tom Waits, Nino Rota, cançoneta italiana e Marco Paulo. Parece impossível mas não é. Não existe nenhum músico como Paolo Conte.

Vários
Bandes Originales Du Journal Spirou
LP e CD duplos, Nato


Vinte e dois álbuns de BD editados na revista “Spirou” passados para música pelos geniais excêntricos da editora de Jean Rochard. De Steve Beresford a John Zorn, passando por Tony Hymas, Max Eastley, Lol Coxhill ou David Weinstein, todos se divertem compondo mini bandas sonoras para os seus heróis preferidos. O jazz, a eletrónica e as fusões e colagens mais impensáveis são excelentes pretextos para a criação de uma obra-prima descomprometida e instrumentalmente fabulosa.

Mark Stewart
Metatron
LP e CD Mute


A Mafia volta a atacar. Através das estratégias subversivas do padrinho Mark Stewart. “Sampling” desvairado e saturado, o “dub” como exercício de fragmentação levado ao limite da tortura. Mesmo assim mais acessível e, se quisermos, mais melodioso que anteriores operações…

Robert Rich
Numena
LP e CD, Multimood




“Todas as composições deste disco empregam um sistema de afinação, sustentado por uma escala baseada em proporções numéricas específicas entre as diversas notas – Robert Rich. Para além do blá blá blá conceptual, “Numena” vale como um belíssimo exemplar de música eletrónica entre o minimal e o planante, lembrando, por vezes, nas sumptuosidades wagnerianas e nos sequenciadores cristalinos, a obra “Mirage”, de Klaus Schulze.


Ashley Hutchings & Friends
Morris On
LP e CD, Hannibal


É um disco velhinho mas imprescindível para todos aqueles interessados em conhecer uma das obras pioneiras do revivalismo folk britânico. Ashley “Tiger” Hutchings, John Kirkpatrick, Richard Thompson, Dave Mattacks e Barry Dransfield são cinco nomes, hoje lendários, responsáveis neste disco pela reatualização da Morris Dance, dança ancestral inglesa. A Inglaterra rural, eletrificada, mas ligada à terra.

Muzsikás
Blues For Transylnavia
LP e CD, Hannibal


Márta Sebestyen é a voz maravilhosa que dá corpo e asas às músicas das Muzsikás. Neste caso, canções tradicionais da Transilvânia. Canções de guerra, de prisioneiros, de casamento e de Natal. Tocadas e cantadas do fundo da alma pelos violinos, sanfonas, gaitas-de-foles e bombardas de Sándor Csoóri e companheiros e pela voz de Márta, que, como Drácula, nos faz ficar sem pinga de sangue.