Arquivo da Categoria: Críticas 1990

Durutti Column – “Womad Live”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 20 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop


DURUTTI COLUMN
Womad Live
CD Mini, Factory; imp. VEM



Cada objeto musical produzido pela dupla Vini Reilly-Bruce Mitchell devia ser portador do rótulo “frágil”. Com efeito, a música dos Durutti Column possui a elegância e a consistência do cristal. É coisa para gente fina, se bem que às vezes seja mais apetecível um copázio de tinto ou uma caneca de cerveja. É uma questão de ocasião. Este “Womad Live” não foge à regra. Ao mínimo movimento mais brusco, à mais leve deslocação de sensibilidade, a música esvai-se em mil cintilações fugidias, em busca de outros céus. Quatro temas: “Otis”, “English Landscape Tradition”, “Finding The Sea” e “Bordeaux”, gravados ao vivo no festival “Womad”, em 1988, com o auxílio do teclista Andy Connell e da voz de Liu Sola, que nos delicia cantando em chinês em “Otis” e “Sea”, ao contrário dos gorgolejos que se podem ouvir no álbum “Vini Reilly”. A guitarra etérea do rapaz de ar doentio e a bateria – que obsta à total transformação do som em nuvem – de Bruce Mitchell, voltam a construir os subtis e aéreos alicerces de um palácio de espelhos e miragens multicores que nem os aplausos iniciais do público conseguem fazer descer ao mundo material.

Lach’n Jonsson – “Songs From Cities Of Decay”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 13 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop


LACH’N JONSSON
Songs From Cities Of Decay
LP Basta



Da Suécia, eis um caso bem mais sério que o dos Thirteen Moons. Com o título original em sueco de “Sånger Fran Forfallets Städer”, cheio de tremas e bolinhas por cima das vogais. O disco, fruto da visão apocalíptica de Lars Jonsson, insere-se inequivocamente na chamada estética “recommended” de arranjos complexos, grande riqueza instrumental, compassos o mais bizarros e difíceis que for possível arranjar e vocalizações grandiosas, neste caso anunciando o fim próximo da nossa civilização, através do declínio das cidades e da progressiva barbárie das mentalidades. Assemelha-se, aliás, em bastantes pontos, ao clássico dos Art Bears “The World As It Is Today”, com este partilhando o mesmo tipo de preocupações e semelhante abordagem estética. “Songs” é um projeto conceptual versando o tema citado, sobre textos de Birgitta Trotzig, e em “The Song Of The Wind” (título traduzido), de Albert Camus, no seu ensaio “The Wind Of Djemilla”. “Monument” é o tema de 24 minutos que ocupa todo o segundo lado, e manifesto exemplar do caos a que chegámos. Mas, ao contrário dos Thirteen Moons, Jonsson consegue transformar os sinais da desolação em exercícios musicalmente exaltantes.

Foetus Inc. – “Sink”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 13 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop


FOETUS INC.
Sink
LP e CD Self-Immolation/Some Bizarre, import. Contraverso



Foetus Under Glass, You’ve Got Foetus On Your Breath, Phillip And His Foetus Vibrations, Foetus Over Frisco, Scraping Foetus Off The Wheel, Foetus Art Terrorism, The Foetus of Excellence, The Foetus All Nude Revue, Foetus Interruptus e agora Foetus Inc., são outras tantas designações para a genial paródia de Jim Foetus, alias Clint Ruin, alias Jim Thirwell. “Sink” é o sexto álbum da personagem, como os anteriores (“Deaf”, “Ache”, “Hole”, “Nail” e “Thaw”) com apenas quatro letras. O disco em questão é duplo e reúne máxis antigos não incluídos em álbuns anteriores. Foetus (chamemos-lhe assim, por comodidade de escrita) encarna o espírito niilista dos Einsturzende Neubauten, substituindo a distância intelectual e conceptual da banda berlinense por uma vivência pessoal, em carne-viva, do caos e da desagregação. “The Art of Falling Apart”, se quisermos, parafraseando o título dos Soft Cell, processada metodicamente segundo técnicas de demolição/reconstrução da personalidade referidas, de resto, no termo “Self-Immolation”, escolhido para selo de tão subversivas atividades. Crucificação, chacina, doença, violência, poder, são alguns dos tópicos preferidos e magistralmente tratados na totalidade da obra do mestre do horror, atingindo dimensões épicas à custa de um tratamento sonoro grandioso e de uma utilização única das potencialidades da voz. Foetus transforma a agonia em espetáculo de “music-hall”, dando a ver, sob uma luz intoleravelmente branca e clínica, as chagas abertas de uma humanidade à beira do fim. Depois de Foetus o “show” já não pode prosseguir.