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Paolo Conte – “Una Faccia In Prestito”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


PAOLO CONTE
Una Faccia In Prestito (9)
East West, distri. Warner Music

Não Atirem A Nostalgia Para A Sanita



Paolo Conte é um músico e uma personalidade únicos no planeta. A sua figura, misto de macho latino, tuaregue engravatado e António Silva, tanto quanto a sua voz de “crooner” engripado e o seu piano, com a subtileza do mais requintado licor, não engana. Tudo nele é diferente e afastado do que estamos habituados a ouvir e a ser massacrados. Eu habituei-me. Mias, fiquei viciado, dependente, sem cura possível. Desde o dia, já lá vão alguns anos, em que com ele travei conhecimento, através da colectânea “Il Primi Tempi”, fabulosa e, como viria a descobrir mais tarde, a ponta do “iceberg” de uma obra absolutamente ímpar na música popular deste século. A partir daí, fui descobrindo aos poucos a sua discografia, desde os anos 70, com “Paris Milonga”, até à actualidade, por álbuns disponíveis para quem consegue ter calma para parar e ouvir, como “Aguaplano”, “Parole d’Amore Scritte a Macchina”, “900” ou os dois registos ao vivo “Paolo Conte Live” e “Tournée”, para já os que existem com distribuição no mercado nacional.
A música de Paolo Conte tem, primeiro que tudo, poesia, mais aquela faculdade, rara, de evocar estados emocionais e secretos perfumes que guardamos no inconsciente. As suas letras desdobram-se entre o popularucho e o épico, nalguns casos, na mesma canção, fazendo-nos passar por situações cinematográficas ou literárias, mas nem por isso menos reais. É um universo de milongas, rumbas, tangos, foxtrotes, hananeras, “swing” e “dixieland”, o seu. Um universo invadido pelas sombras de uma Hollywood sublimada, a abarrotar de ternura por um cinema ou um teatro vazios onde passam filmes a preto e branco. De um “Western spaghetti”, do neo-realismo poetizado, do “Cinema Paraíso”, de Giuseppe Tarnatore, do tempo em que nos ríamos das piadas pueris de Franco Francchi e Ciccio Ingrassia. Um copo de tinto, a celebrar recordações, mas também uma taça de “champagne” entornada para esquecer na madrugada de uma festa. Uma música trôpega, mas iluminada por fulgores melódicos que ofuscam a razão. Num instante atravessa-se na estrada um acordeão surgido das esquinas da meia-noite. No seguinte preguiça-se a tarde ao som de palavras de espuma sem sentido, numa estância de veraneio. Agora embala-nos uma languidez rouca, sentada ao colo de um piano que ainda hesita em acordar. Logo sobressaltam-nos os metais da “big band” do cine-teatro lá da terra.
Percebe-se que Paolo Conte é um bêbedo – enquanto opção estética, como Tom Waits – e um “gentleman”. Um homem de paixões, em que a altercação de tasca toma as dimensões da tragédia grega. Galã ou facínora? Um poeta, com a visão filtrada por um copo cheio de vida até acima. Esqueça-se Brian Ferry, seu hipotético filho espiritual. Conte é o verdadeiro rei dos “crooner”, das causas perdidas e dos amores sem remédio. Beba-se devagar, de olhos semicerrados e expressão canalha, o primeiro gole. Pode ser “Il miglior sorriso dela mia faccia”. A seguir, bater com a cabeça na sanita e, sobretudo, evitar puxar o autoclismo, em “Don’t throw it in the W. C.”. A tragicomédia à escala de uma retrete. “Não te recordas daquele pedaço de papel azul? / só com algumas notas / apenas em rascunho? / era uma melodia / escrita para ti / não a atires para o W. C. / não deixa de ser uma bonita melodia, hã? / não a atires agora para a água que redemoinha / a minha canção está a navegar, socorro! / não a atires! Não a atires!”
Vá-se até ao fim. A bela adormecida repousa, à espera, na letargia de um sonho de ópio em “L’incaritatrice”. É como olhar para o céu com o olhar toldado. “Una faccia in Prestito”, “um rosto de empréstimo”, não é um disco nostálgico. É a própria nostalgia.

Paolo Conte – “Tournée”

pop rock >> quarta-feira >> 12.01.1994


Paolo Conte
Tournée
CGD, distri. Warner Music



Senhoras e senhoras, percam a vergonha, a sisudez e os preconceitos e ouçam para nunca mais parar a música de Paolo Conte. O inconfundível, incomparável e inclassificável Paolo Conte, o decadente, o trágico, o da voz tão rouca como o bagaço ou tão terna como um licor. O das varandas e ressacas ao nascer do Sol, dos sonhos de Hollywood sonhados numa viela sórdida abraçados a uma prostituta. “Tournée” apanha o cantor e compositor em grande forma, ao vivo em várias salas durante uma digressão pela Europa realizada entre 1991 e 1993. Estão aqui todas as marcas do seu génio, impressas nas vocalizações de “crooner” que canta em italiano, inglês e francês um mundo com a trama dramática de um filme de Fellini, nos arranjos para “big band” onde as memórias de Benny Goodman e Duke Ellington se cruzam com a cançoneta italiana, os blues, o “boogie woogie” ou simplesmente as canções de amor etilizado que de tão trôpegas inventam para si próprias um estilo inteiramente novo. Com a música de Paolo Conte só há duas hipóteses: ou não se conhece ou, conhecendo-se, fica-se para sempre preso ao seu fascínio. Tocante. (8)

Paolo Conte – “La Dulce Vita” (conceros | televisão)

20.04.1991
Sábado, Local, Televisão


“La Dulce Vita”



Adivinha-se Paolo Conte no cruzamento de Nova Orleães, Hollywood e um pátio italiano, sentado ao piano, semblante sorridente de “matador”, a ponta do bigode grisalho ligeiramente húmida de vinho.
Quando canta “La vera musica” numa voz rouca de tenor, as luzes baixam e o fumo de cigarros matiza de sonhos desfocados o veludo vermelho por trás do palco vazio. Noites de álcool. Bailes de anos passados na varanda do casino frente á praia. Amigos e amantes de quem já não se recorda o nome. Uma taça de champanhe erguida, de madrugada, à saúde de todos e ninguém, numa esplanada de Inverno à beira-mar. A doce vida.
Conforme a disposição, Paolo Conte canta os “blues”, cançonetas populares de faca e alguidar ou “pastiches” de Frank Sinatra, ao sabor ritmado dos copos, tangos e “passe dobles” vibrantes de “swing” – só, defronte de um piano que “andou a beber”, tal qual o de Tom Waits, ou em equilíbrio precário sobre orquestrações nascidas do casamento de Nino Rotta com Carla Bley.
“Hemingway”, “Dancing”, “Blue Haways”, “Boogie”, “Un Gelato al limon”, “La vera musica”, “Chi siamo noi” ou “Diavolo Rosso” são algumas das maravilhas incluídas no duplo álbum colectânea “I Primi Tempi” e a melhor maneira de aceder ao universo surreal do cantor. Para seguir viagem, sugere-se a audição de “Paolo Conte”, “Paris Milonga” ou “Appunti di Viaggio”, recentemente editados em CD. Sobram razões para assistir esta noite ao espectáculo de Paolo Conte, ao vivo na cidade suiça de Locarno.
Canal 2, às 00h30