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João Braga, Miguel Sanches, Maria Ana Bobone, Sancha Costa Ramos, Mafalda Arnauth, Miguel Capucho, Rodrigo Costa Félix, Salvador Taborda-Ferreira – “João Braga Apresenta “Em Nome Do Fado”, No Teatro S. Luiz – ‘Nem Bairrista Nem Paroquial'”

cultura >> terça-feira, 31.01.1995


João Braga Apresenta “Em Nome Do Fado”, No Teatro S. Luiz
“Nem Bairrista Nem Paroquial”



João Braga vai cantar “Em Nome Do Fado”. Com amigos, como ele gosta. Miguel Sanches, companheiro de longa data, mais seis jovens com quem o futuro pode contar: Maria Ana Bobone, Sancha Costa Ramos, Mafalda Arnauth, Miguel Capucho, Rodrigo Costa Félix e Salvador Taborda-Ferreira. Acreditam todos que o destino pode e deve ser cantado com alegria.

“Em Nome Do Fado” é não só o genérico do último álbum de João Braga e do espectáculo que vai decorrer, depois de amanhã, no Teatro S. Luiz, a partir das 21h45, mas também um programa de intenções. “Em Nome do Fado, do antigo e do novo, do de sempre”, diz o fadista, para quem esta música, “além de um sentido universal, tem um sentido cósmico, porque é o próprio destino, o destino do homem que é o encontro, um dia, com a sua eternidade”. Razões mais do que suficientes para o fado não ser “nem bairrista nem paroquial”.
Por isso, João Braga procura as palavras dos poetas. Como, antes dele, já o fizera Amália, quando, há anos, “escandalizou os nossos intelectuais” por ter ousado cantar o autor de “Os Lusíadas”. “Como é que uma fadista”, diziam, “se permite invadir a sacralidade de Luís de Camões e cantá-lo em fado?”
João Braga segue-lhe o exemplo, talvez “com um bocadinho mais de insistência”. Como costuma dizer, “a poesia foi, em termos intelectuais e de escola, a única coisa que Portugal deu ao mundo”.
Pelo auditório do S. Luiz passará, pela sua voz e da dos seus amigos, a poesia de Fernando Pessoa, Sofia de Mello-Breyner, Pedro Homem de Mello, Miguel Torga, Vinícius de Moraes e João Fezas-Vital – este último falecido há pouco tempo e de quem cantou o primeiro poema da sua carreira, “Saudades da Tua Voz”, um poema “de esperança”, gravado “no último dia de 1966”.
Resistente, juntamente com João Ferreira Rosa, contra o fado-canção que, nos anos 60, desvirtuou a essência do canto fadista, João Braga volta a assumir-se como defensor de uma postura tradicionalista que defenda os valores mais profundos de uma música que Amália, António dos Santos, Manuel de Almeida, Maria Teresa de Noronha ou ele próprio, entre outros, ajudaram a imortalizar. “A minha preocupação era, nessa altura, a mesma de hoje e de sempre: opor-me à proliferação do nacional-cançonetismo, como então se chamava às coisas de mau gosto.”
Essa mesma preocupação, manifestada a outro nível na descoberta de novos valores capazes de perpetuar a tradição, levou, para já, ao “apadrinhamento” de vários jovens que com ele vão estar no S. Luiz: Maria Ana Bobone, Miguel Capucho, Rodrigo Costa Félix – os três já com um disco gravado em conjunto e intitulado, justamente, “Alma Nova do Fado” – e Sancha Costa Ramos. A estes vieram juntar-se duas aquisições mais recentes: Margarida Arnauth e Salvador Taborda-Ferreira, também já com um álbum de estreia, com título homónimo, recentemente editado.
“Estou plenamente convencido que vão deslumbrar”, diz o fadista, que neste grupo de jovens encontrou “uma mesma filosofia, de olhar para o fado como expressão tradicional do canto português”. E acrescenta: “Além disso, não curtem aquele fatalismo e aquela tragédia que muitos gostam de cultivar. Têm outra atitude, são pessoas muito alegres, tão alegres que até se podem dar ao luxo de cantarem estas coisas tristes e divertirem-se.”

Acima Da Voz, O Sentimento

Também, com uma média de idades a rondar os vinte anos, quem é que se entristece a cantar seja o que for? Miguel Capucho tem 20, estuda na Escola Hoteleira do Estoril e fala do fado como uma “paixão”, sobretudo pelos “poemas, pelas letras em si”. Gosta de Artur Ribeiro e das palavras de Alain Oulman.
Sancha Costa Ramos, 21 anos, estudante de educação infantil, participou no espectáculo “Fados”, de Ricardo Pais. Tem o fado colado à pele e à alma: “Ouço constantemente fado. Tudo: Amália, Carlos Zel, João Braga, Carlos Ramos. Vou para as aulas com o ‘walkman’, a ouvir fado. As minhas saídas são só aos fados, para ouvir ou cantar”. Sancha procura “pôr verdade” naquilo que canta: “O mais importante nem é a voz, mas o sentimento.” Quem já a ouviu sabe mesmo que é assim.
Com 22 anos, Rodrigo Costa Félix estuda, “mais ou menos”, na Universidade Católica, porque os seus interesses e dedicação inclinam-se cada vez com mais força para a música. Ao contrário de Sancha, “é raro ouvir fado”. E, quando o faz, é apenas “para ter referências e aumentar o reportório”: “O essencial é frequentar as casas de fado e conviver com as pessoas. Para crescer no fado.”
O espectáculo “Em Nome do Fado” será ainda a oportunidade para reescutar a voz de um fadista que, segundo João Braga, é dos mais “injustiçados” do nosso meio musical: Miguel Sanches, não profissional por opção. Gravou em 1969, para a antiga RCA, um EP, outro em 1970 e, mais tarde, um terceiro em 1977, na Orfeu. Depois, parou. Viajou até ao Algarve e aí permaneceu para se dedicar às suas ocupações profissionais, na área da hotelaria e do turismo.
Nos últimos tempos, decidiu inverter o processo, não rejeitando a hipótese de gravar um novo disco, embora seja da opinião de que “gravar por gravar, sem apresentar algo de novo”, não interessa. E volta a expor-se nos palcos, como aconteceu no espectáculo de João Braga, no ano passado, no Centro Cultural de Belém: “Quando a pessoa sabe, ou sente, que tem algum valor, ficar em casa, escondido, é quase pecado.”

Luís Madureira – “Luís Madureira Lança Álbum De Estreia – VIAN – Avec Madureira”

pop rock >> quarta-feira >> 11.01.1995


Luís Madureira Lança Álbum De Estreia
VIAN
Avec Madureira



Para primeiro álbum a solo, o cantor Luís Madureira escolheu o poeta e romancista (escreveu, por exemplo, “A Espuma dos Dias”, “Outouno em Pequim”, “O Arranca-Corações e “Irei Cuspir-vos nos Túmulos”, todos com tradução portuguesa) e músico (cantava, tocava trompete e escreveu mesmo uma ópera) francês Boris Vian (1920-1959). O álbum chama-se “Luís Madureira Canta Boris Vian”, tem o selo Alma/Luminária Música, e nele o cantor é acompanhado ao piano por Jeff Cohen, um dos pianistas de uma encenação do Peter Brook, chamada “Impressions de Péleas”, levada á cena em Lisboa no Covento do Beato, ocasião em que Luís Madureira o conheceu.
“Temos um percurso mais ou menos parecido”, garante, “temos ambos formação clássica e interesse por um reportório não estritamente clássico”. A ideia surgiu, de acordo com as palavras do cantor, “como resultado de um recital, no Festival dos Capuchos, em 1993” e por “insistência do técnico José Fortes”. Posteriormente, “a gravação, feita no Convento dos Capuchos, em Novembro, foi mostrada a José Manuel Marreiros e a João Lucas, proprietários da Luminária, que gostaram imenso do material e decidiram lançar o disco”.
A relação de Luís Madureira com o autor francês, embora levada à prática por motivos circunstanciais, encontra razões mais profundas. “Já conhecia algumas canções dele, que interpretei em alguns recitais de canções de música ligeira francesa”, diz o cantor português. “Tinha feito duas dessas canções e, subitamente, o director do Festival dos Capuchos, o engenheiro José Adelino Tacanho, pôs a hipótese de organizar um recital só de canções do Boris Vian. A selecção foi feita a partir de algum material que já tínhamos e de outro que foi aparecendo por cedência da viúva do autor. Na altura, todas edições de partituras de Boris Vian estavam esgotadas. Juntamente com o pianista Jeff Cohen, fizemos uma busca e conseguimos obter cerca de 60 canções, das quais seleccionámos as dezasseis que se encontram no disco.”
Mas “há mais do que isto”. Para Luís Madureira, trata-se de “um material que, sob o ponto de vista da poesia, é óptimo, e sob o ponto de vista da actualidade, idem”: “É um autor que me interessa como autor. E como eu sou um cantor de canções, sejam elas de compositores clássicos ou não, um cantor de ‘lied’, os nossos dois mundos não estão muito afastados. São canções que se podem fazer com piano e que, de alguma forma, são comparáveis a outro género de reportório que tenho feito. Trabalhei-as exactamente da mesma forma que trabalho uma ária de ópera ou um ‘lied’, ou seja, a abordagem da poesia, em primeira instância, e abordar a correspondência, que nos bons compositores é imediata, entre a frase musical e a palavra. A partir deste somatório, uma pessoa é levada a fazer aquilo a que se chama interpretação, a dar o valor exigido pela palavra e pela música.”
Desde sempre sensível à teatralidade, não só da música como da poesia, Luís Madureira encontrou nas canções de Boris Vian um veículo ideal de expressão da sua faceta de actor: “Acho que qualquer cantor actual se preocupa com isso, no sentido de que a palavra é o motor da canção. Para que a palavra tenha sentido, as pessoas não se podem preocupar só com o som da voz, que pode se rmais bonita ou menos bonita, mais ou menos bem colocada. É preciso trabalhar arduamente a palavra, e aí estamos próximos da teatralidade da palavra, do que ela de facto significa. Essa faceta vem ao de cima pela minha prática teatral, do estudo do texto, não cantado, mas dito.”
Situado num território intermédio, entre a música erudita e a canção ligeira, Luís Madureira sente-se confortável nessa posição. “Sinto-me à vontade para abordar este reportório exactamente devido à formação que tive. Depois, acho que é interessante tentar fazer bem um reportório que as pessaos pensam que pode ser feito de qualquer maneira, coisa com a qual eu não concordo de todo.”
Fica o bom sabor das canções de Vian, cantadas por Luís Madureira, dentro do espírito da época do pós-guerra e da mordacidade que caracterizava o autor, que chamava Jean-Sol Partre a Jean-Paul Sartre: “Musique mécanique”, “À la pêche de coeurs”, “Cinématographe”, “La Java des bombes atomiques”, “Le déserteur”, “Moi, mon Paris”, “Bal de Vienne”, “Mozart avec nous”, “Je bois”, “La vie cést comme une dent”, “On n’ést pas là pour se faire engueuler”…

Gabriel Yacoub – “Yacoub Em Lisboa No Início De Fevereiro Com Pi De La Serra – Gabriel, O Trovador”

cultura >> sábado >> 24.12.1994


Yacoub Em Lisboa No Início De Fevereiro Com Pi De La Serra
Gabriel, O Trovador


GABRIEL YACOUB, um dos músicos mais prestigiados da música folk francesa, actua em Portugal no início de Fevereiro do próximo ano, no Teatro Maria Matos, em Lisboa. O concerto insere-se numa iniciativa de genérico “Sons (da) Voz” a decorrer em três dias seguidos, e do programa fazem também parte o cantor catalão Pi de la Serra e um coro português. A produção, da Vachier Associados, dada a unidade temática da iniciativa, está a estudar a possibilidade de um ingresso único para os três espectáculos.
Possuidor de uma das vozes mais originais da música folk europeia actual, Gabriel Yacoub integrou a primeira formação do harpista bretão Alan Stivell, formando mais tarde, em meados da década de 70, os Malicorne, mítica banda folk francesa. Os Malicorne gravarm oito álbuns de originais, três de genérico “Malicorne”, “Almanach” (inspirado em doze rituais agrícolas correspondentes aos doze meses do ano), todos distribuídos em Portugal pela MC – Mundo da Canção, “L’Extraordinaire Tour de France d’Adélard Rousseau” (viagem iniciática de um pedreiro livre pelo país de França), “Le Bestiaire”, “Balançoir en Feu” e “Les Cathédrales de L’ Industrie”, este último uma experiência falhada nos domínios da Pop electrónica. Disponíveis no mercado nacional encontram-se igualmente as colectâneas “Quintessence” (Mundo da Canção) e “Deuxième Époque”, com distribuição MVM. O cantor lançou ainda um álbum em duoo com a sua mulher e vocalista nos Malicoren, Marie Yacoub, “Pierre de Grenoble”.
Nos últimos anos Gabriel Yacoub, autêntico trovador do século XX, tem vindo a seguir uma carreira a solo, gravando até à data os álbuns “Trad. Arr.”, com distribuição nacional, como o título indica, numa vertente idêntica à dos Malicorne na sua fasse inicial, embora num registo de maior simplicidade, “Elementary Level of Faith”, nova insistência na Pop electrónica, de novo com resultados catastróficos, e “Bel”, também com distribuição no nosso país, álbum de excepção, recenseado na devida altura com a nota máxima no suplemento Pop Rock deste jornal. O mais recente, intitulado “Quatre”, quarto da sua discografia, é inspirado nos quatro elementos e nas quatro estações do ano, pondo mais uma vez em relevo as temáticas esotéricas desde sempre manifestadas pelo cantor.