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Jorge Quintela + Pedro Duarte + Armindo Neves + Luís Filipe – “Os Músicos Que Toda A Gente Ouve Mas Ninguém Vê” (dossier | músicos de sessão)

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995


OS MÚSICOS QUE TODA A GENTE OUVE MAS NINGUÉM VÊ
(Fernando Magalhães e Marta Duarte)

JORGE QUINTELA
Director Musical da C.C.A. e pianista do programa “Zona +” (Canal 1)
“Antes os bastidores do que dar a cara”



Desempenha as funções de director musical dos programas da CCA, Carlos Cruz Audiovisual. Organiza os genéricos e dirige as bandas. A sua intervenção no Zona Mais, o “talk-show” de Carlos Cruz, limita-se a ser a de teclista do grupo. Para Jorge Quintela, esta acumulação de responsabilidades não o impede de, no actual programa, ter inteira liberdade para “escolher os temas que mais prazer lhe dão tocar”. Isto, nos chamados “temas de exibição”, porque no que respeita ao acompanhamento dos artistas convidados obviamente que o “arranjo deverá ter minimamente a ver com eles”.
Antes do Zona Mais, Jorge Quintela trabalhou dez anos como demonstrador da Valentim de Carvalho, período durante o quela “começou a entrar na produção discográfica” e a “fazer arranjos para discos”, de Carlos Paião a Lara Li. Entretanto, conheceu Carlos do Cruz, com quem colabora há já bastante tempo. O tempo, na actividade a que se dedica, é vital. “Ter três dias para preparar quatro temas” nãoé fácil, embora no caso de Zona Mais essa dificuldade recaia nos ombros de Pedro Moreira, responsável pelos arranjos da banda. “Na parte da composição, torna-se mais complicado, tem que se imaginar o programa, a imagem que ele vai ter, qual a música que deverá corresponder ao genérico, tudo muitas vezes feito em cima da hora. Com um certo “forcing”, comigo tem funcionado. Há menos tempo para termos dúvidas.” Jorge Quintela, “por uma questão de feitio”, prefere trabalhar nos bastidores a “estar à frente de uma situação e dar a cara”. Por esta razão nunca participou em “grandes formações musicais” porque sempre sentiu mais prazer em “trabalhar em estúdio”. O que não o impede de se sentir “realizado”: “Dou uma parte de mim, em termos da linguagem musical que estou a põr nos programas.”
Admite que aquilo que faz “é compensatório”, em termos materiais, essencialmente “porque dá uma certa estabilidade económica de saber que pelo menos durante ‘x’ semanas o trabalho está garantido”. Também nunca teve vontade de liderar o seu próprio grupo, embora um dos seus objectivos seja a gravação de um disco, “um projecto de música instrumental, de fusão, que ainda não foi editado porque infelizmente neste país é considerada música de elevador”. Mas como considera gratificante a sua função no Zona Mais, onde “o Carlos Cruz tem feito questão de promover bastante a música e os músicos da banda”, o adiamento do disco também não constitui grande problema. É ate´”perfeitamente admissível” que o grupo, na exibição a solo que lhe compete, “se sobreponha ao artista principal”. Quando se trata de acompanhamento, a história muda e as fronteiras apertam-se. Deu-lhe particular gozo tocar com o Rui Veloso mas também com um grupo de concertinas tradicionais. Uma das suas maiores ambições é compor música para filmes, o que em Portugal considera ser bastante difícil devido “aos orçamentos, tão baixos, que não dão para fazer nada de especial”. Se pudesse, Jorge Quintela adoraria trabalhar com Steven Spielberg.
(Fernando Magalhães)

PEDRO DUARTE
Director Musical e pianista do programa “Parabéns” (Canal 1)
“Se não houver adrenalina isto não serve de nada!”



Aos 29 anos e com o sexto ano do Conservatório, Pedro Duarte tem prazer no que faz. É director musical do concurso de Herman José, “Parabéns”, faz os arranjos e é pianista do grupo. Não se considera um “artista”, no sentido de “alguém que tem que criar uma determinada imagem, como acontece nos grupos de rock”, mas sim “uma pessoa de fundo, que trabalha segundo princípios”, em que acredita e sobre os quais teoriza: “Têm a ver com a democratização das artes. Acredito que todas as pessoas, na posse das suas faculdades normais, podem compor. Toda a gente é capaz de pintar, de fazer teatro, de dançar”. “A questão”, diz, “é que a nossa cultura e a nossa sociedade tem frustrado grandes talentos logo à partida. Acredito numa sociedade em que as pessoas têm o seu trabalho e em paralelo, como ‘hobby’, a criação de qualquer coisa”. Pedro Duarte afirma ter mesmo um projecto para fazer funcionar as coisas nesse sentido, e “pôr as pessoas a mexer”, baseado na aprendizagem através do computador.
Antes dos “Parabéns”, Pedro Duarte já tinha trabalhado em programas como “Regresso ao Passado”, de Júlio Isidro, “Joaquim Letria Apresenta” e “Os Olhos da Lua”, de Raul Solnado, num grupo de cuja formação fazia então parte um contrabaixista chamado Pedro Abrunhosa. Considera que o seu papel no actual grupo consiste em “fazer música altamente funcional”, contando para tal com eventuais sugestões do próprio Herman José. O músico distingue o trabalho de acompanhamento dos artistas convidados do programa, dos chamados separadores, “aquels pequenos temas de 10, 12 segundos”, e dos “tapetes”, como chama à música de fundo. “Gostaria um dia de juntar uma série deles e fazer um álbum. Postos em voz alta são capazes de mostrar muito mais do que parecem ter”. Pedro Duarte não considera frustrante o facto de a música estar em segundo plano e cita a propósito John Williams quando diz que “a melhor música para cinema será aquela em que as pessoas nem sequer notam que existe”. No fundo, tudo “depende da ideia que se tem da música”, explica, “é como que o sangue do programa”. Nem tudo tem que estar em primeiro plano para ser importante”. Vai mais longe quando afirma que “aquilo que normalmente não aparece é mais importante doq eu aquilo que aparece”. Pormenoriza: “Se eu tenho um tema que está a servir de ‘tapete’, que gera um determinado ritmo e ambiente, carregado de energia, isso, mesmo inconscientemente, ajuda o presentador e a envolver as pessoas emocionalmente”. Pedro Duarte compara estes “tapetes” de som com “os ambientes mágicos religiosos, carregados de música com um sentido muito profundo, como o som de um órgão de catedral, em que as pessoas por vezes nem percebem nada do que se está a passar, mas onde há uma profundidade espiritual muito grande”. Música de transporte? “Eu gosto de lhe chamar o sangue deste corpo inteiro que é o programa”. Uma linguagem litúrgica que, em termos mais prosaicos, no “Parabéns”, atinge um máximo de intensidade no “Boião da Cultura” e durante a entrevista. “Temos uim bocado a tendência de pensar a arte pela arte, como algo abstracto. Eu sou um bocado romano a pensar. Prefiro pensar nas funções. Nos filmes, por exemplo, temos os chamados efeitos sonoros, que são tão ou mais importantes que a própria música”. A pressão do tempo não assusta este admirador de Henry Mancini, Jerry Goldsmith e John Williams,a ntes pelo contrário. “Assim é que tem piada”, diz, “se não houver adrenalina isto não serve para nada. Podem entregar-me as coisas três meses antes que eu não pego nelas. Quando chegar ao limite, aí assim agarro-me e começo a escrever. Sou mais espontâneo desta maneira”.
(Fernando Magalhães)

ARMINDO NEVES
Guitarrista e maestro do programa “Não Se Esqueça da Escova de Dentes” (SIC)
“Por que é que não vão ganhar o dinheironho para outro lado?”



“Um dos pontos que estão errados no profissionalismo musical em Portugal é a ideia de que tocar na televisão é apenas mais uma forma de ganhar dinheiro.” Armindo Neves, guitarrista e responsável pela banda de Não Se Esqueça Da Escova De Dentes, considera que por trás da atitude interesseira se esconde uma certa cobardia. “Há os que dizem que se recusam a tocar na televisão e essa recusa serve para esconder certas deficiências técnicas… A mediocridadezinha impera no meio musical.” Armindo Neves vê no trabalho musical para televisão a dignidade que todas as profissões devem ter. “Em programas como o Parabéns e o Zona Mais, encontram-se excelentes músicos, bons leitores (de pautas, entenda-se), bem disciplinados, com bom som. Eles tocam a sério.” Para Armindo Neves, que entre outras coisas tocou e produziu discos como “Coisas do Arco da Velha”, da Banda Do Casaco, perante a música não pode ter-se a atitude de “vir aqui ganhar uns dinheiros”. É mais honesto assumir que não se gosta de televisão, ou de um determinado programa, e recusar-se a ir lá tocar. Afinal, ele próprio admite que trabalhou em muitos programas que lhe deram pouco prazer. Sem mais desculpas esfarrapadas. Não gosta é de quem se arma em “chico-esperto”, desprezando por completo o trabalho da música em televisão, apesar de, em situações de aperto, ser a ele que recorrem. “Por que é que não vão fazer o dinheirinho para outro lado?” Provavelmente, porque tocar na televisão é, muitas vezes, a única saída profissional, e de sobrevivência, para músicos vindos das mais diferentes áreas e formações sonoras. “Na vida não é tudo uma questão de ganhar mais. Há que contar com o gozo”, corta Armindo Neves. E é o gozo que retirou de trabalhar em programas como o polémico Fisga, o Festival da Canção e o último de Joaquim Letria que o faz estar em Não Se Esqueça da Escova de Dentes. Esse gozo é visível no entusiasmo com que descreve as suas funções no programa da SIC: “Neste momento estou com duas noites sem dormir para conseguir transcrever dois arranjos do Frank Sinatra com a Orquestra do Count Basie para serem tocados hoje aqui, a acompanhar o Carlos do Carmo. E já cá tive o Janita Salomé, a Lena d’Água, o Luís Represas. São desafios musicais. Nós somos forçados a ser extremamente flexíveis para ter uma atitude perante a música de compreensão do reportório do artista. Tem que haver responsabilidade da parte dos músicos, para aproximar a sua sonoridade, para conhecer o artista.” Se fosse tudo uma questão de preferências, é óbvio que lhe seria mais gratificante tocar, compor e fazer arranjos para um programa estritamente musical. “A guerra das televisões e o controlo sobre a escolha que se pode fazer da programação levaram as direcções dos vários canais a concluir que os programas musicais não intyeressam muito. A televisão vive das telenovelas, do futebol e dos concursos.” Portanto, é só nos concursos que pode haver espaço para a música. Há é que saber aproveitar a oportunidade. Das audiências, sobretudo, que estão sempre à espera de coisas cada vez mais fantásticas. “E isto é do caneco. Acima de tudo temos que aproveitar o meio audiovisual para fazer passar a música. Este programa, e eu já fiz muitos, é de longe o que me dá mais gozo.”
Armindo Neves não teme que a voracidade da televisão, que precisa de músicos, bons e maus, conforme os orçamentos, acabe por aniquilar talentos e carreiras. Não acredita na exclusividade. “Qualquer um de nós é livre para ter o seu projecto lá fora. Os músicos que aqui estão, à excepção dos metais, que mudam consoante as emissões, trabalham todos comigo no grupo do Luís Represas. E não é por causa disso que o grupo e o Luís ficam para segundo plano.”
(Marta Duarte)

LUÍS FILIPE
Director musical do programa “Eu Tenho Dois Amores” (Canal 1)
“Um problema de dor de corno”



Luís Filipa já fez vários programas para a RTP, mas a maior parte do seu historial na música expande-se pela produção discográfica da chamada música ligeira. Ao contratá-lo, frisa Luís Filipe, a RTP deixou ao seu critério a escolha de elementos para a banda e de artistas convidados, de que resultam três momentos musicais distintos: as canções de Marco Paulo, para as quais faz os arranjos; as dos convidados, igualmente com produção do director artístico, e a prestação de Maria Rueff, “um momento especial, meio cómico”, em que lhe “dá um prazer especial avacalhar um bocado, com letras muito mordazes e bem feitas da Rosa Lobato Faria”.
Ao contrário do que se passa nos outros programas visitados, em Eu Tenho Dois Amores, a música é preproduzida. Ou, trocando por miúdos, os membros da banda e os convidados actuam com “palyback”. “O som que se consegue fazer em estúdio [de som] é impossível de reproduzir num estúdio de televisão, a não ser que se grave o programa a partir de um estúdio de som”, justifica Luís Filipe, argumentando que o que interessa é dar qualidade sonora ao telespectador. Assim, nem todos os membros da banda que vemos no ecrã a tocar o estão a fazer. Alguns são os que em estúdio gravaram os temas, mas os outros limitam-se a ser figurantes. No entanto, segundo Luís Filipe, “mais vale estar a gravar um ou dois programas de televisão por semana do que a tocar uma noite inteira num bar, onde se ganha miseravelmente: os donos dos bares exploram os músicos”. Se em termos financeiros é compensador, em termos de experiência, tocar na televisão é também um passo importante. Através dos programas para que gravam, os músicos vão sabendo adaptar-se a diversos estilos e sonoridades, ficando aptos para tocar em qualquer ocasião. “A televisão é o meio de comunicação do século XX e XXI, é natural que os músicos também a ele acedam. Acho que dizer que é desprestigiante actuar na televisão é um problema do crónico atraso de Portugal”, diz Luís Filipe quando interrogado sobre a dignidade de um trabalho feito para o televisor. “Sei que os músicos na maioria, nem sequer ficam conhecidos – o nome passa no genérico, mas ninguém o lê. As pessoas apenas os conhecem visualmente, e isso fá-los serem identificados com outros projectos exteriores ao programa.”
Mas esse anonimato que a televisão impõe também concorre para a recusa de muitos profissionais de actuarem nos seus programas, ou não será? Luís Filipe considera que não, e é categórico na resposta: “Estou-me marimbando para os músicos que acham mal tocar na televisão. Penso que é um problema de como dessas pessoas, que se calhar nem sabem tocar como deve ser. Provavelmente são músicos específicos de uma determinada área, têm três meses de aulas no Hot Clube e julgam que já são músicos de jazz e não são nada.
(Marta Duarte).

Kevin Braheny – “The Way Home” + “Galaxies” + “Secret Rooms” ; Tim Clark – “Tales of the Sun People”; Mychael Danna – “Sirens” + “Skys”; Constance Demby – “Sacred Space Music” + “Set Free”; David Lange – “Return of the Comet”; Kenneth Newby – “Ecology of Souls”; Raphael – “Music To Disappear In”; Michael Stearns – “Sacred Site”; Michael Stearns & Ron Sunsinger – “Singing Stones”; Tim Story – “Beguiled” + “The Perfect Flaw”

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995
reedições


Major Tom Para A Torre De controlo

KEVIN BRAHENY: The Way Home (7); Galaxies (6); Secret Rooms (5); TIM CLARK: Tales of the Sun People (6); MYCHAEKL DANNA: Sirens (5), Skys (7); CONSTANCE DEMBY: Sacred Space Music (7), Set Free (5); DAVID LANGE: Return of the Comet (7); KENNETH NEWBY: Ecology of Souls (8); RAPHAEL: Music To Disappear In (6); MICHAEL STEARNS: Sacred Site )8); MICHAEL STEARNS & RON SUNSINGER: Singing Stones (8); TIM STORY: Beguiled (7), The Perfect Flaw (7).
Hearts of Space, distri. Strauss



No meio das inúmeras editoras de “new age” que proliferam no Mercado, a Hearts of Space é um caso à parte. Pela simples razão de que para este catálogo o termo não dispensa um nível de qualidade e exigência que não se compadece com os estereótipos que deram má fama a esta escola musical. Na Hearts of Space, como a própria designação indica, existe uma predilecção especial pelo espaço e pelos enredos de ficção científica. Os actuais grãos-mestres desta temática, sobre os quais já escrevemos oportunamente, são os Lightwave e os Suspended Memories. Mas a música cósmica dos anos 90 não se esgota neles. A contagem decrescente já começou…

Um dos representantes mais fiéis da escola espacial, Kevin Braheny é conhecido de alguns pela sua participação no belíssimo díptico “Western Spaces” / “Desert Solitaire”, ao lado de Steve Roach. “The Way Home”, com os seus dois longos temas, um dos quais “Perelandra”, baseado na novela de ficção científica do mesmo nome, de C. S. Lewis, insere-se numa estética Schulziana, embora o seu carácter onírico seja destituído do peso wagneriano que caracteriza a obra do sintetista berlinense. Desenvolvimentos lentos de flauta desembopcam em grandiosos naipes de electrónica, elaborados, entre outros, pelo “Serge modular synthsizer” que o próprio Braheny ajudou a desenvolver. O espaço cósmico é o lugar de partida de “Galaxies” para uma viagem peloCosmos, pelos seus planetas e constelações, numa banda sonora para o documentário com o mesmo nome realizado por Timothy Ferris, escritor de livros científicos, nomeadamente de física e astronomia. Embora por vezes cometa o pecado da redundância, à maneira de um Vangelis, “Galaxies” é o fundo sonoro ideal para se observar as estrelas numa noite de Verão. O mais recente, “Secret Rooms”, volta-se para dentro, numa série de quadros sónicos que correspondem a diversas regiões do psiquismo humano. A ideia é mais interessante do que a sua concretização, já que aqui o seu autor nãose livra de alguns lugares-comuns da “new age”, com um saxofone de marmelada a fazer das suas. Se o disco de Tim Clark serve sobretudo para travar conhecimento com alguns sons inusitados da artilharia digital, em confronto com percussões étnicas, numa história de “F. C.” sobre uma tribo nómada da Universo, já os dois de Mychael Danna justificam uma atenção mais concentrada. “Sirens”, sobre as “qualidades femininas e as suas infinits atracções”, é, em consonância, um pouco efeminado. Toques de extrema delicadeza, perfumes e cantos de sereia não provocam uma verdadeira excitação, de tão doces que são. “Skys”, assim mesmo, sem “e”, consegue por seu lado provocar alguns sobressaltos platónicos, numa pintura electro-classizante (com flauta, oboé, violoncelo, trompete e clarinete) dos vários matizes luminosos dos céus do Canadá. “Minimalismo romântico”, escreve o músico na capa. Faz sentido.
Constance Demby figura nos meiso “new age” como um nome conceituado, muito por culpa de um trabalho chamado “Novus Magnificat”, considerado por muita gente uma obra-prima do género. Já ouvimos e não achámos nada. Ao invés, “Sacred Space Music” é bastante satisfatório, com os seus dois “mantras” de saltério percutido, piano, sintetizador, sinos e coros, na criação de um espaço de catedral mais cristalino e aberto que o de Laraaji, em “Day of Radiance”, a mesma “radiance” que, por coincidência, dá título a um dos temas de Constance. O posterior “Set Free” é mais electrónico mas também mais vulgar. Salva-se uma das sequências finais onde a senhora volta a mergulhar nas espirais do “espaço sagrado”, passando pelo labirinto do cérebro até chegar à luz. Já passou a altura própria mas em 1985 vinha muito a propósito esta composição de Lange, destinada a ilustrar mais uma passagem pela Terra do “velho” cometa Halley. A posterior versão de 1989 inclui um tema extra, “Safe Journey”. Música espacial por excelência, “Return of the Comet” é indicado para “trips” de vária ordem, no planetário ou noutro lugar qualquer de evasão. A inovação não anda por aqui mas as máquinas disfarçam-se bem de astros e, uma vez no interior da cápsula, podemos sobrevoar ou aterrar nos planetas mais inóspitos…
O disco de Kenneth Newby foge um pouco à estética da editora. Não tem rigorosamente nada a ver com “new age”, com as suas estruturas baseadas na relação entre simbologias religiosas de índole obscura e elementos matemáticos igualmente complexos. Experimental, inovador, por vezes terrificante, “Ecology of Souls” move-se numa terra de ninguém que a luz do sol não alcança. No pólo oposto, está “Music to Disappear in” (de que existe também um volume dois) de Raphael. A música não é tão pirosa como o nome do artista deixa entender. Há um lado vivaldiano (credo!) e outro “étnico”, mas no cõmputo geral este natural de Oklahoma sai-se a contento naquilo a que poderemos chamar “música para embalar os anjos”.
“Sacred Site” e “Singing Stones”, de Michael Stearns, são outra loisa. O primeiro é uma antologia de bandas sonoras e outras composições resultantes do encontro com diversas culturas e música planetárias. O destaque vai para os vários temas englobados na música para um documentário, outro, realizado no sistema IMAX (êxtase totalpara os sentidos), sobre a passagem do cometa Halley, observada de um lugar sagrado dos arborígenes australianos, a célebre 2Ayers rock”. Este cruzamento da tecnologia mais sofisticada com as linguagens primitivas tem um desenvolvimento curiosíssimo no novo “Singing Stones”, no qual são utilizados pedras e instrumentos rituais dos índios mexicanos, ou as vibrações da terra nas proximidades e um vulcão. Um dos melhores trabalhos da Hearts of Space, mais próximo de Jorge Reyes e Steve Roach do que de Stephen Micus. Por fim, Tim Story, outro manipulador de “bits” mas que prefere pôr o computador ao serviço dos sons acústicos e orquestrais. “Beguiled” e “The Perfect Flaw” são tapeçarias em roxo e nostalgia que trazem na memória Erik Satie e Béla Bartok. Alimento para os sentidos, com o sabor a sal de uma lágrima e o desenho difuso de uma paisagem que se perde no horizonte.

La Cantarana – “Le Joli Moulin – Canti e Danze Tradizionali Del Pinerolese” + La Rionda – “Capitan De Gran Valore – Musica Tradizionali Della Liguria” + Ritmia – “Forse Il Mare”

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995
world


Argonautas Do “Bello Vino”

LA CANTARANA
Le Joli Moulin – Canti e Danze Tradizionali Del Pinerolese (8)
Associazone Culturale La Cantarana

LA RIONDA
Capitan De Gran Valore – Musica Tradizionali Della Liguria (7)
Robi Droli

RITMIA
Forse Il Mare (8)
New Tone
Todos distri. MC – Mundo da Canção



Constituindo até há bem pouco um mercado pouco explorado, a música tradicional proveniente de Itália ganhou nos últimos anos um espaço e um impulso maiores nas atenções e nos gostos do consumidor nacional, muito por força dos discos e dos concertos realizados no nosso país pelos La Ciapa Rusa e Barabàn, dois grupos representantes da vertente céltica do Norte de Itália, aos quais poderemos ainda juntar o acordeonista toscano Riccardo Tesi. Aberto esse espaço, o interesse suscitado justifica uma investigação mais ampla e profunda de outros nomes oriundos de Itália. Os La Cantarana não andam longe nem dos Ciapa Rusa nem dos Barabàn, já que a sua região de origem é a mesma, o Piemonte, com incidência nas músicas da planície do Pinerolese e dos vales de Chisone e Germanasca.
Arredados do espírito de transgressão e inovação que denotam aqueles dois grupos, a contrapartida manifesta-se numa maior proximidade das raízes por parte dos La Cantarana que deste modo evidenciam um contacto mais estreito com o espírito das comunidades rurais e dos seus rituais colectivos, em especial os do “bello vino”, como em “Chanson du buveur” e “Buvons buvons”. Uma das particularidades curiosas reside na utilização do francês, língua que em certas zonas do Piemonte se mestiçou e misturou ao piemontês e ao chamado “patouá”. Polifonias corais como “Le joli moulin”, “Dessur la fleur da Lys”, “El Pui e la puglia” e “Buvons buvons” (a propósito de vinho, alguém sabe da existência em compacto do fabuloso disco “Le Galant Noyé”, dos Le Bourdon, gravado na Le Chant du Monde. Que maravilha, e que sabor, um tema como “La jolie vigne”…) têm a complexidade e o polimento de uns Malicorne, enquanto “La fènno louerdo” se inscreve num universo que intercepta o dos Ciapa Rusa. Com a sanfona (“ghironda”) a ditar as leis, a saliência vai para um tema que “enche” todo o disco, “La femme d’un tambour”, com uma tocante vocalização de Ornella Galetto, uma senhora que por vezes recorda a saudosa Donatta Pinti, dos Ciapa Rusa, o mesmo acontecendo em “Dans la ville de Gênes”, outro tema a pedir repetidas audições. Um “must” para os italianófilos.
Os La Rionda, de Génova, trazem sons mais picantes e salgados. “Brani” e velhas canções e ritmos de baile (polcas, jogas, valsas) são recuperados e adaptados, determinando uma componente de dança bastante mais marcada do que nos La Cantarana. Outra grande voz feminina: Laura Parodi. A sua gloriosa interpretação em “Maria Giovana” (que por sinal tem pelo meio uma “Aria di vino”…) ultrapassa qualquer tipo de adjectivações. Uma voz de contralto que chegou a causar um certo “escândalo” numa ocasião em que ousou substituir o típico “falsetto” masculino num grupo de “trallallero”, tradição vocal fortemente implantada na região de Génova, em risco de se perder.
Finalmente, se os La Cantarana penetram mais fundo na terra, através das escavações da sanfona e do “organetto” (acordeão), os La Rionda filiam-se sobretudo nas escolas violinística e do clarinete – disseminadas em várias zonas de Itália – mais extrovertidas e de cunho imediatista.
Do passado revisitado com alguma reverência pelos La Cantarana e La Rionda, o salto é enorme para os Ritmia, num álbum que em 1986 agitou a cena da música tradicional italiana. Escrito pelos quatro elementos do grupo, Alberto Balia, Enrico Frongia, Daniele Craighead e … Riccardo Tesi, na sua fase anterior às colaborações com Patrick Vaillant (a dupla tem um disco novo “Colline”), “Forse il Mare” é composto por quatro temas, três dos quais bastante longos, onde as influências tradicionais são filtradas por uma linguagem que ora se aproxima do jazz ora dispara em estruturas minimalistas/hipnóticas de conotação arabizante. Uma espécie de “free folk” que apenas se rege pelas regras pessoais dos seus executantes. Instrumentos como a gaita-de-foles, o “organetto”, a guitarra, o saxofone, o clarinete, a flauta de bisel, o pífaro de cana, o sintetizador e percussões várias juntam-se a vozes que poucoligam ao convencionalismo numa aventura onde a liberdade de processos se conjuga com uma criatividade constante. É como andar na montanha russa.