Arquivo da Categoria: Dossiers 1995

Vários (Pedro Saraiva, Dr. Sax, Guto, Black Out, Mimi, Tina & The Top Ten, Ena Pá 2000, Beto Medina, Black Company, Luís Varatojo, Despe & Siga, Manuel João Vieira, Pedro Abrunhosa, Farinha Master, Ocaso Épico, Quim Barreiros) – “Elevador Da Glória” – (dossier | fim de ano)

pop rock >> quarta-feira >> 27.12.1995


ELEVADOR DA GLÓRIA

Os miúdos. As grandes curtições e as grandes secas. As “bocas”. A dança das aulas. O universo das crianças portuguesas e os seus principais protagonistas – as crianças. Sempre na boca dos pais e dos políticos, durante as campanhas eleitorais. Este Ano Novo, porém, quisemos ser diferentes. Afastámos um pouco mais a objectiva. Pedimos licença aos filhos, assim como que um empurrão jovial – vão lá divertir-se mais um bocado e aproveitem bem as férias – e demos a palavra aos pais, aos matulões e matulonas. Pedimos-lhes para nos contarem a noite de “réveillon” das suas vidas. A festa das festas. Eles não se fizeram rogados. O Pedro Saraiva, o Guto, a Mimi, o Beto Medina, o Luís Varatojo, o Manuel João Vieira, o Pedro Abrunhosa, o Farinha Master e o Quim Barreiros, todos já crescidinhos, alguns deles já famosos, outros com esperanças de o ser, falaram das festas de passagem de ano que jamais esquecerão. E do que vão ou não fazer na próxima.
O Pedro foi apanhado em flagrante em cenas de sexo no elevador, o Guto recorda uma festa africana em grande, a Mimi ainda hoje goza quando se lembra de uma actuação dos Tina às cinco da matina na Foz do Arelho, o Beto prefere não adiantar muitos pormenores sobre uma noitada em Roterdão. O Luís tocou uma vez com um grupo de baile “hard rock” e sambinhas, para animar famílias de Sacavém. O Manuel vai a Fátima converter-se ao “islamismo fatimida”, o outro Pedro, dos Bandemónio, quer é calma e sossego, já esteve sozinho no Gerês e este ano vai estar algures entre o céu e a montanha. O Farinha está de muletas e sem grande disposição para festas, aos 21 anos tocou flauta no depósito de água do Algueirão. O Quim bebeu champanhe ouviu Rod Stewart em Copacabana.
A impressão que fica é que este ano se estão um bocado nas tintas e deixam a decisão sobre o local onde vão passar o “revillon” para a última hora.
A propósito de bandas, querem mesmo saber os seus nomes? Então lá vai: O Pedro Saraiva canta nos D. R. Sax, o Guto “rappa” nos Black Out, a Mimi canta nos Tina & The Top Tem e Ena Pá 2000, o Beto Medina compõe e toca guitarra nos Black Company, o Luís Varatojo alinha com os Despe & Siga, o Manuel João Vieira desestabiliza nos Ena Pá 2000, o Pedro Abrunhosa é o Pedro Abrunhosa, o Farina deu electrochoque nos Ocaso Épico, o Quim Barreiros é o Quim Barreiros.
Ano novo, vida nova? Boas entradas, melhores saídas? Galinha afónica afaga-se-lhe a asa? Bah! Eles é que sabem se vale a pena ou não, na manhã seguinte, cozer a bebedeira. Boas entradas e melhores ressacas!

“COISAS QUE SE CALHAR NEM DÁ PARA CONTAR…”

PEDRO SARAIVA, D. R. SAX



Passagem De Ano Memorável
“Há uma festa um bocado curiosa, que foge ao habitual. Uma vez fomos convidados para ir a casa de um amigo nosso – uma festa que começava tardíssimo. Dirigimo-nos para lá e quando chegámos fui de elevador com uma rapariga, amiga de alguém do grupo. De repente ficámos fechados no elevador. Entretanto a piada é que, quando o porteiro desengatou o elevador e abriu a porta, já estávamos numa cena sexual muito forte. Depois subimos. A festa estava uma porcaria. Saímos, de novo no elevador, e fomos a outro lado – à Indústria, talvez. Já ia completamente fora, também com a piela…”

Este Ano

“O grupo D. R. Sax decidiu que este ano seria passado em casa com as famílias. Temos tocado muito, o que é curioso, porque normalmente os grupos, nesta época, costumam estar parados. Tivemos boas propostas, mas recusámos.”

GUTO,
BLACK OUT



Passagem De Ano Memorável

“’Reveillon’ de arromba nunca tive nenhum. Também nunca tive nenhum mau. Há dois anos, estive numa festa africana que durou até às quinhentas da manhã, onde me diverti bastante e tive o prazer de conhecer novas pessoas… e novas miúdas… Foi na Zona Sul, em Vale Milhaços”.

Este Ano

“Vamos actuar na Praça do Comércio. Depois, estamos a pensar arrancar para uma festa qualquer, não interessa. Só para a diversão.”

MIMI, TINA & THE TOP TEM E ENA PÁ 2000



Passagem De Ano Memorável

“Foi precisamente na última passagem de ano, quando os Tina & The Top Tem tocaram no Dreamers Club, na Foz do Arelho. Eram três grupos, os Gasoline, os Pigs in Mud e nós. Diverti-me imenso, fomos a última banda a tocar, começámos já quase às cinco da manhã. Uma noite muito ‘cool’. Todas as pessoas estavam lá, muita gente conhecida, os concertos foram bons.”

Este Ano

“Ainda não sei o que vou fazer. Não temos nenhuns concertos marcados, por isso, em princípio, não iremos tocar em lado nenhum. Se calhar vou passar o ano naquela festa do Frágil e dos Três Pastorinhos, no Convento do Beato”.

BETO MEDINA, BLACK COMPANY



Passagem De Ano Memorável

“Lembro-me de duas ocasiões. Uma delas, em Angola, ainda na altura do recolher obrigatório, quando as festas começavam às dez e as pessoas só se podiam ir embora a partir das quatro da madrugada. Mas a melhor noite foi mesmo uma, há tr~es anos, na Holanda. Começou na casa dos meus tios, um jantar. Já sabíamos que depois iríamos para outro lado qualquer dançar. No jantar, estava muita gente, incluindo familiares que ainda não conhecia. Havia alguém que sabia fazer foguetes e bombinhas.
A partir daí, porém, é que as coisas começaram a melhorar. Saímos dali e fomos para uma discoteca, a Night Town, em Roterdão. Eu e uns primos mais chegados. Champanhe a noite toda, ficámos um bocado alegres demais. No decorrer da festa, como é que hei-de dizer, houve coisas que se calhar nem dá para contar… Coisas que uma pessoa já nem sequer se lembra muito bem… Não convém contar muitos pormenores… Foi óptimo. A minha namorada é que faz alguns comentários sobre as loiras e tal, fala sempre nisso… Mas não foi nada disso: pelo contrário, na festa em si, estavam para aí umas 2000 pessoas, a discoteca tinha sido modificada, estava cheia de luzes, cheira de cores, uma coisa extraordinária.
Conheceu-se muita gente, sabe-se como é, vêm pessoas cumprimentar-nos que nem sequer conhecemos. Estão todos vidrados, cheios de ‘ecstasy’, sem saber bem aquilo que fazem. Foi uma coisa desse género. Uma festa um bocado… não muito maluca, mas um bocado diferente das que tinha passado nos últimos anos.
Muitas vezes, quando conto isto à minha namorada, a Quica, ela faz um bicho-de-sete-cabeças: ‘Ah, e tal, contas da Holanda mas não contas os fins-de-ano passados comigo.’ Mas não é isso: passei fins de ano com ela que foram óptimos, só que este foi diferente. Nunca tinha estado na Holanda, era para aí o terceiro mês que lá estava e estava a gostar. Estive mesmo para ficar lá a viver.”

Este Ano

“Não sei, não tenho nada preparado. Sei que, na banda, não vamos passar juntos. Não vamos actuar em nenhuma festa. Pessoalmente, não gostaria. É diferente estar em cima de um palco, numa passagem de ano… Se calhar, gostaria mais de ver uma banda a actuar que ser eu a actuar. Mas, claro, vou passar o ano com a Quica. Como já não faltam muitos dias, é possível que vá ao Convento do Beato.”

LUÍS VARATOJO.
DESPE & SIGA



Passagem De Ano Memorável

“Lembro-me da primeira vez em que toquei numa passagem de ano, em 1983. Na altura, tinha um grupo de baile, mais ou menos, e tocámos na Academia Recreativa de Sacavém. Foi aí que arranjei a namorada que ainda tenho hoje. Foi giro, porque tocávamos para a chamada ‘malta da pesada’, mas a audiência era assim um bocado mista, com pais à mistura. Conseguimos animar tudo, sem qualquer problema. Tivemos que tocar ‘hard rock’ e ao mesmo tempo misturar uns sambinhas…”

Este Ano

Vamos actuar ali na Praça do Comércio. Fazemos um grupo, nós, os técnicos que trabalham connosco e um grupo de miúdas, bailarinas, que costumam também aparecer no nosso espectáculo. Ao todo, somos para aí umas 40 pessoas. Como nos damos bem e estamos o maior tempo possível juntos, vamos passar o ano juntos. Não temos é ainda sítio. Se houver alguém com uma proposta, para onde der para ir com toda a malta… Embora o programa seja agradável, lá na Praça do Comércio, apesar de ser Inverno. Deverá ser bastante animado.”

MANUEL JOÃO VIEIRA,
ENA PÁ 2000



Passagem De Ano Memorável

“Em 1962. Não aconteceu nada de especial.”

Este Ano
“Vamos em peregrinação a Fátima, passar lá o fim do ano. Porque nos vamos converter ao islamismo fatimida, com o resto dos iranianos.”

PEDRO ABRUNHOSA



Passagem De Ano Memorável

“Pensando bem, as melhores foram aquelas passadas com mais calma. As piores foram as que passei a trabalhar. As melhores foram todas as que passei no Gerês, sozinho, entre o frio e a natureza, no topo da montanha.”

Este Ano

“O que desejo para mim mesmo é exactamente o mesmo, a paz e sossego. Em concreto, estou a pensar passar o ano algures, entre o céu e a montanha.”

FARINHA MASTER,
OCASO ÉPICO



Passagem De Ano Memorável

“Devia ter uns 21 anos e fui sozinho para o depósito de água do Algueirão, um edifício circular com uma calote esférica no cimo e que fica num ponto alto, de onde se vê todo o Algueirão. Lá dentro, há uma sala cilíndrica que faz uma reverberação muito grande. Levei a minha flauta, tocava e via a menifestação da passagem de ano no exterior, os foguetes, as pessoas a passarem lá em baixo. Foi giro, não levei quaisquer produtos químicos, nem sequer champanhe ou passas. Estive ali umas duas, três horas.

Este Ano

“Não façoplanos. Na maioria das vezes as passagens de ano são convites de última hora. Neste momento, houve uma proposta de a fazer aqui em minha casa com uns amigos meus, que deixei um bocado no ar. Não estou com muita energia, uma vez que estou de muletas, devido a um acidente de motorizada..”

QUIM BARREIROS



Passagem De Ano Memorável

“Em todos os ‘reveillons’ que me lembro, desde os nove anos, trabalhei sempre, quer como músico de conjuntos musicais, quer como artista. Agora, o ano passado não trabalhei e gostei, foi bom para mim. Estava em Copacaban, estava lá o Rod Stewart a actuar. Foi uma festa muito bonita, com os amigos, a abrir champanhe francês na praia de Copacabana.”

Este Ano

“Vou trabalhar, para a discoteca Antonius, em Vila do Conde. Antes, sou capaz de pegar na família e ir jantar à estalagem Zende, em Ofir, Esposende”.

Vários (filhos de músicos portugueses) – “Voar No Natal” (entrevista | reportagem)

pop rock >> quarta-feira >> 20.12.1995


VOAR NO NATAL



Os discos. As estrelas. Os grandes êxitos e os grandes “flops”. As “bocas”. A dança do mercado. O universo da música portuguesa e os seus principais protagonistas, os músicos. Sempre na boca do mundo e nas páginas do Pop Rock. Este Natal, porém, quisemos ser diferentes. Aproximámos um pouco mais a objectiva. Pedimos licença aos pais, assim como que um empurrão delicado – saiam lá da frente -, e demos a palavra aos filhos. Eles não se fizeram rogados. A Inês, o Pedro, o Vasco, o Benjamim, o Vicente e a Joana, de idades compreendidas entre os sete e os 13 anos, filhos de pais famosos, falaram da música que gostam e da que não gostam. Da música dos pais e dos pais dos outros. Das prendas “impossíveis” que gostariam de receber neste Natal. Todos detestam a música “pimba” e juram a pés juntos que nunca dançaram “O bicho”.



A Inês gostaria de poder voar. O Vasco acompanha as digressões do pai e adora “as miúdas”. O Vicente já vai no terceiro ano de Piano e declara-se “viciado” nos jogos de computador. O Benjamim quer é dar uns chutos na bola e, quando calha, umas pancadas na bateria que o pai tem tem lá em casa. Às vezes implica na escola com a Joana, por causa do pai. Se pudesse ser, gostaria de estar sempre a viajar e, já agora, que o Sporting fosse campeão. O Pedro delicia-se a ouvir o pai tocar piano com o Pedro Burmester, mas quando for crescido quer ser biólogo. A propósito de pais, querem mesmo saber os seus nomes? Então, a Inês e o Pedro são filhos do Mário Laginha. O Vasco é filho de Kalu, baterista dos Xutos & Pontapés. O Vicente é filho do Jorge Palma. O Benjamim é filho de Carlos Guerreiro dos Gaiteiros de Lisboa. A Joana é filha de Rui Veloso.
Quem sai aos seus não degenera? Filho de peixe sabe nadar? De pequenino é que se torce o pepino? Bah! Eles é que sabem as linhas com que se cosem.

“Divirto-me, Passeio Sozinho, Vejo As Míudas!”



O Vicente tem 12 anos e frequenta o 7º ano. Anda no 3º ano docurso de Piano do conservatório. Gostava de ser músico, como o pai, Jorge Palma. Dos discos do pai, cuja música acha “óptima”, prefere o álbum “Só”, em particular a canção “Estrela do mar”. Costuma sintonizar a Rádio Cidade para ouvir os Queen e Bom Jovi. Música clássica? Faz uma careta. “Não costumo ouvir.” Dos portugueses conhece “imensa coisa” mas não gosta da maior parte, porque “são só aqueles parvalhões tipo Marco Paulo”. Já os Ena Pá 2000 merecem-lhe outro tipo de comentário: “São directos”, com “músicas agitadas”, como “aquela da Marilu” (risos). “Está bem feita.” (N.R.: Neste ponto, outro dos convidados, o Vasco, mostra conhecer a letra de cor e entoa alguns versos da canção, os quais, por não se adequarem à linha editorial desde sempre seguida por este jornal, nos dispensamos de publicar.) Neste Natal, a prenda sonhada é uma Sega Saturn, uma consola de jogos, “a melhor do mundo”. “Há colegas meus que dizem que sou um viciado em jogos de computador e eu respondo-lhes que é verdade.”



O Vasco, 10 nos, 5º ano, além dos Ena Pá 2000, também aprecia os Despe e Siga e os Xutos & Pontapés, grupo do qual o seu pai, Kalu, é o baterista. Dos estrangeiros prefere os Metallica. Coisas violentas, como as que o pai “costuma ouvir”. Encolhe os ombros. “Que remédio.” “Eu gosto, mas há umas mais pesadas de que já não gosto tanto.” Desforra-se a escutar uma canção lenta da recente colectânea “Espanta-Espíritos”, “Rocha negra”. Ou os Madredeus. Dos Xutos, conhece quase todas as canções “de cor”. Acompanha o pai nas digressões sempre que pode. “Divirto-me, passeio sozinho, vejo as miúdas.” As miúdas são mais velhas, mas “sempre se aproveita alguma coisa” (risos). A namorada da escola não se chateia. Por enquanto. Nos ensaios, já segue as pisadas do pai. Quando pode, dá uns toques na bateria. Músicas que ele próprio inventa. Quanto à prenda de Natal, não faz a coisa por menos: “Ter um harém de raparigas!” Mais a sério, já tem um presente garantido: “Na minha escola vai haver um estágio de uma semana, vamos dormir lá e divertir-nos. O Oceano e o João Vieira Pinto vão treinar-nos.” Um jogo “FIFA 96” para a Megadrive também não caía mal no sapatinho.



O Pedro, 9 anos, 5º ano, é claro que também gosta da música do pai, o pianista Mário Laginha. “Costumo ouvir um disco que diz’Mário Laginha e Pedro Burmester’.2 Embora se sinta atraído pelo piano, tenciona ser biólogo. “Gosto de animais.” Não tem nenhum em casa, porque a mãe não quer que “andem a sujar a casa toda”. Gosta dos discos de jazz que o pai ouve em casa, mas, se lhe derem a escolher, prefere Sting. Concorda com o Vicente e franze o sobrolho quando ouve falar de Marco Paulo. “É um piroso” [alguém canta em ar de troça “eu tenho dois amores”]. E “O bicho”? “Uuhhh”, vaia colectiva, “é um nojo”, “os pais é que gostam e depois ensinam os filhos a fazer aquilo.” Iran Costa não é definitivamente um dos heróis desta garotada. Como o Vasco, ficaria feliz em receber no sapatinho uma Sega Saturn acompanhada do jogo “Virtual Fighter” – “Já vem com a Sega”, informa, entendido, o Vasco. Ou “carros telecomandados”. Já teve um, mas como estava estragado, usou o motor “para fazer um barco a motor”.



A Inês, sete anos, 2º ano, é irmã do Pedro e a mais nova do grupo. À semelhança dos seus companheiros, gosta de música. “Às vezes ouço o Sting e a Onda Choc.” Acha a música do pai um bocadinho esquisita. Já se sentou ao piano e gostou. “Temos dois pianos lá em casa, um do meu pai e outro meu e do meu irmão.” Sabe tocar nas teclas “A Suzana vai à quinta” e outra da qual não me recorda o nome mas consegue entoar as notas. “É a minha mãe, que já foi professora de piano, que me ensina. “Costuma ver os desenhos animados da televisão. “Um dia o meu pai chegou de uma viagem e deu-me um saco com montes de filmes do Pateta, da Minnie, do Mickey.” Já viu o “Pocahontas”, para si, “melhor que ‘O Rei Leão’”. Se fosse possível, neste Natal, gostava de voar. “Quando os meus pais fossem de carro à casa do irmão, eu chegava lá muito mais depressa.”



“Não gosto de música tradicional portuguesa.” A afirmação, lapidar, pertence ao Benjamim, 11 anos, 6º ano, filho de Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa. “Não gosto de ranchos folclóricos!” Mas então e o grupo do pai? “Ah, isso já gosto! Os outros juntam muita coisa.” A sanfona? “O ravanastrão! Já lhe peguei, aquilo é difícl de tocar.” Em matéria de gostos musicais, Benjamim não é excepção e cita os nomes dos Xutos, GNR e Rui Veloso, embora tenha outra paixão: “Gosto de jogar À bola.” Joga futebol na escola. É benfiquista. O Benfica anda um bocado por baixo. “É a crise!”. [“O benfica vai à falência!”, comenta ao lado a Joana, sportinguista ferrenha}. Vai ao estádio da Luz, não com o pai, que “não liga a essas coisas”, mas “com um senhor do café”. Neste Natal, gostava de “receber uma bateria”. Ou então um “salão de jogos”.



Joana, 13 anos, 8º ano, é a mais velha. Admira a música do pai, Rui Veloso, e gosta do seu último álbum, “Lado Lunar”. “Desse e do ‘Mingos e os Samurais’. Os Xutos e os Despe e Siga voltam a ser nomeados, desta vez ao lado da Ala dos Namorados. “Os Ena Pá 2000 é que não!” o contrário da filha, o pai aprecia o grupo liderado por Manuel João. “Tem os discos todos em casa!” Na escola, por vezes surgem problemas. “É uma seca! Estão sempre a chatear, ainda por cima no outro dia o meu pai foi cantar o hino [a anteceder o recente Portugal – Irlanda em futebol] e toda a gente gozou comigo.” Mas não se chateia muito. “Estou-me nas tintas.” O facto de ser filha de um artista famoso também tem as suas vantagens. “Até acho que é melhor, tenho possibilidade de conhecer pessoas que não conheceria se o meu pai não fosse quem é.” Quando as aulas o permitem, acompanha o pai nas suas deslocações. Sabe sempre distinguir quando ele toca bem ou quando toca mal. “Digo-lhe isso, mas ele não se chateia, até gosta, tem vezes em que me dá razão, outras não.” Acha que “a música portuguesa é maltratada em Portugal. Nas rádios que passam música portuguesa é só música pimba”. Antena 3, Rádio Comercial FM e RFM são as suas estações preferidas. A prenda ideal para este Natal era “viajar muito”. Ou então que “o Sporting fosse campeão”.

Beatles | John Lennon – “Antologia Dos Beatles ‘Ressuscita’ John Lennon – O Pássaro Engaiolado”

cultura >> segunda-feira, 20.11.1995


Antologia Dos Beatles “Ressuscita” John Lennon
O Pássaro Engaiolado


“Free as a Bird” é o primeiro de dois inéditos incompletos de John Lennon que os restantes Beatles transformaram numa canção original. Paul, George e Ringo juntaram-se, em estúdio, ao fantasma do Beatle assassinado, consumando-se deste modo a reunião virtual, e para muitos histórica, dos “fabulous four” de Liverpool. A suportar esta assombração de Natal, materializada na edição de uma mega-antologia do grupo, está uma operação de “marketing” sem precedentes. Em Inglaterra as lojas abrem hoje mesmo, à meia-noite. Dickens não faria melhor.



“Não acredito em fantasmas, mas lá que eles cantam, cantam!”, poderia ser o anúncio da maior “novidade” discográfica deste final de ano. É verdade, um “novo” disco dos Beatles está prestes a sair! Na verdade, trata-se de uma antologia, dividida em três volumes, contendo material inédito dos “fabulous four” de Liverpool. Para os milhões de apreciadores do grupo espalhados pelo planeta não poderia haver melhor prenda de Natal.
O lançamento mundial do primeiro volume, em compacto e cassete duplos e vinil triplo, está agendado para hoje à meia-noite, hora marcada para a abertura das lojas, de maneira a poder satisfazer a previsível loucura consumista dos fãs. Algo parecido com o que aconteceu recentemente com o lançamento do Windows 95 no campo da informática.
O que faz salivar os milhões de admiradores da lendária banda britânica é o facto de voltarem a poder escutar canções originais, gravadas, compostas e interpretadas na actualidade pelos quatro músicos, ou seja, o fantasma de John Lennon – assassinado à porta da sua residência em Nova Iorque, a 8 de Dezembro de 1980 – saltou do túmulo para o mundo dos vivos. E voltou a cantar.
“Free as a bird” e “Real love”, ambos com edição prevista em “single”, são os dois inéditos incompletos, compostos por Lennon no final dos anos 70, que Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr trabalharam em estúdio, acrescentando música original à voz pré-gravada do Beatle ausente. “Free as a bird” é o tema de abertura de “The Beatles Anthology, Volume 1”, primeira parte de uma série de três compactos duplos que fazem incidir uma luz nova sobre a história do grupo que revolucionou a música popular deste século.
“Real love” fará parte do alinhamento do segundo volume da antologia, a lançar no próximo ano. Uma estratégia comercial correcta da parte da editora, a EMI/Apple, ao incluir um isco irresistível em cada um dos discos. No sapatinho vão caber decerto vendas astronómicas.
George Martin, o “quinto Beatle”, como é conhecido, produtor de obras-primas como “Revover”, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e “The Beatles” (mais conhecido como o “album branco”), anunciará ainda, em conferência de imprensa, a realização paralela de uma série documental televisiva com seis horas de duração, sobre a vida e obra dos Beatles. A primeira será exibida em Inglaterra já no próximo dia 26 pela cadeia ITV. A RTP adquiriu já os direitos de exibição para Portugal. Está ainda prevista a edição de oito vídeos de 75 mínutos cada, contendo imagens dos Beatles cedidas por fontes públicas e privadas.

A Estratégia

Para não destoar de uma estratégia de “marketing” montada ao pormenor, foi escolhida para a capa uma pintura de Klaus Voorman, colaborador dos Beatles de longa data, baixista dos Plastic Ono Band, ao lado de John Lennon e responsável pelo “design” da capa de “Revolver”. Tudo a bater certo. Ainda para mais agora que o Natal se aproxima, época ideal para milagres. Desde o da ressurreição ao da multiplicação dos dólares, perdão, dos pães.
“The Beatles Anthology, Volume 1” colecta a módica quantidade de 60 temas, 34 no primeiro compacto, 26 no Segundo. Descontando “Free as a bird”, é extensa a lista de preciosidades ou simples curiosidades arqueológicas, desde gravações caseiras a simples comentários falados de John Lennon e Paul McCartney.
Entre os inéditos contam-se “That’ll be the day”, versão dos Quarry Men (o grupo que daria origem aos Beatles) para um original de 1958 de Buddy Holly, “Hallelujah, I love y oso”, versão de 1960 de um tema de Eddie Cochrane, “You’ll be mine”, “Cayenne (instrumental da autoria de Paul), “How do you do it”, o “standard” “Besame mucho”, gravado durante a primeira visita dos Beatles aos estúdios Abbey Road, em Junho de 1962, ou uma série de cinco temas extraídos de uma audição falhada para a Decca, em 1 de Janeiro de 1962.
A enumeração de “takes” originais, “demos” e variações de temas antigos seria fastidiosa. É uma refeição completa que dará de comer a muita gente por muitos e bons anos. O mito está bem e recomenda-se. E regorjita-se.

Caça-Fantasmas

Deixando de lado a festa mediática, fica o essencial, os tais temas “originais” em que Lennon voltou ao convívio com os seus antigos companheiros. As fitas estavam na posse de Yoko Ono, viúva do Beatle, para muitos “essa megera, que deu cabo do grupo”. A primeira intenção da megera foi regravá-las com músicos modernos. Seria uma traição, mais uma, ao

Convém não esquecer qu, ainda hoje, os Beatles vendem mais do que alguma vez venderam e vendem os seus arqui-rivais Rolling Stones

Nome e à memória de John Lennon. Assim o entenderam Paul, George e Ringo, que insistiram em ser eles a ressuscitar musicalmente o defunto e, em paralelo, os próprios Beatles.
Foi preciso fingir. Fingir que o tempo não volta atrás. “Fingir que John apenas se ausentara momentaneamente para umas férias em Espanha”, como Paul McCartney justificou todo o processo, numa entrevista concedida no último número da revista inglesa “Q”. Não foi difícil, neste caso, tornar o esboço numa canção. Como se John tivesse deixado expressamente o tema inacabado para os outros lhe darem a forma final e definitiva.
Ainda segundo Paul, na parte intermédia da canção, John cantava algo como “whatever happened to / the life that we once knew / woowahwunnnnnyeurrggh” não é certamente uma letra à altura da reputação dos Beatles. Quem quiser conhecer já a letra definitiva terá que ir para a bicha e esperar até à meia-noite.

O Produtor

Agarrado o fantasma, era preciso arranjar um produtor. Alguém que soubesse enredar as tramas do tempo. George Martin era a escolha óbvia, por sugestão de Paul. Martin produz o resto da antologia, mas, para os temas com John, foi George Harrison a ter a última palavra. Eram precisos “ouvidos imaculados” para canções imaculadas. A escolha recaiu, por fim, em Jeff Lynne, um ex-Move e Electric Light Orchestra que se especializou mais tarde em discos de homenagem aos Beatles e produziu álbuns de Bob Dylan, Brian Wilson e, é claro, George Harrison.
Quando Lynne sugeriu que George tocasse “slide guitar”, Paul receou o pior, lembrando-se de imediato de “My sweet Lord”. Mas não. Afinal o mais “indiano” dos Beatles soube conter-se e “Fre as a bird”, segundo opinião unânime de Paul, George e Ringo, soa de facto aos Beatles, podendo perfeitamente passar por um tema escrito no ano áureo de 1967.
“Real Love”, outra das vocalizações deixadas para a posteridade por Lennon, também já tem novo argumento. Aqui foi necessária uma cesariana. As fitas estavam sujas de ruído, embora a voz de John, pelo menos na opinião de Ono, estivesse mais nítida. Consumada a operação de limpeza, Paul e George acrescentaram as harmonias vocais. Ringo bateu nas peles, na sua forma simples mas que mais ninguém soube imitar. O resultado, dizem todos, é uma canção melodicamente atraente e “catchy”, à boa maneira dos grandes clássicos do grupo.
Consumada a “histórica” reunião dos quatro Beatles que ficaram para a lenda, resta saber se, a partir daqui, a invocação do fantasma de Lennon lançará ou não uma assombração sobre o que a memória colectiva prefere manter inviolável. Se a história dos Beatles é de facto uma história interminável, com novos capítulos sempre a serem escritos ou, pelo contrário, corre o risco de se vulgarizar.
Convém não esquecer que, ainda hoje, os Beatles vendem mais do que alguma vez venderam e vendem os seus arqui-rivais Rolling Stones que, como se sabe, ainda correm nos palcos, contra o destino, já lá vão mais de 30 anos de carreira. Os mortos sempre tiveram mais sucesso do que os vivos. Vem nos livros.

A Outra Vida

Hoje, Ringo Starr refere-se aos Beatles como “eles” e George Harrison acredita que se irão encontrar os quatro de novo numa outra vida. Paul tem uma visão mais focada e menso distorcida pela emoção da realidade. Continua a recusar-se a tocar ao vivo e a gravar novos discos com o nome “The Beatles”, mesmo confirmando a oferta de uma verdadeira fortuna para os três actuarem juntos numa digressão de dez datas pelos Estados Unidos.
Ele sabe que os Beatles são hoje, mais do que nunca, uma fantasia, e que a sua história definitiva nunca será escrita. Uma história cuja veracidade se perde, inclusive, na memória individual dos seus intervenientes directos. No documentário que integra o pacote de lançamentos de “Anthology” há uma entrevista elucidativa.
Aí se refere uma ocasião em que os Beatles se encontravam em Paris e um deles sofria de uma inflamação na garganta. Paul narra o modo como cada um recorda o episódio: “Ringo afirma que era George quem tinha a garganta inflamada. A câmara aponta para George para filmar a sua reacção. George nega e afirma que foi Paul. A câmara volta-se para mim. Garanto-lhes que foi John quem estava com a garganta inflamada!”.
Porém, “a posteriori”, os três, incluindo Paul, afirmam a pés juntos que não foi John! É ainda Paul McCartney quem deixa a porta aberta para poderem entrar todos os fantasmas: “Deixem passar mais uns anos, quando se queimarem mais algumas células dos nossos cérebros. Nessa altura não haverá história nenhuma para contar!”