Arquivo mensal: Agosto 2022

Bel Canto – “Birds of Passage”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 24 OUTUBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


BEL CANTO
Birds of Passage
LP e CD, Crammed, distri. Contraverso



“Bom-gosto” é o termo que define este disco na perfeição e graças ao qual os noruegueses Bel Canto, desde que se estrearam com “White-Out Conditions”, conseguem suprir a falta de génio, através de uma invulgar capacidade para a disfarçar. Música que atrai pelo lado de fora. Sedutora na forma polida e clássica como afaga o cérebro, mais do que os sentidos. Sedução pela inteligência, empreendida e concretizada sem grande esforço pela voz (belíssima) de Anneli Marian Drecker. O tempo cada vez mais pertence mais às mulheres – já o sabíamos. Este disco volta a comprová-lo. Aqui tudo se realiza em função da voz de Anneli Marian. Laboratorialmente, cada som foi criado e testado de maneira a encaixar-se com um máximo de eficácia nos diversos registos vocálicos da cantora.
Impera a eletrónica: “samplers”, percussões digitais, o trivial neste final de século. Para amenizar um pouco a frieza dos “bits”, foram chamados alguns dos músicos habitualmente ligados à editora: Luc Van Lieshout (dos Tuxedomoon, no “flugelhorn”), Jeannot Gillis (violino, viola-de-arco), Marc Hollander (dos Aksak Maboul, clarinete, teclados e percussão) e Claudine Steenackers (violoncelo). Certas passagens de “Birds of Passage” sugerem climas semelhantes aos que os This Mortal Coil criaram. “Continuum” e “The Glassmaker” dão cor e colorido exótico ao ambiente solene prevalecente ao longo de quase todo o disco. O primeiro, cantado em espanhol por Anneli, fala de maldições, de ritmos ocultos e mágicos que impelem a dançar. No segundo, a voz e o canto aproximam-se de um registo étnico semelhante ao que utilizou Mari Boine Persen, no maravilhoso disco que recentemente gravou para a Real World. Os Bel Canto, ao contrário dos Dead Can Dance, em “Aion”, não serão por enquanto capazes, pela sua música, de fazer vibrar os espaços imensos de uma catedral. Para já, uma capela chega-lhes. Poderá a voz de Anneli Marian voar mais alto? ***

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #57 – “Andrei Samsonov (FM)”

#57 – “Andrei Samsonov (FM)”

Fernando Magalhães
26.12.2001 150324
Então esse natal?

Eu, entre uma garfada de perú e mais um pedido de esclarecimento do meu filho sobre o FIFA 2002, ainda arranjei tempo para a descoberta de um fenomenal álbum de electrónica, obtido via “o vendedor”:

“Void in”, do russo ANDREI SAMSONOV. Álbum, se não estou em erro, de 1999, gravado na série “Parallel” da Mute.

Arquitecturas complexas. Grutas e palácios. Analog e digital em harmonia. Vozes estranhas ecoando nas entranhas de vulcões sónicos. Ciclos, loops, orquestras, murmúrios, grandes pesos, voos etéreos de uma música com óbvios parentescos com a electrónica contemporãnea da INA.GRM. Um grande álbum em que o prazer da manipulação do som (os timbres, contrastes e domínio do tempo são fabulosos) corresponde a uma experiência auditiva sem paralelo (experimentem ouvir, como eu fiz, através das colunas e dos auscultadores – regulados com o volume baixo, de maneira a captar apenas certas frequências mais agudas — em simultâneo!).

FM

Youssou N’Dour – “21 De Outubro, Coliseu Do Porto 22 De Outubro, Coliseu De Lisboa” (concertos | antevisão | artigo opinião)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 17 OUTUBRO 1990 >> Pop Rock


YOUSSOU N’DOUR
21 de outubro, Coliseu do Porto
22 de outubro, Coliseu de Lisboa


N’Dour é sobretudo conhecido pela fusão, nos seus discos, de vários estilos musicais, nomeadamente as sonoridades étnicas do Senegal, o “reggae”, a eletrónica e a música de dança. Sensível aos sons e cultura ocidentais, e não só, trabalhou com Peter Gabriel, no álbum “So”, Paul Simon (“Graceland”), Ryuichi Sakamoto (“Beauty”), Bruce Springsteen, Sting e Tracy Chapman (estes últimos ao vivo na “tournée” mundial organizada pela Amnistia Internacional, “Human Rights Now”).
Em 1976, juntou-se aos Star Band, e três anos mais tarde formava a sua própria Super Étoile de Dakar, banda com a qual se tornou conhecido fora do país natal. Depois do sucesso internacional de “The Lion”, “Set” (“limpo”, em dialeto wolof, produzido por Daniel Lanois) é o registo discográfico mais recente deste senegalês apostado em estender as fronteiras da África pelo mundo fora. Em “Set”, a sonoridade é mais urbana do que nunca, baseada no “mbalax”, “cocktail” rítmico que mistura ambientes de mercado, clubes noturnos e festas particulares.
Ao contrário, nomeadamente de Mory Kante, seu concorrente direto no campo da revisão moderna dos dialetos tradicionais africanos, Youssou N’Dour parece agora apostado em manter-se fiel a um som que, apesar de sincrético, não faz concessões ao gosto americanizado. De modo que, se “Lion” foi o seu ensaio mais sério no plano da massificação, “Set” é um disco que equivale a um retrocesso autenticista. Internacionalista, mas não pura curiosidade turística, em Portugal teremos oportunidade de escutar a sua voz tenor e o vibrante entusiasmo com que procura, a partir do grande caldeirão de culturas, pôr o mundo inteiro a dançar, mas sempre e sobretudo agora numa perspetiva africana.