Arquivo mensal: Março 2022

Teardrop Explodes – “A Grande Explosão” (artigo de opinião)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 ABRIL 1990 >> Videodiscos >> Pop


A GRANDE EXPLOSÃO

Os Teardrop Explodes gostariam de ter tocado no clube UFO, nos tempos áureos da Londres psicadélica. Julian Cope, o líder carismático da banda, compensa a falta, invertendo o processo, transportando a visão psicadélica para a atualidade e moldando-a a seu bel-prazer.
Resultado da associação de diversos músicos, provenientes de bandas obscuras e entroncando numa genealogia cujos antepassados próximos davam pelo nome de Crucial Three, The Mystery Girls, The Nova Mob e A Shallow Madness, os Teardrop nascem finalmente em Liverpool em 1978, em plena época de revivalismo psicadélico. A par dos Echo and the Bunnymen, erigiram-se como um dos pilares mais sólidos do movimento, construindo para si próprios um nicho à parte, no meio da voragem das modas e dos estilos. Com uma discografia reduzida – apenas três álbuns, sendo o mais recente já deste ano –, Julian Cope soube, de forma bem hábil, criar a imagem e o mito do mártir e lunático iluminado, que de vez em quando, e por desfastio grava a obra-prima da ordem.



Novos Psicadélicos

Depois de uma série de discos em formato pequeno, como o EP “Sleeping Gas” e os “singles” “Bouncing Babies” e “Treason (It’s Just a Story)”, gravam em 1980 o primeiro álbum de genérico, “Kilimanjaro”. O álbum alcança um êxito relativo nas tabelas de vendas, evidenciando todas as características e originalidade que viriam a explodir feericamente na obra seguinte, “Wilder” (1981), em que Cope faz jus ao epíteto de “génio”.
“Wilder” fica para a história da música popular como um manual de “Como recuperar um estilo antigo, captar a sua essência e apresentá-lo num contexto contemporâneo”. É evidente que tal tarefa só é possível se o autor tiver a capacidade extra de saber compor boas canções. Julian Cope não escreve boas mas, sim, ótimas canções. “Passionate Friend”, editada em “single”, é apenas uma das mais conhecidas, tendo em conta que o álbum fervilha de inspiração, sem um único ponto fraco. “Colours Fly Away”, “Seven Views of Jerusalem”, “Tiny Children”, “And the Fighting Takes Over…” ou “The Great Dominions” são exemplos brilhantes de um músico em estado de graça. O psicadelismo dos anos 80 encontrava em Julian Cope um papa à altura.
Um pouco à semelhança do que aconteceu com Syd Barrett e os Pink Floyd, Cope entra em avançado estado de paranoia, a que já não é estranho o consumo desregrado de drogas, já que as alucinações e o estatuto de visionário nem sempre se alcançam por obra e graça de uma vida saudável e equilibrada. Os Teardrop Explodes sofriam por tabela e encerravam para balanço.

Para Além da Santidade

Já melhorzito, Cope decide gravar discos a solo. “World Shut Your Mouth” (1984) inicia a série e manifesta os primeiros sintomas de uma megalomania entretanto declarada. O passo seguinte é “Fried”, gravado no mesmo ano e que marca o final das ligações contratuais com a Mercury, que suportara até então todas as atividades da banda.
“Saint Julian”, gravado em 1987 para a Island é o terceiro capítulo da ascensão de Cope à santidade. Ninguém acredita quando Julian diz que o título se refere apenas a uma conhecida marca de tabaco. Seja como for, pelo menos uma coisa Julian Cope não perdeu: o sentido de humor.
O golpe de teatro dá-se este ano, com a edição de um novo álbum dos Teardrop, por ironia intitulado “Everybody Wants to Shag the Teardrop Explodes”; contém material antigo, espalhado por outros discos, acrescentado de cinco originais. Cope envereda abertamente por uma via “funky”, já encetada aliás, embora de forma discreta, em obras anteriores. A peça-chave de “Everybody Wants to Shag…” é “The Terrorist”, mais experimental e ao nível das melhores ousadias da banda. No ar fica a questão de saber o que existe para além da santidade.

Fred Frith – “Fred Frith: Guitarra Toca Baixinho” (perfil)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 ABRIL 1990 >> Cultura

Perfil


Fred Frith: guitarra toca baixinho

Faça-se justiça. Fred Frith é uma figura tão ou mais importante que John Zorn. Na passagem dos Naked City por Lisboa os holofotes incidiram sobretudo no saxofonista maluco. Não que Frith se importasse muito, mas é sempre bom repor a verdade dos factos.



Na conferência de imprensa realizada algumas horas antes do concerto dos Naked City, num bar lá para os lados do Cais do Sodré, Fred Frith fez as despesas da conversa. Mesmo quando as perguntas eram dirigidas a Zorn, este, numa atitude de muito respeitinho, remetia-as imediatamente para o companheiro, como quem diz: “Ele é que sabe, é ele quem lê os livros”.
Durante o concerto foi engraçado verificar o contraste de atitudes e posturas em palco dos diversos músicos. Wayne Horvitz, compenetrado e sem tempo para carregar nos botões do sintetizador, Joey Baron, rindo como um pateta alegre, manifestava a grande alegria que sentia por tocar ao lado dos seus ídolos. Quanto a Bill Frisell, sisudo e deslocado, não se percebia muito bem o que estava ali a fazer. John Zorn, em estado de constante frenesim, disparava a velocidades supersónicas as suas micro-metragens sonoras.

Discurso do método

No meio de tudo isto, impávido e sereno, Fred Frith, sorriso nos lábios, fazia deslizar suavemente os acordes do seu baixo por entre os estertores dos restantes músicos. “É preciso que haja alguém que se mantenha sereno para pôr as coisas em ordem”, dizia-nos Frith, de regresso ao hotel.
Longe vão os tempos em que o guitarrista e compositor de bandas como os Henry Cow, Art Bears ou Skeleton Crew, se divertia a atirar objetos para cima da guitarra: “O humor está sempre presente na minha música. Por vezes o público não se apercebe do que acontece sobre o palco. As pessoas encaram os concertos com ideias pré-concebidas. Uma piada ou um gesto mais teatral ajudam a descontraí-las. O difícil é mantê-las numa constante tensão entre o relaxamento e a concentração.” Fred Frith não gosta que o considerem músico de Jazz. Aliás, não gosta que lhe chamem coisa nenhuma. Quando lhe perguntam se dá mais importância à composição ou à improvisação, responde que improvisar é apenas uma maneira diferente de compôr. “Só bastante tarde compreendi o verdadeiro sentido da improvisação. Nos tempos dos Henry Cow, improvisava de acordo com esquemas previamente preparados. Muitas vezes a coisa não resultava. Finalmente atingi o ponto em que conseguia compôr música no próprio instante em que tocava.”

Música planetária

Tem em comum com John Zorn, o gosto pela assimilação de todas as músicas do planeta. Mas enquanto o saxofonista funciona em termos de análise, de separação e colagem sucessiva de peças musicais autónomas, numa sequência alinhada segundo as regras da compressão e velocidades máximas, Frith atua por sínteses. Em “Gravity”, por exemplo, utilizou fitas pré-gravadas com música étnica de diversas origens, integrando-as e trabalhando-as com os instrumentos e técnicas de estúdio. “Gravity” e o álbum seguinte, “Speechless”, respetivamente de 80 e 81, foram apelidados por Frith de “música de dança”. Não é para se tomar à letra, claro. Nestes discos Frith recorre a membros de bandas europeias importantes, como os suecos Samla Mammas Manna ou os franceses Etron Fou Leloublan. Embora residindo atualmente em Nova Iorque, nunca perdeu o contacto com a cena continental. “A diferença fundamental entre os músicos e bandas europeias e americanas, digamos mais vanguardistas, é o facto dos primeiros partirem da tradição clássica, na linha da ‘Música progressiva’ da década de setenta. Na América há uma maior quantidade de novos músicos e ideias, permitindo talvez uma maior diversidade. Curiosamente, porém, são cada vez mais os músicos norte-americanos e canadianos que recorrem a estratégias idênticas às utilizadas do outro lado do Atlântico”. De resto, há muito que Frith se relaciona com os músicos canadianos, ligados à seminal editora “Ambiances Magnétiques”, onde pontificam os guitarristas René Lussier e André Duchesne, o saxofonista e flautista Jean Derome e o multi-instrumentista excêntrico Robert Lepage. Lussier e Derome que integram, ao lado de Frith, o baterista Charles Hayward e a harpista Zeena Parkins, o coletivo Keep the Dog.

Passos de perfeição

A importância e o ecletismo do músico estão bem patentes na série de álbuns fenomenais que foi assinando, ao longo de uma carreira iniciada com o longínquo “The Henry Cow Legend” e cuja etapa a solo mais recente é “The Top of his Head”, gravado para o selo belga Made to Measure. Pelo meio ficam dezenas de participações, como produtor ou músico convidado, em discos de Brian Eno, Robert Wyatt, Golden Palominos, Residents, Negativland, Violent Femmes ou Swans. Gravou a solo ou acompanhado inspiradas brincadeiras como “Cheap at Half the Price” e “Live, Love, Larf and Loaf”, este ao lado de John French, Henry Kaiser e Richard Thompson. A sua influência estende-se praticamente a todas as áreas, desde o Rock ao Jazz ou a aventuras menos facilmente catalogáveis. O bailado também não lhe escapou, ficando para a posteridade o duplo “The Technology of Tears”, brilhante exercício de acoplação de todos os géneros musicais disponíveis. “The Top of his Head”, banda sonora de um filme de Peter Mettler, é composto de pequenas peças, bizarras e ambientais, e uma canção escrita e interpretada pela nova estrela pop Jane Siberry. Fred Frith prepara atualmente um trabalho de colaboração com o baixista francês Ferdinand Richard. Enquanto John Zorn tenta deseperadamente tocar uma versão completa da tetralogia de Wagner “O Anel dos Nibelungos”, com a duração de três segundos, Frith prossegue placidamente o seu caminho para além da perfeição. Quando lhe perguntei, à despedida, por que razão não integrava a banda de super guitarristas, Les Quatre Guitaristes de L’Apocalypso-Bar, respondeu simplesmente: “Não precisavam de mim”.

Mahabharata (The) – “Banda Sonora Original”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 ABRIL 1990 >> Videodiscos >> Pop


THE MAHABHARATA
Banda Sonora Original
LP e CD Real World, import. Edisom


O título refere-se ao longo poema, originalmente escrito em sânscrito, narrando a história da humanidade em geral ou da civilização indiana em particular, se considerarmos a dupla aceção do vocábulo “bharata” (“homem” e “hindu”). Alguns estudiosos inclinam-se ainda para uma terceira hipótese, definindo o termo como uma espécie de inseto rastejante. O cineasta Peter Brook parece ter-se cingido às duas primeiras no filme com o mesmo nome que a RTP recentemente transmitiu em vários episódios. A música é representativa de várias culturas e tradições orientais e é belíssima. Os participantes, oriundos de regiões tão diversas como o Japão, Irão, Turquia, Índia, Dinamarca e França, não recearam aliar os sons tradicionais às técnicas e eletrónica atuais, criando um exemplar de “world music” na linha de uma outra banda sonora, “Passion”, de Peter Gabriel, gravada, aliás, para a mesmo editora. Com a vantagem de, ao contrário da música do filme de Scorsese, saber evitar habilmente qualquer concessão ao mau gosto. Uma chamada de atenção para o canto de Sarmila Roy, e em particular para as suas interpretações das peças escritas e compostas pelo poeta Rabindranath Tagore.