Arquivo mensal: Agosto 2020

José Cid E Amigos – “Camões, As Descobertas… E Nós”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 24.06.1992


JOSÉ CID E AMIGOS
Camões, As Descobertas… E Nós
LP / MC / CD Mercury, ed. Polygram



Camões, vá que não vá! As descobertas… por que não? Todos se aproveitam delas. Agora… nós? Calma aí! O povo é sereno mas não aguenta tudo. Música é história. Camões é cultura. Cid é foleiro. Os Descobrimentos são pau para toda a obra e o disco é um bico de obra. Os amigos, percebe-se, aparecem porque a editora deve ter feito sinal. António Pinto Basto, Rita Guerra, Jorge Palma, Paulo Bragança, João Paulo e A Praia Lusitana (grande nome, grande banda, grande patriotismo). Mas vós, Carlos do Carmo gentilmente cedido pela UPAV, por que vos traístes? E vós, Pedro Caldeira Cabral, gentilmente cedido pela Valentim de Carvalho, porque cedestes? Já para não falar de vós, Jorge Palma, que vos abandalhastes! Quanto a Cid, tem como desculpa o ser quase tão bom poeta como o autor dos lusíadas. Qual deles escreveu os versos imortais: “Estamos a viver / uma nova epopeia / que nos vai devolver / o orgulho em nós próprios / os heróis aqui estão / avançaremos gente / no futuro em questão”? (1)

Jaleo – “Jaleo No São Luiz, Em Lisboa – Flamenco Visual”

Cultura >> Domingo, 21.06.1992


Jaleo No São Luiz, Em Lisboa
Flamenco Visual


QUALQUER SEMELHANÇA entre noventa por cento da música que os Jaleo tocaram, sexta-feira à noite no Teatro São Luiz em Lisboa, e o flamenco é pura coincidência. Os Jaleo fizeram ao flamenco o mesmo que Rão Kyao ao fado ou Waldo de los Rios a Vivaldi: esvaziaram-no e depois disfarçaram com verniz. Para Diego Cortés e companhia o flamenco é menos uma necessidade vital e mais uma atracção visual. Bastava olhar para as duas dançarinas.
Diego é um “virtuose”, guitarrista de recursos técnicos quase ilimitados, que não fica atrás, por exemplo, de um Vicente Amigo. Provou-o, e de que maneira, em cada solo que executou. Extrovertido, explodiu no metal e na madeira, os dedos possuídos de electricidade, percutindo e chsipando na guitarra.
O problema está na música em si. Na estilização absoluta de um género que de estilizado nada tem. Flamenco-jazz rock de casino, embalado e pronto a exportar é o que os Jaleo têm para apresentar. Fora as meninas.
Vamos então à meninas, se não é abusiva tal expressão. Maria Rosa Jimenez e Sandra Lovaina Romero (que à última hora substituiu a titular Meritxell Cardellach impossibilitada de vir por estar grávida), loura e esbelta a primeira, morena e roliça a segunda, encheram o palco e o olho de uma assistência que esgotou o São Luiz, com as suas coreografias feitas de vestidos provocantes, meneios, sapateado e pernas. Os Jaleo são um todo coerente: eles mudam o flamenco; elas mudam de vestido.
À terceira apresentação e à medida que o ambiente ia aquecendo, mostraram finalmente a perna, arrancando fartos aplausos à assistência que deste modo mostrou conhecer os segredos do flamenco. À quarta, a loura, a Maria Rosa, mostrou um pouco mais, aparecendo com um vestido vermelho decotado em “trompe l’oeil” até à cintura. Não vale a pena explicar o que é um decote em “trompe l’oeil”. Entrou a morena e as duas simularam uma luta de ciúmes, quase corpo a corpo, com estalada e pontapé na cara mas no fim ficaram amigas. O flamenco é mesmo assim.
Depois foi a altura dos músicos solarem e mostrarem o que valem. Sobretudo o flautista, Domingo Patricio, mostrou que vale bastante. Os outros três, Enric Ula, na bateria e percussão, Jean Rectoret, no baixo, e alex Marone, no sintetizador, cumpriram. Mas o melhor solo veio ainda com a dança, de novo com Maria Rosa a brilhar, num sapateado de saia bem, bem levantada, para deixar ver o sapato. Olé! Bravo!
Em suma, o espectáculo dos Jaleo, como flamenco, foi fraquito. Como entretenimento, sobretudo para os olhos, agradou. À saída as opiniões dividiam-se: “É bom. Ouvimos música” e “espanholas nunca mais!”

Peter Hammill – “Peter Hammill, No São Luís – Ritual De Êxtase E Possessão” (concerto)

Cultura >> Sexta-Feira, 19.06.1992


Peter Hammill, No São Luís
Ritual De Êxtase E Possessão


DURANTE DOIS dias, na quarta-feira e ontem, o Teatro de São Luís, em Lisboa, transformou-se na catedral onde se celebrou o ritual da entrega de um homem à sua música. Peter Hammill arde literalmente no canto. Cada espectáculo seu é ao mesmo tempo um acto de catarse e uma dádiva de amor. De alegria e de crucificação. Único e, como tal, irrepetível.
Em palco, um piano e uma guitarra. Palavras e canções. Peter Hammill vive cada uma delas como se dessa assumpção dependesse a existência de si próprio e do universo. Foram ao todo quinze canções, escolhidas de entre uma lista imensa, de uma vida imensa. “Não interessam os títulos, mas a canção em si e a ‘performance’” – disse o cantor – “poderia cantá-las de forma totalmente diferente”.
Cada actuação ao vivo de Peter Hammill é uma parcela de eternidade. Qualquer coisa de muito íntimo, entre o silêncio e o grito,m ofertada à partilha dos “outros”, à massa anónima constituída por cada um de nós que, num momento ou outro da vida, interiorizou ou exorcizou as palavras do poeta. “All things are universal”.
Ficou a certeza, se dúvidas ainda havia, de que, pelo menos ao vivo, a grande arte de Peter Hammill permanece intacta e assim permanecerá para sempre. E o momento alucinante, na parte final de “Stranger still”, do artista possuído pelo génio e pelos deuses, na exaltação dramática do canto e da voz, na repetição demencial do verso final – “a stranger, a wordly man” – que o impeliu a saltar do banco do piano e a correr de braços abertos, triunfante, na direcção da assistência, perdido e encontrado, fora de si – em êxtase.
Para a posteridade, aqui fica o registo das canções onde, na quarta-feira, se cumpriu o ritual, por ordem de interpretação. Com Hammill ao piano: “Childlike faith in chilhood’s end” (única do período Van Der Graaf, do álbum “Still Life”), “Just good friends” (“Patience”), “Curtains”, “His best girl” (ambas de “Fireships”), Mirror images” (PH7”). Na guitarra: “The comet, the course, the tail” (“In Camera”), “I will find you” (“Fireships”), “Something about Ysabel’s dance” (Out of the Water”), “Ophelia” (“Sitting Targets”), “If I could” (“The Future Now”), “Patient” (“Patience”). De novo ao piano: “A way out” (“Out of Water”), “Stranger still” (“Sitting Targets”), “Traintime” (“Patience”). No “encore”: “Modern (“The Silent Corne rand the Empty Stage”. A perfeição.