Arquivo mensal: Agosto 2020

Amy Denio + President & Wayne Horvitz +Marilyn Crispell + Zahar – “Concertos Da Knitting Factory No Teatro São Luiz, Em Lisboa – Os Viajantes Da Noite”

Cultura >> Quinta-Feira, 18.06.1992


Concertos Da Knitting Factory No Teatro São Luiz, Em Lisboa
Os Viajantes Da Noite


Quatro propostas díspares na sua essência mostraram que os “States” continuam a ser o cadinho de novas formas musicais. No São Luiz, algumas foram não tão novas como isso. As mulheres deram o exemplo e mostraram o rosto multifacetado do futuro. Os Knitting Factory não chegaram a actuar.



O jazz. Essa música fascinante que… não foi jazz? Certo. A “new thing”, a “nova coisa”, essa música fascinante que derruba as fronteiras estilísticas e empurra a arte para horizontes cada vez mais vastos até à libertação final. Era bom, era, que tivesse sido assim, nas segunda e terça-feira, no Teatro São Luiz em Lisboa… O programa apresentava uma selecção sortida de nomes ligados à Knitting Factory, mítica sala de espectáculos em Nova-Iorque, agora tornada editora dos seus meninos. Diga-se a propósito que não pouca das poucas pessoas presentes nas duas noites de concerto tomaram a Knitting Factory por um grupo musical. “Então quando é que tocam os Knitting Factory?”, perguntavam, desorientadas.
A todos quantos não puderam assistir à prestação dessa banda magnífica, o nosso lamento e, à laia de compensação, a sugestão para que compareçam em força no anunciado festival que reunirá em Portugal nomes importantes da música de dança como os Studio 54, CBGB e Hacienda. Bem…
Sexta, foi noite de Pop/jazz ou coisa que o valha. Com Amy Denio, a solo, uma personagem bizarra que canta, toca saxofone alto e guitarra baixo, acompanhada por uma caixa de ritmos chamada “Ernie”. Apareceu em palco com ar de dona de casa alucinada, lançando-se de imediato num solo demente de saxofone. A loucura avançou rapidamente até níveis próximos da apoplexia quando a voz entrou em cena, num desempenho histriónico que deixou o velho “free” a léguas de distância.
Amy aplicou um local de trombone ao sax e chamou-lhe trombonofone. Fez teatro e humor. Imitou, num registo algures entre Meredith Monk e Shelley Hirsch, as vozes de psicopatas, em “Traffic Island psychos”. Mostrou ser capaz do lirismo, num jogo de pergunta-resposta com a reverberação do seu próprio saxofone. E teve piada: “Julio Iglesias é bom. Deve ter sido algo que lhe aconteceu na infância”, em “Julio Iglesias childhood”. “The man who can’t find his wife, outra canção delirante, sobre o marido que perde a mulher, definiu-a Amy como uma “experiência humana universal”.
Amy Denio cantou em espanhol, em italiano e noutras línguas menos identificáveis, no que chamou a “secção internacional” do seu reportório, recorrendo com frequência ao estilo “yodel”, popularizado pelos cantores suiços das montanhas, de pena e calções. Amy foi Pop, à maneira desequilibrada dos Tone Dogs, grupo de que faz parte e a quem Fred Frith deu uma mãozinha. E mandou a sisudez da “vanguarda” às urtigas.
Wayne Horvitz e os President vieram sem o trombonista J. A. Deane, músico que à partida se previa ser um dos maiores atractivos da sua apresentação, substituído por um percussionista que se limitou a fazer figura de corpo presente. Tocaram vários temas de “This New Generation” e “The President”, com virtuosismo q.b. Horvitz solou de forma previsível no sintetizador, ao estilo “demonstrador de stand”. Stew Cutler, muito aplaudido, solou na guitarra, voltado para o Rock. Solaram todos (menos o percussionista). Grande música aconteceu apenas nas prestações, em sax tenor e clarinete, de Doug Wieselman, de longe o melhor músico da noite. Excelente o diálogo de “câmara” que manteve com um Horvitz bastante mais subtil e criativo no piano acústico.
Fulgurante e arrebatadora, Marilyn Crispell, pianista e “compositora” da Creative Music Orchestra, mostrou caminhos por onde o jazz pode avançar sem correr o perigo de se perder. Dos “clusters” vertiginosos e da abordagem gestual do piano com que iniciou as longas improvisações com o percussionista Gerry Hemingway, deslizou por linguagens mais convencionais para voltar à fúria do martelo e à fragmentação rítmica e à destruição sistemática do tempo, sob a égide de Anthony Braxton e Cecil Taylor. A melhor música do festival.
Fecharam os Zahar, sem deixarem saudades. Ritmo e só ritmo. Hassan Hakmoun cantou e dançou com frenesim e incitou o público à festa, sem obter resultados palpáveis. Nos melhores momentos, os Zahar aproximaram-se da banda de Ronald Shannon Jackson. Nos piores, pouco mais foram que um grupo de baile. Salvou-se o percussionista Kewyao Ajyapon, que numa pequena intervenção na “mbira” (ou “kalimba”), o chamado “piano de polegar”) revelou o cristal incandescente que pulsa no coração de África. Vindos da América e da Knitting Factory passarm por Lisboa os viajantes da noite. De muitas noites.

Peter Hammill – “Fireships”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 17.06.1992


PETER HAMMILL
Fireships
CD Fie!, import. Megamúsica e Contraverso



Palavras que o vento não leva. Palavras que, mais do que nuinca, parecem constituir o cerne do “opus” artístico / vivencial de Peter Hammill. Neste particular, a cada novo álbum, o autor descentraliza a sua visão pessoal, fazendo-a incidir sobre o mundo circundante, na globalidade, como em “Gaia”, em pessoas com nome próprio, como em “Curtains” (Tommy e Sylvia, em vez de Mike e Susie), ou em situações “reais” transpostas num “GT Cabriolet” para uma dimensão metafísica, como em “His Best Girl” (Pessoa viajava pelo interior, de Chevrolet, a caminho de Sintra). Há versos evocativos de outros antigos, como um “puzzle” que continuamente se faz e desfaz. O choque dos planetas e das estrelas, em “Incomplete surrender”, por exemplo, remete para a explosão cósmica que já antes deflagrara em “Tapeworm”, de “In Camera”. Se, em termos formais, o álbum não apresenta grandes inovações, navegando por águas bem mais calmas do que as da ópera “The Fall of the House of Usher”, nem por isso é menor o deleite com que se escuta, pela enésima vez, a espantosa expressividade da voz, as contorções líricas do saxofone de David Jackson ou os arranjos orquestrais de David Lord. A viagem continua. (7)

Peter Hammill – O Dom Da Palavra” (entrevista a propósito do lançamento do álbum “Fireships”)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 17.06.1992


O DOM DA PALAVRA

Peter Hammill é um mago das palavras. Com elas – e com uma música que desde os Van der Graaf Generator até ao recente álbum a solo, “Fireships”, se afirmou sempre como orgulhosamente diferente -, crious uma obra ímpar na música popular das duas últimas décadas. Sem fazer ondas. Mas ainda aqui, como ele diz, as palavras ocultam o paradoxo.



É o poeta por excelência. Muitos viveram a sua odisseia como se a obra poético-musical deste autor, mais do que uma visão pessoal, pertencesse ao domínio público, partilhado embora por um número restrito de iniciados. Para Peter Hammill, que hoje e amanhã actua em Portugal, no Teatro S. Luiz, integrado nas Festas da Cidade de Lisboa, “Fireships” é o repouso do guerreiro. Canções que acabam por ser sempre de amor. “Neobaladas calmas”, como ele as define. Ultrapassada a violência sonora de revoltas passadas, sobra a voz inconfundível, os poemas que retratam o casamento entre o mundo e o “eu”. O futuro, eternamente por cumprir. E o imperativo, implacável, da consciência e da lucidez extremas.
PÚBLICO – A consciência pode ser dolorosa?
PETER HAMMILL – Decerto que sim. Tanto em termos de culpa como de reconciliação. Em relação a nós próprios e ao mundo. A consciência tem, evidentemente, outras qualidades… Neste aspecto, sou de certa forma um estóico… O sofrimento, seja ele qual for, faz parte da experiência humana.
P. – O casamento entre masculino e feminino. O Sol e a Lua. A razão e a intuição. Pode considerar-se a sua obra como um trabalho de alquimia?
R. – Talvez esteja envolvido numa luta, num trabalho de transformar a minha própria matéria-prima (em termos de experiência, consciência e intuição) num relâmpago de ouro, embora temporário, numa resolução sempre em aberto. Por outro lado, é possível que eu afinal apenas consiga “inventar algumas histórias em dias de sorte”.
P. – Pode dizer-se que desde “A Black Box” abandonou a experimentação. Por um desejo de segurança? Cansaço? Ou por outra razão?
R. – Não acredito na experimentação por si só, como um objectivo ou um fim, mas simplesmente em diferentes fases de interesse. Concordo com a sua avaliação apenas de uma perspectiva exterior. Cada canção é, à sua maneira, uma experiência. A um nível técnico é, hoje em dia, muito mais difícil conseguir essa experimentação, precisamente devido aos meios cada vez mais sofisticados e poderosos postos à nossa disposição. Dito isto, no meu caso a “experimentação” tem incidido, ao longo dos anos, muito mais em aspectos pessoais, interiores, e nunca de uma forma aberta e premeditada. Um bom exemplo do que considero um álbum “experimental” é “And Close as This”, embora na aparência soe bastante normal. Mas não faço ideia do tipo de experiências, ou da ausência delas, que ele possa encerrar…
P. – A famigerada ópera [“The Fall of the House of Usher”, inspirada no conto homónimo de Edgar Allen Poe] demorou cerca de 20 anos a fazer, mas acaba por soar a Meat Loaf…
R. – Meat Loaf? Quer com essa comparação dizer que se parece com uma “ópera rock”? “Pshaw!” [Exclamação de repúdio tipicamente inglesa. Intraduzível.] Desses 20 anos, 12 foram gastos a escrevê-la; seis, nos arranjos e na gravação final; dois, a escolher as vozes finais, nas misturas e na substituição de alguns arranjos.
P. – “Fireships” soa um pouco como uma recapitulação de álbuns anteriores. Quase uma solução de compromisso…
R. – Penso que “Fireships” traz algo de novo, em, em termos de “arranjos”, orquestrações, som e, acima de tudo, coerência de ambiente. É natural que existam semelhanças no estilo de escrita, embora até aqui nunca tivesse alinhado uma sequência de neobaladas tão calmas, como é o caso.
P. – A sua música passou sempre ao lado da aceitação das massas. Tal deve-se a uma atitude voluntária da sua parte? Há ainda uma obra a completar? Uma vida?
R. – A atitude voluntária que refere tem sido sempre a de realizar um trabalho que em primeiro lugar faça sentido para mim, em vez de apelar às massas. Dito isto, gostaria que ele fizesse sentido também para um número cada vez maior de pessoas que acedem à minha música. Mas não quero ser apanhado na armadilha da personalidade auto-fabricada. Não gosto de rebuscar nem de ser avaliado pelos meus trabalhos passados. Prefiro seguir sempre em frente, guiado pelas minhas próprias luzes.
Pela mesma razão, existe, de facto, um trabalho desconhecido e em curso, como sugere. Permanece, além disso, em mim, como escritor, algo que rejeita de forma activa a celebridade. Sei que parece estranho e paradoxal, dito por alguém com uma tal parcela de ego envolvida na vida de “performer”…
P. – Afinal, em última análise, o que é que procura?
R. – Se pudesse traduzir essa procura em palavras, tenho a certeza de que a resposta se pereria algures nos espaços e nos paradoxos que existem entre elas, nas canções.
P. – Vivemos em pleno Apocalipse. “Gaia” [designação do planeta Terra, como entidade viva; título de uma canção de “Fireships”] aproxima-se do fim. Vê alguma solução?
R. – É sempre, tem sido sempre, será sempre o Apocalipse. A diferença é que agora, de forma incómoda, sabemos mais acerca dele. Acredito que a única resposta possível seja afirmar a vida, enquanto ela ainda existe.
P. – Continua a acreditar que “The Least We Can Do Is Wave to Each Other” [título de um álbum dos Van Der Graaf Generator]?
R. – Continua a parecer-me uma ideia aceitável!…