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Kraftwerk – “No Tour Da Pop Electrónica” (artigo de opinião) + “Tour De France Soundtracks” (crítica de discos)

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1 Agosto 2003
capa


Kraftwerk
No tour da pop eletrónica


São os recordistas no “tour” da pop eletrónica. Mas “Tour de France Soundtracks” escapa à justa do carro-vassoura. Os homens-máquina regressaram.

O “Tour de France” terminou há dias com a 5ª vitória consecutiva do ciclista norte-americano Lance Armstrong. Os germânicos Kraftwerk não podiam desperdiçar a oportunidade para, uma vez mais, celebrarem o triunfo do homem-máquina.
Adeptos incondicionais do ciclismo, sabendo-se que um dos seus membros fundadores, Ralf Hütter, é mesmo colecionador e perito em bicicletas, encontraram na simbiose ciclista/bicicleta o perfeito exemplo dessa identidade entre o biológico e o orgânico que laboriosamente têm vindo a construir desde que, em 1974, puseram a rolar as suas roldanas embebidas em ácido desoxirrinbonucleico em “Autobahn” – auto-estrada musical cujas placas de sinalização apontariam para uma das principais direções que conduziria a pop até ao presente.
“Tour de France, Soundtracks” (disponível a 4 de Agosto), composto por originais e versões do primeiro “Tour de France”, apura o conceito de homem-máquina, cujo desenvolvimento se processou através de fases de montagem prévias – “RadioActivity”, “Trans Europe Express”, “The Man-Machine”, “Computer World” e “Electric Cafe”. Os títulos do novo disco alternam entre a análise do humano (“Vitamin”, “Elektro Kardiogramm”, “Regeneration”), da máquina (“Aerodynamik”, “Titanium”) e das “performances” obtidas da fusão entre ambos (as três “étapes” do “tour”, “Chrono”). A entidade mutante unificada é observada à lupa em “La forme”.
Homem-máquina, “the man-machine”, um novo corpo originado da fusão entre os neurónios e o “chip” (o “bio-chip”). Carne, plástico e metal. Pensa-se em filmes como “A Mosca” e “Crash”, de Cronenberg, pelo lado humano e existencialista, em “Tron” ou em “Matrix”, na perspetiva da inteligência artificial.

atenção: obras. Mas se a tecnologia parece ocupar o lugar central na obra demiúrgica dos quatro de Düsseldorf, é interessante verificar até que ponto os seus dois principais operadores, Ralf Hütter e Florian Schneider, optaram desde o início por uma abordagem artesanal, ou minimalista, do som eletrónico. Ao invés de complexas produções, os Kraftwerk preferiram a mesma diretiva do “less is more” posta em prática pelos Can, na sua “trip” de transe universal – uma concentração implosiva dos meios tecnológicos postos ao serviço da máxima simplicidade musical.
Antes, porém, do andróide e do robô, os Kraftwerk rodearam-se de quinquilharia, fios, lâmpadas e metal ferrugento, para construir o homem de lata, o autómato das fitas de ficção científica de série Z.
Em “Tonefloat” (1970), que constitui a estreia discográfica da dupla, ainda sob a designação Organisation, a música é uma cacofonia com pretensões psicadélicas de sons eletroacústicos diretamente inspirados em Stockhausen. “Kraftwerk” (1970) e “Kraftwerk 2” (1972), com os pinos de sinalização na capa, deram início às obras. O som de guindastes e escavadoras, ferro em brasa, cimento e martelo-pilão. Metal já a chocar contra o metal, a fazer faísca e a exigir máscaras de proteção. Obras violentas, mais próximas do rock industrial e da música concreta do que da pop ou do rock, permanecem como exemplos do melhor “krautrock” da região industrial da Alemanha, a par dos Cluster e dos Neu!. Com uma ponta de humor: Julian Cope, no seu livro “Krautrocksampler” define uma das faixas de “Kraftwerk” como “os Stooges na Toys’R’us”.
“Ralf and Florian” (1973), mostra na contracapa uma foto da dupla rodeada de néons e instrumentos musicais. Álbum de transição, inclui uma “clusteriana” música de baile e uma sinfonia ambiental de cristais e ananases, “Ananas Symphonie”, que é provavelmente o refresco de ácidos mais refrescante a alucinogénico que o “Krautrock” destilou. A obra máxima seria editada no ano seguinte e tem por título “Autobahn”, “Auto-Estrada”. Depois dela, a pop mudou. O longo tema de abertura é a banda sonora, via auto-rádio sintonizado nas estrelas, de uma viagem de automóvel pela auto-estrada. No entanto, cuidado com as cabeças: as auto-estradas alemãs permitem velocidades que as portuguesas nem imaginam. O “wahn wahn wahn” do refrão soa como o “Fun fun fun” dos Beach Boys, fonte inesgotável de inspiração, num álbum de tração às quatro rodas que pôs os sintetizadores a cantar e os “tops” em polvorosa. As duas “Kometenmelodies” finais desenham um arco-íris de beleza estonteante no espaço sideral. Antes de darem ao pedal, os Kraftwerk lançavam-se em quinta velocidade num Mercedes rumo ao futuro. Mas foram os álbuns seguintes, “Radio-Activity” (1975), “Trans Europe Express” (1977), “The Man-Machine” (1978) e “Computer World” (1981) que transpuseram para a música a noção de miniaturização e máxima potência que caracterizou a indústria informática no último quarto de século e, consequentemente, a música eletrónica, sempre dependente dos avanços da tecnologia. Os Kraftwerk foram o “Pocket calculator” da pop eletrónica do século XX, resta saber se lhes caberá ainda algum papel no século que agora se inicia.

ohm sweet ohm. Entremos porém, com a devida autorização, no estúdio Kling Klang, onde os germânicos têm arrumados os seus fornos alquímicos de raios laser. Há esquemas e fórmulas colados nas paredes. Não é só a ligação dos nervos do homem a circuitos elétricos artificiais que interessava à dupla alemã. O cérebro pensa e ordena: viagem, comunicação, forma e substância, energia, transmissão/receção. “You are the transmitter, I am the antenna” é um dos “slogans”, tão divertidos como acutilantes, proclamados no álbum “Radio-Activity” (1975). E “when airwaves swing, distant voices sing”. “Radioland”, “Airwaves”, “The voice of energy”, “Radio stars”, “Uranium” e esse fabuloso trocadilho que condensa a fusão entre a espiritualidade tradicional e a energia das novas divindades-eletrões: “Ohm sweet ohm”. Dentro de um contador Geiger, fervilha um microuniverso de fantasias hollywoodescas. O mundo de máquinas dos Kraftwerk é uma Dysneylândia quântica de Pinóquios que se divertem a entrelaçar os fios de força de um campo unificado. A música é simétrica, mas os seus demiurgos apresentam-na como número de circo.
Se “Radio-Activity” ilustra a propagação da radioatividade e, deste modo, prepara a mutação, física e psicológica da Europa, “Trans-Europe Express” é a viagem de comboio que modificou o imaginário pop do Velho Continente. Um dos passageiros chamava-se David Bowie e saltou em andamento a tempo de gravar a “trilogia de Berlim” – “Low, “Heroes” (o tema “V-2 Schneider” é uma dedicatória a Florian Schneider) e “Lodger”. Sem este álbum seminal, já se sabe, nem a pop eletrónica nem a música de dança seriam o que são hoje. Sobretudo a tecno, a “house” e o eletro viciaram-se na batida totalitária – mas tão romântica – de “Europe endless”, “Metal on metal”, “Franz Schubert” e “Endless”. A repetição, a produção em série, a viagem circular sem princípio nem fim (o logótipo de “Europe endless” é um círculo fechado em forma de pauta). O super-homem nietzscheano espreitava na esquina. “Radio-Activity” e “Trans-Europe Express” retratam as novas formas de comunicação (“Electric Cafe” reconheceria a sua falência, como nessa trágica interrupção telefónica que é “The telephone call”). Outro filme, “Ao Correr do Tempo”, de Wim Wenders, não filma outra coisa. O digital vinha a caminho.
“The Man-Machine” é o emblema. Os kraftwerk desistem de uma vez do invólucro de pele e transformam-se em robôs. A bordo de uma máquina de realidade virtual, saltam para o espaço, evocando em temas como “Spacelab”, “Metropolis” (evidente a conotação com o filme de Fritz Lang) e “Neon Lights”, uma versão cibernética da valsa de Strauss em “2001-Odisseia no Espaço”, de Kubrick. “We are the robots” passaria a ser a declaração de identidade que jamais abandonariam.
“The Man-Machine” é o espaço exterior. “Computer World” mergulha no interior de um “chip” para revelar a realidade observada e filtrada através de um monitor. Aqui a comunicação é já a das máquinas e entre as máquinas, processada através de sinais linguísticos e números codificados (“Numbers”). “Computer world”, “Computer love”, “Home computer”. Somos nós, a olhar de dentro do PC, com os olhos muito abertos de espanto. “It´s more fun to compute”? Cada um que digite a resposta que mais lhe convier.
No último capítulo relevante da história dos Kraftwerk, “Electric Cafe” assume-se como uma paródia ao universo criado pelo grupo. Paródia extensiva à pop eletrónica, ou tecnopop, de que eles próprios foram os criadores. “Boing boom tchak”, ou as onomatopeias da idiotia levadas com um “smile” para as “dance floors”. Faltava apontar o rato e carregar em “desligar”. E ficar de parte a observar o curso dos acontecimentos. “The Mix” seria mera operação de limpeza e diversão e “Tour de France”, na presente versão longa-duração, contenta-se em ser uma deslizante manobra de “charme”, umas vezes em cura de sono “chill-out”, outras bem-humorada, à maneira dos Telex, grupo belga que, paradoxalmente, foi a versão mais fiel e clownesca do original Kraftwerk.
Como dois respeitáveis anciãos, Ralf Hütter e Florian Schneider passeiam-se hoje de bicicleta pela Baviera florida, observando o cenário de florestas, nuvens e montanhas com a placidez de turistas na reforma. Se com uma íris biológica ou através de lentes biónicas, eis o enigma que eles próprios fazem questão de não esclarecer.


KRAFTWERK
Tour de France Soundtracks

EMI, distri. EMI-VC
6|10





Crammed Discs – “Le Crème De La Crammed” (artigo de opinião / crítica de discos)

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25 Julho 2003

Nos anos 80, a editora belga Crammed provou que a música popular podia voltar a ambicionar ser obra de arte. Ou, se não, a pôr um bigode no nariz do classicismo. Afinal de contas, Dada também se podia dar ao luxo da luxúria.


Le crème de la Crammed



Os “eighties” foram mais do que o reservatório de óleos pesados, faíscas elétricas e quinquilharia “glamour” que hoje, devidamente reciclados, tomaram a forma de “electroclash”, “tecnocoisa” e outras designações estapafúrdias que mais não servem do que para embalar produtos, na sua maioria, absolutamente destituídos da menor mais-valia musical.
Havia, é certo, os Human League, Orchestral Manoeuvres in the Dark, Tubeway Army ou Berlin Blondes para fazer a ligação entre a monstruosidade industrial dos Throbbing Gristle, Test Dept., SPK e os primeiros Cabaret Voltaire, e as afetações dos chamados neo-românticos (Spandau Ballet, Duran Duran, Classix Nouveaux, etc). Era a maneira de tornar inofensiva uma atitude que levava a rebeldia “punk” aos extremos da ideologia, da tecnologia e da magia. A par destas manobras mais ou menos subversivas, a pop, claro, continuou a sua viagem de longo curso.
No continente, porém, uma terceira via emergiu, o lado “arty” dos anos 80, ponto de cruzamento de mil e uma estéticas, da pop à música contemporânea, da étnica à eletrónica, da clássica ao minimalismo, do jazz às sínteses mais inverosímeis – repondo a questão, deixada em aberto com a irrupção explosiva do “punk”, de como continuar as experiências direcionadas para uma música, dita “pretensiosa”, encetadas na década anterior pelo rock progressivo.
Em Inglaterra já havia quem tratasse do assunto, na cooperativa, editora e distribuidora Recommended que, a partir das sementes lançadas pelos Henry Cow e pelo movimento RIO (“Rock In Opposition”), criara o chamado “rock de câmara”, personificado por bandas como os Art Bears, News from Babel, Present, Conventum, Univers Zero e Art Zoyd.
Na Bélgica constituiu-se a sede do contrapoder, com a criação, em 1981, por Marc Hollander, e Véronique Vincent, da editora Crammed, rapidamente extensiva a uma sua subsidiária, a Made to Measure, vocacionada para a divulgação de propostas mais elitistas e totalmente desfasadas da “normalidade”. A Cramworld, especialista em “world music” surgiria alguns anos mais tarde. Tinha assim início uma aventura “com base em encontros, paixões, ruturas e flirts musicais”, mas também resultante de uma rede de cumplicidades que viria a envolver ainda Hann Gorjaczkowska, responsável pela direção artística e gráfica, Vincent Kenis e Samy Birnbach, dos Minimal Compact, hoje operativo nas pistas de dança com a designação DJ Morpheus.
Marc Hollander e Véronique Vincent eram, são, ambos músicos. Marc fundou um dos grupos mais importantes dos anos 80, situado na charneira entre o polo Recommended e o europeísmo “dandy” da sua própria editora, os Akasak Maboul. Véronique era a cantora dos The Honeymoon Killers. Grupos que, curiosamente, permaneceram até à data com dois dos seus trabalhos a não merecerem honras de reconversão para CD. O presente pacote de 12 reedições, genericamente embalado com o rótulo “Crammed Global Soundclash, 1980-1989” (mais duas coletâneas, uma centrada nas fusões “world”, outra na “electrowave”) disponibiliza-os, enfim: “Onze Danses pour Combattre la Migraine”, que tanto pode ser encarado uma proto-encarnação dos Aksak Maboul como um trabalho a solo de Hollander, e “Les Tueurs de la Lune de Miel”, álbum único dos The Honeymoon Killers.

feito à medida. À Made to Measure, subsidiária da Crammed, coube a tarefa de abrir os portões de um novo mundo. De súbito, a Europa começou a reparar na existência de uma nova música, luxuosamente embalada e produzida, que escapava às habituais catalogações de estilo. Álbuns “feitos à medida” de uma conceção estética que poderíamos designar por “neoclássica” de acordo com o propósito da criação de uma coleção de objetos únicos – obras de arte na verdadeira aceção da palavra. Foi, além disso, uma das primeiras editoras, senão mesmo a primeira, a lançar o conceito de “série”, englobando a diversidade em caixas com selo de marca num misto de obscurantismo quase esotérico e apelo gráfico irresistível. Mais importante que tudo: as músicas que ostentavam na capa a tira “Made to Measure” eram garantia de surpresa e de associações musicais sem paralelo.
O cartão de visita, com número de série MTM1, veio à luz em forma de antologia, com a participação dos Aksak Maboul, Tuxedomoon, Minimal Compact e Benjamin Lew em inéditos compostos de propósito para ela. O destino estava traçado e os números da série seguinte dariam a conhecer algumas obras marcantes da música alternativa dos anos 80. Os melhores: “Reivax au Bongo”, de Hector Zazou (faz parte do atual pacote), “Colorado Suite”, de Blaine L. Reininger e Mikel Rouse, “western spaghetti” em forma de “opus” minimalista (“Philip Glass meets Bonanza”, como escreveu alguém), “A Walk in the Woods”, de The Mikel Rouse Broken Consort, minimalismo com eletrónica e costela romântica, “Sedimental Journey”, de Peter Principle, fragmentos quebrados e incongruentes dos Tuxedomoon, misturados com poemas e interferências cósmicas. “Géographies”, de novo Hector Zazou, Wagner, Raul Ruiz e ZNR em sinfonias de ópio, “Stranger than Paradise”, de John Lurie, “Desert Equations: Azax Attra”, de Sussan Deyhim e Richard Horowitz (incluído no pacote), “Music for Commercials”, de Yasuaki Shimizu, electroanúncios para televisão. “If Windows They Have”, de Daniel Schell & Karo, neo-tudo e obra-chave dos 80, “Down by Law”, de John Lurie, mais BSO em formato de jazz “downtown” de câmara, “Douzième Journée: Le Verbe, la Parure, l’Amour”, segredos e romances eletrónicos, outro clássico, e a sua sequela, “A Propos d’un Paysage”. “Tone Poems”, de Peter Principle, o título diz tudo e não diz nada, “Géologies”, de Hector Zazou, na linha de “Géographies”, “Pretty Ugly”, de Peter Scherer e Arto Lindsay, “noise” e “no rock” domesticados mas não menos sinistros para um “ballet” de Amanda Miller, “Arrows”, de Steve Shehan, “world music” de uma galáxia distante.
Mais recentes: “Le Secret de Bwlch”, de Daniel Schell e Karo, refinamento da nova “chamber music” deste grupo suíço, “Domino One”, de Ramuntcho Matta, “kitsch”, vudu, carnaval, sons de água e de galinhas. Mais convencionais, semi-fracassados ou “excêntricos” pelos motivos errados (exibicionismo sem nexo nem propósito), encontram-se discos de Benjamin Lew, Samy Birnbach e Benjamin Lew (“Nebka” e “Le Parfum du Raki” não estão ao nível dos duetos com Steven Brown), Fred Frith (a BSO, pouco gratificante, “The Top of His Head”), Steven Brown & Delphine Seyrig, Zelwer, Gabor G. Kristof, Karl Biscuit, Seigen Ono, David Cunningham (fez bem melhor do que aqui, com “Water”), ainda Hector Zazou (o redundante “Sahara Blue” e “Glyph”, com Harold Budd), Brion Gysin (neste caso, a conversa é mais que música…) e John Lurie National Orchestra.
Tudo somado, dá para uma quantidade de horas de audição, deslumbramento e, eventualmente, desorientação. As medidas da Made to Measure variavam com a mesma facilidade que a arquitetura das cidades obscuras em BD de Schwitens e Peeters. Mas a Crammed reservou outras das suas preciosidades para o seu próprio catálogo. O bolo teve mais do que uma cereja no topo.


doze danças para combater a enxaqueca

AKSAK MABOUL
Onze Danses pour Combattre la Migraine (1977)
8|10

Fica finalmente disponível em CD o antecessor de “Un Peu de l’Âme des Bandits”. Marc Hollander assegura a quase totalidade da composição e instrumentação deste disco em que o rock de câmara ganha as tonalidades de música de feira, com as suas caixas-de-ritmo de primeira geração, minimalismo “kitsch”, divagações de jazz e variedades impressas em cartões de visita desbotados que evocam os “orgues de barberie” de Pascal Comelade. Um álbum que ditaria algumas das vias posteriormente seguidas por outros artistas do catálogo.

TUXEDOMOON
Desire (1981)
10|10

Exilados na Europa, os norte-americanos Tuxedomoon abandonaram o pós-punk erudito que marcou o seu álbum de estreia na Ralph, inevitavelmente influenciado pelo som dos Residents, para mergulharem no crepúsculo de uma música que aliava a nostalgia ao futurismo. Ritmos automáticos, o violino “alien” de Blaine L. Reininger, o arsenal de efeitos eletrónicos desconjuntados de Peter Principle e os teclados e sopros de Steve Brown, capazes de se infiltrarem no sangue de um jazz doente como um antibiótico, servem canções sobre a decadência do amor e do Ocidente.

HONEYMOON KILLERS
Les Tueurs de la Lune de Miel (1982)
8|10

Os assassinos da lua-de-mel, bizarra formação franco-belga liderada pelo saxofonista, já falecido, Yvon Vromann, não são assim tão violentos, embora se inspirassem no “punk” e na “new wave”, mas seguindo um figurino francês. O lado “arty” emerge, porém, quando menos se espera, nas aproximações jazz/burlescas de uns Etron Fou Leloublan enquanto o sorriso pop chega a ser pateta numa faixa como “Histoire à suivre”, com sabor a Jane Birkin. Tudo estaria bem se não houvesse um saxofone a gritar “free jazz”. E há coisas como faziam os Kas Product (lembram-se?) e os Alésia Cosmos (ninguém se deve lembrar…). Eletrónica no batedor e ritmos Recommended integram igualmente este curioso objeto que agora surge aumentado por temas extra, entre os quais um “live” com os Aksak Maboul.

BENJAMIN LEW
Compiled Electronic Landscapes (1982)
8|10

Antologia de fragmentos e paisagens eletrónicas extraídos dos álbuns a solo “Nebka” e “Le Parfum du Raki”, bem como das anteriores e francamente superiores colaborações com Steven Brown. Os títulos e ambientes dir-se-iam recortados de um filme de Marguerite Duras ou do “Marienbad” de Resnais. Portos do Mediterrâneo, ventos do deserto, as aventuras de Adéle Blanc-Sec e de Arsène Lupin na Paris da Belle Époque em quadros eletrónicos onde a influência de Eno se veste com o onirismo dos filmes do inconsciente.

ZAZOU, BIKAYE, CY1
Noir et Blanc (1983)
8|10

Desta colaboração entre Hector Zazou, previamente nos ZNR, o cantor congolês Boni Bikaye e o grupo de eletrónica Cy1 resultaria um dos primeiros exemplares de etnotecno, antes da queda na variante etnoseca. As programações, imbuídas do calor próprio dos sintetizadores e sequenciadores analógicos, seguram danças dervíshicas enfeitadas pelos cânticos afro de Bikaye. Absolutamente hipnótico ou, como alguém descreveu na altura esta fusão de prototecno e arvoredos “world”: “Fela Kuti meets Kraftwerk on the dance floor. Arrumar ao lado da variante kraut e, inevitavelmente, mais fria, “Zero Set”, de Dieter Moebius, Conny Plank e Mani Neumeier.

MINIMAL COMPACT
Deadly Weapons (1984)
6|10

Samy Birnbach e a israelita Malka Spiegel fizeram dos Minimal Compact uma das bandas da Crammed com maior projeção fora de portas. A mistura de elementos rock com melodias e sonoridades do Extremo Oriente, onde alguém, mais excitado, viu o encontro de Ian Curtis com a cantora folk egípcia Oum Kalsoum, não resistiu ao desgaste do tempo, ouvindo-se hoje como um típico objeto dos anos 80 pós-Joy Division, já impregnado pelo espírito electro.

KARL BISCUIT
Secret Love (1984)
5|10

Karl Biscuit era uma figura enigmática que aparece na capa de “Secret Love” a fazer o número do manequim romântico. Apesar das referências aos Depeche Mode e aos Human League e da graça de lhe terem chamado “Julien Clerc em três dimensões”, a pop eletrónica e as “torch songs” de pacotilha servidas em bandeja de mambo e eletrobeats baratos é pouco convincente enquanto testamento musical deste francês hoje responsável pela companhia de dança Castafiore.

HECTOR ZAZOU
Reivax au Bongo (1986)
9|10

Registado originalmente na Made to Measure, “Reivax au Bongo” é um daqueles discos que parecem saídos do sonho de um louco. Composto como banda sonora para uma telenovela imaginária (!), o “primeiro lado” experimenta, num contexto de desenhos animados, as vocalizações étnicas de Boni Bikaye, Kanda Bongo Man e Ray Lema. Tão delirante como exótico, este primeiro segmento não faz prever o que se segue: naipes grandiosos de música coral cantada por donzelas e querubins que se elevam nas alturas como um madrigal pré-barroco de Gabrielli ou Heinrich Schütz.

COLIN NEWMAN
Commercial Suicide (1986)
6|10

Pop eletrónica com dose de excentricidade q.b. pelo ex-vocalista dos Wire, em colaboração com John Bonnar, Malka Spiegel e o engenheiro de som/produtor e alicerce do chamado “som belga”, Gilles Martin. A par de canções padronizadas na pop eletrónica da época, a presente reedição junta-lhes um inédito com Newman a falar da sua música, sobre fundo sonoro. Os mais exagerados viram neste álbum as mesmas qualidades de “Rock Bottom”, de Robert Waytt, e de “The Madcap Laughs”, de Syd Barrett, mas a verdade é que a este “suicídio comercial” falta tanto a tragédia como a loucura.

SONOKO
La Débutante (1988)
7|10

Disco de uma beleza fora do vulgar a deste baile de debutante de uma cantora japonesa com voz de boneca caída no jardim de Virginia Astley. O som de dar corda a uma caixa-de-música dá o mote a uma coleção de melodias frágeis, por vezes arrebatadoras, que incluem uma mutação cândida de “Cheree”, dos Suicide, modificada para “Cheri cheri”, uma letra de Shakespeare, uma dedicatória a Brigitte Bardot, “La poupée qui fait non”, de Michel Polnareff, música de igreja, um requiem de Gabriel Fauré (1888) e uma arrepiante, porque falsamente ingénua, versão de “In heaven”, da banda sonora de “Eraserhead”, de David Lynch. No filme o tema é cantado por uma bailarina que vive dentro de um radiador, ao mesmo tempo que pisa espermatozoides: “In heaven everything is fine”.

SUSSAN DEYHIM & RICHARD HOROWITZ
Desert Equations: Azax Attara (1987)
8|10

Étnica, técnica, tecno, cânticos da Pérsia, programas de computador, “drones” e dunas. Danças eletro em contraponto com uma voz planetária. O escritor Paul Bowles perguntou, a propósito, se esta música foi composta sob a influência de algum alucinogénico, enquanto Jaron Lanier, cientista, compositor e inventor da realidade virtual fala de uma genuína viagem dos corpos através de uma paisagem hi-tech. “Azax Attra” percorre-se como se pisássemos o solo de uma ilusão e subitamente sentíssemos no rosto o choque da areia empurrada pelo vento.

BEL CANTO
White-out Conditions (1988)
7|10

Muito antes dos icebergs imóveis dos Sigur Rós, os noruegueses Bel Canto, da cantora Annelli Marian Drecker, lançavam ao mar o conceito de pop ártica que viria a ramificar-se na atualidade por nomes como Biosphere, Chiluminati e Röyksopp. Apesar da rítmica ser de gelo, chovem melodias capazes de inflamar os corações, como “Blank sheets”. Fizeram-se comparações com os Cocteau Twins, Sara MacLachlan, Dead Can Dance e Talk Talk, mas é mais singelo do que isso.



Tomahawk – “Tomahawk – O Míssil Vai Cair No Minho” (concertos / festivais)

(público >> y >> pop/rock >> concertos / festivais)
18 Julho 2003

Ao segundo lançamento, os Tomahawk, de Mike Patton, limparam o campo de batalha. “Limparam” é uma força de expressão. “Mit Gas”, o novo álbum, cheira a carne queimada. O “barbecue” será montado e servido em Vilar de Mouros.


Tomahawk
o míssil vai cair no Minho



Provocador e inclassificável. Barulhento e alienado para uns. Um génio de Aladino que faz brotar filosofia do “nonsense”, para outros. É Mike Patton, mentor de múltiplos projetos que incluem os já extintos Faith No More, Mr. Bungle e Fantômas e, nos próximos tempos, se estenderão a uma colaboração com os X-Ecutioners, à estreia dos Peeping Tom (com o japonês Dan the Automator, produtor dos Gorillaz) e a uma aventura a dois com Chico Moreno, dos Deftones. Já para não falar dos “pequenos crimes cometidos entre amigos” que são os seus álbuns a solo gravados na editora Tzadik, de John Zorn, como o, para muitos, intragável “Pranzo Oltranzista”.
E os Tomahawk, é claro – com Duane Denison (ex-Jesus Lizard), Kevin Rutmanis (The Melvins) e John Stanier (Helmet) –, cujo novo álbum, “Mit Gas”, é uma portentosa correria a galope no dorso do caos mas também um violento corretivo aplicado ao rock ‘n’ roll. O alvo está desenhado no palco principal do Festival de Vilar de Mouros e a queda do projétil programada para domingo.
No centro do ciclone ergue-se uma voz que grita, vomita, escarra palavras como se fossem sangue (que o diga quem assistiu ao desempenho do homem, ao lado dos Naked City, de John Zorn, num memorável e caótico concerto dado há anos, em Lisboa) mas também uma voz capaz de destilar, em doses proporcionais, humor e veneno, sonho e alienação, fazendo o “crooning” de uma história deturpada da música pop, como acontece no fabuloso e inclassificável “California”, dos Mr. Bungle, eleito pelo PÚBLICO o melhor álbum pop de 1999. Houve quem visse na conceção deste álbum, que parece disparar em redor a tudo o que mexe, a eclosão de um novo Frank Zappa para o novo milénio. Porém, Zappa não. Não na estratégia delineada por Mike Patton, aplicada tanto aos seus projetos pessoais como à editora que recentemente criou, a IPECAC, sobre a qual exerce, qual oficial superior de campo, controlo total. Nem Zappa nem ninguém: “Gosto de alguma da música dele a par de outra a que não ligo. A faceta instrumental dos primeiros tempos é melhor do que as gravações mais recentes”, como disse Patton em conversa com o Y. E, de uma só vassourada: “Em todos os géneros de música há porcaria e coisas muito boas. Cada um escolhe aquilo de que gosta. Não importa aquilo que chamam à minha música. Pôr-lhe este ou aquele rótulo revela uma atitude preguiçosa. Quando se fazem comparações, isso significa não ter o trabalho de a descobrir por si próprio”, diz, com o desdém de quem tem uma guerra a ganhar.

cheira a conflito. Por isso, o melhor mesmo talvez seja deitar para o caixote de lixo associações de ideias feitas, com base em “Mit Gas”, que ligavam um tema como “Harlem clowns” aos Negativland, através da fita danificada onde estão gravados os nomes de artistas “mainstream”, habituais açambarcadores dos tops, entre os quais os U2. “Is there any escape from noise?” Há alguma fuga ao ruído?, uivavam os músicos da banda da contracosta americana. O “noise” dos Tomahawk é outro, produzido por máquinas de chumbo fundido e o lança-chamas da voz de Patton, na sua “option: screamer”. Negativland? Pura coincidência, garante Mike Patton. “Não é nenhum sample dos Negativland. Nessa canção menciono bandas que apenas se preocupam em ganhar dinheiro, como os U2, embora o seu álbum de estreia até seja bastante bom. As pessoas podem ver uma quantidade de coisas nas minhas canções, mas isso não quer dizer que haja uma intenção explícita da minha parte”.
Coincidência ou não, os mesmos Negativland chamaram aos U2 “a pior banda do universo”, fazendo dela os seus inimigos de estimação, brincando aos plágios e ridicularizando a indústria, com as consequências que se conhecem: processo crime, encerramento do estúdio, apreensão do disco (o single “U2”) e ameaça de falência.
Mike Patton faz o que faz por puro instinto. Mesmo quando enverga a farda de polícia nas fotos de propaganda de “Mit Gas”. “Era uma chatice se fosse apenas um cantor ou um “gritador”. Não seria divertido para ninguém”. “California” é divertido. “Mit Gas” nem tanto. O opus experimental “Pranzo Oltranzista”, não, absolutamente. Na sua cabeça, porém, não são feitas grandes separações, uma vez que, como diz “a diferença entre o material mais experimental e o outro está apenas nos ouvidos das pessoas. Trata-se apenas de modos distintos de comunicação. Não há nenhum plano pré-estabelecido”.
O plano, de exploração de tesouros entre as trincheiras inimigas, entre as curvas e contracurvas, becos, arame farpado e precipícios, em “Mit Gas”, já se adivinhava, está nas nossas mãos. Ou, melhor dizendo, nos nossos narizes. Porque afinal, “the answer, my friend, is blowing in the wind”: “A minha música espalha-se em várias direções como um perfume. Um maravilhoso perfume feito com fezes humanas. Um perfume que se espalha pelo ar, como o vento…”.
Os quatro cavaleiros do apocalipse estão a chegar e cheira-nos que vai haver conflito. “Mit Gas”, com os seus obuses e luzes de alarme, em faixas como “Mayday”, “Captain midnight”, “Desastre natural”, “When the stars begin to fall” e “Aktion F14F13”, chega-se à frente de batalha. O míssil Tomahawk vai cair no Minho.