Arquivo mensal: Outubro 2015

Peter Hammill – Ritos De Passagem – concerto

Pop Rock

14 de Dezembro de 1994

RITOS DE PASSAGEM


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Afinal Peter Hammill vem sozinho. À semelhança do que aconteceu no ano passado na mesma sala lisboeta onde o cantor irá de novo actuar no próximo fim-de-semana. Desilusão. Não que isso implique que vá ser um mau concerto. Há dois anos, em solo absoluto, o ex-Van Der Graaf rubricou duas actuações notáveis no S. Luiz. Só que tinha sido anunciada a vinda com ele de um grupo de músicos, e já se antecipava o prazer de escutar o saxofone de David Jackson, o baixo de Nic Potter o violino de Stuart Gordon, três músicos que, em formações diferentes, fizeram parte dos Van Der Graaf Generator.
Não sendo talvez esta a melhor altura para dissecar tais estratégias, embora salte aos olhos que sai mais barato pagar a um único músico do que a uma banda inteira, fica qualquer coisa atravessada, como se nos tivessem oferecido um doce e no último momento nos tivessem tirado da boca.
Vamos ter pois que nos contentar uma vez mais com a voz, que não é pouca, a guitarra e o piano de Peter Hammill. E saborear ao máximo as canções e interpretações ultra-expressivas do cantor. Será uma nova passagem em revista de temas antigos, como sempre relidos por Hammill segundo a inspiração e o estado de espírito do momento, e a apresentação ao vivo, em moldes obviamente diferentes do disco, dos cinco temas que compõem o novo álbum “Roaring Forties”.
Foi sobre cada um destes temas que pedimos a Peter Hammill um pequeno comentário. Aqui vão as “respostas instantâneas”, ou “impressões em forma de ‘flash’”, como o próprio as classificou. Quanto a “Roaring Forties”, na sua totalidade, Hammill define-o como “um trabalho sobre os ritos de passagem, do tempo, das falhas entre o conhecimento, a inocência e o ego”, cujas canções tanto podem ser apreciadas a um “nível superficial” como a um nível “mais profundo”.

“SHARPLY UNCLEAR”
“Esta fonte de conhecimento e de autoconfiança provoca um estado de auto-maravilhamento excessivo. Sob o esqueleto externo do desmame e da crença em nós próprios (e, como consequência, a falta de crença em todos os outros que têm perspectivas alternativas). Está alguém em casa?…”

“THE GIFT OF FIRE”
“Entretanto, esta rapariga não sabe o suficiente. O facto de os seus dons serem em grande parte sustentados pela sua inocência não é suficiente para a proteger, ou para os proteger, de serem manchadas pelas apreciações dos outros. A verdade nunca é absoluta…”

“YOU CAN´T WAIT”
“Portanto o melhor é vivermos o momento. Ansiar por um futuro ou por um passado ideais nega-nos a possibilidade de viver o presente. É lógico, então, dizer que o futuro e os presentes passados são de igual forma renegados. É tão óbvio… mas tão difícil de viver. De facto, se alguém o conseguisse, seria viver um momento universal de transcendência.”

“A HEADLONG STRETCH”
“Os ritos de passagem sucedem-se sem parar. As personalidades que nós somos foram e vão ser criadas. Esta peça liga entre si muitas das minhas preocupações, das quais o tempo e o ego não são das menos importantes. Conseguir obter uma linha essencial de significado a partir desta tapeçaria de impressões momentâneas é algo de impossível. Se o conseguisse fazer, não estaria nesta profissão de escrever canções, que são, pela sua própria natureza, abertas.”

“YOUR TALL SHIP”
“Uma recapitulação de algumas linhas de pensamento atrás enunciadas, e de outras diferentes. A viagem que vale a pena fazer não é através de um reservatório. Enfrentar a tempestade é um dever que temos para connosco próprios. E isso não pára.”

PETER HAMMILL

16 de Dezembro, Cinema do Terço, Porto

17 de Dezembro, Teatro S. Luiz, Lisboa



Kronos Quartet – Estrategas Da Heresia – concerto

Pop Rock

14 de Dezembro de 1994

ESTRATEGAS DA HERESIA


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Responsáveis pelo desmantelamento de tabus culturais que recusavam a convivência de músicas tidas por parentes afastadas entre si, os Kronos Quartet, quarteto de cordas formado em 1973, tornaram-se nos últimos anos uma espécie de mensageiros que obrigam a repensar papéis e posições até há pouco tempo considerados estáveis e estanques na música deste século. Também nos últimos anos o sucesso do seu projecto tem chamado cada vez mais a atenção de músicos de diversas áreas que neles encontram um “input” formal diferente. Lado a lado com a justa popularidade do grupo e a importância da sua proposta, há evidentemente em todo este fenómeno uma quota-parte de movimentações ditadas por uma moda de momento. Estamos a recordar-nos por exemplo da opinião de um conceituado músico da cena “downtown” nova-iorquina, que há alguns anos actuou em Lisboa, sobre os Kronos Quartet, para quem escrevera uma composição. Dizia o tal músico conceituado que não gostava do grupo mas achava importante escrever para eles.
Seja como for, aos Kronos Quartet – que, se bem alguns se recordam, já tocou há uns anos em Portugal, no cinema Tivoli – se deve o derrube ou a abolição de muitas fronteiras. Servindo-se dos instrumentos de corda tradicionais de um modo revolucionário, extraindo deles sonoridades “heréticas”, obtidas tanto através dos métodos tradicionais como de outros bastante mais heterodoxos, os Kronos Quartet conseguem, a partir de um formato na aparência limitado a estilos musicais determinados, englobar na sua estética e nas suas estratégias, por vezes de guerrilha, a música de compositores tão distintos entre si como Shostakovich, Webern, Bartók, Ives, Piazolla, Cage, Raymond Scott e Howlin’ Wolf, Jimi Hendrix, Terry Riley, Witold Lutoslawski, John Zorn, Gorecki, Morton Feldman, Don Byron, Foday Musa Suso, Scott Johnson, John Adams, Philip Glass, Bob Ostertag, Pat Metheny e John Oswald, entre outros.
O Kronos Quartet é formado por David Harrington, violino, John Sherba, violino, Hank Dutt, viola de arco, e Joan Jeanrenaud, violoncelo.
Do programa fazem parte as peças “Mugam sayagi”, de Franghiz Ali-Zadeh, um compositor do Azerbeijão, “Dinner music for a pack of hungry cannibals”, “Powerhouse” e “Twilight in Turkey”, de Raymond Scott, pioneiro da música electrónica dos Estados Unidos, “Mtukwekok Naxkomao”, de Brent Michael Davis, um fusionista interessado no cruzamento das músicas étnicas com a electro-acústica, “Quarteto no. 4” de Sofia Gubaidulina, representante da nova música russa, “Mach”, de John Oswald, adepto das colagens sonoras e director do “Mystery Laboratory”, um complexo de pesquisa áudio e sensorial, produção e difusão, e “The book of alleged dances”, de John Adams, minimalista, neoclássico e ocasional pesquisador electrónico razoavelmente conhecido entre nós.

KRONOS QUARTET
15 de Dezembro, Caixa Geral de Depósitos



David Byrne – A Máscara Da Nudez – concerto

Pop Rock

16 de Novembro de 1994

A MÁSCARA DA NUDEZ


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“Sou uma vítima da minha própria curiosidade. Sigo exactamente para onde o meu interesse me conduz. Não tenho qualquer pretensão de ter uma experiência continuada em áreas diferentes, mas não consigo evitar a diversidade. Faço aquilo de que gosto, aquilo que me dá prazer.” Eis, nas suas próprias palavras, uma boa explicação para o percurso artístico, aparentemente incongruente, de David Byrne, que, após uma primeira presença no nosso país em 1992, acompanhado pela Pro Arte Orchestra, regressa aos palcos portugueses. Não é fácil, na verdade, encontrar o fio condutor numa obra que desde 1977, com a estreia discográfica dos Talking Heads, não tem parado de procurar novos caminhos. Se, cingindo-nos unicamente à banda, é possível descortinar no seu seio múltiplas direcções e tendências, é contudo na discografia a solo de Byrne que esta diversidade se manifesta de forma inequívoca. David Byrne salta de estilo e experimenta novas fórmulas de disco para disco. Entre o primeiro “Catherine Wheel” (peças para dança, com coreografia de Twila Tharp) e o último e, na aparência autobiográfico, “David Byrne”, estão “Music for the Knee Plays” (leitura vertiginosa do “gospel” composta para teatro), “The Forest” (classizante, pós-industrial, pós-moderna, esotérica e tribalista música para um “libretto” de Robert Wilson) e “The Last Emperor” (banda sonora, composta a meias com Ryuichi Sakamoto, para o filme de Bertolucci com o mesmo nome) a desafiar qualquer lógica de continuidade. Com Brian Eno, Byrne construiu ainda “My Life in the Bush of Ghosts”, uma das obras seminais da década de 80.
Com uma atitude idêntica à de um homem do Renascimento, David Byrne reparte as suas actividades entre a composição, a produção (A.R. Kane, B-52’s, Fun Boy Three) e o cinema, como actor e realizador de “videoclips” ou da longa-metragem “True Stories”, tendo ainda tempo para se dedicar à sua própria editora Luaka Bop, vocacionada para a divulgação de música étnica e várias partes do globo.
No ano passado, Byrne fez nova inflexão de rumo, actuando em dueto com nomes como Natalie Merchant, dos 100000 Maniacs, Rosanne Cash (filha de Johnny Cash, patriarca da “country music”), e Lucinda Williams (expoente do “country rock”), num regresso a um formato acústico que culminaria na gravação do novo álbum “David Byrne”.
Nesta sua segunda visita a Portugal, Byrne virá acompanhado por Todd Turkisher, na bateria, Paul Socolow, no baixo, e Mauro Refosco, nas percussões, os dois primeiros responsáveis em grande parte, segundo o compositor, pelos arranjos e sonoridades do álbum. Que máscara envergará David Byrne desta vez? A mesma do disco, da sua própria nudez?

DAVID BYRNE
19 Nov. Coliseu do Porto.
20 Nov. Coliseu dos Recreios, Lisboa.