Arquivo mensal: Outubro 2015

Cocteau Twins – Em Inglês É Que a Gente Se Entende – concerto

Pop Rock

27 de Abril de 1994

EM INGLÊS É QUE A GENTE SE ENTENDE

Em “Four-Calendar Cafe”, o mais recente álbum dos Cocteau Twins, Elizabeth Frazer canta pela primeira vez apenas em inglês. Depois do ensaio geral empreendido no anterior “Heaven or Las Vegas”, no qual esta língua fazia já uma tímida aparição. Até então, em álbuns como “Garlands”, “Head over Heels”, “Treasure”, “Victorialand” e “Blue Bell Knoll”, a sua voz entoara invocações na forma de onomatopeias que permitiam ao canto voar sem restrições.


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Nos antípodas do rock, a música do grupo formado por Fraser, Robin Guthrie e Simon Raymonde veiculava uma estratégia de indefinição – das palavras sem significado mas também no nevoeiro sonoro tecido pela guitarra de Guthrie – que então ajudava a criar o que se viria a chamar o “som 4AD”, editora onde a banda gravou toda a sua anterior discografia.
“Four-Calendar Cafe” marca uma inflexão na carreira e na música dos Cocteau Twins. Coincidindo com a mudança de editora, da 4AD para a Fontana, subsidiária da multinacional Polygram, o novo álbum, para além da mudança de agulhas linguística, aponta de forma inequívoca para uma pop mais convencional. Se ao longo da obra anterior desta banda escocesa só com alguma boa vontade se poderiam chamar canções aos esboços impressionistas que nessa altura lhe conferiam uma aura de originalidade e de diferença (estética que os Cocteau Twins levaram ao extremo e à incursão no ambientalismo da escola de Brian Eno, quando do seu encontro com o pianista Harold Budd, no álbum “The Moon and the Melodies”), em “Four-Calendar Cafe” os novos temas respeitam sem grandes desvios este formato.
Poderemos ainda verificar nesta mudança a tentativa, da parte da banda, de encontrar uma via de compromisso que lhes permita reproduzir ao vivo os ambientes e arranjos característicos dos discos. Recorde-se que até há bem pouco tempo os Cocteau Twins sempre tinham manifestado relutância em tocar ao vivo, reconhecendo deste modo a impossibilidade de, em concerto, fazerem justiça ao som de estúdio.
Perante esta alteração de métodos não falta quem acuse a banda de se vender em nome do mais que provável aumento de venda dos discos. Se este passo era ou não inevitável só a consciência dos músicos o poderá dizer. Certo é que o grupo conseguiu chegar ao topo das listas independentes mas não se contenta em ficar por aí, perseguindo a partir de agora objectivos mais vastos e, porventura, mais rentáveis.
Veremos se com a sua primeira apresentação em Portugal os Cocteau Twins confirmam esta hipotética apetência por horizontes comercialmente mais largos ou se, pelo contrário, mantêm intacta a integridade artística, apenas deslocando os passos para uma estrada com mais faixas e, vá lá, bem menos sinuosa. Ou ainda se as palavras do discurso musical e críptico da fase pré-linguística se transformaram em vulgar conversa de café.

LISBOA, COLISEU DOS RECREIOS, 27 DE ABRIL
PORTO, COLISEU DO PORTO, 29 DE ABRIL
BRAGA, T-CIRCO, 30 DE ABRIL



Egberto Gismonti – Coração Sobrevivente – concerto

Pop Rock

16 FEVEREIRO 1994

CORAÇÃO SOBREVIVENTE

É um “habitué” do nosso país, como se costuma dizer. Egberto Gismonti, compositor, arranjador e intérprete brasileiro, cidadão do mundo. Volta para mais um concerto. Com um álbum novo na bagagem, “Música de Sobrevivência”.


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Presença assídua em concertos no nosso país, a última visita de Gismonti a Portugal remonta a Novembro do ano passado, quando veio tratar de aspectos ligados a um projecto muito especial – a composição de música sobre textos de Luísa Costa Gomes baseados na vida e obra do Padre António Vieira, para a peça “Clamor”, encenada por Ricardo Pais e que será uma das apostas teatrais fortes de Lisboa 94 (ver entrevista ao PÚBLICO de 19/11/93).
Neste seu novo espectáculo em Portugal, a realizar no próximo sábado no Teatro Nacional D. Maria II, o músico brasileiro tocará, como vem sendo hábito, piano e guitarra acústica, instrumentos em que é um virtuoso de altíssima craveira, e ainda flauta. Acompanham-no Nando Carneiro, na guitarra, sintetizadores e caxixi, e Zeca Assunção, no baixo, como já havia acontecido nos dois mais recentes álbuns de Gismonti para a ECM, “Infância” e “Música de Sobrevivência”, cujos temas constituem o material base que o trio irá interpretar.
Músico de formação clássica, Egberto Gismonti não se deixou prender nas malhas de qualquer academismo. Nos 37 álbuns que leva gravados (em nome próprio, porque, se formos contabilizar as produções e colaborações de arranjador a autor de bandas sonoras para filmes e peças de teatro infantis, o número sobre para valores astronómicos…) multiplicam-se as experiências e os formatos instrumentais, do jazz ao classicismo, da tradição do Nordeste brasileiro à electrónica, passando pela influência do rock progressivo nos seus primeiros trabalhos.
Só, acompanhado por músicos brasileiros, por Jan Garbarek e Charlie Haden ou por uma orquestra. Mas, se exteriormente as formas parecem apontar para direcções contraditórias, por dentre permanece um fio condutor, uma única música, ou uma música una, ao mesmo tempo pessoal e universal, como o seu autor faz questão de salientar.
Uma das preocupações manifestada desde há alguns anos por Egberto Gismonti – que, além de músico, manifesta posições firmes enquanto cidadão, com opções políticas claras – é a defesa da cultura e do território da Amazónia. Em termos musicais, esta preocupação saldou-se por álbuns magníficos, de “Solo” aos mais recentes “Kuarup”, “Amazónia” e, por outras vias, mais subtis, o próprio “Música de Sobrevivência”.
Com uma produção dividida pelo Brasil, onde grava para o seu próprio selo Carmo, e pela Alemanha, na ECM de Manfred Eicher, onde tem registada grande parte da sua discografia, Egberto Gismonti pode considerar-se um dos compositores mais prolixos deste século e, se sombra de dúvida, um dos mais originais.
Ao vivo, mesmo se por vezes se aproxima de certos estereótipos e automatismos, nomeadamente no estilo guitarrístico, que foi criando ao longo dos anos, é sempre um prazer verificar que o seu reconhecido tecnicismo não cessa de se apurar e se coloca ao serviço de uma música e de uma força interior por vezes avassaladoras.
Porque, como todos os grandes músicos, Gismonti tem consciência que antes de saber dizer está o saber ouvir. E que antes de tocar é preciso deixar-se tocar. Ou que esta dialéctica se resolve na acção pura. Até que ponto Gismonti racionaliza todo este processo ou se deixa guiar pela intuição é uma questão que permanece em aberto.
“Música de Sobrevivência” revela uma arquitectura dir-se-ia quase pitagórica. Mas entrelaçado nas malhas de uma equação sobrevive e pulsa um coração. Futurista. Mágico. Cidade coração.

Lisboa, dia 19
Sala Garrett, 21h45
TEATRO NACIONAL D. MARIA II



Romanças – “Azuldesejo”

POP ROCK

25 de Maio de 1994
WORLD

Romanças
Azuldesejo

Luminária, distri. Strauss


romancas

Sintra impõe-se cada vez mais como factor determinante no imaginário e nos métodos de produção dos Romanças. Depois de “Monte da Lua” (uma das designações da mítica cadeia montanhosa), o novo trabalho do grupo foi gravado em plena encosta da serra, na pousada da juventude que fica situada alguns metros abaixo da Igreja de Santa Eufémia. E se a localização do local de gravação desempenhou um papel activo em termos técnicos (captação do som ao vivo em salas de habitação com tempos de reverberação variados, por exemplo), o mesmo não se pode dizer em relação à inspiração. Descontando a presença de elementos aleatórios, como o som real de chuva que acompanha o tema “Candeia” ou a alusão directa ao dia-a-dia vivido na pousada e nas idílicas paisagens circundantes pelos membros do grupo em “Fim do dia”, uma das várias composições originais de Pedro D’Orey, “Azuldesejo” (síntese de azul e desejo), num azulejo contendo 12 símbolos desenhados por João Ramos, correspondentes a cada uma das faixas), poderia ter sido gravada noutro sítio qualquer. O problema principal que se coloca em relação a “Azuldesejo” é que não existe um fio condutor, uma ideia determinante, mas tão-só múltiplas e contraditórias direcções, que acabam por quebrar um pouco a unidade de um trabalho congeminado com minúcia. Há nele pistas suficientes para permitirem aos Romanças serem uma banda diferente consoante a faixa. O tema inicial “as vozes do mundo” é, juntamente com “Janeiradas” (“must” de há longa data nas noites da Taverna dos Trovadores…), um dos que menos quebra os elos com o anterior “Monte da Lua”. No primeiro caso, uma subtil deslocação de um dos eixos criativos de José Afonso; no segundo, a organização de uma desbunda popular onde a todos é dada oportunidade para brincar. “Mineta” é uma das melhores faixas do álbum, com a harpa céltica de Pedro D’Orey a ornamentar uma das peças mais bonitas do nosso cancioneiro. No instrumental “Galicia”, as gaitas-de-foles de Paulo Marinho e Rui Vaz bem poderiam ter pedido à irritantes e inúteis vozes de coro para se calarem – o mesmo defeito que descaracteriza outros temas. Fausto e a morna cabo-verdiana navegam em “Oceanos”, enquanto os jogos fonéticos em japonês de “Soredemo” (ai os tais coros…) partem com Júlio Pereira e vão dar à complexidade de arranjos dos Gentle Giant. “Carolina”, a peça que integra uma compilação internacional de “world music”, tem o bom sabor dos temas tradicionais e um desempenho vocal de Pedro D’Orey algo periclitante. “Auto da criação” é quase um “haiku”, instante de revelação na voz de Filomena Pereira sobre “percussões industriais”, estilo serração, semelhante à que os Malicorne utilizaram em “L’Extraordinaire Tour de France d’Adélard Rousseau”. Tema que, juntamente com “Candeia”, cultiva parentescos próximos com a Banda do Casaco. “Vindima”, outro tradicional, dá finalmente lugar ao adeus na guitarra acústica, num original de José Afonso, “Mulher da Erva”. Compete agora aos Romanças escolher entre continuarem na busca de novos caminhos ou, pelo contrário, seguirem por uma única senda até ao fim. Quem sabe, até ao alto da serra. (7)

a partir daqui