Arquivo mensal: Outubro 2015

Nico – “Chelsea Girl” + “The End”

Pop Rock

25 de Maio de 1994
REEDIÇÕES

CANÇÕES PARA UMA RAPARIGA MÁ

NICO
Chelsea Girl (6)

Polydor, distri. Polygram
The End (8)
Island, import. Contraverso


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“Top model”, actriz secundária no filme de Fellini “La Dolce Vita”, figura-fetiche de Andy Warhol na bacanal “Exploding Plastic Inevitable”, presença insubstituível no clássico da banana dos Velvet Underground, referência mítica na cena dos malditos na passagem dos anos 60 para os 70 (Doors, Hendrix…), Nico personificou, na sua vida e na sua música, a própria imagem da tragédia. A “deusa da lua” – como um dia (ou uma noite) chamaram a esta diva teutónica de voz tão fria e cortante como o gelo – deixou para a posteridade uma obra inclassificável, que alguns consideram medíocre e interessante apenas na medida em que reflecte a aura de mistério que sempre rodeou este personagem cuja morte tornou ainda mais enigmática, e outros sublime. Nico incarnou a própria solidão. “Não canto para a audiência”, disse, “procuro manter-me tão solitária quanto possível… sem fazer o mínimo contacto”. Para esta intérprete (mais do que cantora, já que a sua voz, em termos técnicos, era bastante má) que todos citam, alguns hoje elegem como heroína mas cujos discos apenas uma fracção mínima de público conhecia e adquiria, o mais importante numa canção era a improvisação, o sentimento de ocasião provocado por uma nota ou uma melodia. Nico apreciava acima de tudo “canções tristes e trágicas”. Costumava cantá-las ao mesmo tempo que tocava um velho órgão de pedais. John Cale apadrinhou-a mas raramente soube compreender a fundo os abismos desta alma atormentada. Se “The Marble Index” é hoje considerado um dos álbuns mais impenetráveis na carreira da artista (sem esquecer o indispensável “Desertshore”, inspirado numa das várias colaborações, neste caso no filme “La cicatrice intérieure”, da cantora com o cineasta francês “underground” Philippe Garrel, com quem trabalhou também como actriz em “Le Berceau de Cristal”, sobre música de Manuel Gӧttsching) e os últimos “Drama of Exile” e “Camera Obscura” são aqueles que levaram pela primeira vez a um público mais alargado a música de Nico, é, contudo, em “Chelsea Girl” – reprodução no singular do filme documental de Andy Warhol, “Chelsea Girls” – que Nico surge verdadeiramente como intérprete de canções. Jackson Browne, John Cale, Lou Reed, Bob Dylan e Tim Hardin escreveram especialmente para ela. Nunca a voz desta alemã precursora do niilismo “punk” soou tão calorosa (nem tão desafinada…) e humana como nestas baladas em tons Greenwich Village nas quais Nico vestia, qual Judy Collins do inferno, as roupas “hippies” do avesso. As excepções são as duas longas elucubrações “It was a pleasure then” (composição sua que prenunciava os icebergues futuros) e “Chelsea girls”, com a mesma cadência que Nico imprimira aos temas mais lentos de “The Velvet Underground & Nico”. “The End”, pelo contrário é, em primeiro lugar, um disco de produtor, em que John Cale se entrega com entusiasmo à tarefa de colorir o registo vocal metálico e monocórdico de Nico com toda a espécie de embelezamentos instrumentais (baixo, xilofone, órgão, marimba, cabasa, carrilhão, piano…), para tal contando, ainda, com a ajuda de Phil Manzanera, na guitarra, e Brian Eno, nos sintetizadores. No mesmo ano em que os mesmos Cale, Eno e Nico se juntaram a Kevin Ayers para gravar o célebre disco ao vivo “June 1, 1974”. Nico ergue-se no meio desta panóplia sonora como uma rainha das trevas, culminando o seu reinado de dor e pesadelo numa versão petrificada de “The end”, dos Doors, e na releitura gótica da canção de exaltação patriótica dos nazis durante a Segunda Grande Guerra, “Das lied der deutschen” – derradeira provocação antes do oblívio.

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John Cale & Terry Riley – “Church Of Anthrax”

Pop Rock

16 FEVEREIRO 1994
REEDIÇÕES

John Cale & Terry Riley
Church of Anthrax

Columbia, distri. Sony Music


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Um disco mítico. Gravação de 1971, na qual o então violista dos Velvet Underground juntou forças com um dos papas do minimalismo americano. Resultou interessante, mas deixa um certo sabor a frustração. Cale martela como pode o piano em “Church of Anthrax”, “The hall of mirrors in the palace at Versailles”, que o sax soprano do americano sobrevoa como uma área real, e no longo e penúltimo tema “Ides of March”, acompanhando como pode a cadência milimétrica imposta por Riley, mestre da circularidade e sobreposição de ritmos. É notório que é Riley a ter de descer ao nível de Cale. Vê-se que o compositor de “in C” e do fenomenal “Rainbow in Curved Air” tem a preocupação de não descolar em demasia dos esforços do companheiro, na maneira contida como toca o órgão electrónico. Depois, a bateria, tocada por alguém nunca identificado em qualquer edição desta obra, não ajuda nada, de tão quadrada e pesadona. O melhor tema acaba por ser a única canção do disco, “The soul of Patrick Lee”, uma das típicas baladas fantasmagóricas de Cale, cantada por este de forma preciosa. Mas a sensação de ineditismo da parceria e alguns pormenores mais conseguidos, por entre o emaranhado rítmico dos temas “minimais repetitivos”, acaba por tornar “Church of Anthrax” uma curiosidade digna de interesse. Mesmo que a quilómetros de distância do melhor, tanto dos Velvets como do patriarca da repetição. (7)

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Hector Zazou – entrevista

Pop Rock

28 de Setembro de 1994

“COMO UM ESTUDO GEOLÓGICO”

Hector Zazou regressa a Portugal. Desta vez, trazendo consigo Harold Budd e a ex-vocalista dos Passions, Barbara Gogan. Autor de uma obra diversificada, Hector Zazou explicou ao PÚBLICO o sei interesse por toda a espécie de mestiçagens musicais.


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PÚBLICO – Os seus primeiros discos – “Barricades 3” e “Traité de Mecanique Populaire”, com os ZNR – são bastante diferentes de tudo o que fez depois. Como encara hoje esses trabalhos?
HECTOR ZAZOU – São dois discos um pouco desajeitados mas têm o seu “charme”. O que se pode chamar obras de juventude. “Barricades 3” é muito amador. Ao segundo ouvi-o recentemente e encontrei, lá dentro, coisas interessantes mas que, em comparação com o que se fazia na época, soa demasiado acústico e trabalhado.
P. – A entrada para a editora belga Made To Measure implicou mudanças na sua direcção musical?
R. – Os discos que gravei nessa editora [“Reivax au Bongo”, “Géographies” e “Géologies”] são todos diferentes. “Géographies” e “Géologies” deveriam fazer parte de um tríptico cuja terceira parte não existe nem existirá. A ideia era partir dos instrumentos acústicos para chegar à electrónica. Em “Géographies”, praticamente não existem sintetizadores. “Géologies” já mistura os sintetizadores com os instrumentos clássicos. O terceiro volume deveria ser completamente electrónico, com alguns, poucos, elementos clássicos.
P. – Nas capas de “Géographies” e “Géologies”, pode ler-se respectivamente « feito à medida para eliminar a teoria do pós-modernismo” e “feito à medida para um estudo de estratos de sentimentos”. Estava a brincar ou a falar a sério?
R. – É uma brincadeira em “Géographies” e talvez algo mais sério em “Géologies”. Gosto da palavra “strate”, sinónimo de “couche” [“camada”, “leito”] como num estudo geológico, quando nos apercebemos, ao escavar, de diferentes estratos do solo que permitem determinar a sua idade. Era isso que me interessava, ter uma camada de instrumentos acústicos, uma camada de instrumentos electrónicos e, desta maneira, escavar e penetrar um pouco no passado.
P. – Há uma faceta cinematográfica no seu trabalho. Fellini, Antonioni…
R. – Sim, embora não tenha qualquer relação directa com o cinema. Adoraria ter composto música para Fellini mas ele já tinha o Nino Rota, que o fazia decerto melhor que eu… Não há nenhum outro realizador que me faça desejar trabalhar com ele. Talvez o único seja Hal Hartley, um jovem cineasta americano, algures entre Jim Jarmusch e Jean-Luc Godard.
P. – “Reivax au Bongo” é a mais estranha das suas experiências com a música africana…
R. – É, de novo, um disco de misturas – no fundo, o que me interessa: a mestiçagem. Encontrar portas de comunicação. Em “Reivax”, tratou-se de misturar “Noir et Blanc” e “Géographies”, num lado, e, no outro, a música electrónica, algo na linha do que poderia ser a terceira parte da tal trilogia, com uma cantora clássica.
P. – Não acha que, em comparação com esse ou “Noir et Blanc”, dois dos discos que gravou com Boni Bikaye, “Guilty”, um disco de música de dança, soa bastante maia vulgar?
R. – É preciso ter em conta que a dupla Zazou-Bikaye começou por um acaso. “Noir et Blanc” é um disco totalmente espontâneo. Em seguida, Zazou-Bikaye tornou-se um grupo com actuações ao vivo. Verificámos que as pessoas se levantavam e dançavam. O grupo começou progressivamente a incorporar ritmos cada vez mais evidentes na música, que, deste modo, se foi tornando progressivamente menos interessante. Por essa razão, decidi que o grupo devia terminar. “Guilty” é um disco que deve muito a artistas como Prince, que, nessa época, tinha acabado de editar “Sign of the Time”, um disco que adoro. Tentei encontrar na produção um som e texturas parecidas…
P. – Como conseguiu juntar tanta gente importante no projecto “Nouvelles Polyphonies Corses” e, posteriormente, em “Sahara Blue” [a lista é interminável: Cale, Sakamoto, Jon Hassell, Ivo Papasov, Manu Dibango, Sammy Birnbach, Khaled, Tim Simenon, Bill Laswell, Sussan Deyhim, etc]?
R. – Estavam todos interessados e já conheciam a minha música. Nas polifonias corsas, em que a regra é o canto “a capella”, toda essa gente quis participar a acrescentar vários acompanhamentos instrumentais. Dei-lhes toda a confiança.
P. – Como nasceu a ideia de musicar Rimbaud, em “Sahara Blue”?
R. – Foi uma proposta do Ministério da Cultura, que organizou uma exposição no centésimo aniversário da morte de Rimbaud. A partir daí, comecei a trabalhar com Ryuichi Sakamoto e David Sylvian. Quando a exposição terminou, como gostámos bastante do que tínhamos feito, perguntámo-nos: “Porque não continuar e fazer um disco com mais gente?”
P. – A troca de David Sylvian pelos Dead Can Dance, por razões contratuais, na segunda versão de “Sahara Blue” foi uma solução de recurso?
R. – Não! Tenho uma lista de todas as pessoas com quem quero trabalhar!
P. – Harold Budd faz, evidentemente, parte dela?
R. – Claro! Vai tocar piano e dizer poemas. Vão estar comigo também um saxofonista e clarinetista, Renault Pion, e a cantora Barbara Gogan, que fará sozinha a primeira parte e, na segunda, irá cantar provavelmente dois temas de “Sahara Blue”.

DIA 30, Aula Magna, Lisboa, 22h
DIA 1, Cinema do Terço, Porto, 22h
Primeira parte: Barbara Gogan