cultura >> quarta-feira, 05.07.1995
Encontros Musicais De Tradição Europeia
Ferreiros Do Vesúvio

COM UMA hora e meia de atraso, teve início no sábado, no auditório do Ipimar (Instituto Português de Investigação Marítima), a 6ª edição dos Encontros Musicais da Tradição Europeia.
Uma hora e meia de seca, a olhar para as paredes, é aborrecido. Predispõe mal. Faz espumar pela boca. Um elemento da organização, a Etnia – que não há meio de acertar no melhor modo de promover e realizar esta iniciativa -, explicou que não havia bateria. Também não havia energia. Ou melhor, havia, mas não dava para o som e para as luzes ao mesmo tempo. Optou-se pelo som e o espectáculo decorreu à média luz, sob o amarelo mortiço de umas lâmpadas do tecto. Incompreensível e inaceitável. Como é possível ninguém ter experimentado previamente as condições do recinto?
Já com o tal atraso exasperante em cima entraram em cena os portugueses Frei Fado d’El Rei, para uma plateia escassa mas mesmo assim disposta a passar um bom bocado. Vieram todos de negro. Coitados, tão novos e já de luto. Com eles veio a saudade, o fado, as sombras, o destino. O Portugal para exportação que está a render. Sobre uma base rítmica a atirar para o quadrado, assim ao estilo de quem se esforça por não sair do compasso, mas compenetrados do seu papel de jovens melancólicos que tocam e cantam para afugentar as suas mágoas, os Frei Fado moveram-se entre a pré-primária da música antiga, encostos aos Madredeus e aos Dead Can Dance e um gosto pela folk portuguesa e espanhola. Louve-se a veia criativa de algumas composições e a voz realmente bonita de Carla Lopes, ainda com potencialidades imensas por explorar.
Depois do velório, chegou a festa grossa. Os E Zezi trouxeram de Itália a fúria mas também a celebração de Dionísio, em rituais de batida implacável e cânticos de júbilo ou de denúncia. Oriundos da cintura industrial de Nápoles, fizeram acompanhar a música de constantes acusações à Mafia e comparações entre as realidades de Itália e Portugal: “Na nossa região a mafia destruiu tudo excepto o Vesúvio”, “a mafia acabou com a música tradicional e pôs no seu lugar o Michael Jackson e o Elton John…”, “Em Portugal, como em Itália, há confusão, corrupção, fábricas que fecham!”. Entre uma denúncia e uma analogia, o grupo, onze homens e uma mulher, batia no chão e no cérebro, ora elevando a voz colectiva ora se recolhendo no quase choro da vocalista.
Num dos temas jubilatórios a música explodiu em gestos de libertação orgiástica, os músicos cirandando pelo palco em gritos e incitações, tocando cornetas de brinquedo e soltando no ar bolas de sabão. O ritual estendeu-se à assistência. O movimento ultrapassou os limites do palco. Um dos vocalistas desceu do estrado e convidou uma rapariga da primeira fila para dançar. Estranho e belo, assistir a esta cerimónia onde os gestos arcaicos se confundem com o acto revolucionário do presente. Os E Zezi são os guardiões do vulcão. Ferreiros de uma humanidade que teima em não se deixar devorar pelas mandíbulas do capitalismo.
Segunda-feira foi melhor, em termos organizativos. Já havia luz, cumpriu-se a hora, a sala encheu. Atacaram em primeiro lugar os Elementales um grupo de fusão de Madrid. Engraçada, a mistura, já muito esbatida, do folclore castelhano com um jazz “mainstream” permeado de influências ciganas. Mas engraçada somente ao terceiro ou quarto tema, porque a fórmula se revelou demasiado estática e repetitiva. Numa dose mais forte, este “fusfolk” (folk de fusão) de baixa pressão tem um efeito sedativo, atenuado aqui e ali por algum assomo de energia do violinista Enrique Valino.
A vida no estado desperto regressou com os Klezmatics, banda de música “klezmer” residente nos Estados Unidos. Judeus com ritmo e uma dose de saudável loucura, como já nos tinham sido apresentados nos álbuns, “Rhythm + Jews” e no novo “Jews with Horns”, os Klezmatics entusiasmaram a plateia com os seus “medleys” sacudidos por constantes mudanças de velocidade e impulsionados pelos sopros – sax, clarinete, clarinete baixo e trompete – mas sobretudo pela poesia que se insinua do violino de Alicia Svigals. Uma ou outra fífia do vocalista e execuções instrumentais onde o espalhafato encobre por vezes a ausência de um verdadeiro virtuosismo, não impediram que o público aderisse por completo à extroversão dos Klezmatics, casamento bem sucedido das reminiscências tradicionais com a atitude e o estilo de verdadeiros cultores da “downtown” nova-iorquina.
Os Encontros terminam amanhã em Algés, com os austríacos Broadlahn e a irlandesa Sharon Shannon, prosseguindo até dia 10 em Tondela, Évora e Guimarães.


