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Sharon Shannon, Clare, Broadlahn – “Encontros Musicais Terminaram Em Algés – Sharon Dos Sete Foles”

cultura >> sábado, 08.07.1995


Encontros Musicais Terminaram Em Algés
Sharon Dos Sete Foles


DEPOIS de uma falsa partida, os VI Encontros Musicais da Tradição Europeia terminaram em beleza no auditório do IPIMAR em Algés. Os irlandeses, para variar, fizeram miséria. Sharon Shannon, a acordeonista de Clare, e a sua banda rubricaram o final dos festejos com uma actuação onde mais uma vez ficou demonstrada a infinita vitalidade da “irish tradition”. Sharon, palmo e meio de altura, timidez nervosa, uma simpatia e sorriso irresistíveis, uma autêntica gatinha de sete foles, não deu espectáculo, no sentido teatral do termo. Apresentou rapidamente os temas, agradeceu os aplausos e tocou, de que maneira, o acordeão e o violino.
Navegando maioritariamente nos “medleys” de “reels”, mais adaptados ao fraseado intrínseco das “squeeze boxes” (como na Irlanda chamam aos acordeões, concertinas e tudo o que tem caixa e foles) o grupo fez paragens na música “cajun”, na tradição do Quebeque, no tal corridinho algarvio, numa valsa de “bal musette” e no clássico “Music for a found harmónium” dos Penguin Cafe Orchestra. Com Trevor Hutchinson, ex-Waterboys, no contrabaixo eléctrico, Donogh Hennessy, um guitarrista eficaz mas pouco imaginativo e Mary Custy, uma loura torrada pelo sol, no violino principal, a banda libertou alegria e adrenalina, mantendo um “drive” sem falhas, de verdadeiros “folk-rockers”, desenrolando o mapa de tesouros dos álbuns “Sharon Shannon” e do novo “Out the Gap”. A sala, cheia como um ovo, vibrou e exigiu dois mais do que merecidos “encores”.
Na primeira parte actuaram os austríacos Broadlahn que surpreenderam mais pelo inusitado da proposta do que propriamente pelas suas virtudes musicais. Desde o início, ao som de sirene de navio de uma trompa alpina, a estranheza instalou-se O vocalista principal, mais ou menos vestido de tirolês, foi o cicerone de uma música hibrida onde a tradição vocal do “yodelling” se combinou com um jazz farsola, a música indiana e africana e um certo humor instrumental (palmas, interjeições, uma marimba minimalista, pormenores deslocados). “Música no Coração” tocada por loucos que às vezes pareciam não saber muito bem o que fazer com os instrumentos. Entreteram, justiça lhes seja feita.
Ficou a frustração de não podermos ouvir em Algés os húngaros Mákvirag e os bascos Tomas San Miguel com Txalaparta. Se calhar até eram os melhores… Évora ainda vai poder ver hoje os Broadlahn e Mákvirag e amanhã os Frei Fado d’el Rei e Elementales. Guimarães, que este ano e com todo o merecimento voltou a ser a cidade eleita, assistirá ainda, no dia 10, aos Frei Fado d’el Rei e Mákvirag.

Vários (Sharon Shannon, Elementales, E Zezi, Frei Fado D’El Rei, Klezmatics) – “‘Escandalosos E Queridos'”

pop rock >> quarta-feira >> 28.06.1995


“ESCANDALOSOS E QUERIDOS”



Sharon Shannon e a sua banda dominam o programa dos VI Encontros Musicais da Tradição Europeia, que depois de amanhã têm início em Guimarães (única cidade que poderá ver oprograma completo) e se prolongará por esta cidade, Tondela (integrados no Tondefesta), Algés e Évora até ao dia 10 do próximo mês. Sharon, irlandesa, 26 anos, natural do condado de Clare, é uma das grandes intérpretes de acordeão da actualidade e as suas actuações ao vivo garantem, regra geral, um ambiente de grande entusiasmo. Sharon gravou até à data os álbuns “Sharon Shannon” – onde, entre a fidelidade à música tradicional irlandesa se podem encontrar um corridinho algarvio (bem, vamos ser chauvinistas, porque o corridinho tem de facto origem na Europa Central…) e a influência da música “cajun” – e o recente “Out the Gap”, ao contrário do anterior, ainda sem distribuição nacional. Sharon participou ainda como convidada no álbum “The Fisherman’s Blues” dos Waterboys, cujo baixista Trevor Hutchinson faz também parte do grupo da acordeonista.
Excelentes são igualmente os Klezmatics, uma banda de música “klezmer” (música judia da Europa do Leste) com sediada no “East-side” de Nova Iorque. Allen Ginsberg, o poeta da “beat generation”, com o qual, aliás, já colaboraram em espectáculos ao vivo, chamou-lhes “escandalosos e queridos”. Queridos não sabemos se são ou não, mas escandalosos são de certeza, na maneira como insuflam a música “klezmer” com a energia do rock e os espírito de improvisação do “jazz”. Ouçam o álbum “Rhythm + Jews” (há outro mais recente, “Jews with Horns”, quanto a nós menos conseguido), editado na Piranha, e depois digam coisas.
Os Elementales chegam de Espanha e decerto não irão trazer com eles maus ventos. Misturam o folclore espanhol – fala-se numa “síntese madrilena com vocação flamenca e latino-americana” – com a música árabe, bretã, irlandesa, grega e cubana, o que, considerando as misturadas que se fazem hoje em dia, até não parece mal.
O E Zezi, italianos, falam outra língua. Começaram por ser uma banda operária, ao estilo GAC, com um som etno-industrial à maneira dos Test Dept. (em “Terra Firma”), como se pode verificar palo álbum “Auciello Ro Mio”, já com distribuição da Etnia, mas a sua combinação poderosa de ritmos rituais com a palavra interventiva tornou-os uma entidade quase mítica em Itália, de feiticeiros anarquistas, ou ferreiros de um templo telúrico onde a comunicação de massas é a palavra de ordem.
Menos ambiciosos, os portugueses Frei Fado d’EL Rei não escondem o seu amor pela música trovadoresca e pelas sonoridades da música antiga, embora encaminhadas para um formato pop. Para já, podem ser ouvidos no tema “Que amor não me engana”, de José Afonso, incluído no álbum “Filhos da Madrugada”.
Os Encontros, uma vez mais organizados pela Cooperativa Cultural Etnia com o apoio das quatro câmaras envolvidas, contam ainda com a presença dos grupos Makvirag, da Hungria, Broadlahn, da Áustria, e Tomás San Miguel com Txalaparta (nome do grupo e de um instrumento típico basco, feito com troncos de árvore), na companhia de um convidado muito especial, Kepa Junkera, do País Basco. Actuam todos mais tarde, por isso a sua apresentação fica para a próxima semana.

ELEMENTALES
Praça de São Tiago, Guimarães, 30 de Junho, Auditório do Itimar (Instituto Português de Investigação Marítima), Algés, 3 de Julho
E ZEZI
Guimarães, 30 de Junho, Algés, 1 de Julho, Novo Ciclo ACERT, Tondela, 4 de Julho
FREI FADO D’EL REI
Algés, 1 de Julho, Praça do Giraldo, Évora, 9 de Julho, Guimarães, 10 de Julho
KLEZMATICS
Tondela, 2 de Julho, Algés, 3 de Julho, Guimarães, 4 de Julho, Évora, 5 de Julho
SHARON SHANNON
Tondela, 3 de Julho, Guimarães, 4 de Julho, Évora, 5 de Julho, Algés, 6 de Julho

Fia Na Roca + Radio Tarifa – “V Encontros Musicais Da Tradição Europeia – Fia-te Na Rádio…” (crítica de concertos)

cultura >> sexta-feira >> 08.07.1994


V Encontros Musicais Da Tradição Europeia
Fia-te Na Rádio…


DE DESILUSÃO em desilusão até ao triunfo final. Tem sido assim em Algés até agora nos Encontros Musicais da Tradição Europeia. Ou desencontros. Espera-se a salvação no próximo sábado, com Omou Sangare e os Taraf de Haidouks. Na quarta-feira, perante um público numeroso que encheu o jardim do Palácio dos Anjos, os Fia na Roca, da Galiza, confirmaram a crise que se instalou naquelas paragens.
Vinham aureolados como a “next big thing” (não fica bem em galego) e melhor novo grupo desde os Milladoiro. Pelo que mostraram em Algés não diferem afinal de projectos como Matto Congro ou Brath. A música tradicional da Galiza sofre hoje de duas maleitas que parecem difíceis de debelar: a irlandização e a electricidade.
Os músicos dos Fia na Roca são bons – Xabier Bueno, então, é excelente na gaita-de-foles – mas o projecto que têm para oferecer está datado: uma fusão de rock, jazz com os malditos teclados e polvilhada de solos previsíveis (muitos, demasiados, no saxofone) e alguma confusão. Uma massa sonora na qual a genuína tradição da Galiza fica, é claro, a perder. O som, diga-se, também não ajudou. Os Fia na Roca ainda têm muito que porfiar. Na roca ou no que eles quiserem.
Os Radio Tarifa eram aguardados com enorme expectativa. Com razão, dada a excelência do seu álbum “Rumba Aregelina”. Nove músicos em palco, um bailarino que martelou quando pôde o estrado, deixaram mesmo assim a impressão de faltar qualquer coisa. Faltaram instrumentos (no disco rondam a meia centena), faltou “verve” aos músicos, faltou sobretudo a magia que envolve “Rumba Argelina”. Sobraram rajadas de vento que levaram a música para todo o lado menos para os ouvidos da assistência, um técnico de som às aranhas para equalizar os instrumentos e um frio que se fez sentir com alguma intensidade.
Em Algés a prestação dos Radio Tarifa saldou-se por um ambiente que nunca chegou a ser de festa e pela disciplina de um grupo de saltimbancos. As percussões ficaram-se por jogos sem surpresa com as flautas. Alaúdes árabes fizeram suspirar por Rabih Abou-Khalil. O vocalista espremeu e tornou a espremer a voz, necessitando urgentemente de engolir uma pastilha de Halls-Mentholypyhus. O baixista, em transe, deverá ter batido o recorde mundial de tocar mais tempo o baixo numa nota só. Joaquim Ruiz, o bailarino, trouxe alguma vida à música. Mas, no final, o sentimento geral era de que, por enquanto, os Radio Tarifa – uma mescla mediterrânica de espanhóis, um sudanês, um americano, um francês e um argentino – são um grupo de estúdio.
Os Encontros prosseguem hoje em Guimarães, com Oumou Sangare e Radio Tarifa, e em Coimbra, com Taraf de Haidouks. Amanhã, os Fia na Roca e Radio Tarifa actuam em Évora e Oumou Sangare e Taraf de Haidouks em Algés. No dia 10 será a vez de Oumou Sangare e dos Romanças actuarem em Évora. A 11, Oumou Sangare vai estar em Coimbra, enquanto os Fia na Roca e Taraf de Haidouks vão a Guimarães. Os Encontros terminam no dia 12 em Coimbra, com os Fia na Roca.