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Vários – “Quinta Da Atalaia Recebe 18ª Edição – Festa Do ‘Avante!’ Mais Verde”

cultura >> quarta-feira >> 27.07.1994


Quinta Da Atalaia Recebe 18ª Edição
Festa Do “Avante!” Mais Verde


A FESTA do “Avante!”, na sua 18ª edição, nos próximos dias 2, 3 e 4 de Setembro na Atalaia, Seixal, está mais verde e relvada do que nunca. Esta é, de resto, conforme foi declarado em conferência de imprensa realizada ontem na Quinta da Atalaia, uma das principais preocupações da organização: acabar com a poeirada. Outro dos problemas que tem afectado anteriores edições é o barulho proveniente do palco principal que prejudica a audição de música noutros locais. A solução encontrada, posta de parte a hipótese de voltar o Palco 25 de Abril ao contrário, foi a insonorização de vários pontos do recinto, de forma a impedir a propagação sonora disparada pelo PA, com uma potência nunca inferior a 85 mil watts.
Palco 25 de Abril por onde passarão as atracções principais da festa: Johnny Clegg com os Savuka, da África do Sul, os norte-americanos Hollmes Brothers, estrelas da editora Real World, a superbanda folk inglesa Band of Hope, com Roy Bailey, John Kirkpatrick, Martin Carthy e Dave Swarbrick, e o Guajira Habanera, de Cuba. Maria Alice, cantora de mornas cabo-verdiana, e o saxofonista brasileiro Geová Nascimento representam os PALOP, sendo a delegação portuguesa formada por Carlos do Carmo, UHF – dois regressos -, Sétima Legião com os Gaiteiros de Lisboa, Ala dos Namorados, Peste & Sida, Jorge Palma com Flak, João C. Bom, um grupo de guitarras de antigos estudantes de Coimbra e o projecto “Tocar (no) Zeca”, do saxofonista Carlos Martins, sobre canções de José Afonso. A par dos habituais “stands” nacionais e internacionais, desporto, teatro e gastronomia, estão previstas uma exposição documental, “Sementes de Abril – Os Prelos da Liberdade”, e outra, de artes plásticas, de genérico “Que Viva Abril”, onde estarão representados 44 artistas, portugueses e estrangeiros, ambas no âmbito das comemorações dos 20 anos do 25 de Abril. Cuba será objecto de especial atenção, com a realização de vários debates sobre o mais recente bloqueio económico, além de uma campanha de solidariedade com o objectivo de angariar fundos destinados à aquisição de matérias-primas para o fabrico de medicamentos nos laboratórios cubanos.
Postas de parte estão, garante a organização, quaisquer iniciativas que visem o aproveitamento político da nova portagem, anunciada publicamente no passado domingo, na ponte sobre o Tejo, ponto de acesso privilegiado `Festa do “Avante!”. Mesmo assim, o PCP classificou o anúncio do Governo como um “recuo coxo”, ao mesmo tempo que manifestou o seu “total desacordo” com a nova taxa de solidariedade com os protestos dos utentes.

Palma’s Gang – “Ao Vivo No Johnny Guitar”

pop rock >> quarta-feira, 01.12.1993


Palma’s Gang
Ao Vivo No Johnny Guitar
Ed. Polygram



Uma das correntes dominantes no panorama discográfico nacional passa pela reciclagem da forma das canções, experiência formal em que a criatividade se desloca da composição para se concentrar nos arranjos. “Ao Vivo no Johnny Guitar” é um álbum de rock, cheio de músculo e acidez. Um “álbum de guitarras”, como agora se costuma dizer. Há quatro: uma a guitar do canal esquerdo, de Flak, outra do lado direito, de Zé Pedro, e duas ao centro, de Alex e do próprio Jorge Palma. “Shut up and play your guitar” – é Palma a citar Zappa num disco que, de certa forma, podemos comparar a “Nadir’s Big Chance”, de Peter Hammill (um autor sempre próximo no espírito do português), na maneira como ambos recuperam para um formato rock uma obra em que a palavra, fulcral em ambos, recusa por norma o espartilho de um estilo determinado.
A utilização do rock, com a sua rítmica própria e primária, funciona então emparte como um desafio (aguentarão as canções serem reduzidas à sua forma mais simples?) em que se procura transmutar as limitações do género em acréscimo de energia. Por um lado, é uma certa forma de escapismo, no sentido não depreciativo de libertar tensões acumulads. Catarse necessária. Um exercício de ginástica.
“Com Uma Viagem Na Palma Da Mão”, “Té-Já”, “Acto Contínuo”, “O Lado Errado da Noite” e “Bairro do Amor” contribuem todos com canções sistematicamente esventradas pelas guitarras em quase permanente distorção. Momentos de calma só quando a guitarra acústica de Jorge Palma estanca a fúria em “Maçã de Junho” e num “Bairro do Amor”, que surge como um abrigo no meio de uma tempestade que atinge a máxima violência numa “Razão de Estado” de fazer ranger os dentes. (7)

Vários – “Insurrectos”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 24 OUTUBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


VÁRIOS
Insurrectos
LP e MC, Área Total



Portugueses, jovens e quase todos deprimidos. São bandas marginais à procura de um lugar ao sol, embora para elas faça sempre mau tempo. Outros nomes, mais conhecidos, aproveitam para fazer algumas experiências longe das cedências que o mercado impõe. Como João Peste e Flak, divertidos na contemplação do umbigo. O primeiro num poema fonético que mistura vozes e línguas sortidas, sem rede sem suporte instrumental, o guitarrista, perdido em interessantes abstrações eletrónicas querendo com isso dizer que os Rádio Macau não lhe esgotam a veia criativa. Os Ocaso Épico, ou seja Farinha, são como quase sempre imprevisíveis e experimentais-foleiros. Não lembra ao diabo misturar as percussões metálicas dos Einstuerzende Neubauten com a voz portuense de um empregado de mesa. Para Farinha a associação é mais que lógica – “Um café e um Neubauten”? Porque não? Sempre pops, os Requiem pelos Vivos, prosseguem, em “Dança dos Golfinhos”, a metódica tarefa de reciclagem dos Heróis do Mar. Os Mão Morta estão bem obrigado, isto é, estão mal. No seu caso quanto pior melhor. Adolfo Luxúria Canibal aproveita, em “Véus Caídos”, para destilar mais uma dose de veneno. Do contingente negro da Guarda só os nomes são arrepios: Deadly Gas, Nihil Aut Mors, Pervertidos da Fé. Infernos Joy Division em cujas fileiras há um sem número de Ian Curtis à procura de corda para se enforcar. Não há anjo da Guarda que os proteja. Os Gabardine 12 também cabisbaixos, vingam-se com o divertido da designação. Serão a réplica lusíada das Raincoats? E que dizer da Morte do Régio com um título tão sugestivo como “A Verdade Pura como o Cálice da Nascente Contrária” com texto de “Eu Sou”, produção de “Eu” e a frase “O Régio ou ‘Eu sou eu ou não!?’” Régio, não sei quem te possa responder. Compare-se o título anterior com o “Yuppie Yuppie, lá lá lá” dos M’as Foice, que não se levam tão a sério e até conseguem ser engraçados. Finalmente os More República Masónica voltam a conspirar com a ajuda do rock ‘n’ roll e da turbina Hawkwind. Insurrectos são uns mais do que outros. A maioria só um poucochinho. Aos portugueses jovens e músicos sobre em entusiasmo e espírito de iniciativa o que escasseia em ousadia e originalidade. À cena alternativa falta ainda muito espaço para ser área total. **