Michel Redolfi – “Michel Redolfi apresenta ‘Jungle’ – Selva Para Os Sentidos”

cultura >> terça-feira, 18.07.1995


Michel Redolfi apresenta “Jungle”
Selva Para Os Sentidos


Um concerto de Redolfi é sempre algo mais do que um simples concerto. “Chrysalis”, apresentado há dois dias em Tróia, era para se ouvir e sentir debaixo de água. “Jungle”, um trabalho anterior, vai ter a fragrância de “húmus amazónico” e um ambiente a condizer: a Estufa Fria, transformada em selva tropical.

Convenhamos que não será tão incómodo como estar mergulhado numa piscina, o que aconteceu aos espectadores da obra mais recente de Michel Redolfi, “Chrysalis” – apresentada há dois anos no Festival de Música dos Capuchos -, que quisessem apreciar em profundidade, é o termo, todas as “nuances” desta ópera subaquática. “Jungle” – O Retrato Sonoro da Floresta” não obriga a tanto.
A peça, inédita entre nós, a apresentar hoje na Estufa Fria, em Lisboa, pelas 22h, num espectáculo integrado na programação da 15ª edição deste festival, é para ver, ouvir e cheirar. Vai ser espalhado no ar perfume de madeira e musgo, “húmus amazónico”, criado por Ivan Coste-Manière. Além do olfacto, também os olhos vão ser estimulados pelas pinturas de Hervé di Rosa, especialmente adaptadas às circunstâncias. A música será interpretada ao vivo pelo compositor e director musical Michel Redolfi, nos sintetizadores, Steve Shehan, nas percussões e dispositivos numéricos, e Luc Martinez, nas flautas. O resto será completado pela imaginação de cada um.
Nascido em 1951 em Marselha, Michel Redolfi, começou a interessar-se pelos “concertos submarinos” no início dos anos 80, na qualidade de compositor-residente da Universidade da Califórnia, local apropriado para este tipo de devaneios, diga-se de passagem.
Cosyumava convidar o público a mergulhar na água, em piscinas ou directamente no oceano. Os mais friorentos ou que não soubessem nadar podiam sempre optar pela audição de um disco editado nessa época com o selo Hat Hut, “Sonic Waters”, elaborado no sintetizador digital Synclavier, do qual Redolfi é considerado um dos pioneiros.
Antes, porém, de se dedicar ao meio aquático e de levar os outros com ele, Redolfi fundara já em 1969 o GMEM de Marselha, um dos primeiros centros de música experimental com localização fora de Paris. Só depois é que partiu para os Estados Unidos, onde estabeleceu um trabalho de cooperação com o Darmouth College, no campo da informática musical. Em meados dos anos 80 Redolfi dirige o Centre International de Recherches Musicales (CIRM), em Nice, onde explora, de forma sistemática, as relações da composição electro-acústica com os sons da Natureza. “Desert Tracks”, onde estrutura em forma de música as vibrações telúricas do solo do deserto californiano, e “Appel d’Air” (recenseado no suplemento Pop Rock, em 9-2-94), onde faz ouvir o som do ar, são exemplos discográficos da estratégia musical seguida por Michel Redolfi.
Embora menos conhecido, Steve Shehan é igualmente um músico notável, e sem dúvida mais seco, com ligações conhecidas ao universo da música Pop. Colaborou, entre outros, com John McLaughlin, Ryuchi Sakamoto, John Cale e Jon Hassell. Sem querer influenciar ninguém gostaríamos contudo de chamar a atenção para dois álbuns, por sinal com distribuição nacional: “Arrows”, gravado para a Made to Measure, onde Shehan toca sozinho cerca de meia centena de instrumentos étnicos e electrónicos, e “Assouf”, em duo com o alaudista árabe Baly Othmani.
“Jungle”, a peça que poderemos apreciar esta noite na Estufa Fria, com os olhos, os ouvidos e o nariz no ar, faz parte do ciclo “Carnets Brésiliens” (“Cadernos Brasileiros”), “suite” de músicas compostas a partir de gravações de campo efectuadas por Redolfi na floresta virgem.

Christy Moore – “Prosperous” + “The Iron Behind The Velvet” + “Live At The Point”

pop rock >> quarta-feira >> 12.07.1995


Christy Moore
Prosperous (7)
The Iron Behind The Velvet (8)
TARA, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO
Live At The Point (6)
GRAPEVINE, DISTRI. ETNIA


Na Irlanda e, em particular em Dublin, de onde é natural, o nome de Christy Moore é uma lenda. A ele pertence uma das vozes mais fortes e interventivas da música tradicional irlandesa actual, em que o timbre intimista e aveludado estabelece um contraste único com a violência das suas convicções políticas, ferozmente republicanas. “Prosperous” (“próspero”, mas também o nome de uma localidade no condado de Kildare, onde o álbum germinou), gravado em 1971 e editado em 1972, é a semente que daria origem, no ano seguinte, a um grupo lendário da “Irish folk”, os Planxty. Neste álbum, encontra-se já a formação que viria a lançar a revolução: Donal Lunny (com quem Moore viria a formar mais tarde os Moving Hearts), Liam Og O’Flynn e Andy Irvine. Moore participaria ainda no álbum seguinte, a obra-prima absoluta do grupo, “Cold Blow and the Rainy Night” e no álbum da ressurreição fugaz, “Words & Music”, de 1982, curiosamente um retorno à fase mais politizada da produção a solo do cantor e o regresso a um tema de Dylan, cujo reportório se encontra representado em “Prosperous” por “Tribute to Woody”, homenagem ao tronco mais antigo e comum ao norte-americano e ao irlandês, Woody Guthrie. “Prosperous” abre com “The raggle taggle gipsies” – que viria a ser repescado na estreia homónima dos Planxty – acoplado a “Tabhair dom do lamh”, presente com título diferente no volume cinco dos Chieftains, um grupo com quem Christy Moore viria a manter um contacto regular ao longo dos anos. Em “Prosperous” as palavras – do próprio Woody Guthrie, em “Ludlow massacre” – brilham mais do que a música, ao contrário do que viria a ser a estética dos Planxty, em que a valorização dos aspectos intrinsecamente musicais se sobrepõe a qualquer mensagem ideológica. Além do citado tema de abertura, apenas “Spancillhill”, uma maravilhosa balada ferida pela distância do mar, “The cliffs of Dooneen” (marcada pelas “uillean pipes de Lyam O’Flynn) e “Ramblin Robin” (marcada pelo bandolim de Andy Irvine) trazem já no ventre o embrião dos Planxty.
“The Iron Behind the Velvet”, bastante mais tradicional que o seu antecessor, reúne, além de vários “trad. Arr.”, composições do próprio Moore (como tema inicial, “Patrick was a gentleman”, emblemático de uma forma característica de contar histórias, que se pode encontrar no extraordinário manifesto desta arte que é “Ordinary Man”), Ian Campbell e Joe Dolan, respectivamente fundadores de dois grupos pioneiros do “Irish folk revival”, Ian Campbell Folk Group e Sweeney’s Men. Com uma formação que inclui Andy Irvine, Gabriel McKeon, Jimmy Faulkner, Noel Hill e Tony Linnane (todos fazendo parte da nata…), “Prosperous” é um complemento indispensável da obra dos Planxty.
Para quem não dispensa esta faceta de contador de histórias, há ainda o álbum ao vivo extraído da digressão britânica do ano passado. Sem rede, apenas com uma guitarra acústica, a língua inglesa e o prazer de dizer o que se tem a dizer de caras para o público. “Sempre que as pessoas se congregam e entregam os seus ouvidos à actuação de um artista, algo de único acontece, seja com uma audi~encia de dezenas, de centenas ou de milhares de pessoas…”, escreve Christy na capa. “Live at the Point”, com as suas anedotas, a clássica “drinking song”, ou mais do que isso, “Delirium tremens”, “(…) Sonhei que estava em êxtase no paraíso e em agonia no inferno…” (incluída em “Ordinary Man”), o tema dos Planxty “Well below the valley” e uma interpretação antológica de um original de Ewan McColl, “Go, move, shift”, constituem sem dúvida um momento a conservar.

Quadrilha – “Quadrilha Lança ‘Até O Diabo Se Ria’ – ANTES DE SE SENTAR NUMA CADEIRA”

pop rock >> quarta-feira >> 12.07.1995


Quadrilha Lança “Até O Diabo Se Ria”
ANTES DE SE SENTAR NUMA CADEIRA



Com “Até o Diabo se Ria”, os Quadrilha subiram mais um degrau na escada de evolução dos grupos que tomam como ponto de partida a música tradicional portuguesa, depois da primeira etapa “Contos de Fragas e Pragas”. “Começámos a substituir algumas coisas. Havia um excesso de sintetizador e de computador. Substituímos tudo o que era acordeão sintético no anterior disco por um acordeão mesmo. Ficaram também mais evidentes as guitarras acústicas e a bateria. Fundamentalmente, teve a ver com a produção. Não caminhamos num sentido purista. Não sabemos onde queremos chegar. Temos influências populares, influências simples, bebemos muito na música portuguesa e, de alguma forma, aparece uma influência celta, sem haver qualquer objectivo de purismo. Não somos candidatos a ser uma banda de música popular propriamente dita”.
“Até o Diabo se Ria” sofre (como se referia na crítica ao disco publicada neste suplemento na seman passada) de uma certa aus~encia de peso e profundidade musicais. “Nesse sentido, a Quadrilha é uma banda que musicalmente não tem um carácter muito aprofundado. Talvez haja mais essa concepção ao nível da letra, é aí que procuro ir buscar a raiz. A minha formação musical não é muito popular, venho de uma escola do rock, do chamado rock de garagem; o gosto pela música popular aparece depois. A concepção popular da música em termos de harmonia e melodia nunca é muito aprofundada; aliás, o próprio recurso ao sintetizador como tentativa de expressar alguns instrumentos, como flautas ou acordeões, já por si revela alguma superficialidade em relação à música popular. Digamos que, por enquanto, não consigo arranjar uma forma de conciliar o gosto de tocar instrumentos tradicionais com uma fórmula que permita passar de um tema tradicional para um tema que dê para tocar num concerto para duas mil pessoas. Ao vivo, acabamos por ter uma postura um bocado rock.”
A influência dos Romanças é compreensível, na medida em que os músicos destes dois grupos tocam frequentemente em conjunto, num bar em São Pedro de Sintra: “Os Romanças têm uma vertente muito mais popular que a nossa. Convidámos para o disco alguns elementos, se calhar inconscientemente, até porque a gravação já foi feita há algum tempo e, nessa altura, havia ainda uma certa distância entre os dois grupos. Mas acabamos, de facto, por beber uma influência ou outra, embora nunca tenha sentido que a Quadrilha andasse na peugada deles”, diz Sebastião Antunes. Já as marcas da música irlandesa em “Até o Diabo se Ria” pedem alguma clarificação: “As influências são difíceis de explicar para quem compõe. Gosto de música irlandesa, tenho muitos discos; independentemente de essa influência ser positiva ou negativa, é natural sermos influenciados por aquilo de que gostamos. Um dia, estou a compor e aquilo sabe-me um pouco a irlandês, da mesma forma que outro tema pode ser influenciadopela Beira Baixa ou pelo Alentejo. É lógico que não quero chamar a isso música alentejana ou música irlandesa.”
Por enquanto, os Quadrilha não têm pretensões a ser “um projecto mais profundo, com mais substância, destinado a um número mais restrito de pessoas” – atitude de humildade de Sebastião Antunes, cuja actividade fora do grupo inclui uma faceta pedagógica, de divulgação da música e dos instrumentos tradicionais portugueses, em colóquios e seminários nos estabelecimentos de ensino. “Isso talvez aconteça”, diz, “quando perder um bocado aquele gosto de contactar de forma directa e mais imediata com o público. Acho que preciso de passar mais alguns anos até gostar de me sentar numa cadeira numa sala e fazer o mesmo que grupos como os Toque de Caixa ou Vai de Roda. As coisas têm que ter uma fase própria e é preciso escoar primeiro uma data de energias… Se calhar, é daí que vem a tal falta de pruridos…”