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Mário Pacheco – “Um Outro olhar” + Quadrilha – “Contos De Fragas E Pragas” + Shalom – “Dar De Vaia”

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993

PORTUGUESES


MPP – MÚSICA POPULARUCHA PORTUGUESA

MÁRIO PACHECO
Um Outro Olhar (2)
LP / MC Philips, ed. Polygram
QUADRILHA
Contos De Fragas E Pragas (3)
LP / CD, ed. Ovação
SHALOM
Dar de Vaia (0)
LP / CD Disconorte



Tudo somado, não é nada. A música portuguesa de raiz tradicional incorre actualmente no mesmo tipo de equívoco em que incorreu o rock da era “Chico Fininho” e Luís Filipe Barros. Ou seja, quando a maré parece estar de feição, editar a eito, esquecendo critérios de qualidade e tentando enganar o incauto com o rótulo, de novo na moda, “música popular portugesa”. Da mesma maneira que se chamava “rock português” às montanhas de lixo que então invadiram os escaparates, também agora dizer “música popular portuguesa” serve de disfarce a todo o tipo de mediocridades e oportunismos. Esclareça-se desde já o seguinte, para que não haja dúvidas: qualquer destas três “propostas”, agora atiradas para a praça pública, não tem rigorosamente nada a ver com a dita música popular e muito menos com a tradicional. “Popularucha”, sim, assenta-lhe como uma luva. Comparados com elas os ranchos de Pedro Homem de Mello passam por tratados de etnografia. Dos três, os Shalom (como é possível existir uma banda com um nome destes?) são os que reivindicam com mais força o rótulo “tradicional”. “Dar de Vaia” – expressão popular sinónima de encontro e solidariedade – é o único elemento genuíno num disco que, entre caixas de ritmo e imitações sintéticas de acordeões, não passa de um postal ilustrado para confundir turistas, em tons de rosa “shocking” e azul cueca. De fugir a sete pés – ou dar de frosques, para utilizar também a terminologia popular. Os Quadrilha (antes davam pelo nome de Peace Makers – como é possível ter existido uma banda com um nome destes?), por seu lado, assumem-se como “um grupo de música folk com raízes na tradição celta”. Olha a novidade! Quem é que não se assume? Se até o José Cid se assumiu da “tradição celta” no recente Festival RTP da Canção! Encheram a capa com reproduções de instrumentos medievais e escolheram como logotipo uma harpa estilizada semelhante à que aparece num disco de William Jackson (“Heart Music”). Na prática, seguem na peugada dos Romanças, com um cheirinho a Fausto nas vocalizações, mas perdem-se nos arranjos À base de teclados “tapa buracos”. São mais sérios que os (argh!) Shalom, atrevem-se a cantar José Afonso – em “Chamaram-me cigano” e “A mulher da erva” – e são capazes de ter um caminho a desbravar, a julgar pelos pormenores de qualidade que aqui e ali pingam a conta-gotas em faixas como “Fraga” e “Desnorteio”. Positivos são ainda os textos assinados por Sebastião Antunes, a merecerem melhor sorte do lado musical. Finalmente, Mário Pacheco, guitarrista, é, dos três, o que tem menos pretensões. O que não significa que seja melhor. Filho de um famoso guitarrista de fado, António Pacheco acompanhou, entre outros, Tristão da Silva, António Mourão, Hermínia Silva (anda, Pacheco!), Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, João Braga, Nuno da Câmara Pereira e… Amália Rodrigues. Não se lhe negam as qualidades de acompanhante à guitarra. O pior são as composições, da sua autoria, de “Um Outro Olhar” (a excepção é um tema de Egberto Gismonti), que vão do fado-anemia ao “muzak” de supermercado e “hall” de hotel. Pode haver quem goste. Há gostos para tudo…

Quadrilha – “Quarto Crescente”

19 de Novembro 1999
PORTUGUESES


Quadrilha
Quarto Crescente (6)
Vachier & Associados, distri. MVM


quad

Há anos a jogar na segunda divisão dos grupos de música de raiz tradicional, os Quadrilha têm tentado de várias formas ascender ao escalão principal. Demasiado tempo abrigada à sombra dos Romanças, a banda liderada por Sebastião Antunes persegue uma fórmula relativamente virgem no panorama nacional: o folk rock, sem grandes pretensões de autenticidade etnográfica e voltado para a simplificação e estilização de ritmos e melodias que apenas remotamente cultivam o respeito pela tradição. “Quarto Crescente” denota influências várias que vão dos Romanças e Luís Represas, em Portugal, aos Fairport Convention, em Inglaterra. A instrumentação é mais rica do que em álbuns anteriores e inclui violino, gaita-de-foles, harpa e sanfona. Não chega para fazer de “Quarto Crescente” um álbum essencial, mas tem a virtude de refrescar um som que, uma vez mais, se revelou incapaz de ultrapassar as limitações do costume: pobreza rítmica, leitura redutora da música tradicional, mas também ausência de um verdadeiro espírito de ruptura. Contudo, há momentos em “Quarto Crescente” a merecer alguma atenção, como “Ninguém é dono do mar”, o canto das ondas de “Canto do quarto crescente”, o introspectivo “Lágrima de lobo”, “Má sorte teres sido tu” (daqui poderia nascer um caminho seguramente mais interessante para a Quadrilha), uma “Aninhas” devedora dos Vai de Roda e uma “Valsa da bailarina” que cruza os Ad Ville Que Pourra com Jorge Palma. Ainda não é desta que os Quadrilha subirão à primeira divisão, mas a verdade é que dela já estiveram mais longe.



Artigo de Opinião: “O Futuro Sem Fantasmas” – Brigada Victor Jara, Gaiteiros De Lisboa, Realejo, Quadrilha

POP ROCK
3 de Janeiro de 1996

Especial Balanço 95 Da Música Portuguesa

O FUTURO SEM FANTASMAS


realejo

Uma colheita de ouro, a do ano que findou, de música portuguesa com as raízes mergulhadas na tradição, só comparável à da segunda metade dos anos setenta, com a digestão consumada da ressaca da revolução de Abril.
Três grupos recolheram os louros, assinando trabalhos discográficos notáveis que fizeram a música de raiz tradicional portuguesa avançar um passo de gigante: Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa e Realejo, por ordem cronológica de edição dos respectivos discos, “Danças e Folias”, “Invasões Bárbaras” e “Sanfonia”. Num registo menor, os Quadrilha garantiram o apoio logístico aos generais, com o seu folk rock sem pretensões de maior, em “Até o Diabo se Ria”.
O que faz dos álbuns atrás mencionados obras que vão ficar na história é o facto de cada um deles apontar um caminho no sentido da renovação do legado tradicional. Nenhum está anquilosado no passado. Logo, nenhum deles sofre de artrite, reumatismo ou esclerose. Tal não significa, porém, que se possa passar ao lado, ou, por inépcia, massacrar a música tradicional, por natureza sensível aos maus tratos. Quem conhecer os músicos que compõem tanto a Brigada como os Gaiteiros, verificará que todos eles se submeteram ao longo de anos e anos a um processo de evolução e aprendizagem que se poderá considerar alquímico. Do trabalho de recolha dos primórdios às liberdades tomadas no presente, vai uma jornada longa e, amiúde, dolorosa. Recuperar e actualizar a tradição é perpetuar essa mesma tradição. Criar novas formas a partir do barro exige o conhecimento do barro e as suas técnicas de manipulação. A alma esconde-se na pedra. A luz habita no âmago das trevas. Picasso demorou uma vida até conseguir pintar como uma criança. Umas “uillean pipes” demoram anos até ganhar vida e voz próprias. Não é quem quer, mas quem sabe, quem tem o direito – e o dever – de arrancar a erva daninha e o “folclore”, enquanto deterioração enfeudada a um qualquer poder político, que fazem definhar a verdadeira música – os seus gestos, as suas melodias, as suas cadências, os seus rituais – das comunidades rurais ainda existentes. Não é quem quer, mas quem sabe, quem tem o direito – e o dever – de inventar novas vozes, sobrepondo-se às vozes que levam de vencida e se incrustam no tempo.
A Brigada evitou as rupturas bruscas, apostando no reformismo. Os festejos, sem convulsões, do seu 20º aniversário não poderiam ter sido melhores, não só pela edição de “Danças e Folias”, como pela reedição em compacto de “Eito Fora” e “Contraluz”, culminando num concerto memorável, em Dezembro, no São Luiz. Os Gaiteiros entraram a matar, com a voracidade de predadores. “Invasões Bárbaras” é uma aposta no excesso e na diferença que não deixa ninguém indiferente e volta a agitar as águas mornas de algum contentamento, representando para os anos 90 o que o GAC representou para os 70.
Deixámos para o fim os Realejo, projecto de Fernando Meireles, que partiram de outro lugar e de um outro modo de olhar. Se o objectivo primeiro foi recuperar a dignidade e o prestígio perdido em séculos passados, da sanfona, a verdade é que o som de “Sanfonia”, até pela ênfase colocada naquele instrumento, apresenta características que o aproximam de uma certa forma de “fazer tradicional” disseminada pela Europa, algures entre a música antiga e o folk progressivo das grandes bandas, sobretudo francesas, dos anos 70 (Malicorne, Mélusine, La Grand Rouge, La Bamboche, La Marienne, Maluzerne).
Entre as várias conclusões possíveis de extrair desta trindade que em 1995 ganhou um corpo novo e um novo alento para a música portuguesa, não só tradicional, uma há que se reveste de particular importância. A dessacralização de Michel Giacometti, acompanhada por uma visão mais lúcida e, sem dúvida, mais frutuosa do seu trabalho no campo das recolhas e catalogação dos espécimes étnicos. O seu espólio deixou de ser considerado um mito e, como tal, um dogma, passando a constituir um ponto de referência e de consulta, enquanto material de trabalho prático, à disposição de todos, na condição de não terem mãozinhas de chumbo.
Foi este, aliás, um dos principais tópicos do debate sobre música tradicional e de raiz tradicional portuguesa promovido pelo pop Rock no mês de Novembro, com a presença dos convidados Tentúgal, dos Vai de Roda, Carlos Guerreiro e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge e José Martins (Ó que Som Tem). “O futuro, já!”, título que escolhemos para ilustrar o referido debate, poderia ser, de resto, o lema de uma nova atitude perante a tradição, carregada em simultâneo de sabedoria, ousadia e espírito de inovação. Neste cenário de promessas cumpridas, acompanhado da separação do trigo do joio (1995 foi um mau ano para a “MPP – música popularucha portuguesa”, ou então não se deu por ela, o que vai dar no mesmo…), ficou ainda reservado um lugar de honra para um disco de recolhas onde é possível desfrutar o canto e a música genuínos da população rural de uma localidade de Trás-os –Montes, “Idanha-a-Nova, Toques e Cantares da Vila”, considerado pelo Pop Rock um dos melhores discos de música tradicional do ano, resultado da investigação de José Alberto Sardinha.
A última boa notícia é que o ano que agora se inicia, a confirmarem-se as expectativas, vai ser pelo menos tão bom como o anterior.