pop rock >> quarta-feira >> 12.07.1995
Christy Moore
Prosperous (7)
The Iron Behind The Velvet (8)
TARA, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO
Live At The Point (6)
GRAPEVINE, DISTRI. ETNIA

Na Irlanda e, em particular em Dublin, de onde é natural, o nome de Christy Moore é uma lenda. A ele pertence uma das vozes mais fortes e interventivas da música tradicional irlandesa actual, em que o timbre intimista e aveludado estabelece um contraste único com a violência das suas convicções políticas, ferozmente republicanas. “Prosperous” (“próspero”, mas também o nome de uma localidade no condado de Kildare, onde o álbum germinou), gravado em 1971 e editado em 1972, é a semente que daria origem, no ano seguinte, a um grupo lendário da “Irish folk”, os Planxty. Neste álbum, encontra-se já a formação que viria a lançar a revolução: Donal Lunny (com quem Moore viria a formar mais tarde os Moving Hearts), Liam Og O’Flynn e Andy Irvine. Moore participaria ainda no álbum seguinte, a obra-prima absoluta do grupo, “Cold Blow and the Rainy Night” e no álbum da ressurreição fugaz, “Words & Music”, de 1982, curiosamente um retorno à fase mais politizada da produção a solo do cantor e o regresso a um tema de Dylan, cujo reportório se encontra representado em “Prosperous” por “Tribute to Woody”, homenagem ao tronco mais antigo e comum ao norte-americano e ao irlandês, Woody Guthrie. “Prosperous” abre com “The raggle taggle gipsies” – que viria a ser repescado na estreia homónima dos Planxty – acoplado a “Tabhair dom do lamh”, presente com título diferente no volume cinco dos Chieftains, um grupo com quem Christy Moore viria a manter um contacto regular ao longo dos anos. Em “Prosperous” as palavras – do próprio Woody Guthrie, em “Ludlow massacre” – brilham mais do que a música, ao contrário do que viria a ser a estética dos Planxty, em que a valorização dos aspectos intrinsecamente musicais se sobrepõe a qualquer mensagem ideológica. Além do citado tema de abertura, apenas “Spancillhill”, uma maravilhosa balada ferida pela distância do mar, “The cliffs of Dooneen” (marcada pelas “uillean pipes de Lyam O’Flynn) e “Ramblin Robin” (marcada pelo bandolim de Andy Irvine) trazem já no ventre o embrião dos Planxty.
“The Iron Behind the Velvet”, bastante mais tradicional que o seu antecessor, reúne, além de vários “trad. Arr.”, composições do próprio Moore (como tema inicial, “Patrick was a gentleman”, emblemático de uma forma característica de contar histórias, que se pode encontrar no extraordinário manifesto desta arte que é “Ordinary Man”), Ian Campbell e Joe Dolan, respectivamente fundadores de dois grupos pioneiros do “Irish folk revival”, Ian Campbell Folk Group e Sweeney’s Men. Com uma formação que inclui Andy Irvine, Gabriel McKeon, Jimmy Faulkner, Noel Hill e Tony Linnane (todos fazendo parte da nata…), “Prosperous” é um complemento indispensável da obra dos Planxty.
Para quem não dispensa esta faceta de contador de histórias, há ainda o álbum ao vivo extraído da digressão britânica do ano passado. Sem rede, apenas com uma guitarra acústica, a língua inglesa e o prazer de dizer o que se tem a dizer de caras para o público. “Sempre que as pessoas se congregam e entregam os seus ouvidos à actuação de um artista, algo de único acontece, seja com uma audi~encia de dezenas, de centenas ou de milhares de pessoas…”, escreve Christy na capa. “Live at the Point”, com as suas anedotas, a clássica “drinking song”, ou mais do que isso, “Delirium tremens”, “(…) Sonhei que estava em êxtase no paraíso e em agonia no inferno…” (incluída em “Ordinary Man”), o tema dos Planxty “Well below the valley” e uma interpretação antológica de um original de Ewan McColl, “Go, move, shift”, constituem sem dúvida um momento a conservar.





