ASH RA TEMPEL
Ash Ra Tempel
Spalax, import. Megastore Valentim de Carvalho
7|10
Venerados como deuses das “acid heads” por Julian Cope, foram uma das bandas míticas do krautrock dos anos 70. Rolf-Ulrich Kaiser, patrão da editora Ohr, mais tarde “Cosmic Couriers”, forneceu-lhes o ácido, o estúdio e a idologia, Conny Plank controlou da mesa de mistura, o talento dos “carteiros cósmicos”, Manuel Gottsching, Klaus Schulze e Harmut Enke fez o resto. “Ash Ra Tempel” (1971) é um exemplo da forma como os alemães transpuseram os ventos lisérgicos que pouco antes tinham soprado de S. Francisco, ou o rock das bandas de Chicago (Stooges, MC5) para a galáxia cósmica. Dois únicos temas de eletrónica emitida em direto dos neurónios, compassos de bateria do avesso e divagações de guitarra em busca do acorde supremo conjugam-se numa “trip” sem retorno… Cope chama-lhe “um dos melhores álbuns de rock & rol de todos os tempos”.
É reeditada a trilogia clássica dos Neu!, de Dusseldorf. Do punk ao pós-rock, dos Sex Pistols a David Bowie e aos Stereolab, todos são devedores da motorika de Klaus Dinger. “Neu!”, “Neu!2” e “Neu!’75” aí estão para o provar.
Neu! “Novo!”, em alemão. Orgulhosamente exclamativo. Uma, duas, três vezes, a compor uma das trilogias seminais da história do rock. Depois de anos de esbanjamento, em edições piratas e de promessas não cumpridas pelo selo japonês Captain Trip, “Neu!” (1972), “Neu!2” (1973) e “Neu!’75” tiveram agora finalmente honras de reedição oficial, pela EMI. Não remasterizadas, mas com uma apresentação condigna que reproduz na íntegra a estética proto-punk dos originais.
Os Neu! tiveram origem numa das primeiras formações dos Kraftwerk, da qual fazia parte Klaus Dinger, tendo Michael Rother mais tarde uma passagem fugaz pelo grupo. Dois temas que viriam a aparecer no álbum de estreia dos Neu!, “Im gluck” e “Weissensee”, chegaram a ser apresentados num programa de televisão alemã, em Agosto de 1971, mas em nome dos Kraftwerk.
Porém, com o investimento a 100 por cento – após um par de álbuns “industriais” – dos Kraftwerk na eletrónica, Klaus e o seu irmão Thomas Dinger juntaram-se para fazer uma música marcadamente rítmica que juntava o “groove” maquinal da motorika com um romantismo wagneriano e elementos “noise” e da música concreta.
A edição de “Neu!”, em 1972, explodiu como uma granada punk na kosmischemuzik. Mas se o tempo não era ainda o da negação completa da música, os Neu! foram os primeiros a mostrar que krautrock podia ser algo mais que um infinito e lisérgico passeio pelo cosmos. Apresenta-se a seguir alguns dos termos do léxico Neu!
Motorika. A paprika do groove. Surgiu como uma bomba, ou um motor de explosão, no seio do krautrock de tendência cósmica. Batida metronómica, inflexível, marcial, preferencialmente entregue a um baterista, embora a “ajuda” da eletrónica (em todo o caso a utilização de uma caixa-de-ritmos seria uma vergonha!) seja, não desejável, mas aceitável. Um atraso de meio tempo e o motor entra em “panne”. Tarefa sobre-humana. Para se ser um bom baterista de motorika é preciso ter alma e, sobretudo, braços de cyborg. Boas tripas e um curso de matemática. Os melhores são Klaus Dinger e Jaki Liebezeit, dos Can. A motorika pode ser saboreada, além dos três clássicos dos Neu!, nos La Düsseldorf (“La Düsseldorf”, “Viva!” e “Individuellos”), nos Harmonia (“Muzik Von Harmonia” e “DeLuxe”), duas bandas com a participação de Klaus Dinger, e em Michael Rother, companheiro de Dinger nos Neu! (“Flammende Herzen”, “Sterntaler”), com a participação de Jaki Liebezeit. Os Can eram demasiado étnicos e humanistas para poderem aderir à motorika. Nos anos 90, a motorika trabalha, sem falhas, na fundação dos La! Neu?. Por exemplo, em “Year of the Tiger”, 40 minutos de musculação rítmica, de moer a paciência e hipnotizar os neurónios.
Düsseldorf. Situada na zona industrial do vale do Reno, Düsseldorf foi o berço do ramo mais convulsivo e… industrial, do krautrock. Além dos Neu! e, claro, dos La Düsseldorf, os Kraftwerk, Ibliss, Annexus Quam, Der Plan, Rheingold e D.A.F. são outra das bandas dos anos 70 e 80 oriundas desta cidade marcada por uma intensa atividade noturna e pela influência da indústria da moda. Os Kreidler, os Tarwater e os To Rococo Rot são alguns dos herdeiros desta cultura da máquina forrada a pele humana.
Julian Cope. O ex-líder dos The Teardrop Explodes e o mais mediático admirador do krautrock dedica um capítulo inteiro (10 páginas) do seu livro “Krautrocksampler – One Head’s Guide to the Great Kosmische Musik, 1968 onwards”, aos Neu!, sem contar com a análise crítica aos três álbuns clássicos do grupo. Sobre o seu primeiro embate com a música dos irmãos Dinger escreve: “Nunca tinha ouvido nada de tão diferente, antes, nem voltei a ouvir, depois”. De “Neu!”, diz que “foi a impressão digital de uma nova espécie de rock ‘n’ rol, sem passado nem futuro imediato”.
Discípulos. Com “Neu!”, álbum de estreia de 1972, os Neu! anteciparam o punk em quatro anos. A batida furiosa, a atitude e estética minimalistas abriram o livro na página do “Ur-punk” (o termo pertence a Julian Cope) sem o qual os Sex Pistols jamais teriam podido arrancar as suas folhas. “Never Mind the Bollocks – Here’s the Sex Pistols” é motorika com um ataque de epilepsia, o caos em vez da disciplina. Os Public Image afinaram o motor. David Bowie nunca escondeu o fascínio e a influência determinante dos Neu! (sobretudo o álbum “Neu!’75”) na composição da sua trilogia de Berlim (“Low”, “Heroes”, “Lodger”). Nos anos 80 os DAF vestiram a farda erótico-fascizante derivada do lado mais marcial dos Neu!. O pós-rock voltou a ligar a chave de ignição. Representantes diretos dos Neu!, os Stereolab mimam-lhes o groove-motorika e os títulos das canções. Menos óbvias, mas não menos fortes, até pela mesma proveniência geográfica (Colónia fica mesmo ao lado), são as citações dos To Rococo Rot, Kreidler, Tarwater e Bernd Friedmann. Nos EUA, os Trans AM e os Tortoise pescaram à linha na lagoa de óleo dos Neu!. Mesmo o universo liofilizado dos “clicks & cuts” fez downloads de programas de motorika computorizada (oh, heresia!), através de um projeto como Scratch Pet Land.
La! Neu? Nos anos 90 os Neu! ressuscitaram. Não tanto através da edição de um inútil “Neu!4”, que recupera algum do lixo deitado fora nas sessões de estúdio dos anos 70, mas da criação dos La! Neu? Com os La! Neu? Klaus Dinger a energia que se apagara nos anos 80, jogando na ambiguidade e na ironia de um novo coletivo que juntava os dois projetos principais a que esteve ligado, os Neu e os La Düsseldorf, colando as respetivas siglas mas trocando o ponto de exclamação original dos Neu! por outro de interrogação. Troca legítima na medida em que os La! Neu?, mais do que um grupo estável, são uma espécie de fundação Dinger, na qual têm sido editados álbuns da mulher, dos filhos, dos sobrinhos, dos amigos e dos cães, sempre sob a sua supervisão. Entre exercícios de estilo e trabalhos de dispensável auto-indulgência, vale a pena investigar os CDs de Rembrandt Lensink (“Zeeland”) e dos Die With Dignity (“Kraut?”). Dos La! Neu?, grupo, aconselham-se o primeiro, “Düsseldorf”, e “Year of the Tiger”.
Novos, sempre
É impossível resistir à batida de “Hallogallo”, tema-ícone que abre “Neu!”, o álbum que despejou alcatrão e penas para cima do krautrock. A “motorika” em toda a sua glória, uma outra viatura, paralela à dos Kraftwerk, para acelerar numa auto-estrada de Düsseldorf ou de Lisboa, ou para acompanhar como banda-sonora um ritual sado-maso. Klaus Dinger e Michael Rother detinham a fórmula secreta do groove minimal, mas também a dose certa de paisagismo noisy, urbano-ambiental, que também se revolvia nas entranhas dos primeiros Cluster e Kraftwerk. A música concreta gargareja sobre uma drone de metal em “Im gluck”, raga industrial em contraponto aos mantras faraónicos dos Popol Vuh e “Negativland” é o perfeito prefácio, em broca-pneumática, ao destroyer Einsturzende Neubauten. A “Kosmichemuzik” vergava aos golpes dos Neu!, paradoxalmente apresentados na edição inglesa do disco por Dave Brock, dos Hawkwind, a mais cósmica das bandas cósmicas.
“Neu!2” repete o logotipo e o lettering, agora com um enorme “2” pintado em spray fluorescente. “Fur immer” (título retomado pelos D.A.F.) dispara de novo em “motorika”, levada ao extremo da fúria em “Spitzenqalitat”, gigantesca tareia de rock eletrónico mesclada de onirismo onde se descortinam traços dos White Noise. Quanto a “Lila Engel”, serviu de ensinamento a Johnny Rotten. Mas é o segundo lado de “Neu!2” que a história aponta como exemplo de ousadia, provocação e criatividade. Com apenas metade do álbum gravado, o budget extinguira-se entretanto. Klaus Dinger não hesitou, preenchendo todo o segundo lado com variações de temas antigos, entre os quais o single “Super”, rodado a 16 ou a 78 rotações. “Hallo excentrico” é “Fur immer” cuja fita foi travada no gravador pelas mãos de Michael Rother e do engenheiro de som Conny Plank. Genial e hilariante.
Após um interregno de dois anos e o projeto Harmonia pelo meio, os Neu! voltaram a reunir-se para gravar “Neu!’75”, o mais aclamado dos seus álbuns e aquele que, em definitivo, os projetou como percursores da new wave. Mais calmo e clássico que os seus antecessores, “Neu!’75” deixa perceber facilmente, em temas como “Isi” e “See land”, a influência disseminada pelos Harmonia, no balanço entre o calor dos sintetizadores, o cristal da guitarra de Rother e a batida, menos furiosa e mais ondulante, de Thomas Dinger, que tomara ao seu irmão o lugar de baterista. “Leb wohl”, visão de piano e mar, guarda as sementes de Joachim Roedelius e prenuncia o impacte que a música dos Neu! teria sobre Brian Eno. “Hero” e “After eight” são novas lições de punk eletrónico aos Sex Pistols. Entre elas, “E-musik”, ergue-se como o mais formidável reator de motorika psicadélica que o krautrock alguma vez conheceu, suficiente para colocar “Neu!’75” na galeria das obras-primas.
Nota: Três correções relativas ao texto sobre os Neu! na pág. 8: Afinal as reedições são mesmo remasterizadas (diz nos próprios discos, em letras muito pequeninas…). A editora é a Grönland, subsidiária da EMI. E “Neu!4” não é lixo dos anos 70 mas dos anos 80…
Praticamente desconhecido, mesmo dos mais conhecedores da música progressiva dos anos 70, o nome de Fuschia conquistou, volvidas três décadas, o estatuto de culto, sendo a edição original em vinil do seu único álbum uma raridade. “Fuschia”, editado em 1971, surge agora com uma capa cartonada e sem menção da editora. A gravação leva a fidelidade ao som original ao ponto de reproduzir os ruídos de um vinil já com algum uso… Não, não se trata de qualquer figura de estilo de mais um disco chique de hip hop mas tão só de uma transição de má qualidade. Passemos então adiante, ficando apenas o registo da existência deste estranho objecto desenterrado de um passado esquecido?
Seria assim se “Fuschia” não fosse, como é, um daqueles álbuns possuidores de um estranho fascínio, como se transportasse consigo o perfume de algo realmente valioso. Os Fuschia eram um sexteto acústico onde pontificavam as vozes dos seus três elementos femininos, Janet Rogers, Vanessa Hall Smith (ambas também violinistas) e Madeleine Bland (que também tocava violoncelo, piano e órgão de pedais). Três rapazes encarregavam-se do formato normal guitarra-baixo-bateria, com Tony Durant, o guitarrista, também encarregado das partes vocais. Tocavam um folk-rock gótico de tonalidades sombrias, e contavam histórias de assustar, com castelos perdidos na bruma, paixões bizarras e seres sobrenaturais. Por vezes a música lembra os Comus, de “First Utterance”, noutras os Spirogyra, noutras ainda vem à memória o registo mais doce dos Tudor Lodge, dos Trader Horne e dos Storyteller, com o mesmo gosto pela fábula surreal que Peter Gabriel encetou com os Genesis em “From Genesis to Revelation”. Pode ver-se nesta música (ouça-se com atenção um tema como “A tiny book”, um cruzamento dos Kinks com folk e psicadelismo) uma antecipação ingénua de grupos como os Kula Shaker ou Gorky’s Zygotic Mynci. Ou simplesmente um livro de histórias coberto de poeira para abrir e folhear com cuidado capaz de excitar a curiosidade do melómano-arqueólogo. (Sem editora, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10)
Sem estranheza se qualquer espécie, além do facto de ser albino, o guitarrista Johnny Winter dedicava-se em 1969, como se dedicou (ele e o seu irmão Edgar Winter) durante toda a sua vida de músico, aos “blues”. Mas como a época era de progressivismos, era de bom tom acrescentar-lhe qualquer designação mais rebuscada que a “simples” raiz da música negra e do rock’n’roll. Johnny Winter chamou então a um dos seus trabalhos, “The Progressive Blues Experiment”, uma série de blues eléctricos da sua autoria (mas também versões, como “It’s my own fault”, de Muddy Waters), que acima de tudo deixavam bem vincadas as suas extraordinárias qualidades de guitarrista. Por vezes excitante, sempre carregado de energia (1969 foi, de resto, um ano em que a música parecia querer explodir a cada instante…), “The Progressive Blues Experiment” ficou como um bom exemplo de um movimento, o blues progressivo, que vingou sobretudo em Inglaterra (Graham Bond, Alexis Korner…), onde atingiu o zénite em dois álbuns seminais de John Mayall: “Bare Wires” e “Blues from Laurel Canyon”. (BGO, distri. Megamúsica, 7/10)
Já em plena decadência do progressivo e com o punk a martelar em pleno, ainda havia gente, como os alemães Frumpy, que acreditava que a salvação do rock estava em perder 10 minutos em cada faixa com solos de órgão ou de guitarra e na adaptação de técnicas de execução sacadas á música sinfónica. “Frumpy 2”, de 1976, é considerado o álbum clássico do grupo e há mesmo quem o inclua numa lista dos melhores de sempre do “krautrock” (como os autores da enciclopédia “A Crack in the Cosmic Egg”). Digamos que o “krautrock” não sai propriamente dignificado com esta nomeação, nem os quatro longos temas que aqui correm numa cavalgada de solos a seguir a solos conseguiram fazer com que os fãs dos Deep Purple ou dos Uriah Heep trocassem a adoração por estas bandas pelos Frumpy. Há no entanto momentos de rock sinfónico (ugh!) bem conseguidos e a voz rouca da vocalista Inga Rumpf (que ganhou alguma notoriedade na banda de que fez parte a aseguir, os Atlantis) até conseguirá eriçar alguns pêlos aos entusiastas do hard rock… (Repertoire, distri. Megamúsica, (6/10)
E já que se falou em punk, concentremo-nos em “Hypnotised”, segundo álbum (1980) dos irlandeses The Undertones que, por acaso, nem eram punks mas uma banda do que então se designava “power pop”. A voz de Feargal Sharkey soava aqui tão grande como o seu nariz e “Hypnotised” está repleto de hinos aos rapazes e às raparigas que contam as pequenas alegrias e dramas da vida nos subúrbios em canções directas com melodias, por vezes, viciantes. Como “My perfect cousin”, editado em single e que se tornou um sucesso de vendas, a tal que fala de Kevin, o primo “perfeito” da “upper class”, a quem a mãe ofereceu um sintetizador e, como brinde, os Human League, para o ensinarem a tocar. (Dojo, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).
Fechemos este artigo com uma descida à cave. Para ouvir o rugido que sai das profundezas da música de Jeff Greinke, compositor norte-americano intérprete da vertente mais telúrica da música electrónica. Greinke aprendeu com os ensinamentos de Brian Eno, em “On Land”, só que, em vez da superfície, escolheu como local de meditação, os abismos do interior da terra. “Over Ruins” e “Moving Climates” (agora juntos no mesmo CD) pertencem à sua discografia dos anos 80, tendo sido editados antes, respectivamente em 1985 e 1986, apenas em cassete. O que significa que estão mais próximos das texturas densas de “Timbral Planes” do que da clonagem das paisagens do quarto mundo de Jon Hassell de “Big Weather”. Aqui os sintetizadores de Jeff Greinke eram ainda feitos de pedra, electricidade e lava, fazendo estremecer o solo como os passos de um gigantesco dinossauro. O lado nocturno da música de Steve Roach. (Raum 312, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10).