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Rafael Toral – “Wave Field”

pop rock >> quarta-feira, 15.11.1995


Rafael Toral
Wave Field
ED. E DISTRI. MONEYLAND



“The Wave Field está situado algures numa região longínqua do território ambiental, junto à fronteira de uma área pantanosa onde vibrações abstractas de rocha líquida se dissolvem sob nuvens carregadas de ruído, ecoando alguma irradiação eléctrica”, diz o autor a propósito da sua obra. Nem mais, escrito em inglês e tudo, sem esquecer uma dedicatória (em inglês) a Alvin Lucier e outra, em letras mais pequenas, aos My Bloody Valentine, nem o indispensável aviso (em inglês) aos ouvintes de que “não foram utilizados sintetizadores, mas apenas filtros”. Bom, são três longas composições, sem sintetizador, apenas com filtros, uma do ano passado, as outras deste ano, nas quais Rafael Toral põe a guitarra a ressonar num “continuum” perpétuo. Ao pé dele, a “infinite guitar” de Michael Brook parece uma ejaculação precoce. A bíblia da guitarra demoníaca, “Evening Star”, de Robert Fripp com Brian Eno, continua a ser o ponto de referência. Ouvido com muita atenção e com dez quilos de LSD no bucho consegue-se mesmo descortinar o som de “vibrações de rocha líquida dissolvidas sob nuvens carregadas de ruído, ecoando alguma irradiação eléctrica”. Ou será o ruído do motor do leitor de compactos? (4)

Christoph Heeman – “Invisible Barrier” + Mo Boma – “Myths Of The Near Future, Part Two” + Pablo’s Eye – “You Love Chinese Food” + Vidna Obmana – “The Spiritual Bonding”

pop rock >> quarta-feira >> 01.11.1995
curtas


Christoph Heeman
Invisible Barrier



Mesmo no catálogo de excentricidades que é a Extreme, torna-se difícil enquadrar um disco como “Excess of Free Speech”, embora a página ao lado possa ser ocupada, na mesma editora, pelos Social Interiors. Tomando o “ambiental” e o “industrial” como referências extremas, Heeman teoriza sonicamente sobre os estratos subliminares da banda-sonora, retirando-lhe quaisquer veleidades de um discurso descritivo. Música electrónica em flutuação onde os sintetizadores, a samplagem de acontecimentos musicais distantes e gravações em fitas de sons naturais se misturam na criação de um espaço sonoro sem fronteiras ao qual se poderia chamar “música concreta ecológica”. (8)

Mo Boma
Myths Of The Near Future, Part Two



Se Heeman representa a dificuldade de leitura e a ausência de parâmetros convencionais, a segunda parte dos “mitos do futuro próximo” dos Mo Boma é, pelo contrário, imediatamente localizável em pleno território das “músicas do quarto mundo” aberto por Jon Hassell, neste caso tomando como ponto de partida duas novelas de J.G. Ballard, escritor de F.C.. Percussões líquidas e sintetizadores a murmurarem no meio da selva, se não chegam para alcançar a grandeza do mito, proporcionam contudo um passeio agradável (e seguro) pelos labirintos da imaginação. (7)

Pablo’s Eye
You Love Chinese Food



Do título às gravures e literature inclusa, passando pela própria sequência dos temas, tudo clama pelo termo “surrealismo” para carimbar este filme sem legendas realizado pelos Pablo’s Eye, quarteto de origem belga. Como no cinema de Bunuel, o que, neste caso os sons, deixam perceber é uma lógica decorrente do sonho e do inconsciente. A primeira parte sugere um cerimonial “étnico” celebrado numa noite sem lua, interrompido pelo registo declamatório da voz de Marie Mandi. A segunda passa rapidamente da pulsão industrial para as ruínas ensanguentadas outrora ocupadas pelos This Mortal Coil. Na terceira, tudo se volta a dissolver num charco de venenos e ácidos ambientais. Comida chinesa estragada. (7)

Vidna Obmana
The Spiritual Bonding



O deserto tem vindo a conquistar um número crescente de adeptos entre os praticantes da nova escola electrónica californiana, como espaço privilegiado de silêncio e, ao mesmo tempo, carregado de sugestões oníricas. Vidna Obmana, projecto de um músico só, encontrou nele a plataforma ideal de “comunicação e elevação espiritual”, bem como a fonte de inspiração de uma música tão próxima do batimento rítmico de um Steve Roach (ele e Robert Rich, dois navegantes das dunas do Arizona, participam justamente no disco) como da veia ritualista de um Jorge Reyes. Viagem astral garantida. (8)

TODOS EXTREME, DISTRI. ANANANA

Ildefonso Aguilar – “Erosión”

pop rock >> quarta-feira >> 03.05.1995
reedições


Ildefonso Aguilar
Erosión
NO-CD, DISTRI. ÁUDEO



Editado originalmente em 1978, “Erosión” foi agora reeditado pela primeira vez na sua versão integral de mais de 70 minutos. Sendo, para nós, até à data, um completo desconhecido, Ildegardo Afonso faz parte dawuelas descobertas tardias que nunca fizeram parte da história da música popular mas que tantas vezes transportam consigo um segredo bem guardado de mais-valia musical. Sobre ele apenas ficamos agora a saber que é mexicano e sobre esta obra apenas que foi inspirada na paisagem da ilha de Lanzarote, no arquipélago das Canárias (José Saramago tem lá uma casa…). Música electrónica ambiental, telúrica, esmagadora nas suas arquitecturas à escala do Cosmos, “Erosión”, dividido em quatro partes conceptuais, tem a beleza de um jardim de estátuas esculpidas em magma, cujas formas somente os sintetizadores analógicos são capazes de criar. Poderia ter sido um clássico do género, se alguém tivesse tomado conhecimento da sua existência. 1978: o “punk” divertia-se na sua tarefa destruidora de curto alcance, os “industriais” ensaiavam as primeiras engrenagens, Klaus Schulze experimentava o último grito em sintetizadores para repetir pela enésima vez as suas variações de Wagner cibernético, Brian Eno deambulava pelos aeroportos, a pop procurava a dignidade perdida nas pistas de “disco-sound”. Retirado em Lanzarote, Ildefonso descia às entranhas da terra, banhando-se na lava de um vulcão. Subliminal, por vezes aterrador, “Erosión” é o negativo da “Kosmisch Muzik” – embora uma sequência como “El vuelo del ‘bu’ ácromo y el despertar del ‘bú’ rojo” recorde tanto o Klaus Schulze de “Cyborg” como os Tangerine Dream de “Zeit” – antecipando, com meios artesanais, a vaga de fundo que a meio da década de 80 viria a brotar das profundezas, através dos sulcos abertos por Jeff Greinke, Peter Frohmader ou Paul Schütze, entre outros mineiros e espeleólogos do som. (8)