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Devo – “Hot Potatoes: The Best Of Devo”

pop rock >> quarta-feira, 08.09.1993
REEDIÇÕES


Devo
Hot Potatoes: The Best Of Devo
CD Virgin, distri. EMI-VC



Génios ou batatas? No caso dos Devo, talvez a resposta certa seja que foram batatas geniais. Entre a postura pós-atómica e imbecilóide que ostentavam (expressa, por exemplo, na predilecção dos membros da banda em se vestirem daqueles tubérculos, como na presente colectânea) e o som sintético-futurista aliado a melodias pop irresistíveis, mistura que seduziu o próprio Brian Eno, a banda de Akron surgiu na altura (finais dos anos 70) décadas è frente da “new wave”. Aos Devo se deve a criação de uma teoria confusa e pouco científica, mas estranhamente profética dos tempos que haveriam de vir, a “de-evolution”, explanada em temas como “Jocko-homo” e “Mongoloid”, cuja correspondência visual, em vídeo, mostrava um bebé mongoloide a introduzir a mão numa torradeira eléctrica ligada. Versão paródica da “cold wave” europeia, a música da banda deu corpo e cérebro a um som diferente, estranho e bem-humorado, por vezes perturbante (quando se atravessava a camada de plástico dos arranjos e do “nonsense” dos textos), que a situava como parente deficiente mental dos Residents, que por seu lado costumavam disfarçar-se de camarões, de Beatles e de globos oculares.
Os sintetizadores e as guitarras motorizadas manipuladas pelos manos Casales e Mothersbough, juntamente com o “beat” esquizoide de Alan Myers, fizeram dançar ao som do holocausto uma nova geração de jovens saturados do punk e reconciliados com a electrónica, num par de exercícios delirantes de de-evolução: “Q: Are We not Men? A: We Are Devo” e “Duty now for the Future”. Dois portentos de minimalismo pop em estado de graça num universo alternativo, apenas retomado, embora em toada mais bm comportada, em “New Traditionalists”. A presente colectânea recupera praticamente os mesmos temas de um “greatest hits” editado há alguns meses pela Warner e inclui todos os melhores temas da banda: “Jocko-homo”, “Mongoloid” (os dois a abrir, em jeito de manifesto), “Satisfaction (I can’t get me no)”, “Whip it”, “Through being cool”, “Gates of steel”, “Come back Jonee”, “Secret agent man” (a melodia pop perfeita), “Beatiful world”, “Whip it” (com nova mistura), entre outros. Os tempos chegaram para a de-evolução. (8)

Syd Barrett – “A Crazy Diamond”

pop rock >> quarta-feira, 09.06.1993
REEDIÇÕES


COMO DESTRUIR UM MITO

SYD BARRETT
A Crazy Diamond
3xCD Harvest, distri. EMI-VC



Mais uma caixa, desta feita contendo a discografia completa a solo do lunático que iluminou a fase inicial dos Pink Floyd com a lâmpada do psicadelismo: os dois álbuns oficiais de originais, “The Madcap Laughs” e “Barrett”, mais a adenda “Opel”, os três acompanhados por um livrete que narra passoa a passo a carreira do músico desde os tempos de “Arnold layne” ao afogamento na loucura.
Se Barrett é hoje um mito, tal deve-se mais à aura de estranheza e de diferença que sempre rodearam o seu nome do que às suas virtudes como músico. Imagem que até os seus antigos companheiros nos Pink Floyd não se dispensaram de reforçar quenado lhe fizeram a dedicatória na faixa “Shine on you crazy Diamond” de “Wish you were here”. Se a presente colectânea tinha como objectivo preservar essa imagem do “génio” incompreendido, mártir da sua arte, a táctica escolhida resultou no inverso, esfarrapando a lenda ao mostrar, em toda a nudez, um mau cantor e guitarrista, em pleno processo de desagregação mental. E isto porque se foram desenterrar todas as “takes possíveis e imaginárias de temas que encontraram a sua forma definida e mais ou menos estável (?) nos tais dois primeiros álbuns, esvaziando-os, sem que desse processo se obtivessem quaisquer contrapartidas. Os “bonus tracks” que foram acrescentados a cada um dos álbuns de originais não passam de esboços inacabados, hesitações, gravações de estúdio que exibem com despudor um Barrett totalmente incapaz de cantar afinado, em sucessivas tentaivas para conseguir acabar um tema do princípio ao fim, entre tossidelas, paragens, frases soltas e as instruções dadas tores do lado de fora da cabina.
Deste modo, “The Madcap Laughs”, um álbum que vale essencialmente pelo “nonsense” dos textos, mais do que pela inspiração melódica, e “Barrett”, este sim, já mais próximo de uma obra acabada, muito por culpa da produção de David Gilmour, perdem com os enxertos. Qual o interesse de dar a ouvir um (mau) ensaio da repetição inconsequente de temas como “Dominoes” ou “Love you”? O valor musical é nulo. Há, evidentemente, o interesse documental, mas mesmo aí o livrete incluso acaba por desempenhar melhor a tarefa. “Opel”, nesta medida, é mesmo perfeitamente dispensável, passando da manta de retalhos que já era ao puro desperdício, um pouco o disco pirata de um artista de terceira ordem.
No mei de tanta inutilidade e até de um certo mau gosto, visível na leitura parola da estética psicadélica utilizada nas novas capas (como as originais aparecem, apesar de tudo, no inverso, é sempre possível, para quem ainda não tiver os originais, dobrá-los do avesso), sai maltratado Syd Barrettt, reduzido à figura do demente cuja inspiração se desvanecia passado o efeito do LSD e de quem preferiremos guardar para sempre os sonhos floydianos de “The Piper at the Gates of Dawn”. O que se segue? As gravações integrais das festas de aniversário do filho mais velho de Roger Waters? (4)

Vários – “Etnoscopias” (editora | ecm)

fim de semana >> sexta-feira >> 07.05.1993





Etnoscopias


Jan Garbarek é o fio de prumo e o fio condutor das muitas músicas que se espraiam pela ECM. O saxofonista e compositor norueguês perfila-se como um catalisador das propostas não jazzísticas que o selo de Manfred Eicher desde sempre vem apresentando. Não espanta, nesta medida, que lhe tenha cabido a honra de assinar o disco número 500 do catálogo, através de “Twelve Dreams”, por sinal um dos seus piores discos de sempre. Mas festa é festa e há maneiras piores de apagar as velas.
Do “free” que caracterizava as primeiras obras a uma postura contemplativa que em absoluto renega a improvisação, longo e tortuoso tem sido o trajecto de Garbarek no seio da ECM. Se nos congirmos ao território, repleto de armadilhas e decorativismos enganadores, dos sons indirecta ou directamente conotáveis à “world music” (designação que nada diz mas que facilita a arrumação da música que não é rock nem jazz nem provém da Ingalterra ou dos Estados Unidos…), Jan Garbarek lá está, sonoplasta das culturas não ocidentais e não anglo-americanas do mundo.



A perspectiva sob a qual Garbarek aborda as diversas linguagens tradicionais é, no mínimo, curiosa. Não se trata, como no caso dos Oregon, de qualquer tipo de fusão, mas antes do confronto e do diálogo entre códigos diferentes num processo de estimulação mútua. O resultado desta estratégia pode ser apreciado em obras como “Making Music”, com o tocador de tablas inidiano Zakir Hussain, “Song for Everyone”, com o violinista damesma nacionalidade, Shankar, ou, mais recentemente, com o cantor paquistanês Ustad Fateh Ali Khan. A vertente étnica planificada e colorida segundo uma visão cinematográfica. Enredos ancestrais projectados em cinemascope e technicolor.
Mas é na reconversão do folclore do seu próprio país para forma contemporâneas que Jan Garbarek alcançará uma maior coerência estética entre o lirismo do seu saxofone e as raízes tradicionais.
Experiência que o músico aprofundará em “Legendo f the Seven Dreams” e, em estado de graça, na liturgia “Rosensfole”, inteiramente baseada em temas da tradição medieval norueguesa que a cantora Agnes Buen Garnas interpreta à beira do sublime. Em “I Took up the Runes”, na companhia de outra cantora tradicional, Ingor Antte Ailu Galp, é já visível a cedência ao “bonito e agradável” em detrimento do sentido do sagrado. Compromisso com uma fórmula que terá resultado em termos comerciais, mas que no disco 500, “Twelve Moons”, se traduz num festival de lugares-comuns e piscadelas de olho ao gosto dominante, não faltando sequer as vozes, neste caso perfeitamente dispensáveis, de Agnes Buen Garnas e Mari Boine Persen, de “Gula Gula”, editado na Real World.
Felizmente as incursões pelas paisagens musicais exóticas do planeta não se esgotam num glaciar da Noruega. Outros músicos apresentam obra consistente e uma alternativa, sonora e conceptual, ao papado de Garbarek. Entre eles, três nomes se destacam, com discografias plurais na ECM: Shankar, Steve Tibbetts e Stephan Micus, aos quais se poderão acrescentar os de Jon Hassell, em “Power Spot”, e de Egberto Gismonti, em “Kuarup”, inspirado nos sons da Amazónia. Num nicho separado habita, resplandecente, o álbum “Nafas”, de Rabi Abou-Khalil, na companhia dos altos dignatários da corte “etno”, Glen Velez, Selim Kusur e Setrak Sarkissian. Um dos monumentos mais belos alguma vez erigidos à música árabe.
Shankar, o “virtuose” do violino de dois braços, alterna na sua obra o excelente com o péssimo. No cume da montanhya respiram “Who’s to Know” e “Pancha Nadai Pallavi”, fiéis na forma e no estilo ao arquétipo da “raga” indiana. O encontro feliz da Índia com a música pop ocorre em “Nobody Told Me” e “Song for Everyone”. O descalabro ficou reservado para o projecto Epidemics, no qual a pop vestida de “saari” desce ao nível dos filmes indianos que há alguns anos esgotavam as lotações do Odeon.
Sem descidas ao pantanal está a totalidade da obra assinada pelo guitarrista Steve Tibbetts, algures entre o intimismo e misticismo de John McLaughlin do príodo Shakti, o rock de alta tensão e a levitação nas brisas orientais. Se “Yr” e “Big Map Idea” raramente condescendem em sair da beatitude, já “Safe Journey”, “Northern Song” e “Exploded View” são capazes de proporcionar genuínas descargas de adrenalina.
Wuem preferir, pelo contrário, permanecer no nirvana, pelo menos durante o tempo que demora uma audição, tem à sua disposição o incenso, as orações e o altar de Stephan Micus. Na obra deste compositor de ascendência bávara, a música nasce a partir de um profundo acto de interiorização a par do estudo aprofundado dos timbres de instrumentos exóticos recolhidos um pouco por todo o mundo. Desta confluência entre espírito e forma (enquanto “molde”), entre o silêncio e a vibração pura, entre o canto regido pelos cânones tradicionais e a manipulação de objectos sonoros como vasos (“Wings over Water”) ou pedras (“The Musico f Stones”), a arte de Stephan Micus atinge o ponto máximo de depuração no minimalismo zen de “Koan”, nas vagas de cristal de “Ocean” e no sorriso de felicidade que se abre em “To the Evening Child”.
Desperto para a eternidade, alquimista da matéria sonora, asceta vagueando por entre a pluralidade e a voragem consumista do mundo, Stephan Micus devolve-nos a simplicidade e ensina-nos a escutar as águas da fonte.