BANDAS NOVAS
O POP/ROCK anda à procura de novos artistas e bandas portuguesas. Não temos preconceitos de línguas, cores ou paladares musicais. Só precisamos que nos enviem gravações e um contacto telefónico. Fotos e biografias não são obrigatórias, mas muito convenientes.
HOJE GUIMARÃES, AMANHÃ BELÉM
Tocar Bach, Vivaldi ou Prokofiev com guitarras eléctricas e bateria recorda de imediato o rock sinfónico dos anos 70 e bandas como os Ekseption, The Nice ou Emerson, Lake and Palmer. Pois é isto mesmo que fazem os Neo Simphonyx, uma banda de Guimarães que pretende “fazer chegar a música clássica a todo o género de ouvintes, em qualquer faixa etária”.
“Temos uma interpretação da música baseada muito nos originais, tal como foram compostos”, elucida Paulo Magalhães, um dos dois guitarristas do grupo, com formação clássica. As guitarras eléctricas, o baixo e a bateria substituem os instrumentos clássicos. “Os violinos, essa coisa toda, as pessoas não estão para ouvir esse tipo de instrumentos. Não têm paciência, não estão habituados, até porque a música, hoje, é mais eléctrica”. O grupo andou algum tempo a tocar Police e Queen, até chegar ao momento em que optaram pela recriação do reportório clássico. Embora a maioria dos elementos tenha formação clássica, os arranjos são feitos “de ouvido”: “Tiramos as partes mais graves para o baixo, as melodias principais para as guitarras, se houver mais, são feitas pelo teclado. Ao vivo conseguimos criar uma sonoridade quase de orquestra”.
Escolher as obras é que foi “um bocado complicado”. Mozart, Beethoven e Bach são os eleitos, só que muitos temas destes compositores “não davam para tocar ao vivo, não era possível fazer a transposição”. Gastaram quase dois anos neste processo de selecção, até chegarem ao actual alinhamento que inclui peças, além destes compositores, de Fauré, Richard Strauss, Prokofiev, Tchaikovsky, Rossini e Bizet.
“A nossa música está muito na linha do rock sinfónico”, confirma Paulo Magalhães. A mesma linha seguida pelo outro lado deste projecto, que talvez se passe a chamar simplesmente Simphonyx, onde os cinco músicos, mais o vocalista Carlos Barros, se dedicam a compor e interpretar apenas originais do grupo, como “Masquerade” e “Red moon”, com letras em inglês que falam do “Imaginário”, do “belo” e do “futurista”.
Gostavam de gravar um disco. Mandaram uma maqueta “para todas as editoras nacionais”. E para o estrangeiro, “seguramente aí para umas 30 ou 40”. Receberam quatro ou cinco respostas do estrangeiro, “principalmente da Alemanha”. “Ficaram com a cassete em arquivo, para posterior análise”. De Portugal não receberam nenhuma, a não ser da Independent records que, embora tecendo elogios à banda, disse “não ter hipóteses de editar o trabalho”.
Ao vivo, os Neo Simphonyx não descuram uma apresentação adequada à música que fazem. Vestem-se a preceito com trajes do século XVIII, que mandaram fazer, e utilizam projecções de imagens alusivas aos temas. Já tiveram uma bailarina, mas a escassa dimensão dos palcos, impediu a continuação da experiência. Mas levam um poeta para declamar poemas da sua autoria.
Os Neo Simphonyx têm tocado sobretudo nos bares dos arredores de Guimarães, no Porto e em Famalicão, aqueles com ambiente mais calmo, onde as pessoas podem ouvir, mas o seu grande sonho é poderem um dia “tocar no CCB, acompanhados por uma orquestra”
Nome Neo Simphonyx
Origem Guimarães, em 1989
Formação Martinho (guitarra), Paulo (guitarra), Mota (baixo), Carlos (bateria) e Martinho (teclados e guitarra)
Ponto alto Chegar à formação ideal, à qual chegaram somente há dois anos atrás. Antes “eram só trocas de guitarristas e do baixista”. Em termos de actuações ao vivo: Concerto num concurso realizado da discoteca Komplexus, em Famalicão, onde alcançaram o 2º lugar. “Estavam cerca de três mil pessoas e fomos muito bem recebidos”.
Progressivo. O termo seduz muitos e assusta alguns. Hoje, porém, já há quem escreva, sem vergonha, coisas como “progressive house”, “progressive techno”. Mais do que uma estética ou um estilo, o Progressivo foi – é -, antes de mais, uma atitude que vingou em Inglaterra, entre 1970 e 1975. Todas as modas que atravessaram a década seguinte não foram suficientes para apagar aquela que foi uma das épocas mais originais e produtivas da música popular. É assim que 1996 assiste à consagração de velhos dinossauros como os Jethro Tull, este ano nas comemorações do seu 30º aniversário, mas também ao ressurgimento de fenómenos como “rock alemão”, ou Krautrock, na expressão agora recuperada por Julian Cope, no seu livro “Krautrock Sampler”, tornado bíblia do Progressivo. Grupos como os Faust, Amon Düül II, Can e Neu! voltaram a gravar e a tocar ao vivo, com os primeiros a assinarem um dos grandes álbuns do ano passado, “Rien”. O facto ganha maior relevância quando se sabe que bandas recentes como os High Llamas ou Stereolab reivindicam os papas do rock alemão como uma das suas principais influências. Quem se aproveitou do período de sombra que cobriu o Progressivo, em Inglaterra, ao longo da década de 80, foram os chamados “neo progs”, aprendizes bem-intencionados mas de magros recursos no que respeita a criatividade e personalidade próprias, que copiaram sem moderação os modelos antigos. “Neo progs” como Marillion, Twelfth Night, Pallas, I. Q. ou Pendragon. Pelo contrário, editoras como a Cuneiform ou Recommended, mantiveram acesa a chama, com muitos dos seus artistas a passarem por uma quase clandestinidade sob o caudal das modas, enquanto outras, como a francesa Musea, a Si-Wan coreana ou a Repertoire alemã, se têm dedicado sobretudo à reedição tanto de clássicos como de trabalhos mais obscuros do Progressivo, preenchendo um mercado em franca ascensão. Os verdadeiros “progressivos”, posteriores aos anos 70, de um e do outro lado do Atlântico, davam por nomes tão estranhos como Univers Zero, Art Zoyd, Birdsongs Of The Mozosoic, Aksak Maboul, 5 Uu’s ou Motor Totemist Guild. Por outro lado, a implantação das chamadas “músicas do mundo” provocou um interesse renovado pelas bandas pioneiras do folk “progressivo”. Numa altura em que cada vez mais bandas novas descobrem as virtudes da electrónica analógica, o PÚBLICO apresenta o seu manual de orientação, de A a Z, do Progressivo.
PROGREDIR DE A A Z
Americanos – Foram eles que deram má reputação ao Progressivo, conotando-o com o “rock sinfónico”. Mas a decadência vingou, nos Boston, Kansas, Journey e quejandos.
Bandas – Na década de 70, o colectivo sobrepôs-se ao individual. Foram os grupos que ficaram para a História. Era difícil a uma pessoa só tocar 40 instrumentos ao mesmo tempo… Personalidades, houve Robert Wyatt, Kevin Ayers, Daevid Allen (os excêntricos de Canterbury), Brian Eno, John Martyn, Nick Drake, Neil Ardley, Mike Oldfield e o seu parceiro das orquestrações David Bedford, Roy Harper, Robert Fripp. E David Bowie e Peter Gabriel, mundos à parte. E Peter Hammill, um mundo ainda maior e mais à parte.
Canterbury – Em 1961, um grupo de estudantes de arte – Robert Wyatt, Mike Ratledge, Kevin Ayers e Daevid Allen – formava na pequena localidade de Canterbury, no Sul de Inglaterra, um grupo, os Wilde Flowers, que estaria na origem do subgénero mais importante e “cool” do Progressivo e ficaria para sempre designado pelo seu local de origem. O som “canterbury” caracterizava-se por vocalizações pastoris, experimentalismo pop, jazz diletante e um órgão electrónico saturado de “fuzz”. Soft Machine, Gong, Egg, Caravan, Hatfield and The North, Gilgamesh, Matching Mole, os primeiros Camel, National Health, Soft Heap, Khan são nomes de ponta de um movimento que nos Estados Unidos se prolongou pelos Happy The Man, However e Muffins. No Japão, os Ain Soph são os representantes oficiais de Canterbury. Na Internet, existem pelo menos dois sítios que lhe são dedicados – Calyx e Musart.
Dean, Roger – Não se falava em crise e as capas dos álbuns desdobravam-se em metros e metros de papel. Álbum “progressivo” digno desse nome era obrigado a ter uma capa de abrir. Entre os desenhadores de capas que fizeram escola, Roger Dean distinguiu-se pelo onirismo e originalidade dos seus traços, criando um estilo inconfundível que outros, depois dele, copiaram. Ficaram célebres as capas dos Yes, mas também os Budgie, Greenslade, Gentle Giant, Uriah Heep e Osibisa tiveram a sua música embrulhada nos sonhos gráficos de Roger Dean. A capa do “Mellon Collie”, dos Smashing Pumpkins, é “progressiva”.
Electrónica – Fez escola na Alemanha, mas também em Inglaterra (David Vorhaus/White Noise, Seventh Wave, Ron Geesin, Tonto’s Expanding Head Band), Itália (Franco Battiato, Pierrot Lunaire), Estados Unidos (Ned Lagin, Beaver & Krause) e, sobretudo, em França, sob a tutela de Pierre Henry (Pôle, Heldon, Lard Free, Bernard Szajner, Alan Markusfeld). A parafernália electrónica posta à disposição dos músicos favoreceu igualmente o aparecimento de monos como os de Hot Butter, primeiro grupo a levar a pop electrónica ao 1º lugar do “top” de singles britânico, com “Popcorn”.
Folk “progressivo” – Nasceu da fusão do psicadelismo com a folk tradicional, casando bem com a inventividade do Progressivo. Steeleye Span, Fairport Convention, Pentangle e Strawbs inventaram o “folk rock”, deixando para as bandas “menores” a missão de se perderem em sons menos catalogáveis. Trees, Dando Shaft, Spirogyra, Mellow Candle, Dr. Strangely Strange, Tudor Lodge, Magna Carta, Trader Home, Forest, C.O.B., Fuchsia… Os Incredible String Band constituem uma lenda à parte. Na altura eram “hippies” e loucos. Em 1996, começa-se a compreendê-los.
Gentle Giant – Os estetas do movimento. Fizeram a síntese da música contemporânea, das polifonias medievais, no minimalismo, da “folk”, do “hard rock”, do psicadelismo, de tudo, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Os manos Shulman e o teclista Kerry Minnear tocavam todos os instrumentos e todas as culturas, “Gentle Giant”, “Acqiuring The Taste”, “Three Friends”, “Octopus” e “In A Glass House”, os cinco álbuns da fase inicial, são obras-primas do Progressivo que ainda hoje se escutam como se fossem novidades.
Harvest – Selo célebre, dos poucos a poder competir com a Vertigo. O seu maior troféu são os Pink Floyd e as capas da Hypgnosis, que se juntaram no marco do Progressivo, “Atom Heart Mother”. Albergou uma chusma de lunáticos: Tea & Symphony (“Na Asylum For The Musically Insane” deve ser o álbum mais esquizofrénico de todo o Progressivo ou lá o que for…), Battered Ornaments, Pete Brown & Piblokto, Quatermass, The Greatest Show On Earth, Third Ear Band, Forest…
Italianos – Em Itália, os “progressivos” liam pela pauta, não desdenhando a sua herança clássica. Van Der Graaf Generator, King Crimson e Emerson, Lake & Palmer foram os modelos eleitos por grupos como Premiata Forneria Marconi, Banco, Celeste, Le Orne e Il Balletto di Bronzo. Bastante mais interessantes são as propostas radicais dos Area, Arti & Mestieri, Dedalus, Stormy Six ou Picchio Dal Pozzo, que preferiram expor-se à audição de Zappa e dos Henry Cow.
Jazz – Miles Davis aproximou-se do Progressivo em “Pangaea”. E Sun Ra, nos álbuns com lados inteiros com solos de Moog, como a gravação ao vivo “Nuits de la Fondation Maeght” e “It’s After the End of the World”.
Krautrock – Julian cope recuperou para a actualidade um termo que designa uma infinidade de propostas musicais originárias da Alemanha. A “kosmische Muzik” de Klaus Schulze, Ashra e Tangerine Dream. O rock anarquista dos Guru Guru, Grobschnitt, Amon Düül II e Floh de Cologne. O romantismo dos Wallenstein, Hoelderlin e Parzival. O tribalismo dos Can e Embryo. O jazz-rock híbrido dos Release Music Orchestra, Annexus Quam e Kraan. O misticismo dos Popol Vuh e Yatha Sidhra. O industrial “avant la lettre” dos Cluster e Kraftwerk. O minimalismo dos Neu!, Harmonia e La Dusseldorf. A revolução total dos Faust. Pete Namlook, Jeff Greinke, Peter Frohmader, Holger Hiller e Asmus Tietchens são alguns dos seus actuais sucessores.
LSD – Lucy desceu do céu e trouxe diamantes. O consumo baixou, em comparação com a gulodice dos psicadélicos que na década anterior provocaram a ruptura de “stock”. Os “progressivos” também tomaram a pastilha mas a necessidade de rigor não se compadecia com as desbundas do “acid rock”. Os filósofos “sérios” e a literatura fantástica e de ficção científica foram dissecados enquanto Timothy Leary ficou guardado para os feriados. Era preciso ter a cabeça no lugar, para juntar o onirismo a um perfeccionismo por vezes quase maníaco. Os Gong nunca tiveram esse problema…
Moog – Durante o Progressivo, o reinado das guitarras cedeu ao dos teclados electrónicos. O sintetizador Moog e o “mellotron”, um órgão de cassetes que reproduz sonoridades orquestrais, funcionaram como símbolos da aventura sonora de uma época. Actualmente, assiste-se à recuperação destes dois instrumentos. Nenhum “sampler” conseguiu igualar o calor do LFO (Low Frequency Oscillator) do velhinho Moog analógico. É preciso ouvir “Lucky man”, dos Emerson, Lake & Palmer.
Nórdicos – Apanharam a tempo o comboio. Jazz, pop transviada, folk, minimalismo. Wigwam, Tasavallan Presidentti, Burnin’ Red Ivanhoe, Sammla Mammas Manna, Day of Phoenix, Bo hansson. Lars Hollmer e Pekka Pohjola são dois dos maiores compositores europeus da actualidade. A Resource tem estado atenta no capítulo das reedições.
Orquestras – Nunca casaram bem com o Progressivo, paradoxalmente um movimento que muitos, de forma errada, definiram como “rock sonfónico”. As experiências dos Moody Blues, Procol Harum, Deep Purple e Rick Wakeman ficaram como curiosidades.
Peel, John – O papa do éter britânico. Passou no mítico Top Gear da Radio One (vencedor crónico dos “polls” da imprensa musical na década de 70) os grupos todos. Criou a sua própria editora, Dandelion. Algumas das suas “Peel sessions”, gravadas ao vivo no estúdio, são pérolas do Progressivo, como as dos Can e Soft Machine.
Quantidade – De instrumentos, de cartão para as capas, de títulos incríveis, de tendências absurdas, de palavras incompreensíveis, de golpes de génio. O Progressivo foi o reino da quantidade e do excesso. Uma cornucópia a jorrar para os anos 90.
Recommended Records – A editora mais “progressiva” dos anos 80, fundada pelo baterista e teórico dos Henry Cow, Chris Cutler. Nela estão registadas algumas das propostas mais arrojadas deste período: Art Bears, Cassiber, Wha Ha Ha, After Dinner, Steve Moore, Biota, Jocelyn Robert, Univers Zero, Negativland, Charles W. Vrtacek. Tem editoras irmãs espalhadas pela Europa: Rec Rec, Woof, These, No Man’s Land, Points East (dedicada à música do Leste)…
Segunda linha – Se os grupos principais, ingleses, do movimento, Genesis, Camel, Gentle Giant, King Crimson, Van Der Graaf Generator, Yes, Jethro Tull e Gryphon, foram aqueles que ficaram nos registos, outros houve, com menor projecção mediática, que definiram as linhas menos ortodoxas do Progressivo. É por estes que o coleccionador se interessa, idiossincrasias às quais o tempo conferiu uma aura de mistério. East of Eden, Ben, Tea & Symphony, Secondhand, Gracious, Gnidrolog, T. 2, Stackridge, The Greatest Show On Earth, Clarck Hutchinson, High Tide, Comus, Spirogyra, entre muitos outros, mais do que os consagrados, sustentaram a mística do Progressivo.
Tantra – A banda de Manuel Cardoso foi a única, em Portugal, a levar o progressivo às últimas consequências, juntando o profissionalismo e a teatralidade em álbuns como “Mistérios e Maravilhas” e “Holocausto”. José Cid gravou “Dez Mil Anos depois, entre Vénus e Marte”, muito considerado nos meios coleccionistas internacionais. Os Petrus Castrus ficaram-se por “Mestre” e os GNR desistiram, depois de “Avarias” de “Independança”. Os Beatnicks nunca chegaram a gravar o épico “Cosmonicação”. Ainda hoje se segreda aos ouvidos o nome dos Ephedra.
Uma vez – Era uma vez uma palavra que se julgava enterrada para sempre. Não estava porque a atitude que lhe estava subjacente nunca morreu. Venham de lá os que nos anos 90 primeiro se aproximaram do Progressivo, embora deixando cair a alma pelo caminho. Main, My Bloody Valentine, Spacemen 3, A. R. Kane.
Vertigo – A editora clássica da primeiro fase do Progressivo. Foi a primeira editora a apostar em exclusivo no mercado dos longas-durações. As reedições excelentes, têm estado a ser efectuadas de forma metódica pela Repertoire. Gentle Giant, Nucleus, Ben, Cressida, Fairfield Parlour, Affinity, Beggars Opera, Catapilla, Gracious, Tudor Lodge, Bob Downes Open Music, Manfred Mann Chapter Three, Keith Tippett Group, os melhores. E coisas raras, esquisitas e valiosas como Still Life, Hokus Poke, May Blitz, Nirvana (não confundir com…), Dr. Z, Clear Blue Sky, Warhorse, Legend…
White Noise – Reparem bem neste nome. “An Electric Storm”, álbum de 1969, é um dos maiores rasgos de futurologia que se conhecem. Pop saturada de LSD, electrónica espacial, surrealismo “bubblegum”, vozes astrais, risos de pulgas e uma missa negra, debaixo de trovoada, celebrada no Inferno.
X – “Mister X Gets Tense” e “Saculty X”, de “Get Tense Ph7”. “Xmy Heart”, o álbum mais recente. Até quando Peter Hammill terá a energia necessária para se manter como porta-voz da voz mais profunda e perturbada do Progressivo dentro de uma cabeça só? A incógnita…
Yes – Sim… Talvez… Não… Nenhum outro grupo congregou em igual percentagem o ódio e a veneração como os Yes. Simbolizam em simultâneo o lado melhor e pior do Progressivo. Em termos de virtuosismo instrumental, eram imbatíveis. Os excessos, praticaram-nos todos. O duplo “Tales Of Topographic Oceans”, com os seus quatro longuíssimos temas, é para alguns uma obra-prima, enquanto para outros representou o pior pesadelo do Progressivo. Sobre a voz andrógina de Jon Anderson, há quem, só de a ouvir, jure que sobe ao céu, e quem vomite.
Zeuhl – Termo que designa o universo estético e ideológico criado em França pelos Magma. Antes deles eram os Ange que lideravam o Progressivo em França, mas foi a banda de Christian Vander a definir a linha mais forte e original do movimento. Deixaram uma legião de discípulos “zeuhl” como os Zao, Weidorje, Xalph, Eskaton, Shub Niggurath, Musique Noise, cuja característica comum era a paixão por Nietzsche, Wagner e Coltrane. Em oposição a tudo andaram os Etron Fou Leloublan e Albert Marcoeur.
Com Fish, os Marillion passavam como uma imitação barata e exagerada dos Genesis antes de Peter Gabriel sair. Sem Fish, aconteceu aos Marillion o mesmo que aos Genesis quando Phil Collins substituiu Gabriel na banda. Perderam a sua voz de comando. Por muitos defeitos que Fish pudesse ter, não se pode negar que era um bom artista de circo. Histriónico, dava piruetas vocais sem se estatelar e as capas que desenhava eram bastante boas para entreter o cérebro e os olhos durante uma “trip” de LSD, na variante ácido nostálgico.
Agora, os Marillion gostam de mostrar que estão melhores tecnicamente – e estão, de facto, embora ajudados por uma boa produção – e que Fish não fazia falta nenhuma. Nunca venderam tanto como agora e a MTV já lhes pegou num tema, “The great escape”, salvo erro. O fantasma progressivo ainda não se esfumou e os seus lúgubres gemidos espalham-se por uma “suite” dividida em cinco partes, “Goodbye to all that” (nos anos 70, era de bom tom dividir os temas em muitos subtítulos, por causa da sua extrema complexidade). “Runaway” e “Made again” são canções engraçadas, dentro do estilo Genesis suave, na primeira com uma boa imitação do órgão electrónico de Tony Banks, por Mark Kelly. O resto é mais Supertramp e Camel (“Wave”) e, custa admiti-lo, tem uns minutos realmente belos quando as “uillean pipes” do convidado Tony Hallagan cantam por cima de um fundo de teclas aquático à maneira dos Pink Floyd de “Meddle”, no título-tema.
Darryl Way, ex-Curved Air e Wolf, assina os arranjos orquestrais de “Falling from the moon”. Não é caso para se gritar “bravo!” nem os Marillion tiveram a bravura de se aventurarem além das regiões conhecidas. Mas também não ofende. (5)