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Vários – “Festival de Bourges – Crónica do fim” (festivais)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 ABRIL 1990 >> Cultura

Festival de Bourges

Crónica do fim

O Festival de Bourges chegou ao fim, com a fabulosa “performance” multimédia da companhia de Philippe Genty e o rock poderoso dos australianos Hunters and Collectors e Midnight Oil. Apagados os projetores, a paz e o silêncio desceram de novo sobre as ruas da cidade medieval. Durante uma semana, Bourges foi o centro do Universo.

No Grand Théâtre a beleza foi absoluta. Humanos contracenando com manequins e marionetas microscópicas, mas como distinguir os bonecos da gente de carne e osso? Ri, e depois chorei, diante de uma mulher viva, de plástico, esventrada e devorada por peixinhos vermelhos canibais e vi o sangue transformar-se em mar. Vi ondas rebentando sobre a praia, e o mar desapareceu por um buraco aberto no céu. Bolhas de luz de onde nasceram fadas, depois nuvens e cristais. Tive medo de polvos de sarjeta, de pernas humanas, e pasmei diante de cabeças sem corpo. Fui seduzido e enganado por jogos e escalas impossíveis – o longe estava perto, e cada coisa era sempre outra diferente. Um homenzinho milimétrico metamorfoseou-se em mosca. O mundo dissolveu-se em ilusão.

Milagre

O milagre deve-se ao espetáculo “Dérives”, da Companhia de Philippe Genty, numa inacreditável e inesquecível performance em que teatro, dança, mímica, marionetas, fantoches, música e construções de luz, se juntaram para criar um corpo poético, mágico e de proezas técnicas de envergonhar os artesãos da oficina “Lucas & Spielberg”. “Dérives” foi premiado, no final, com a maior ovação de todo o festival. Os atores foram chamados cinco vezes ao palco, para agradecerem os vivas e aplausos. Notícia surpreendente: o espetáculo de Philippe Genty estará em Portugal, no próximo mês de maio, no Porto (integrado no Festival de Teatro da cidade) e em Lisboa, em sala ainda por designar.
As festividades encerraram à tarde, no pavilhão grande, com os sons fortes vindos da Austrália. Os “Hunters and Collectors” deram um bom concerto, do estilo “rock de estádio”, para se ouvir a quilómetros de distância. Apresentaram boas canções, de ritmo variado, interpretadas por um vocalista dono de um vozeirão de meter respeito. Aqueceram o público, pronto para receber de braços abertos a banda principal.

Momento mágico

Quando os Midnight Oil subiram ao palco, montado de modo a imitar a capa do recente álbum “Blue Sky Mining”, ninguém se conteve, iniciando-se a já habitual manifestação de regozijo, conhecida como “patada na bancada”. Estava dado o mote para uma atuação que se revelou, a todos os níveis, notável. A banda australiana provou de uma vez por todas ser possível tocar sem que tal implique o sacrifício da clareza e subtileza de pormenores. Excecional prestação, sobre a qual o mínimo que se pode dizer é que foi eletrizante. O vocalista, lembrando o velhinho Roger Chapman, dos “Family”, na maneira de cantar, gesticulou como um danado e rebolou pelo chão, o que é sempre do agrado das multidões, ávidas de verem os seus ídolos rebaixarem-se e fazerem figura de parvos. O momento mágico ocorreu durante um tema lento, na cerimónia, sempre bonita e comovente, do acender coletivo de isqueiros. Depois foi o crescente entusiasmo até um final apoteótico que encerrou em beleza o festival.

Recapitulando os melhores momentos do festival:
Inesquecíveis – Dadadang, Brave Combo, Joseph Recaille & Daniel Laloux, Oyster Band, Philippe Genty.
Muito bons – Ray Lema, Ces Messieurs, The Colourblind James Experience, Vozes Búlgaras.
“Apenas” bons – Sttellla, Hector Zazou, Rary McLeod, John Cale, Cowboy Junkies (com reservas), Patricia Kaas e Hunters & Collectors.
Fora de Cena – Malabar e Delícias Dada.
Maior desilusão – Daniel Lanois.

Vários – “Festival De Bourges – Da Terra Ao Céu, Com Bilhete De Ida E Volta” (festivais)

PÚBLICO TERÇA-FEIRA, 17 ABRIL 1990 >> Cultura


Festival de Bourges

Da Terra ao Céu, com bilhete de ida e volta


Domingo de Páscoa, dia de alegria para os fiéis, de Deus e da música. Até os fanáticos religiosos colecionadores de discos e BD foram contemplados com uma feira montada para a ocasião, na “Halle du Blé”. Para muitos foi o transe, para outros o desespero, perdidos no meio de tanta fartura. Em matéria de concertos, as vozes búlgaras e Patricia Kaas salvaram o dia.



Pouco passava da hora de almoço, já John Cale atuava no Grande Théâtre, completamente cheio, numa apresentação semelhante às recentemente realizadas em Lisboa. A mesma disposição cénica e idêntico alinhamento de canções. Sentado ao piano elétrico, por vezes auxiliado pelo sintetizador, ou abraçado à guitarra acústica, o esquema é sempre igual: o mito solitário expondo a sua genialidade perante o canibalismo das massas. Enquanto estas precisarem de mitos para se alimentarem, Cale tem garantida a sobrevivência.
Doçuras

No Palácio dos Congressos, os Cowboy Junkies, servidos por um som fabuloso, e aumentados de quatro músicos, limaram as arestas e asperezas dos discos (um disco tem arestas?), embrulhando os presentes em cetim. Os Cowboy conseguiram, através de uma música extremamente suave e da voz quente e aveludada da bonita Margo, criar momentos de contemplação, por vezes com tendência para estados místicos ainda mais profundos, como a sonolência, ou mesmo, no caso dos grandes iniciados, o sono cerrado. Mas foi, apesar de tudo, bonito de se ver e ouvir. A meio de uma versão anestésica de “Sweet Jane”, de Lou Reed, Margo despiu o blusão, provocando algum sobressalto na assistência. Falso alarme – por baixo trazia vestida uma T-shirt. Enfim…
Tanita Tikaram, também conhecida por Lolita Dolviram ou Mirita D’Artagnan, bateu na mesma tecla dos Cowboy – macieza, ternura, moleza. Voltámos todos a aconchegar-nos, fazendo beicinho e olhos de carneiro mal morto às doçuras cantadas pela voz açucarada de Tanita. A miúda é engraçada, dispõe bem. Pretender mais que isto é inventar. Mas, em relação a Tanita, cabe aos leitores, em última instância, decidir de que lado está a razão, se do meu ou se do da dita. Que querem? Tanita impele-me irremediavelmente para a rima.

Do céu caiu uma estrela

Religiosidade pura é a das vozes búlgaras do Ensemble Pirin, as tais que falam com Deus. Elevaram-se ao céu no interior da Catedral, levando consigo uma multidão fascinada por estas mulheres íntimas do paraíso. Multidão que só não chegou às nuvens porque entretanto bateu com a cabeça no teto. Que maravilha é levar de vencida a força da gravidade. Finalmente lá consegui descer à terra, a tempo de assistir ao aguardado concerto de Patricia Kaas, que acaba de ver editado em França o seu segundo álbum, “Scénes de Vie”.
Os franceses prestam atualmente culto à senhora Kaas. Mal subiu ao palco, disposto em forma de “parthénon” e sabiamente iluminado, o pavilhão explodiu numa monstruosa salva de aplausos, gritos e pontapés nas bancadas. Forma especial dos gauleses mostrarem que estão satisfeitos. Estes franceses são loucos. Patricia Kaas, de mini-saia negra, viajou entre a típica “chanson française” atualizada e ambientes mais carregados, devedores do “cabaret-blues” etilizado, de Tom Waits. Numa das canções chegou mesmo a mascarar-se de bêbeda, cambaleando de garrafa na mão, acentuando o óbvio numa desnecessária palhaçada. Seja como for, Patricia está no bom caminho para o estrelato, rubricando um espetáculo competente e poderoso, girando em volta de uma excelente presença e da sua voz grave, ansiando por mais altos voos.

Indústrias pesadas

Na sala Glues Sandier, noite industrial com os franceses Norma Loy e Dazibao. Os Norma celebraram em palco uma imitação grotesca de missa negra, produzindo um ruído infernal, projetando slides de atrocidades e de símbolos mágicos suspeitos e recorrendo a duas bailarinas (?), praticamente nuas, que se contorciam em poses denotando grande sofrimento. O ruído também pode ser música. Infelizmente, no caso dos Norma Loy, o ruído é apenas ruído.
Os Dazibao não são tão pretenciosos mas são igualmente maus. Rock dito exótico, ficou-se afinal pelo anedótico. Saí da sala com os tímpanos a protestarem e fui espreitar ao Germinal, onde uma assistência de olhos em bico, sentada em mesas de café, se deliciava com a música insinuante e a dança do ventre da egípcia Ghandoura, a atirar para o roliço, mas movimentando-se de modo a suprir o ligeiro excesso de carnes. Contrastando com as pesadonas dos Norma Loy, até uma corista do Parque Meyer se parece com Margot Fonteyn.

Seigen Ono – “Comme des Garçons, Vols. 1 & 2”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 ABRIL 1990 >> Videodiscos >> Pop


RAPAZES ELEGANTES

SEIGEN ONO
Comme des Garçons, Vols. 1 & 2
LP e CD Venture, distri. Contraverso



Nem todos os músicos conotados com a New Age são um caso perdido. Um bom exemplo é o deste japonês dado inicialmente às práticas pseudo-contemplativas e delicodoces do género. Tendo concluído que a Nova Idade foi chão que já deu uvas, iniciou nova etapa como produtor e engenheiro de som, começando a dar-se com os nomes certos, como John Lurie (que o escolhe para produzir o álbum dos Lounge Lizards, “No Pain for Cakes”), John Zorn ou Fred Frith, tudo gente fina e acima de qualquer suspeita.
Em “Comme des Garçons”, gravado especialmente para a passagem de modelos de Kawakubo, Ono assume com todo o à-vontade algumas das orientações estéticas predominantes na atual vanguarda nova-iorquina: o jazz mutante, segundo os devaneios de John Lurie, os sons “vaudeville”, mais ao gosto do mano Evan, as brasileiradas redescobertas pelos “yankees” pela mão de Arto Lindsay ou as obliquidades e fraturas demenciais caras a John Zorn.
Seigen Ono, como Brian Eno, é um aglutinador e catalisador de gentes e ideias, juntando e colando as peças do puzzle aparentemente dispersas e dando-lhes um novo sentido e arrumação. É possível saltar do samba genuíno para o jazz e deste para um tango ou para abstrações eletrónico-ambientais sem que nada pareça forçado ou deslocado? Seigen Ono consegue-o, com elegância oriental e a intuição desenvolvida ao longo de anos de bons serviços.
A lista de participantes convidados é de luxo: Bill Frisell, John Zorn e Fred Frith (agora já não há desculpa para os ignorar…), Arto Lindsay, Michael Blair (tocou com Tom Waits), Ned Rothenberg (dos Semantics, de Elliott Sharp), Sussan Deyhim (a cantora africana de “Azax Attra”, gravado de parceria com Richard Horowitz), os irmãos Lurie e o grosso da esquadrilha Lounge Lizards/Jazz Passengers. Todos eles ajudam à festa “Comme des Garçons”. Completam a lista um naipe de brasileiros e outro de japoneses, não vá alguém pensar que Ono se vendeu totalmente ao Ocidente.
O primeiro volume é o mais heterogéneo, com Zorn e a canção de Deyhim em evidência, o “brasileiro” Lindsay, comedido, e Seigen Ono, mais participante como instrumentista (nos teclados, percussão e instrumentos tradicionais). No segundo, a parte de leão vai para os Lizards, presentes em quase todos os temas. O argentino Alfredo Pedernera (que já tocara no disco a solo de Evan Lurie, “Pieces for Bandoneon”) interpreta um par de tangos e Lindsay perde o controle impondo doze minutos seguidos de sambas da autoria de “brazucas” genuínos como Noel Rosa, Laércio Alves ou Gonzaga Jr. No longo tema final, Fred Frith faz a diferença. Digamos então que o primeiro volume é o mais diversificado nas suas estonteantes e entrecruzadas propostas e o segundo mais clássico, os diversos setores bem demarcados e mais facilmente identificáveis. Ambos são brilhantes.