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Seigen Ono – “Comme des Garçons, Vols. 1 & 2”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 ABRIL 1990 >> Videodiscos >> Pop


RAPAZES ELEGANTES

SEIGEN ONO
Comme des Garçons, Vols. 1 & 2
LP e CD Venture, distri. Contraverso



Nem todos os músicos conotados com a New Age são um caso perdido. Um bom exemplo é o deste japonês dado inicialmente às práticas pseudo-contemplativas e delicodoces do género. Tendo concluído que a Nova Idade foi chão que já deu uvas, iniciou nova etapa como produtor e engenheiro de som, começando a dar-se com os nomes certos, como John Lurie (que o escolhe para produzir o álbum dos Lounge Lizards, “No Pain for Cakes”), John Zorn ou Fred Frith, tudo gente fina e acima de qualquer suspeita.
Em “Comme des Garçons”, gravado especialmente para a passagem de modelos de Kawakubo, Ono assume com todo o à-vontade algumas das orientações estéticas predominantes na atual vanguarda nova-iorquina: o jazz mutante, segundo os devaneios de John Lurie, os sons “vaudeville”, mais ao gosto do mano Evan, as brasileiradas redescobertas pelos “yankees” pela mão de Arto Lindsay ou as obliquidades e fraturas demenciais caras a John Zorn.
Seigen Ono, como Brian Eno, é um aglutinador e catalisador de gentes e ideias, juntando e colando as peças do puzzle aparentemente dispersas e dando-lhes um novo sentido e arrumação. É possível saltar do samba genuíno para o jazz e deste para um tango ou para abstrações eletrónico-ambientais sem que nada pareça forçado ou deslocado? Seigen Ono consegue-o, com elegância oriental e a intuição desenvolvida ao longo de anos de bons serviços.
A lista de participantes convidados é de luxo: Bill Frisell, John Zorn e Fred Frith (agora já não há desculpa para os ignorar…), Arto Lindsay, Michael Blair (tocou com Tom Waits), Ned Rothenberg (dos Semantics, de Elliott Sharp), Sussan Deyhim (a cantora africana de “Azax Attra”, gravado de parceria com Richard Horowitz), os irmãos Lurie e o grosso da esquadrilha Lounge Lizards/Jazz Passengers. Todos eles ajudam à festa “Comme des Garçons”. Completam a lista um naipe de brasileiros e outro de japoneses, não vá alguém pensar que Ono se vendeu totalmente ao Ocidente.
O primeiro volume é o mais heterogéneo, com Zorn e a canção de Deyhim em evidência, o “brasileiro” Lindsay, comedido, e Seigen Ono, mais participante como instrumentista (nos teclados, percussão e instrumentos tradicionais). No segundo, a parte de leão vai para os Lizards, presentes em quase todos os temas. O argentino Alfredo Pedernera (que já tocara no disco a solo de Evan Lurie, “Pieces for Bandoneon”) interpreta um par de tangos e Lindsay perde o controle impondo doze minutos seguidos de sambas da autoria de “brazucas” genuínos como Noel Rosa, Laércio Alves ou Gonzaga Jr. No longo tema final, Fred Frith faz a diferença. Digamos então que o primeiro volume é o mais diversificado nas suas estonteantes e entrecruzadas propostas e o segundo mais clássico, os diversos setores bem demarcados e mais facilmente identificáveis. Ambos são brilhantes.