Arquivo da Categoria: Electrónica

Jean-Michel Jarre – “Chronologie”

pop rock >> quarta-feira, 16.06.1993


Jean-Michel Jarre
Chronologie
CD Dreyfuss, distri. Polygram



Entre dois megaconcertos para plateias de milhões, Jean-Michel Jarre lá vai gravando, para gigantones electrónicos, as suas peças com tanto de desmesuradas como de inconsequentes. Há excepções e essas mostram que o francês, quando quer, até consegue fazer valer a sua música com o recurso a outro tipo de argumentos. É o caso de “Zoolook”, com a participação de Laurie Anderson e Adrian Belew, ou do recente “Waiting for Cousteau”, que inclui uma faixa ambiental de cinquenta e tal minutos capaz de fazer Brian Eno corar de vergonha. “Chronologie”, peça única, ambiciosa do alto das suas oito subdivisões, não pertence infelizmente a esta categoria sendo, antes, mais um daqueles pastéis em que os sintetizadores lutam uns com os outros para ver qual grita mais alto e as melodias se revolvem até à náusea na fórmula, raramente ultrapassada, de “Oxygène”. “Chronologie 4”, uma das partes dançáveis, foi repescada por uma série de grupos “rave”, entre os quais os Sunscreen, através das habituais “mixes” e “remixes” em que a única função é fazer dar ao pé com o piloto automático ligado. Deve ser difícil ser-se casado com Charlotte Rampling e ainda ter tempo para fazer música interessante. (4)

Barry Adamson – “The Negro Inside Me”

pop rock >> quarta-feira, 16.06.1993
NOVOS LANÇAMENTOS POP ROCK


Barry Adamson
The Negro Inside Me
CD Mute, distri. Edisom



Quando não tem bandas sonoras Barry Adamson inventa-as. Assim aconteceu com “Moss Side Story” e o anterior “Soul Murder”. Filme a sério teve-o o ex-Magazine em “Delusion”. Desta feita o referente imaginário cinematográfico – recuperado logo pelo aspecto gráfico da ficha técnica, elaborado à maneira de um filme – emergiu numa curta-metragem de trinta e um minutos na qual Adamson foi buscar as sonoridades “standard” das fitas, sobretudo policiais, dos anos 60 e 70, aqui postas em relevo através das deambulações solistas do órgão Hammond e de um infatigável maremoto rítmico entre “Shaft” e o acid-jazz. Dos seis apontamentos que compõem “The Negro Inside Me” destacam-se “Busted”, com os sopros a explodirem em ondas “funky” próximas de Booker T. and the MG’s e o trabalho de corte e costura das técnicas de “dub” equidistantes às do álbum novo de Holger Czukay, e o genérico final “A perfectly natural union”, no paziguamento de um diálogo a três entre um vibrafone “cool”, um contabaixo e o restolhar das vassouras nas peles dos tambores.
“The snowball effect” abre com a desbunda do Hammond, “Dead Heat” serve-se de vários lugares-comuns do “thriller” de série B, com ambulâncias e sirenes de polícia a empurrarem o tema para o lado mais óbvio e “Cold black preacher” aposta no registo mistério.
Sobra uma versão do clássico “kitsch”/erótico “je t’aime moi non plus” em que os trejeitos mecânicos de Louise Ness não fazem esquecer os genuínos orgasmos, gravados “in loco” na cama por Jane Birkin. Mas como em tempo de sida e “safe sex” não convém originar grandes excitações, tem que aceitar-se o novo arranjo, à laia de preservativo.
Um álbum interessante, de baixo orçamento, a anteceder talvez uma próxima grande-produção que dê a Barry Adamson o direito de deixar a marca do pé gravada no mítico passeio em frente ao Chinese Grauman’s Theatre. (7)

Holger Czukay – “Moving Pictures”

pop rock >> quarta-feira >> 02.06.1993
NOVOS LANÇAMENTOS


Holger Czukay
Moving Pictures
CD Mute, distri. Edisom



Enquanto os Can foram mestres da batida hipnótica e tribal via tecnologia, o seu venerando baixista, Holger Czukay, tem vindo a explorar os meandros da mente já na fase em que esta se encontra mergulhada no transe – os seus fantasmas, as suas zonas de menor luminosidade, as suas pulsões que gritam do inconsciente. As técnicas de “dub” que Czukay utiliza em “On the Way to the Peak of Normal”, “Der oste nis Rot” e “Rome remains Rome” e que tão bem servem à criação de realidades sonoras fantasmáticas (Arthur Russell, African Head Charge, Jah Wobble,…) como que foram cavando buracos negros no seu próprio interior, dilatando a dimensão temporal de maneira a reduzir o ritmo à quase sugestão. Faixas como “All night long”, onde não por acaso o baixo de Jah Wobble assume papel preponderante, e a extensa “Rhythms of a secret life” são neste aspecto exemplares. A segunda, uma viagem pela realidade virtual do “cyberspace”, recupera a tradição das “psicotropics” dos Can do duplo “Tago Mago” e o conceito de relatividade: um milionésimo de segundo de percurso pelos circuitos de um computador são ampliados para um filme ao retardador que permite observar com detalhe cada micro-acontecimento. Repare-se na bateria de Jaki Liebezeit, que era o principal motor da orgia rítmica dos Can, e aqui desacelera até ao limite da desagregação, transformando em pontuação subliminar o que antes era multiplicação polirrítmica.
Parecendo numa abordagem superficial que “Moving Pictures”, na riqueza das suas tapeçarias ambientais, se encontra mais próximo dos discos de Czukay com David Sylvian que duma continuação do seu trabalho a solo (descontando o incaracterístico “Radio Wave Surfer”), “Moving Pictures” acaba por ser afinal um álbum que, por tortuosos caminhos, vem ao encontro dos Can. Mas se não se quiser recuar a alguns capítulos brilhantes da história do rock que esta banda assinou, pode sempre olhar-se para Holger Czukay como o rádio-amador eternamente sintonizado nas ondas da Radio Marrakesh. (8)