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Meredith Monk – “Movimento Perpétuo” (concerto / dossier / em portugal)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 16.09.1992


MOVIMENTO PERPÉTUO

Compositora, cantora, bailarina, cineasta, coreógrafa, Meredith Monk demanda a obra de arte total, a unificação de todas as linguagens. A artista americana vem a Portugal apresentar uma das suas obras recentes, “Facing North”, na companhia de um dos membros do seu grupo vocal. No horizonte perfila-se já uma nova ópera.



Houston, Paris e Berlim tiveram já oportunidade de assistir à apresentação da mais recente ópera de Meredith Monk, intitulada “Atlas”, composta para 15 cantores e orquestra. Portugal não vai ter essa sorte e assistirá apenas à prestação em duo da cantora com Robert Een. Interpretarão, na primeira parte, “Facing North” e, na segunda, “Music for voice, keyboard and cello”, uma selecção de temas extraídos dos álbuns “Dolmen Music” (“Travelling” e “The tale”) e “Book of Days” (“Madwoman’s vision”), bem como excertos da nova ópera “Atlas”.
Meredith Monk integra a elite de cantoras norte-americanas que tiraram a voz feminina do “ghetto” das canções, a par de Shelley Hirsch, Lauren Newton e Joan La Barbara. Em 1968 fundou The House, laboratório de ensaio para as suas experiências multidisciplinares, onde a dança, o teatro e a música se interligavam de modo a criar uma rede intricada de sentidos, em que a voz humana desempenhava o papel de principal catalisador de emoções. Som, luz e movimento continuam, desde essa altura, a fazer parte de um todo, que Meredith Monk define como “teatro, no sentido mais amplo da palavra, um local onde podemos contar histórias”. A separação destes diversos elementos ocorre, segundo a autora, apenas na cultura ocidental, dominada pelo racionalismo. No seu trabalho, pelo contrário, tudo se interliga num todo orgânico, “um mosaico que forma uma entidade perceptual, emocional, espiritual e cinética o mais completa possível”.
Influenciada pelo expressionismo alemão, insensível à proeza técnica e ao elitismo vigente na dança contemporânea, Meredith Monk esteve ligada, no início dos anos 60, ao grupo Judson Church, onde procurou criar uma nova dimensão para a dança, aliando uma percepção intuitiva do movimento a concepções sociais recortadas do quotidiano, ao mesmo tempo que procurava abolir a distância entre público e “performer”. O gesto, a voz, o texto, cada um dos elementos constitutivos da obra de arte total, tornam-se, na sua obra, veículos da vida “comum”, estilizada, espelho das vivências do cidadão vulgar, poetizadas.
Explorando ao máximo as possibilidades da voz humana, Meredith Monk procura o elo comum entre todos os seres, a comunicação directa independente dos dialectos e das diferentes culturas. O grito, o murmúrio ou a imitação de sons naturais fazem parte desse discurso para-racional em que os símbolos e a vibração pura substituem a lógica e o conceito. No fundo, o que Meredith Monk procura é a religação mágica entre o corpo e o espírito, que é do que trata a religião. É essa linguagem ancestral que Monk e Robert Een procuram recriar em “Facing North”, na invocação, “através de objectos, movimentos minimais e vozes, da neve, dos ancestrais totémicos, pássaros, ursos, alces, tribos ameríndias e exploradores europeus”. O mito, depositário colectivo de todas as histórias.


DISCOGRAFIA SELECCIONADA

“DOLMEN MUSIC”, 1991, ECM



Música primordial, atemporal. Primeira obra em que Meredith Monk recorre às virtualidades do canto colectivo. Em “Dolmen Music” são exploradas as possibilidades do “uníssono, textura, contraponto e harmonia” da voz humana. De cada uma em particular a compositora extrai uma característica determinada, na criação de uma rede intricada de energias. Entre o “Glottal sound” gutural e a pura espiritualidade, as vozes do grupo entregam-se a um ritual em que o tempo se torna circular e a estrutura narrativa se confunde com o labirinto do inconsciente. “The tale” é uma sátira ao vazio linguístico, às regras semânticas e ao serviço do poder.

“DO YOU BE”, 1987, ECM



Antologia de temas extraída da peça teatral “Acts from under and above” e das óperas “Vessel”, “The Games” e “Quarry”. Segundo a terminologia da autora, “Do You Be” é um mosaico ilustrativo dos diversos registos da arte vocal, ao qual a produção de Manfred Eischer procurou emprestar o intimismo da música de câmara. A voz torna-se matéria elementar. Plasticina do espírito. Instrumento da liberdade.

“BOOK OF DAYS”, 1990, ECM
Música composta para a primeira longa metragem realizada pela autora, com uma história muito semelhante à do filme fantástico “The Navigator”, realizado pelo australiano Vincent Ward. “Book of Days” aborda o problema da relatividade e da sobreposição de diferentes níveis espácio-temporais. Entre a Idade Média e o presente, a visão da pequena Eva confunde-se com a de Meredith Monk, nessa sensação de que “tudo pode acontecer em simultâneo”. A voz atinge a máxima sublimação, conferindo à estrutura narrativa a intemporalidade e a noção de coincidência mágica entre os diversos níveis de realidade. “A História é um pensamento, a eternidade é agora.”

Alfredo Marceneiro – “No Fado E No Ofício”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 19.08.1992


Alfredo Marceneiro
NO FADO E NO OFÍCIO


O melhor de Alfredo Marceneiro é tudo: a voz, as histórias, a mestria do fado e da vida. O disco, já há algum tempo lançado no mercado, é mais uma homenagem a esta figura que revolucionou o fado. De boné, lenço em volta do pescoço e cigarro ao canto da boca, compunha a imagem do gingão, das tascas e das cegadas. Da voz sempre a puxar ao sentimento.



“Não há ninguém a cantar o fado como o meu pai e a senhora Amália.” Para Alfredo Duarte Júnior, o seu pai, Alfredo Marceneiro, “foi o maior”. Foi, de facto. “Ele modificou o fado. Era um mestre. A maneira dele dizer, falar (o fado), não há ninguém que possa fazer aquilo.” Aquilo era o sentimento. O que vem de dentro e não se aprende. “De resto, toda a gente canta bem…” Novos fadistas para quem o fado afinal nem é uma forma de vida assim tão estranha. “Eles aprenderam a cantar. O meu pai não. O coração é que manda.”
Alfredo Duarte Júnior seguiu as pisadas do pai e também ele canta o fado. Todas as noites, na Adega Machado, lendária casa de fados do Bairro Alto onde, entre outros, cantaram o pai e Amália Rodrigues. Numa das paredes lá está a lápide com o retrato de Marceneiro, a recordar a data de inauguração, em que esteve presente, há 52 anos.
Hoje, Alfredo Duarte Júnior continua a tradição. Começou a cantar o fado em festas de beneficência. Na Adega Machado está há 18 anos consecutivos. Tem 68, 50 de fado. “Esta vida é muito chata e eu cá tenho que gramar isto há 50 anos”, desabafa meio a sério meio a brincar. O pai não queria que ele cantasse, mas é a tal coisa: “o coração é que manda.” “O meu pai fez músicas, eu faço músicas. Isto é da gente.”
Músicas que Alfredo Marceneiro interpretou como nenhum outro fadista da sua geração. Nas vielas e nas tascas de Campo de Ourique, com os rivais, “a disputar uma medalha de ouro, para ver quem era o melhor do bairro” ou, mais tarde, no seu próprio restaurante, o Nova Sintra ou Solar do Marceneiro, como era costume chamarem-lhe, na Calçada do Carriche. Mas sempre em Portugal. “A casa da Mariquinhas”, “O bêbedo pintor”, “Tricana”, “O amor é água que corre”, “A senhora do monte” e tantos outros fados que Marceneiro cantou com aquela sua voz inconfundível que a idade foi tornando mais castiça. Até aos 90 anos, quando parou de cantar, antes de falecer, dois anos mais tarde, em 1983.

A Cama De D. Maria

Tinha fama de ter um carácter difícil. “Na vida artística nunca me ajudou”, recorda Alfredo Júnior. “Até dizia mal de mim e tudo.” É mais um desabafo do que uma acusação – “o homem dizia aquilo, mas até nem era má pessoa” – da parte de quem sente o peso de ser filho de um mito. “O meu pai era o meu pai, eu sou eu.” Alfredo Júnior vai mais longe, na ânsia de se distanciar da presença tutelar do pia, recusando-se a cantar os mesmos fados que este cantava. Uma única concessão, quando às vezes inclui no reportório uma rapsódia de sete temas do autor da “Tricana” – “sete fados num só”, como ele diz -, embora tenha um ponto de honra: “Não imito o meu pai, nem tenho prazer em fazê-lo.”
Alfredo Júnior relembra com saudade o dia em que foi aceite pelos mestres. “O meu pai, uma vez no Porto, disse-me: ‘Pá, já és do primeiro ‘team’. O Carlos Ramos dizia-me: ‘Olha o puto, está porreiro, já é do primeiro ‘team’. Foi no Clube dos Foliões, um clube de ilusionistas, tinham ido lá cantar o meu pai, o Carlos Ramos, o Max, a Maria da Conceição… Já se foram todos…”
Há outras, muitas histórias que Alfredo Júnior recorda, relacionadas com o fado ou com a profissão de marceneiro que o pai manteve durante toda a vida. Por exemplo, quando era “mestre de oficina, na CUF”, e veio ter com ele um tal “senhor Perestrelo, que mandava no Museu de Arte Antiga, nas Janelas Verdes”, pedir-lhe os seus serviços. “Havia lá uma cama de D. Maria não-sei-quantas. Disseram-lhe que quem era bom a arranjar móveis antigos sera fulano de tal ‘É pá, ó Alfredo… O meu pai foi lá ver a cama e disseram-lhe: “Ó meu amigo, para arranjar isto há aí um quinta.’ Havia lá madeira velha para fazer a restauração da cabeceira da cama… Nessa época punha-se uma fogueira, o grude… Agora já há colas para aí, Robialac, até cola os dedos… O meu pai utilizou grude, arranjou uns bocados de madeira velha… Ainda lá está a cama arranjada, nas Janelas Verdes!…”

Do “Ai Ai” Ao Martelinho

Depois há aquele pormenor, que quase toda a gente conhece, mas que o filho de Alfredo Marceneiro sente prazer em referir, de ter sido o pai quem inventou o costume de cantar o fado àmédia luz. Foi o Marceneiro quem impôs que se apagasse uma vela enfiada no gargalo de uma garrafa, sobre a mesa. “Eu tenho de cantar”, pedia o fadista, “não quero luzes acesas!” Mas nem sempre Alfredo Marceneiro era tão rígido. Purista em relação ao fado, em certas ocasiões lá fazia as suas cedências.
No Nova Sintra constumava atrair os clientes que vinhma das ‘boites’ e iam para a Calçada do Carricvhe acabar a noite” de forma pouco ortodoxa. “Ele via os carros entrarem para o estacionamento e procurava criar ambiente a cantar uma valsa: ‘Ai ai ai ai, olha o cheiro que a rosa tem, ai ai ai ai, chega à janela, donzela, vem cá…”’ Foi ele o culpado dessa coisa do ‘ai ai’, por causa do restaurante.”
Neste aspecto as coisas não mudaram muito. Alfredo Duarte Júnior conta que uma das suas actuações na adega cantou por brincadeira uns versos mais picarescos: “Atirei ao meu martelo / para dentro de um convento / o que farão as freiras / …” A partir dessa noite as pessoas não pararam de os pedir: “As pessoas chateiam-me, eu não quero mas acabo por ter de cantar ‘O martelinho’. Às vezes estou com a ideia de cantar para o castiço e aparece-me um sacana ou uma gaja qualquer a dizer: ‘Vim cá para ouvir ‘O martelinho.’ E tenho que lhes fazer a vontade, o que é que eu hei-de fazer?”

O Fado E Os “Fadistas”

Num ponto Alfredo Júnior não cede: “Lá marchinhas e isso não canto nada, nem tenho tempo para aprender. E sei-as todas… Fazer refrões e essas coisas, não!” Mas logo a seguir condescende: “Às vezes brinco, tem que se brincar, isto não é nenhuma igreja.” A intransigência volta no entanto e o fadista indigna-se, quando lhe apontam a nova geração de cantadores: “Agora apareceu uma gente que aprendeu a cantar pelos discos, é tudo uma cambada de aldrabões!” Para ele não são dignos de serm chamados fadistas “pessoas que andam aí a cantar ‘Uma casa portugues’, ‘Coimbra do Choupal’ ou o ‘Cochicho’. Vai mais longe quando se refere ao erotismo que, segundo ele, entrou nas casas de fado: “Agora arranjam umas gajas com umas mamas (faz o gesto, a designar uma grande dimensão) a cantar o não-sei-quantos, a ‘casa portuguesa’, ‘Lisboa antiga’…” E remata com um comentário digno de um Mário Cortes: “Mas o que é isto?”
Lembra, a propósito, os gostos do pai, em matéria do fado verdadeiro. “O cantador que ele gostou mais, não sei se ainda está vivo, foi o Joaquim Campos. Tinha sentimento. O Júlio Proença era mais vozeirão. Morreu em Moçambique. Ele e o Alberto Costa, o velho que cantava o fado de Coimbra, mas cuidado com ele, foram os dosi maiores amigos do meu pai.”
Outros tempos, de um passado que, por alguns instantes mágicos, teima em não desaparecer. Em locais como aquela tasca do Bairro Alto onde “uma velha chamada Judite Pinto, com oitenta e tal anos, canta o fado e mais nada”.
Inimitável por natureza, o estilo de Alfredo Marceneiro atraiu muitos que o procuravam imitar – “estão a 500 km de distância. Eu estou perto, mas não quero imitar ninguém.” E Alfredo Júnior conta que uma vez Fernando Pereira lhe pediu para reproduzir a voz do pai, proeza que ele consegue muito bem, para estudar uma imitação a incluir num quadro de revista. O filho de Marceneiro trocou as voltas ao imitador, cantando alternadamente com a voz do pai e a sua própria. Fernando Pereira, confuso, foi obrigado a desistir da ideia.
Uma coisa aborrece de facto Alfredo Duarte Júnior e leva-o a afirmar que o “povo português é muito cahto”, com desconhecidos constantemente a abordá-lo “nos Restauradores, no Rossio, no Metro”, a dizerem-lhe vacuidades do tipo: “Fui com o seu pai para o Ritz, fui para ali e para aqui com o seu pai.” Não me chateiem com o meu pai todos os dias”, explode num desabafo. “Ele já morreu. Acha que está bem?”
É este o seu fado. Os outrso, toda a gente os canta. Alfredo Marceneiro canatav-os de maneira diferente. “Com lídima expressão e voz sentida / hei-de cumprir o mundo / a minha sorte Afredo / Marceneiro para toda a vida / para cantar o fado.”

Genesis – “Da Génese À Revelação” (Dossier)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 22.07.1992

DA GÉNESE À REVELAÇÃO

Os Genesis merecem o máximo respeito e consideração. Por tudo o que de bom fizeram pela música rock, pela beleza com que aqueceram os nossos corações. Devemos agradecer-lhes e paga-lhes. Mas não namesma moeda, que essa eles não aceitam. Dizem que já não sabem dançar.

Vêm a Portugal pela segunda vez, mas já não são a mesma banda que eram em 1975, quando estiveram em Cascais. Nessa altura, quem os viu e ouviu jamais os esquecerá. Dezassete anos volvidos, os Genesis regressam, desta vez ao estádio de Alvalade, num espectáculo que se diz ser portentoso. Não já o espectáculo poético, mas de ostentação e de números. “666 [o número da besta do Apocalipse] is no longer alone”, como diz o texto de “Supper’s ready”, eis a revelação.
Hoje, a palavra “Genesis” não passa de um carimbo ferrado na careca da banda de Phil Collins. É esta a banda que vai estar hoje à noite no Estádio de Alvalade – uma máquina de facturar implacável dirigida por u homem de negócios que canta, toca bateria e tem como principal virtude parecer “um gajo porreiro”.
Mas não foi sempre assim e é importante recordar o passado e a importância que de facto teve uma das bandas mais originais da primeira metade dos anos 70. Ao lado dos Van Der Graaf Generator, King Crimsom, Yes e Gentle Giant, eles foram uma das entidades inteligentes da “música progressiva” que vingou em Inglaterra até ao dia em que uns rapazes de cabeça rapada e alfinetes espetados na pele decidiram destruir aquilo que com tanto amor e carinho tinha sido edificado. Sim, não se estejam a rir, com muito amor e carinho, bom gosto e imaginação. Há lá coisa mais bela que ver alguém como Peter Gabriel vestido de malmequer ou de monstro verde com borbulhas? É difícil. Só talvez Elton John vestido de freira.

Ser Progressivo

Eram assim os Genesis, nessa época esplendorosa em que tudo era permitido, mesmo as calças de boca de sino e as camisas às flores de colarinho gigante. Os “progressivos” pretendiam dotar a música popular da majestade e integridade da “clássica”. E por que não? Era tudo uma questão de utilizar números ímpares no compasso, estender as composições até aos 30 minutos e fazer aparecer na ficha técnica um “mellotron” e um sintetizador (Moog para os mais sinfónicos, A. R. P. para os “vanguardistas” e VCS3 para os pobrezinhos), ou vários, quantos mais melhor, para dar uma imagem mais eficaz de complexidade. Também era conveniente ter lido Tolkien ou Lewis Carroll, se se pretendia ser “soft”, ou H. P. Lovecraft, se a opção incidia no “hard”. E principalmente gravar para alguma destas quatro editoras: Island, Harvest, Vertigo e Charisma. A Virgin viria depois devorá-las todas, mas antes do repasto, havia uma saudável competição, a ver quem fazia capas mais desdobráveis e faixas de maior duração.
Antes de ser comprada pelo futuro bilionário Richard Bronson, a Charisma representava na perfeição o imaginário e os ideais de quantos viam no rock o ponto culminante da arte musical desde que se seguisse à risca a máxima “quanto mais complicado melhor”. Era neste selo que militavam os Genesis, passado o estágio inicial na Decca, com “From Genesis To Revelation”. O logotipo da editora – uma imagem do chapeleiro maluco retirada de “Alice no País das Maravilhas” – não podia ter sido melhor escolhido, parecendo feito de propósito para as histórias e imagens que a banda então liderada por Peter Gabriel tinha para apresentar.

Delírios

História que se conta em cinco capítulos magistrais correspondentes às obras “Trespass”, “Nursery Crime”, “Foxtrot”, “Selling England by the Pound” e o duplo “The Lamb Lies Down on Broadway”, tantos quantos os Genesis gravaram antes da saída do arcanjo. Consumado o abandono de Peter Gabriel, Phil Collins ficou com o terreno livre e aproveitou a deixa, desviando o grupo para objectivos bem mais práticos que os delírios surrealistas do antigo vocalista. Para a “Phil Collins Band”, que era como devia ter passado a chamar-se a banda, a única finalidade passaria a ser a angariação de divisas, operação na qual, diga-se de passagem, foi bastante bem sucedida. A participação de Phil Collins em tudo o que é “concerto de solidariedade” trataria de o pôr em paz com a sua consciência. São assim as almas boas de gente de bem.
Cumpriu-se deste modo a profecia enunciada no título do primeiro álbum, “From Genesis To Revelation” e a “revelação” foi de ordem divina. Explicada no novo “clip” da banda, “Jesus He knows me”, canção do último álbum, “We Can’t Dance”, em que Deus revela, a um Phil Collins desopilante na figura de evangelista da TV bom pai de família, o segredo, o maná dos dólares que tombam do céu.
Curiosamente, após o abandono de Peter Gabriel e, dois álbuns mais tarde, de Steve Hackett, seria um outro elemento da banda original, apenas presente em “Trespass”, Anthony Philips, o portador do espírito original dos Genesis. De longe o mais prolífico de todos os elementos que passaram pelo grupo, Philips assinou álbuns como “The Geese and the Ghost”, “Wide after the present”, “Antiques”, “A Batch at the Tables” ou “Slow Dance” que em nada diferem da filosofia e dos ambientes musicais da fase inicial do quinteto.



Fábulas Perversas

Aos Genesis se deve, além da revolução no vestuário, o terem trazido o teatro para o rock. Claro que Dacid Bowie já era um Major Tom em odisseias no espaço, e depois Ziggy e Alladin Sane e muitos outros. E os Velvet Underground já há algum tempo que davam e levavam chicotadas no cabaré da morte que era a “Exploding Plastic Inevitable”, criada por Andy Warhol. Mas, em qualquer dos casos, explorava-se o lado da decadência e do excesso, enquanto os Genesis e o seu actor principal, Peter Gabriel, privilegiavam e encenavam o imaginário vitoriano inglês, a um tempo sedutor e cruel. Nenhum álbum se aproxima tanto deste conceito como “Nursery Crime”, em faixas como “The Musica Box”, “The Return of the giant Hogweed” ou “The fountain of Salmacis”, repleta de anjos e demónios, hermafroditas e espíritos barbudos, gigantes e arlequins. Peter Gabriel inventa e incarna novas personagens chamadas Henry Hamilton-Smythe ou Cynthia Jane de Blaise-William, em fábulas perversas, como eram as aventuras de Alice.
Todo um universo que se esfumou quando Peter Gabriel se decidiu pelo rompimento e por uma versão mais “realista” para os seus devaneios poético-musicais. “A Trick of the Tail” e “Wind and Wuthering” ainda procuram uma solução de compromisso, com Phil Collins a procurar imitar as entoações vocais de Gabriel, o que lhe valeu do produtor Tony Stratton-Smith o seguinte comentário: “Soa mais a Peter Gabriel que o próprio Peter Gabriel.” A parte “séria” ficou durante alguns tempos reservada para a banda de jazz-rock Brand X, que serviu para o músico se exercitar na bateria, já que nos Genesis passou a assumir-se totalmente como cantor.



Pode dizer-se que os antigos admiradores dos Genesis optaram por seguir o percurso a solo de Peter Gabriel, em vez de condescenderem com as proezas miméticas do novo vocalista. Opção certa, recompensada sobretudo pelos quatro primeiros discos a solo, qualquer deles intitulado simplesmente “Peter Gabriel”, nos quais participaram, entre outros, Brian Eno e Robert Fripp. A seguir seria a viagem sem retorno até às “músicas do mundo”, concretizada na banda sonora de “Passion”, realizada por Scorcese, no envolvimento nos festivais “WOMAD” e na criação da editora “Real World”, tornada rapidamente numa das mais prestigiadas no campo da “world music”.

Jesus Ajuda

Do outro lado, Phil Collins, Mike Rutherford e Tony Banks prosseguiam sem desfalecimentos na senda do êxito à escala planetária, acumulando discos de ouro e platina e atraindo aos seus espectáculos um número sempre crescente de público, à medida que iam simplificando a forma e a mensagem da sua música. A partir de certa altura, Phil Collins deixou mesmo de sentir necessidade de gravar discos a solo (gravou quatro: “Face Value”, “Hello I must be Going”, “No Jacket Required” e “But Seriously”), já que os Genesis se tinham transformado no seu veículo pessoal.
“… And The There Were Three”, “Duke”, “Abacab”, “Three Sides Live”, “Genesis”, “Invisible Touch” e “We Can’t Dance” foram filões de uma mina que parece inesgotável. E cada vez mais, à medida que Phil Collins foi carregando na tecla do romantismo de pacotilha, de efeito certo quando se trata de apelar à faceta mais primária das multidões. Ainda aqui, o já referido vídeo “Jesus He knows me” funciona como cartada da hipocrisia levada ao grau extremo, a fingir de inteligente. Nele, os Genesis pretendem dar a imagem do artista que está para além das vãs preocupações materiais (por isso o “clip” insiste em mostrar precisamente o oposto, é a ironia, topam?), que pode brincar com o estatuto próprio porque chegou àquele ponto em que o dinheiro não passa de uma abstracção, de algo distante que jamais conseguirá abalar a integridade e apagar a chama da criação. Na realidade, o que eles querem dizer é: “Venha mais!”
Vamos todos a Alvalade fazer-lhes a vontade.



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CAIXA
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OS CINCO MAGNÍFICOS

TRESPASS (1970)
Príncipes e princesas à janela do castelo. O álbum medieval dos Genesis, a que não é alheia a presença de Anthony Phillips, cuja temática de grande parte dos seus álbuns a solo confirmaria esta tendência. Disco de contrastes, suave em “Visions of angels” e “Dusk”, violento, à beira da histeria, em “The Knife”, rasgado pela guitarra eléctrica de Phillips. “Looking for someone”, um dos primeiros clássicos da banda, revela as enormes potencialidades expressivas do vocalista, aqui ainda preso à imagem angelical.

NURSERY CRIME (1971)
Primeira obra-prima, desde a gravura da capa – uma partida de críquete jogada com cabeças humanas, numa paisagem geométrica e vitoriana em “trompe l’oeil”, sobre a qual estão poisadas moscas em tamanho real – atá às canções insólitas sobre gigantes vegetais e amores de hermafroditas. “The musical box” é uma das melhores canções de toda a discografia dos Genesis, narrando uma bizarria à volta de uma caixa de música de onde brota uma terrível entidade. “Harold the barrel” poderia ser um quadro de Ensor. E Phil Collins deveria voltar a ouvir pelo menos dois temas, “For absent friends” e “Harlequin”, para aprender como se constrói uma balada. Sem pieguice.

“FOXTROT” (1972)
Gravado a seguir ao disco ao vivo “Genesis Live”, “Foxtrot” é por muitos considerado o melhor álbum da banda. O fabuloso “tour de force” que é “Supper’s ready”, viagem de ácido dividida em sete partes, com bilhete de ida e volta até ao inferno – e o inferno de Gabriel está povoado de criaturas semelhantes às de um Lewis Carroll numa “bad trip” -, em que Peter Gabriel dá um “show” vocal de vinte e tal minutos, desdobrando-se pelos registos mais incríveis, da marioneta, às afectações “cockney” e a toda a espécie de gritos, murmúrios e onomatopeias, esconde alguns desequilíbrios histriónicos do primeiro lado, notórios em “Watcher of the skies” ou “Time table”. “Get ‘em out by Friday” estreia os Genesis na sátira social.

“SELLING ENGLAND BY THE POUND” (1973)
Ao contrário do álbum anterior, aqui tudo é equilíbrio e sentido de proporção. Banks, Hackett, Rutherford e Collins têm espaço alargado para mostrar que os Genesis não eram só Peter Gabriel, com destaque para Tony Banks, um teclista notável que, na segunda fase da banda, viria a ser completamente subaproveitado, e Steve Hackett, um dos melhores guitarristas ingleses da escola progressiva, então ao nível de Robert Fripp, dos King Crimson e Steve Howe, dos Yes. Uma das melhores, senão mesmo a melhor de todas as interpretações vocais da sua carreira, consegue-a Peter Gabriel em “The battle of Epping Forest”, um autêntico solo de música e teatro, em que praticamente cada frase do poema é cantada de modo diferente e que colocaria o vocalista ao lado de Peter Hammill, como um dos maiores intérpretes dessa época.

THE LAMB LIES DOWN ON BROADWAY (1974)
O álbum duplo da discórdia que levou à separação de Peter Gabriel dos restantes elementos dos Genesis. Considerado como que um disco a solo do vocalista, de tal modo a sua personalidade se impôs na feitura desta obra, “The Lamb” corta de forma abrupta com o estilo e a imagética habituais da banda, narrando a iniciação de um jovem porto-riquenho, Rael, perdido no meio do pesadelo americano e no seu próprio labirinto interior. Como em “Supper’s ready” é possível descortinar, desta feita na sequência total, as várias fases de uma “viagem de ácido”, neste caso, decididamente uma “má viagem”, até ao centro da paranoia. Chegados a este ponto, os restantes Genesis assustaram-se e devem ter feito sinal de “stop” ao antigo arcanjo, aqui transformado em demónio. Os trabalhos posteriores de Peter Gabriel confirmariam o caminho que este viria a seguir, feito de transformações sucessivas (o rosto aparece representado de forma sistemática nas capas, sujeito a diversas deformações), num percurso semelhante ao de Bowie, assumido embora na direcção de um certo tribalismo que, em última análise, viria a desembocar no território infinito da “world music”.