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Luís Madureira – “Luís Madureira Lança Álbum De Estreia – VIAN – Avec Madureira”

pop rock >> quarta-feira >> 11.01.1995


Luís Madureira Lança Álbum De Estreia
VIAN
Avec Madureira



Para primeiro álbum a solo, o cantor Luís Madureira escolheu o poeta e romancista (escreveu, por exemplo, “A Espuma dos Dias”, “Outouno em Pequim”, “O Arranca-Corações e “Irei Cuspir-vos nos Túmulos”, todos com tradução portuguesa) e músico (cantava, tocava trompete e escreveu mesmo uma ópera) francês Boris Vian (1920-1959). O álbum chama-se “Luís Madureira Canta Boris Vian”, tem o selo Alma/Luminária Música, e nele o cantor é acompanhado ao piano por Jeff Cohen, um dos pianistas de uma encenação do Peter Brook, chamada “Impressions de Péleas”, levada á cena em Lisboa no Covento do Beato, ocasião em que Luís Madureira o conheceu.
“Temos um percurso mais ou menos parecido”, garante, “temos ambos formação clássica e interesse por um reportório não estritamente clássico”. A ideia surgiu, de acordo com as palavras do cantor, “como resultado de um recital, no Festival dos Capuchos, em 1993” e por “insistência do técnico José Fortes”. Posteriormente, “a gravação, feita no Convento dos Capuchos, em Novembro, foi mostrada a José Manuel Marreiros e a João Lucas, proprietários da Luminária, que gostaram imenso do material e decidiram lançar o disco”.
A relação de Luís Madureira com o autor francês, embora levada à prática por motivos circunstanciais, encontra razões mais profundas. “Já conhecia algumas canções dele, que interpretei em alguns recitais de canções de música ligeira francesa”, diz o cantor português. “Tinha feito duas dessas canções e, subitamente, o director do Festival dos Capuchos, o engenheiro José Adelino Tacanho, pôs a hipótese de organizar um recital só de canções do Boris Vian. A selecção foi feita a partir de algum material que já tínhamos e de outro que foi aparecendo por cedência da viúva do autor. Na altura, todas edições de partituras de Boris Vian estavam esgotadas. Juntamente com o pianista Jeff Cohen, fizemos uma busca e conseguimos obter cerca de 60 canções, das quais seleccionámos as dezasseis que se encontram no disco.”
Mas “há mais do que isto”. Para Luís Madureira, trata-se de “um material que, sob o ponto de vista da poesia, é óptimo, e sob o ponto de vista da actualidade, idem”: “É um autor que me interessa como autor. E como eu sou um cantor de canções, sejam elas de compositores clássicos ou não, um cantor de ‘lied’, os nossos dois mundos não estão muito afastados. São canções que se podem fazer com piano e que, de alguma forma, são comparáveis a outro género de reportório que tenho feito. Trabalhei-as exactamente da mesma forma que trabalho uma ária de ópera ou um ‘lied’, ou seja, a abordagem da poesia, em primeira instância, e abordar a correspondência, que nos bons compositores é imediata, entre a frase musical e a palavra. A partir deste somatório, uma pessoa é levada a fazer aquilo a que se chama interpretação, a dar o valor exigido pela palavra e pela música.”
Desde sempre sensível à teatralidade, não só da música como da poesia, Luís Madureira encontrou nas canções de Boris Vian um veículo ideal de expressão da sua faceta de actor: “Acho que qualquer cantor actual se preocupa com isso, no sentido de que a palavra é o motor da canção. Para que a palavra tenha sentido, as pessoas não se podem preocupar só com o som da voz, que pode se rmais bonita ou menos bonita, mais ou menos bem colocada. É preciso trabalhar arduamente a palavra, e aí estamos próximos da teatralidade da palavra, do que ela de facto significa. Essa faceta vem ao de cima pela minha prática teatral, do estudo do texto, não cantado, mas dito.”
Situado num território intermédio, entre a música erudita e a canção ligeira, Luís Madureira sente-se confortável nessa posição. “Sinto-me à vontade para abordar este reportório exactamente devido à formação que tive. Depois, acho que é interessante tentar fazer bem um reportório que as pessaos pensam que pode ser feito de qualquer maneira, coisa com a qual eu não concordo de todo.”
Fica o bom sabor das canções de Vian, cantadas por Luís Madureira, dentro do espírito da época do pós-guerra e da mordacidade que caracterizava o autor, que chamava Jean-Sol Partre a Jean-Paul Sartre: “Musique mécanique”, “À la pêche de coeurs”, “Cinématographe”, “La Java des bombes atomiques”, “Le déserteur”, “Moi, mon Paris”, “Bal de Vienne”, “Mozart avec nous”, “Je bois”, “La vie cést comme une dent”, “On n’ést pas là pour se faire engueuler”…

Milladoiro – “Iacobus Magnus (Suite Orquestral)”

pop rock >> quarta-feira >> 19.10.1994
world


Entre O Granito E As Estrelas

Milladoiro
Iacobus Magnus (Suite Orquestral)
Discmedi, distri. Megamúsica



Como escreve Xoan Manuel Estévez no título da sua nota sobre o grupo, os Milladoiro são “algo mais que um grupo folk”. Depois do anterior “Galicia no Tempo”, os Milladoiro tiraram mais um dos véus que ocultam a Galiza profunda, de Rosalia, Casto Sampedro, Conqueiro e Ricardo Portela. Neles, o termo “classicismo” adquire o mesmo significado que tem para os Chieftains, na Irlanda, ou para Alan Stivell, na Bretanha, nos anos 70. Existe uma identificação absoluta entre estes músicos e as terras onde nasceram. No caso dos Milladoiro pode falar-se numa verdadeira peregrinação ao santuário que une passado, presente e futuro. “Iacobus Magnus” – suite orquestral gravada nos míticos estúdios “Abbey Road” com a English Chamber Orchestra e, numa das faixas, a Orquestra Sinfónica de Galicia – como “O Berro Seco”, “Galicia de Maeloc” ou “Galicia no Tempo” é uma viagem pelo interior das lendas e mistérios celtas e em particular pelo interior do especial receptáculo de vibrações mágicas que tem a forma da Galiza. “Iacobus magnus” – inspirado num pentagrama mágico, labirinto de silêncio cujas linhas os Milladoiro preenchem com o sangue e as vozes da Galiza essencial, oculta – baliza um percurso que é exterior e interior, de granito, água, fogo e intuição. Um percurso ao qual os Milladoiro conseguiram arrancar o segredo dos sons. Entre um “Portico” orquestral e “No cabo da viaxe”, um caminho sinalizado pelos “Milladoiro”, montes de pedra dispostos de maneira a indicar a direcção certa a seguir, até à conclusão da “obra”. Um “longo camiño branco”, tema belo de estarrecer, onde a sanfona, primeiro, uma harpa, depois, e as “uillean pipes” levam por terra e pelo ar um desejo de eternidade, algo que nos chama e pelo qual muitos de nós suspiramos, aprisionados numa ilusão de cimento e noutra, mais difícil de romper, fabricada pelo cérebro. “Onde vai aquele romeiro?”, pergunta uma flauta embalada por um órgão com voz de realejo. “Per loca marítima”, respondem a harpa, as cordas, as percussões e um “tin Whistle”, num arranjo que lembra a fase boa de Mike Oldfield ou o “folk rock medieval” dos ingleses Gryphon. “No primeiro Milladoiro”, as “gaitas” rompem finalmente a cantar, secundadas pela delicadeza da harpa (Rodrigo Romani, o harpista do grupo, assume grande parte do protagonismo neste disco) sobre um fundo orquestral. Segue-se novo capítulo, “A noite estrelecida”, no qual a orquestra acende as estrelas que iluminam o céu e guiam os peregrinos, culminando em “No cabo da viaxe”, etapa derradeira, primeiro numa transformação subtil de uma dança irlandesa, com sabor aos Planxty, por último numa explosão de fulgor, na despedida das “gaitas”, símbolo vivo da terra galega, pátria de Maeloc. Pátria dos Milladoiro. Uma viagem sem fim. (8)

Vários (Miguel Graça Moura, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Xutos e Pontapés) – “’Diário De Notícias’ Festeja Aniversário Com Música – ‘A Que Vem A Seguir É Mais Fácil!'”

cultura >> segunda-feira >> 26.09.1994


“Diário De Notícias” Festeja Aniversário Com Música
“A Que Vem A Seguir É Mais Fácil!”



O jazz, o rock, os ritmos étnicos e a música sinfónica juntaram forças num espectáculo de “Música em festa” em jeito de reconciliação. Só foi pena as jactâncias do maestro. Na noite em que pela primeira vez os “Contentores” dos Xutos e Pontapés tiveram o brilho de uma orquestra.

“Esta música é preciso merecê-la”, lançou do alto da cátedra o maestro Miguel Graça Moura à populaça, antes de mergulhar no labirinto complexo da “música erudita”, acolitado pela orquestra metropolitana de Lisboa, convicto da menoridade mental dos cerca de sete, oito mil jovens que acorreram na noite de sábado ao relvado do Restelo para ouvir em primeiro lugar os Xutos e Pontapés.
Não poderiam ter começado de pior forma as comemorações musicais do 130º aniversário do “Diário de Notícias”, subordinados ao tema “Música em Festa”. O despropositado das palavras de Graça Moura, que ao longo da noite proferiria outras barbaridades como “tenham calma, a que vem a seguir é mais fácil”, “Sejam civilizados e não aplaudam entre os andamentos”, concluindo com um apelo dramático, “Vamos lá ver se vão curtir agora a 2ª parte de uma maneira mais civilizada”, são próprias de um provincianismo que se escuda no fraque e na batuta e uma traição ao próprio espírito do acontecimento. Não ficaria mal ao hoje maestro, que os mais velhos recordam do tempo dos Pop Five Music Incorporated e, mais tarde, dos Smoog (inesquecível aquela primeira parte do espectáculo de B. B. King no Coliseu dos Recreios em Lisboa, em que MGM se embeveceu a tirar sons do vento do seu “mini Moog” acabado de desembrulhar…) aproveitar o exemplo dado por Leonard Bernstein nos seus famosos concertos “promenade” que a televisão portuguesa transmitiu há alguns anos.
Miguel Graça Moura deve lembrar-se. Até porque foi precisamente Leonard Bernstein, com as suas danças sinfónicas de “West Side Story”, o primeiro compositor – “difícil” – a merecer honras de interpretação pelo mestre, perdão, maestro, portuense. Não menos “difíceis” – o público sentiu-se amiúde angustiado, incapaz de entender o que via e ouvia, confundido com tanta gente sobre o palco a tocar instrumentos desconhecidos – foram os “Dialogues for Jazz Quartet and Orchestra”, de Howard Brubeck. Mário Laginha, solista convidado, fez os possíveis para não se destacar em demasia do colectivo orquestral e parece ter-se divertido.
A excitação e os primeiros sons verdadeiramente interessantes ocorreram durante a execução de uma obra para percussionistas e orquestra, da autoria de Pedro Osório. O batuque, por um grupo de percussões angolano, e uma concepção cíclica, intuitiva da música, de um lado, aposta à discursividade histórica e ao rigor matemático, do outro, travaram lutas, estabeleceram pontes de diálogo, entraram pelos túneis do tempo. Conseguiram o mais difícil: uma síntese e morfologia coerentes rigorosas e ao mesmo tempo deixando transparecer um gozo imenso.
“E pronto””, suspirou MGM por fim, “aí vem quem muitos de vocês estavam à espera”. Eram os Xutos, na sua primeira experiência sinfónica, repetindo o “In Concert” dos Deep Purple, à entrada dos anos 70, com a Royal Philharmonic Orchestra. Não deixa de ser curioso e matéria de reflexão o facto de serem eles, arautos da revolta juvenil e suburbana do país, a darem esta reviravolta de 180 graus, inflectindo numa vertente que à partida parecia estar distante dos seus horizontes. Mais curioso ainda é que a coisa resultou. “Contentores”, “Jogo do empurra”, “Pequenina” (com um solo “Gilmouriano” de João Cabeleira e toda a prestação dos Xutos a fazer lembrar os Pink Floyd…) e “Remar remar” trouxeram de volta os anos 70 e a ideia, para muitos perigosa, de que o rock liga bem com o sinfonismo. O último tema dos Xutos, “Poço da salvação” foi de apoteose. Miguel Graça Moura, que nesta altura atirara já para as urtigas a pose e a compostura, bamboleou-se de sorriso nos lábios, ao ritmo da música, a batuta fremente de emoção, incapaz de conter a desbunda geral de todos os participantes, entretanto reunidos em palco.
Como se vem tornando hábito nestas ocasiões, a noite fechou com uma sessão de fogo de artifício que alguém, ao acender inadvertidamente uma torre de iluminação, quase ia estragando. Mais. O programa anunciava quinze minutos de fogo quando na realidade durou apenas quatorze! Tem a palavra a Defesa dos Consumidores (DECO). Ao “Diário de Notícias”, os nossos parabéns!